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Building Fences [+18]

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por CatariinaG' em Seg Out 22, 2012 8:58 pm

Capítulo VIII:

Journey or Foreigner…
Uma música qualquer trauteada mesmo ao lado do quarto onde eu tinha adormecido. A voz era tão doce, que me deixei estar com os olhos fechados enquanto o ouvia cantar. Sabia tão bem, estar deitada com o sol a brilhar-me na cara, a receber o calor do aquecimento ligado, dentro de uma cama quente, e fofinha.
Ouvi um martelo bater contra a parede e um barulho sem ser a voz dele, qualquer coisa vinda do lavatório da casa de banho do quarto. Olhei para as prateleiras coladas na parede de cima e vi o peluche de anteriormente a olhar para mim, Dana devia ter-se esquecido dele ali quando adormecera comigo no dia em que tinha ficado a fazer baby-sitting aos dois filhos da Gillian.
Olhei para o lado direito e vi as horas no meu telemóvel.
— Foda-se! — queixei-me.
Os miúdos já estavam a sair da escola e eu tinha de ir buscá-los.
— Merda, merda, merda!
Tinha de ir buscar os filhos de Jane à escola, escola esta que ficava a cerca de dois quilómetros da casa de Gillian. Levantei-me da cama, esquecendo-me por completo que estava tal como tinha vido ao mundo, apenas com mais 1 metro e qualquer coisa, e uns quilos a mais, uns 40 quilos a mais. Olhei ao redor, tentando perceber onde é que estava o puzzle em que a minha roupa se tinha tornado durante o furacão MarJe.
Cocei a cabeça completamente desesperada, onde é que raio estavam as minhas cuecas?
— Foda-se! Foda-se! Foda…
A porta da casa de banho abriu-se.
— There! — riu-se apontando para o fundo da cama.
— How the hell… Fuck! Forget it… — comentei apanhando as cuecas do chão e vestindo-as o mais rápido que conseguia. — You said you would make me stay awake…
— Sorry… — comentou olhando-me de cima a baixo, enquanto trincava o lábio — Gillian was here, by the way.
— What? — indaguei.
— Yes… I told her that you left to pick up the kids…
— Ahm?! When was that?
— Half-an-hour ago… That’s why I didn’t wake you up earlier… She almost entered the room.
— Fuck… What did you say?
— That we fucked all afternoon… — comentou com ironia.
— Damn it! I’m so late!
— I’ll take you there…
— No — desviei-me do beijo que ia surgindo. — No. My mess, I got it! — falei enquanto puxava as calças para cima e as apertava junto da barriga.
— You know… your panties are the other way around…
— Well, if you saw me doing that, why didn’t you interfere?
— ‘Cause you look hot both ways?!
— Wrong answer! — comentei rindo-me.
Abri a porta do quarto e corri as escadas.
— Wrong answer! — repeti.
— I’ll help you taking them off tonight!
Ainda o consegui ouvir quando calcei as sabrinas, e saí porta fora.
Dei uma gargalhada ao ouvir o que ele tinha acabado de dizer, e arrepiei-me ao lembrar-me de ter fugido daquele beijo doce. Estranhamente sentia-me começar a ficar viciada nos beijos dele, e nas piadas, e no toque. E já conhecia o vício há demasiado tempo para pensar que aquilo era mais sério do que verdadeiramente era.
Sacudi a cabeça e comecei a correr, era uma boa ideia começar a correr, ia chegar uns bons 20 minutos atrasada, talvez a tempo de fazer Gillian pensar que tinha chegado mais cedo que ela, e que os tinha ido buscar um pouco mais cedo, uma coisa não muito bem pensada, visto que os filhos dela andavam na mesma classe que os filhos de Jane. Sempre podia dizer que me tinha perdido no caminho… sim! Boa ideia! Se me perguntasse alguma coisa, diria que me tinha perdido a caminho da escola.
Mal sabia ela que eu andava metida com o namorado dela…
Confissão ou não estava a ficar ainda com mais ciúmes dela… O que não era bom, nem para mim, nem para Jeremy. Se me pusesse com coisas, ficava sem aquelas tardes mais rápido do que pensava. Era um caso de dias, não ia durar mais que aquilo, dias, mais alguns dias, e de certo tudo acabava… por isso, mais valia aproveitar a onda, não é todos os dias que podemos aliviar o stress com um gajo de olhos verdes, com músculos, e com um rabo de fazer chorar de emoção… além do mais, sem falar dos braços dele, que só daí podemos escrever uma página cheia de características, cheia de prós e nenhum contra, nenhum contra mesmo.
Por entre uma corrida louca, acabei por chegar à escola com a febre a bater-me nos olhos. Deus quisesse que ficasse melhor dali para diante, não ia aguentar muito tempo a fazer aquela vida, se estivesse tão doente como estava.
Entrei no recinto enorme e procurei por William e por James, não os encontrava no campo, o que era estranho, porque era ali que eles deviam ficar quando as pessoas que os vão buscar se esquecem deles. Correcção: quando as pessoas que estão encarregues deles chegam atrasadas porque estiveram a comer o namorado da mãe dos amigos deles…
— William is in the Assemble room with James.
— Thanks! — comentei.
Não sei de onde é que aquele miúdo que me deu a informação surgiu, mas dei graças a deus de haver uma criança que percebera que estava à procura dos colegas dele. Desci as escadas anteriormente subidas e andei o corredor de paredes vermelhas e brancas, e vi a porta que me levava à Assemble room.
Exasperei de descanso quando vi William e James sentados no chão a falarem com uns colegas quaisquer. Durante escassos segundos indaguei-me sobre qual seria a explicação/justificação para os pais, au pair, nanny deles ainda não os terem ido buscar.
— Let’s go! — comentei ao ver James olhar para mim.
A sério que o miúdo estava apaixonado por mim, sempre que me via levantava-se com um sorriso de orelha a orelha. William imitou o irmão, agarrou na mala e os dois saíram da sala bem mais rápido que o normal.
— Are you ok? — indaguei.
— Why did you took so long? — James perguntou fugindo à minha pergunta.
— Got lost! — menti.
— Really?
— Yes…
Franzi as sobrancelhas e pusemo-nos a andar para fora da escola que já se encontrava quase vazia. Senti o meu telemóvel vibrar no bolso das calças pretas. Dei a mão aos miúdos e aguentei até casa, para depois ler a mensagem e responder.
O dia estava atarefado, mas para grande sorte, Sábado era dia de descanso, e ia usar a minha declaração de doença para ficar por Wimbledon, e não ir ter com as minhas sobrinhas a Enfield, também precisava de descanso delas… vistas as coisas, elas precisavam de descanso de mim.
Cheguei a casa com os bichos-carpinteiros a chatearem-me o rabo novamente, estava curiosa, queria saber quem é que me tinha enviado mensagem, e ainda nem sequer tinha tempo para respirar e pensar na tarde fascinante que tinha tido, novamente… e parecia que não, havia muita coisa para me lembrar, e não ao pé de crianças.
O meu telemóvel ainda estava no bolso quando deu um trambolhão no chão, não fosse William ter-se agarrado à minha perna, e tê-lo tirado do meu bolso.
— William!
— You have a new message.
— Don’t you dare! William!
— It’s from… Oh, it has a code… — e atirou o telemóvel de novo ao chão, irritado.
— William, you are so grounded! — falei.
Não estava calma, estava com a fúria no olhar, mas se fosse apanhada a berrar com os miúdos era possível ficar mais rápido sem ele, do que o tempo que demorei a encontra-lo.
— You’re grounded and I’m going to tell your mom.
— Oh, but I…
— Today you won’t watch TV, and that’s not all.
— But I…
— Go wash your hands! Both of you!
Apanhei o telemóvel do chão.
De certa maneira, as máquinas, ou seja, os computadores, devem persentir o nervoso dos seres humanos, isto porque sempre que estou ansiosa por ver ou ler qualquer coisa no meu telemóvel, ou no meu computador, acontece sempre qualquer coisa que o deixa completamente bloqueado, e a funcionar mais lentamente que uma barata tonta no jardim zoológico. Toquei nas teclas invisíveis do meu Galaxy W, mas não me respondeu de volta. Fosse de quem fosse a mensagem, o meu coração estava a bater que nem louco, e eu não conseguia ter controlo sobre ele, queria ver a mensagem, queria saber quem é que se tinha lembrado de mim. Dito isto, posso confessar que estava à espera de que a mensagem fosse de Jeremy.
O telemóvel lá respondeu às minhas ordens e levou-me à mensagem. Li-a mais rápido que o normal, 5 segundos foram quanto bastaram para ler a mensagem a primeira vez, não obstando que li a mensagem mais umas quantas vezes, só para ter a certeza de que o que estava lá escrito, estava mesmo lá escrito.
E sabia tão bem ler aquilo:
«Probably you won’t comeback after picking up the kids… So, can we meet tomorrow in the Village? 7pm. Sorry for not talking to you last week, but there was something I needed to clear out of my head… and sorry for not talking about this without having to write it on a SMS, but you looked so angel-like while you were sleeping, I didn’t want to wake you up. Btw, you’re hot! XXX Jeremy.»

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por PandoraTheVampire em Seg Out 22, 2012 9:45 pm

Oh este ainda n me tinhas mostrado! Tudo novidades fresquinhas! :p Foi um bocado chato ela ter deixado os miúdos à seca, pobrezinhos, mas pronto, lá se desenrascaram já que não eram os únicos. Ui! O que é que o encontro entre os dois vai trazer? Mais bem-bom? xD

Quero mais!!!

Bem-bom e não só, claro! xD

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por miaDamphyr em Qui Out 25, 2012 3:48 pm

Ohh eu não acredito Cata. Quando penso que as coisas irão abrandar, elas só aquecem. Adoro o Jeremy, i really do. Um homem assim OMG, e não imagino para onde vais levar tudo isto. Hmm, muitíssimo curiosa. E olha que adorei o remédio para a gripe que lhe deram, e bem dado. Muahahahahah.
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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por Fox* em Qui Out 25, 2012 9:16 pm

Hahahaha, esta miúda não existe! Esquece-se dos filhos, deixa cair o telemóvel, anda a arrastar-se doente pelos cantos, mas parar? Never!
Oh, não foi apanhada! Confesso que estava mesmo curiosa para ver o que sairia dali! Mas foi mau na mesma tê-los deixado à espera!
E ele vai contar-lhe qualquer coisa! Oh, que quero saber :D

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por CatariinaG' em Qui Out 25, 2012 10:11 pm

Capítulo IX:

A banheira branca da minha casa de banho estava cheia de água, apenas a evitar que transbordasse para fora, a espuma fazia bolinhas, milhões delas por entre o líquido transparente que corria quente da torneira prateada. A casa de banho estava quente, assim como o meu corpo que tinha acabado de sair da cama.
Tinha decidido ficar por ali durante aquele fim-de-semana, mais por ir sair com Jeremy, do que propriamente para ficar em casa fechada. Pensar na saída com o homem de olhos verdes que de quando em vez se transformavam num azul acinzentando, fazia-me cócegas no corpo. Pensar nele fazia-me ficar arrepiada. Imaginar-me novamente com ele, pensar que o beijava sempre que o via, pensar que podia ouvir as gargalhadas patéticas e as piadas sem piada, pensar que, por ligeiríssimos momentos, ele era meu e eu era dele, fazia-me cócegas no estômago e bem mais abaixo do estômago.
Depois de deixar que a casa esvaziasse, logo assim que Jane e tomas saíram com os miúdos para irem à cidade visitar um qualquer parque, o St. James Park para ser mais precisa, um dos meus favoritos de Londres, acabar por adormecer enquanto esperava que a minha sobrinha mais velha se dignasse a contar-me como é que o irmão do namorado dela tinha descoberto o meu número de telemóvel. Tinha também enviado mensagem à minha irmã a avisar que não ia lá passar o fim-de-semana, mas ao que pareceu nenhuma das minhas mensagens merecia resposta, e acabei por adormecer e dormir durante a manhã toda, não fosse o bom desprezo dado pela minha própria família.
O meu banho já estava pronto.
Senti a água quente tentar-me entrar nos poros fechados da pele morena, quando meti os meus pés, um por um, na água quente. Deitei-me na água quase a escaldar, ciente de que aquilo não era algo que devesse fazer quando alguém estivesse por ali, em casa. Mas sabia bem demais, sabia tão bem sentir o quente escaldar-me cada milímetro da minha pele, que bastou trancar a porta para esquecer que só podia tomar banho de imersão de vez em quando.
Estiquei as pernas até tocarem no fundo da banheira de porcelana, e deixei a minha cabeça mergulhar, ao mesmo tempo que deixava de respirar durante breves segundos, fechando os olhos para não sentir a espuma neles, enquanto pensava no irlandês/alemão com quem me ia encontrar dali a poucas horas.
Recordei cada toque das mãos dele, dos dedos dele a passarem-me no cabelo, os beijos, os lábios dele nos meus, se aquilo não era paixão, era algo que se assemelhava. Olhei para a parede de moisaico e imaginei-me com ele ali…
Lancei uma gargalhada ao ar, como se fosse completamente impossível tudo aquilo que eu estava a sentir. Não era lógico, nada, completamente nada era lógico. Estávamos a viver um romance erótico, nada mais que isso, não me podia incluir na vida dele, nem ele de certeza queria que eu o fizesse. Éramos muito diferentes um do outro, mal nos conhecíamos na verdade, apenas sabíamos os espaços que nos dividiam e nos juntavam o corpo um do outro, nada mais. E aquele pensamento de mágoa voltou… de saber que mais uma vez não estava pronta para ser amada, muito menos estava pronta para amar…
— Idiota! — resmunguei. — Esquece isso!
Abanei a cabeça em sinal de negação e mergulhei novamente na água cheia de espuma, com os olhos bem fechados, enquanto a imagem de Jeremy se fazia mostrar num escuro claro. Parecia que a imagem não me largava…
— Isto é tão tu… Ele tem a outra, claro que te vai preterir a ela…
A consciência é lixada!
A imagem dele não saia da minha cabeça, e eu começava a ficar cada vez mais agarrada ao facto de pensar que estava a ficar apaixonada por um romance que mais tarde ou mais cedo ia acabar. Passei champô no cabelo e passei água limpa, aquele banho estava a ser tudo menos relaxante. Como se alguma vez fosse possível ele preferir estar comigo, e se fosse, porque havia de ser comigo? Havia mais mulheres no mundo… bonitas mulheres no mundo, sobretudo em Los Angeles, não?
Virei as costas à minha consciência, ignorando-a por completo e fui-me vestir antes que desistisse do encontro daquela noite.
As cócegas na minha barriga não paravam, sentia-me completamente hilariante por dentro, não parava de sorrir, e cada vez que passava perto do espelho olhava para lá, imaginando o que é que ele via quando olhava para mim. Provavelmente não veria mais que um eu estranho, aborrecido e completamente sozinho que só pensava em satisfazer-lhe a necessidade primária, e talvez tudo aquilo fosse só e apenas um encontro, provavelmente levar-me-ia para casa, fornicava-me por lá, dizia umas quantas coisas românticas de deixar água na boca, fazia-me gritar, deixar-me-ia sem ar, e depois acabaria comigo dizendo que não tinha tempo para estar comigo, e pronto, quem ficaria de coração partido era eu que já estava a ficar com os neurónios bem derretidos, devia ter sido a água a escaldar do banho.
Saí do banho pronta para passar creme e esticar as pernas e ficar deitada na cama, nua, tal como eu adorava ficar depois de tomar banho, relaxar nua, sem nenhuma peça de roupa entre eu e os lençóis da cama. Enrolei-me na toalha cinzenta da NEXT e sequei o cabelo com o secador preto que estava na prateleira de cima do armário de casa de banho espelhado. E lá ia eu olhando-me ao espelho, como se fosse uma das sete maravilhas do mundo, como se não houvesse mais mulher no mundo para onde olhar, como se eu fosse um monumento digno de ser embalsamado e adorado para o resto da vida.
Para minha grande admiração, o cabelo ficou com mais volume que o normal, o que para mim é um espectáculo de se ver, visto que normalmente fica tão fino que parece que alguém passou o ferro de engomar por cima.
Passei maquilhagem na cara quando me olhei novamente ao espelho. Muita maquilhagem e o homem não me reconheceria; maquilhagem a menos e possivelmente diria que não tenho qualquer tipo de sentido de moda. E se estivesse com as minhas sobrinhas, possivelmente chafurdar-me-iam a consciência até eu cancelar o encontro com ele, não fossem elas acabar por dizer que a forma como me maquilho as faz querer afogarem-se. Se bem me lembro, a minha sobrinha Andreia diz que a minha maquilhagem dá-lhe vontade de querer beijar pés, sendo que ela odeia pés… por acaso, insinuar que a minha maquilhagem é pior que beijar um pé é desgraçadamente nojento e furiosamente insultuoso…
Ignorei o ataque de sedução que a minha consciência me acabara de provocar, e continuei a passar lápis preto nos olhos e mascara preta nas pestanas… Enrolei o cabelo, depois de passar a última parte da maquilhagem, e olhei-me mais umas vinte vezes ao espelho, estava a ficar demasiado nervosa para continuar a pensar no que eu me tornava quando estava com Jeremy.
Era tão estranho e ao mesmo tempo sabia tudo aquilo como se eu fosse um próprio mapa, as cócegas e o nervoso, tudo aquilo era demasiado conhecido, e eu odiava sentir que sabia tudo aquilo, que já tinha vivido todo aquele tipo de sentimentos…
E mais uma vez sentia-me cair na espiral.
Porque é que raio o cérebro feminino não desliga a ligação entre a líbido e o coração? É que já começava a ter a certeza de que não era só a boca dele e o rabo e o sexo dele que me faziam tremer… tudo o resto me fazia tremer, e começava a ter cada vez mais vontade de o ouvir dizer algo que me fizesse acreditar que era com ele que eu podia tentar a minha oportunidade de vir a ser feliz numa relação…
Fui até ao quarto e deitei-me na cama, ao mesmo tempo que esperava que o tecto branco se transformasse numa tela gigante a projectar um filme interessante que tivesse um Colin Farrell ou um Leonardo DiCaprio qualquer por ali.
Estava completamente sozinha em casa, o que me fez pensar em telefonar-lhe, pedir para ele me vir fazer companhia, mas sem dúvida que se o fizesse, o rapaz diria que eu estava a ficar obcecada e volta não volta, ainda se afastaria…
Mas sim, estava!
Pior que obcecada…
Não me aguentei muito tempo em cima da cama, embora me estivesse a saber bem ter as pernas esticadas e o corpo completamente livre… Tinha de me despachar, nem que fosse ver televisão, caso ficasse com tempo suficiente para o fazer antes de nos encontrarmos.
Vesti um vestido preto, curto, com realces dourados na parte da frente, e com um decote nas costas, nada muito insinuante, nada que fosse até ao rabo. O vestido ficava-me justo, o que acentuava as curvas que eu praticamente não tinha, calcei os saltos de plataforma pretos, que na verdade não eram meus, eram de uma das minhas sobrinhas mais novas, mais concretamente da Mafalda.
Saí directa em direcção ao espelho do corredor para ver na figura em que me tinha transformado.
— Sexy! — comentei sorrindo.
Voltei ao quarto, peguei no telemóvel, meti uma nota de 20 no sutiã, não ia levar mais dinheiro que aquilo, o convite era dele, ele é que tinha de pagar… Desci as escadas com o coração nas mãos e a andar com muito cuidado, não fosse tropeçar no ar e cair com a cara na alcatifa do corredor.
Tinha combinado encontrar-me com ele junto do Costa, bem no centro da Village, mas de certa maneira, tinha o pressentimento que a qualquer minuto, sabendo que Jane não estava em casa, ele ia aparecer por lá.
E bem dito e bem feito, mal tinha acabado de descer as escadas, ouvi a campainha tocar. O meu coração deu a impressão de ter caído directo no chão. As minhas pernas tremeram ainda mais, os meus saltos quase me atropelaram as pernas, e eu senti-me hipnotizada com a imagem no ecrã pregado à parede da cozinha, que projectava a imagem da face dele lá fora. Apeteceu-me saltar de alegria, abrir a porta e dar-lhe um beijo enorme nos lábios, e dizer-lhe as mais idiotas frases de amor, mas lá me consegui segurar sem fazer nenhum disparate, o que para mim já se tornava numa astuta decisão de adulta!
Fui até à porta, tentando mover as pernas que pareciam não se querer mover, não fossem tremer mais que um terramoto, e não fossem os saltos altos que me faziam sentir numa montanha russa pronta a dar a sua grande volta de 180 graus, mais um passo e em vez de me ir encontrar com Jeremy, encontrar-me-ia com o chão de madeira do piso de baixo da casa onde vivia.
Tentei deixar um suspiro antes de chegar à porta, evitando que ele o ouvisse, mas o raio da respiração saiu-me tão alto, que acreditei solenemente que o rapaz que tinha acabado de tocar à campainha me tinha ouvido.
Abri a porta e vi-o. O seu cabelo loiro escuro os seus olhos verdes insinuantes…
Ele!
— Damn you! — falou num suspiro.
— Damn you! — ri-me pegando nas chaves.
— You look so… Are you sure you’re 21? — indagou.
— Yes! — ri-me. — Why?
— ‘Cause tonight, sweety pie… I’m gonna fuck you like hell!
— Good!
Ri-me dando-lhe um beijo enorme nos lábios, enrolando a minha língua na dele, numa dança intemporal e apaixonada.
Tentei afastar-me para fechar a porta, mas a mão dele puxou a minha com força, evitando qualquer tipo de movimento. Um sabor um tanto ou quanto agridoce. Aquele beijo misturado com aquilo que ele tinha acabado de dizer, se ele me queria foder, via-me como uma amante e não como uma namorada, estava com vontade de me comer, não mais que isso…
Finalmente desviou-se e deixou-me livre para trancar a porta atrás de mim. Só depois de fechar a porta, lembrei-me que me tinha esquecido completamente de trazer um casaco, mas com Jeremy, quem é que morria de frio?
Desejei voltar para casa e enfiar-me dentro dos lençóis com ele, e sentir as mãos dele percorrerem-me o corpo. Excitantemente já não sabia se sentia paixão, ou se começava a sentir amor.
— Where are you taking me? — inquiri.
— Heron Tower…
— Cool! — comentei… — Wait… That’s far away from here to go on the tube…
E ele riu-se como se eu tivesse acabado de contar a melhor piada que ele alguma vez ouvira. E como numa cena de um filme, apontou para um carro que estava estacionado do outro lado da rua.
Olhei para o carro com a expressão mais estupefacta possível.
— Hmm…. That’s your… that’s… You drive a… Dud, are you sure you’re not a drug dealer? — indaguei.
— No… I’m not — riu-se. — But if I ended up being one, I would have to kill you, and that would be such a shame.
— A shame?
— Yes! A shame. And that’s only rented for the month, by the way. I own one in Los Angeles, though. And why do you say I’m a drug dealer?! — indagou.
— Don’t know… — respondi.
— I’m not a drug dealer… — repetiu, agarrando-me e encostando-me ao carro prateado.
Senti a respiração dele junto do meu pescoço.
— Well, you could be — mordi o lábio ao sentir as mãos dele no meu rabo e o beijo dele no meu pescoço. — It’s kinda hot…
— Only if you got to be the really hot undercover agent.…
— Well, I’m not an agent…
— True… But you’re hot…
— Is that so?
Acenou como resposta, deixando-me completamente louca, deixando o meu cérebro vazar todo o tipo de informação proveniente da minha libido. Estava a ficar completamente louca, os olhos verdes/azuis dele a olharem para mim faziam-me ficar com as pernas trementes e deixava-me completamente desinibida, como se tivesse bebido 3 cervejas e um copo cheio de vodka.
— Do we really need to go to the Heron Tower, we can do it right in here — comentei baixo junto do ouvido dele…
— No…
Afastou-se, passou a mão no meu cabelo, deu-me um beijo, e manteve-me com os olhos abertos. Parecia que eu tinha largado um qualquer tipo de bomba que nunca ninguém tinha pensado que existia.
— No, not quite yet. This is a date, Mariana. We’re going to have a nice dinner, a nice conversation, drink nice wine…
— I don’t like wine…
— Ok, a nice soda for you and some really nice wine for me… — continuou. — And then, we can go to the cinema…
— Hmm, you have it all planned, ahm…
— In fact I do… — deu-me um beijo, mais um na bochecha e afastou-se para me abrir a porta. — You look gorgeous, by the way — comentou enquanto fechava a porta atrás de mim, depois de entrar no carro.
‘You look gourgeus…’ aquela frase repetiu-se mais que muitas vezes na minha cabeça, como se não fosse possível lembrar-me de outra coisa qualquer que ele alguma vez me tinha dito. Não sei se foi o facto de ter falado como uma prostituta, ou se tivera sido o facto de ter sido literalmente recusada, dispensada e completamente desprezada, mas fiquei com vontade de abrir a porta, enfiar-me dentro do quarto e chorar baba e ranho, tal e qual como uma criança que não recebe a Barbie Malibu no Natal. Possivelmente foi o facto de me ter oferecido literalmente, e de ele ter dito que, substancialmente, não estava interessado em… não ali!
Encostei a cabeça no encosto do banco e olhei para a frente, esquecendo-me completamente que a atitude dele ao pé do carro tinha sido completamente diferente da que ele tinha tido quando eu lhe tinha aberto a porta de casa.
O carro cheirava a novo e estava impecavelmente limpo por dentro e por fora, e era brilhantemente bonito, mas a minha cabeça em vez de se atirar ao pensamento de ter o meu rabo sentando no banco do meu carro favorito, estava mais interessada em indagar por que raio é que ele tinha dito que não, quando há cerca de 10 minutos atrás ele tinha dito que sim…
Senti a minha cabeça andar às voltas, e quando ouvi a porta do lado dele se fechar, depois de entrar dentro do carro luxuoso, dei um salto, como se algum estranho se tivesse sentado a meu lado.
Durante cerca de 10 minutos a conversa estagnou dentro do carro, não se ouvia nada, apenas respiração, a minha e a dele, e a chuva lá fora que se mostrava a cair no pára-brisas do Cabriolet prateado. Nem as travagens que se tinha de fazer, para passar nas passadeiras tornadas lombas e nos sinais constantes do meio da grande cidade londrina, me faziam acordar da recordação da imagem ridícula com que tinha ficado quando tinha deixado escapar a vontade que tinha de o ter dentro de mim.
Senti quente na minha perna, qualquer coisa que a agarrara, e olhei para baixo para ver a mão dele a tocar-me gentilmente no joelho.
— Are you ok? — indagou sorridente.
— Yes, sure… I’m… Jeremy, I didn’t really want to sound like a hoe… I just…
— You didn’t… — falou apertando-me o joelho. — You’re everything but a hoe. I don’t think that way about you… Never did! I just think we both deserve a good time out of bed, out of the house…
— Like a date?
— Yes — sorriu puxando-me para ele. — Like a date — confessou empurrando-me para me dar um beijo na testa. — Let’s hurry up, don’t really want to get you late for tomorrow.
— Jere, tomorrow is Sunday…
— Guess we can eat deserve in my room, all long… — falou e riu-se.
— I like that thought…
E desmanchei-me a rir, consequentemente ele olhou para mim com cara de idiota, indagando-se porque é que eu estava a rir tanto.
— We’re so crazy… — continuei a rir, enquanto tapava a minha boca com as mãos. — We…
— Your smile is beautiful, your cheeks… stop hiding it!
— I…
Ia falar, estava pronta para o contrariar, nunca soube receber elogios, mas fui interrompida, mesmo antes de contrariá-lo, e de lhe dizer qualquer coisa que me defendesse daquele enorme elogio. Alguém abrira a porta do meu lado.
Um rapaz presenteou-se, dando-me a mão e ajudando-me a sair do carro, devia trabalhar ali… era o arrumador de carros, se assim se podia chamar. Tinha um fato, horrível, pode-se dizer, branco e uma gravata preta, parecia um Backstreet Boy saído de um videoclip qualquer, mais precisamente, do As Long As You Love Me, embora eles não estivessem de fato branco nesse videoclip…
Mas eram foleiros… e eu gostava deles… na altura… e agora!
— Goodnight, Mr. Renner… — falou aceitando as chaves.
— Goodnight! — sorriu. — Too busy around here?
— Yes, sir.
— Is that so… have a good night, then… Can you just park right on the front of the doorway of -2 floor?
O rapaz, que não devia ter mais que 25 anos, acenou com as chaves na mão e entrou dentro do carro, do lindo e luxuoso carro. Jeremy deu a volta e veio ter comigo, pegou-me no braço, deu-me um forte beijo nos lábios e afastou o cabelo dos meus olhos. Mais uma vez a minha franja tapava-me os olhos castanhos, e o resto tapava-me as bochechas que iam ficando cada vez mais vermelhas.
— You look really beautiful.
— You said that already.
— Not enough since you still hide your face with your hands when you laugh.
— I-I…
— Mr. Renner, how are you, sir?
Olhei à minha volta, o edifício era enorme, todo vestido de preto, e apenas uma faixa rosa se fazia mostrar ao longo de uma pequena parte vertical. Estava escuro no cenário ao redor, era brilhante como aquela obra de arquitectura se encaixava na perfeição no meio da enorme cidade de Londres. A meu lado estava Jeremy, que estava vestido com umas calças de ganga pretas e com um casaco de pele castanho-escuro, lá estilo tinha ele.
Toda a gente à entrada daquele edifício parecia conhecê-lo, possivelmente não era a primeira vez que ele ali ia, possivelmente não era a primeira que levava alguém com ele e, possivelmente, já deveria ter cartão de cliente do restaurante da torre.
Como se me quisesse desviar a atenção do meu atento olhar a redor daquela linda e enorme torre, como se uma implosão se tivesse feito, ouvi o nome dele por entre a boca de alguém, alguém que não entendi bem de quem pertencia a voz. E mais um empregado, o porteiro, olhou, de cima a baixo quando os dois entrámos directos e a caminho do elevador.
Senti a mão de Jeremy apertar a minha quando entrámos no elevador.
— Have you ever been here?
— No…
— Hope you like it…
— Are we going to McDonalds?!
— No… — olhou-me chocado.
— Then, I’m pretty sure I’m gonna love it! — sorri-lhe beijando os lábios.
— Mary… — sussurrou por entre o beijo.
— What?
— If you keep on kissing me, instead of meeting you, I’ll have an encounter with your body… And even though it’s a dam beautiful body — continuou a beijar-me, — I really want to have a chat, to know your whereabouts, interests… your favorite chocolate bar, your favorite color, your favorite position…
— Position?! I think you already know my favorite one…
«Piso 40º», a senhora do elevador falou. Não havia senhora nenhuma, como é lógico, o que havia era uma voz irritante de uma senhora qualquer, que possivelmente não era de todo irritante, que estava a anunciar que estávamos prestes a acabar o momento socialmente considerado privado, e que tínhamos de nos portar bem, decentemente e como adultos que éramos.
Saímos do elevador, ele puxando-me a mão, deixando-me sair primeiro.
Mas que sala enorme, mas que coisa enorme…
E que vista!
— Hello, Mr. Renner! — uma rapariga com cerca de 27 anos falou.
A rapariga era loira, tinha os olhos azuis, e parecia a reencarnação de uma Marylin Monroe, vinda do além. A moça era estupidamente bonita. Não era de admirar que Jeremy parasse um momento para a contemplar, não fosse o corpo dela fazer toda a gente olhar, até eu olhava…
— I’ll take you right to your table — falou fazendo sinal.
Ao mesmo tempo que fazia o sinal, fez um olhar estranho, enquanto olhava para mim com aquele olhar azul e meio adormecido, que parecia contemplar o corpo de Jeremy, ao mesmo tempo que me inquiria mentalmente quem era eu. Não resisti em deixar-lhe um recado com o meu olhar, e não só com o meu olhar, mas também com a minha voz irritada e irritante e portuguesa, num vocabulário bem à portuguesa:
— Esse aí à frente é meu! Se não queres levar com um tabuleiro em cima vira as costas, mostra-nos a mesa e baza daqui.
E, como se os minutos não tivessem passado, a loira, mesmo não parando, continuando a andar, virou-se, olhou para mim, enviou-me um olhar furioso e falou:
— Lá por estares com ele em Inglaterra não significa que não haja mais imigrantes portugueses à tua volta. Ao contrário de ti, eu trabalho para me sustentar, não ando atrás de rabos de homens que podiam ser teus pais, e que têm o dobro da tua idade!
Fiquei em estado de choque, como se aquilo fosse a primeira vez que tinha encontrado uma portuguesa no centro de Londres. Como é que era possível o mundo ser tão necessitadamente pequeno?
Porque é que…
Ainda fiquei com vontade de lhe responder que não andava atrás de ninguém, que não andava com ele por causa do dinheiro, até há bem pouco tempo não fazia a mais pequena ideia de que ele era rico.
Rudemente, sempre tive a maneira de mandar bocas a toda a gente, e mesmo sendo Au Pair, e estando a trabalhar com crianças, e estando a viver sozinha num país que não o meu, não me tinha mudado, ainda tinha ficado pior, tinha-me forçado a ficar assim, a ser rude com quem quer que se parecesse rude comigo, mesmo que nunca tivessem soltado nada mais que um simples olhar moribundo que parecia querer-me matar.
Finalmente parou à frente de uma mesa meio escondida.
Jeremy acenou, assim como ela, que mais uma vez olhou para mim como se tivesse um laser mortífero nos olhos.
— Bring me… — olhou para mim.
— A coke…
— A coke and a Chardonnay, please.
A empregada voltou costas e esqueceu-se da nossa idiota fase de discussão.
— What was that all about?
— What? — indaguei como se não soubesse do que ele estava a falar.
— That. You were talking Portuguese with her…
— You know Portuguese?
— Well, I listen to you when you talk to your sister on the phone, and I have some Portuguese friends in LA, and I come here a lot, I know she’s from Lisbon…
— Ooh! — quase cocei a cabeça.
— Though, I have no idea what you were saying…
— Ehh… do you want the true version of events or the made-up one?
— What’s the most dramatic?
— The true one…
— Ok… We can skip that part, then… — riu-se.
A empregada voltou com um lenço no braço e com uma lata de coca-cola e a garrafa de vinho num tabuleiro amarelo, pensei que aquilo que ela trazia na mão era ouro a decorar o tabuleiro por cima. Com cuidado, e continuando a olhar para mim e para Jeremy, serviu o vinho, e só posteriormente é que me serviu a coca-cola, e finalmente, como se não fosse sem tempo, desapareceu da mesa, para dar lugar a um outro qualquer colega.
— Do you happen to know her? — indagou.
— Nemm… not really. I…
— Hmm, ok—fine! Let’s just have a great night.
— Yes, please — disse.
Entre palavras, conversas, uma e outra mão que tocavam insistentemente uma na outra, e a minha vontade de lhe dar um beijo enorme, e a vontade dele me abraçar visível nos seus olhos verdes, tudo fez com que o tempo passasse mais rápido do que estava à espera, do que na verdade queria.
O sorriso dele, perfeito como o de uma celebridade qualquer, os olhos dele, lindos, espectacularmente bonitos, a mão dele que tocava constantemente na minha cada vez que eu a metia em cima da mesa, quando não tentava tapar o meu sorriso…
Perfeito!
Tudo aquilo me fazia ficar hipnotizada, e estranhamente, não entendia porque é que a cara dele me fazia acreditar que já o tinha visto nalgum lado, e a voz dele… havia qualquer coisa que me começava a fazer acreditar que ele não era um sonho que anteriormente tivesse sonhado, e que era alguém que já tinha visto, que já tinha visto mesmo antes de o ter conhecido. Talvez o reconhecesse de algum lado, alguma reportagem sobre casas ricas de Londres, ou alguma reportagem sobre uma casa qualquer em Los Angeles.
A pergunta surgiu-me várias vezes, fiquei com vontade de lhe perguntar, mas não tinha qualquer sentido. Já sabia que não era traficante de droga, e que era construtor e remodelador… Não tinha sentido perguntar-lhe o que é que ele fazia, já o tinha visto trabalhar, seria completamente idiota perguntar outra vez se ele não fazia mais que construir casas… embora ele já me tivesse dito que era apenas um hobbie…
Fortuna de família, sem dúvida.
Devia ser uma herança qualquer que tivesse recebido dos pais.
A conversa passou, o tempo, o próprio tempo passou sem darmos por isso, e quando olhei novamente para o prato, num momento em que o silêncio se tornou insinuante mas nada estranho, e que apenas durou mínimos segundos, percebi que já estava no fim da minha sobremesa.
A conta já se mostrava em cima da mesa.
Saímos da mesa depois de ele passar o cartão de crédito, cujo nome tinha Jeremy Lee Renner impresso, na máquina que um outro empregado trouxera. Agarrou-me novamente no braço e fechou a porta do elevador, ao carregar no botão do r/c, quando entrámos no quadrado cinzento com vista para a rua, de 2 metros e meio.
— So, you really had the balls to come here all by yourself? — continuou.
— First, I don’t have balls! And no, I’m not really alone… my sister lives here. I just ended up here too…
— Well, but… You’re not living with her, so… It’s just like you’re alone…
— I guess. I needed to work, couldn’t stand knowing that my parents were strangling to pay my university. I was feeling like a burden.
— I see your point, but… they didn’t really want to see you leave, did they?
— Not really… But now I can work and make a living for myself. I don’t like to sit down and do nothing.
— Is that hard in Portugal? You know… to build houses… Is the market slowing down?
— The market crashed. The crises… my father doesn’t have work. And my mom… she doesn’t have a secure job anymore… and…
Calei-me de repente, como se estivesse a dar-lhe a pior das secas.
— You’re getting so bored, aren’t you? I may just stop talk-…
E, sem querer continuar a ouvir-me, senti os lábios dele chocarem contra os meus. As mãos dele subiram da minha anca até ao meu pescoço, como se me tivesse tornado numa pequena auto-estrada, sem medos e sem momentos estranhos, e sem sinais que lhe pedissem para parar, e sem lombas que pedissem para travar. As mãos, com os dedos longos, deram-me pequenos arrepios, fazendo-me pensar, enquanto os beijos dos lábios dele se encontravam num pequeno e especial momento, encontrando todo o fascínio de um momento que eu não estava à espera que surgisse mais nenhuma vez depois de ter conhecido Alexandre.
O elevador parou de repente, e mesmo assim continuámos a beijar-nos.
Era como se, num beijo e noutro, ele me estivesse a pedir em namoro, como se aquele momento fosse persistir para o resto da minha vida, como se me tivesse casado com a língua dele, com os lábios doces. Como se a vontade de ele me tocar por prazer tivesse sido trocada pela vontade de ele apenas me querer amar.
O elevador abanou gentilmente, e duas pessoas entraram.
Estávamos no piso onde devíamos sair. Senti a minha cara corar um pouco quando ele se desviou e me apertou a mão. E saímos do elevador.
— Is it me, or everyone around here knows you? — inquiri tentando aliviar o momento, e mudando o cenário, e esquecendo que estava a ficar completamente apaixonada e iludida.
— It’s not you… it’s a fact — comentou. — Everyone knows me… Well, not everyone… but… Do you mind?
— No, sure not. That’s fine for me… — disse dando-lhe um beijo na bochecha. — So, cinema?! — indaguei.
— Do you feel like going to watch a movie?
— Yes, but I don’t know the movies in display…
— Hmm… There’s a…
Quando ia pôr o meu pé na porta giratória, olhei para trás… O aquário enorme fez-me obter a maior curiosidade que alguma vez senti em Londres, de uma maneira apaixonante, aquele aquário seduziu-me, e acabei por virar as costas a Jeremy, larguei a mão dele e fui até ao aquário, não reparando que ao pé de Jeremy estava uma rapariga, que possivelmente teria a minha idade, a falar com ele, e outra a tirar fotografias com o flash a empurrar contra os olhos verdes dele.
Fascinante a vida na água, não é?!
Olhamos para os peixes e vemos a descontracção que eles obtém quando estão a nadar para trás e para a frente, como se nada os preocupasse, como se fosse habitual ser comido por humanos, ou comido por outros enormes peixes, que por vezes eram da mesma raça, do mesmo ADN que eles. Era estranho vê-los entretidos a nadar e a mexer a boquinha deles, imaginando que eles já sabiam de antemão o que um dia lhes podia acontecer. Mas era tão belo, ao mesmo tempo. E eram tão belos, criaturas cheias de cor e cheias de realce excitante, que pena que o meu pai não podia ver aquele cenário da maneira como eu o estava a ver.
E finalmente virei as costas e vi-o a olhar para mim, com a boca aberta.
— What? — indaguei ao agarrar-lhe a mão e a conduzi-lo até à porta.
— Nothing… I was just admiring you admiring the fish tank…
— Did you have fun admiring me?
— Well… Yes! For a second I thought about admiring you, but then your legs and your butt got in the way, so I ended up getting distracted with the thought of… What the hell, why not take her to eat desert at my apartment…
— I already ate desert…
— Well, are you full already?
— It depends on what kind of desert you’re talking about… — segredei.
— Well, one that makes you lose calories and not gain….
— Hmm… That’s… I think I’d like to try that one… — ri-me. — Can we just go to the park first?
— Yes, sure… Tomorrow is Sunday, I have all night…
— Cool! Me too!
A mão dele estava quente, e sabia bem demais estar com ela pegada na minha.
Agarrava-a com quanta força parecia ter no corpo e nos músculos que ligavam o braço à mão.
O parque onde queria ir era perto daquele enorme edifício.
Levou-me até lá, como um pai que leva o filho até ao parque, e a metáfora não tinha saído nada bem. Sorri-lhe à entrada do parque, contando-lhe porque é que queria lá ir. Apontei para os baloiços, ele riu-se e abraçou-me, deixando-me de costas para os baloiços, beijando-me mesmo ali no meio do parque.
E contou-me uma história com a avó dele, quando ele ia ter com ela ao trabalho dela, na casa de bowling de que eles eram donos. E disse-me o quanto feliz ele ficara quando a avó o levara ao parque. Os baloiços sempre o fizeram feliz, aquele momento de sentir o vento na cara, e de tentar atingir a velocidade máxima possível, e de tentar chegar ao céu, agarrando bem as correntes para não cair no chão, tentando evitar uma queda. O feliz que ele tinha sido quando soube que conseguia balouçar sozinho, sem ter ninguém por trás a lançar o baloiço por ele.
Consegui imaginar a face dele aquando dos momentos que ele contava que tinha passado num baloiço qualquer num qualquer parque em Los Angeles, bem perto da casa onde ele viveu durante toda a infância. Quando terminou fui a correr até ao baloiço e sentei-me e esperei por ele, que com aquele sorriso e aquele olhar, possivelmente acharia que eu estava a dar em louca, e que era infantil.
— You must think I’m a little kid.
Interrompi o silêncio, depois de sairmos do parque, depois de muitas voltas e conversas enquanto eu balançava e ele olhava para mim, enquanto parecia admirar uma criança pequena feliz no seu território.
— No, not at all!
— This was a really fun night…
— Indeed. Hot company with a hot brain…
— You think my brain I hot?
— I would totally make-out with your brain…
— You would? — ri-me.
E parou.
Parou no meio do caminho, puxou a minha mão, e senti o peito dele ir contra o meu. Os olhos dele embateram nos meus, ao mesmo tempo que me puxava as mãos para junto do peito dele, como se quisesse proibir-me de tapar o meu sorriso. Sorri tanto que quase podia contar as vezes que tinha sorrido com a quantidade de dedos que nós os dois tínhamos em cada mão e em cada pé.
— Why do you hide that smile?
— I-I…
— Mary, you’re beautiful… And your smile is damn gorgeous! Did anyone tell you that before? — indagou.
— Yes, but they didn’t stick around to make me believe in it.
— Well, if that’s the case… I’ll stick around — sussurrou.

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por PandoraTheVampire em Sex Out 26, 2012 3:26 pm

Awwwwwwwwwwwwwwwwwwwwww que final tão... awwwwwwwwwwww! Lolz, sorry, too much sugar!! xD Bem Cata, já te tinha dito que isto está awesome mas não me canso de continuar a dize-lo! Awesome, awesome, awesome!

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por Fox* em Qua Out 31, 2012 8:39 pm

Oh... He sticks around! xD That is a sir, no doubt!
Pronto, tu querias que eu lesse, eu li! E depois?
Queres que diga que gostei? Não digo! Que me ri que nem uma perdida quando a outra percebeu tudo o que a Mariana disse num restaurante?! Não digo! Queres que admita que achei todo o encontro deles romântico e saído de um conto de fadas e que quero um igual? Não admito!
Posso apenas dizer que acho fantástico construíres um capítulo quase todo em descrição/pensamento e sair-te tão bem!
Está muito bom, Cata! Mas isso não é novidade :D

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por CatariinaG' em Qui Nov 01, 2012 10:43 am

Capítulo X:
Acordei logo pela manhã, depois de uma semana complicada. Estava em casa da minha irmã, e estava há cerca de 12 horas na cama. Ouvi a minha irmã levantar-se e quando reparei já era meio-dia, ou mais que isso. Levantei o cu da cama e passei pelo quarto dela, que ficava mesmo de frente do das gémeas, onde eu tinha acabado por dormir na noite anterior. Como sempre, assim que abri a porta, reparei que a senhora Sofia, minha irmã, estava a ler aquela coisa que algum dia alguém teve a brilhante ideia de chamar de livro, o iPad.
Com o Tablet encostado ao peito, ia lendo, cuidadosamente, a mesma coisa que já devia ter lido cerca de 800 outras vezes. Perguntei-me, intimamente, se ela já tinha experimentado alguma daquelas dicas que vinha no livro, com o marido.
— Bom dia! — falei.
Baixou o iPad e olhou para mim com um sorriso enorme e respondeu de volta:
— Boa tarde, Mariana.
— Ainda a ler? — inquiri enquanto me sentava em cima da cama dela e espreitava o capítulo que ela agora ia lendo.
A minha sobrinha mais velha entrara no quarto também e pôs-se a olhar para o espelho, enquanto eu me exasperava.
O quanto estranho tudo aquilo soava. Uma miúda de 18 anos que se preocupava mais com a aparência do que com aquilo que realmente se devia preocupar…
Mas graças a Deus, não era daquelas que tinha na cara o que lhe faltava na cabeça!
Mas fazia-me impressão, a quantidade de maquilhagem que tinha na cara, e aquela que ainda lhe faltava.
Também uso maquilhagem, mas não me preocupo em colocar aquela porcaria constantemente na cara, sei que vou ficar com a cara mais marcada do que já a tenho, e sei que a maquilhagem tem óleos que fazem mal à pele, e para fazer mal à minha pele já chega a porcaria do ar poluído que me toca todos os dias.
Gosto muito das minhas sardas, sempre gostei, e gosto ainda mais do facto de serem quase invisíveis, e ainda gosto mais do meu cabelo pintado de ruivo, o qual as minhas sobrinhas e a minha irmã odeiam, principalmente quando tem franja… mas não me interessa o que elas acham, interessa-me o que eu gosto e nada mais… embora a cor já estivesse a precisar de ser mudada.
E, quem gosta, gosta… quem não gosta, não come!
Vá comer fast-food, sacia logo a fome!
E, continuava a maquilhar-se, a minha sobrinha, e a olhar-se ao espelho cuidadosamente passava lápis pretos e depois lápis castanho e sombra, e liptsick, e mais umas quantas porcarias que nem eu própria consegui reconhecer o que era.
— Merda! — berrou a minha irmã. — Já não vamos a casa da Tia Diana… — comentou. — Daddy doesn’t want to go there, anymore…
Fossem ou não fossem, não havia espaço para eu ir com eles, e recusava-me a pagar 60 libras de transporte. Já estava planeado ficar por casa, sozinha, com o cão e com o gato, almoçar, e quando eles chegassem, ia-me embora.
A cara da minha irmã mostrava que ela estava completamente passada da cabeça, não fosse o caso do meu cunhado ter dito, anteriormente, uma semana antes, que iam comemorar os anos da mulher lá a casa dela, e agora, depois de já tudo combinado, descombinar tudo porque era grande a vontade de mostrar que a vingança se serve gelada… e num prato à parte.
Levantei-me de cima da cama, depois dos berros ensurdecedores da minha irmã, e fui tomar o pequeno-almoço, enquanto a minha sobrinha bradava aos céus que se tinha maquilhado para nada.
— We can go to the cinema… — comentou Susana, uma das gémeas.
‘Lá vou eu gastar dinheiro…’ —pensei.
Sem dinheiro não se fazia nada, mas também ficar fechada em casa não era a minha favorita predição, e logo depois daquelas primeiras semanas a sair com aquele homem 20 anos mais velho que eu… não ia ficar sozinha em casa… sozinha não!
Ou ia?!
A minha irmã desceu as escadas, consegui ouvi-la pelo chiqueiro que a madeira velha das escadas fazia enquanto ela pousava os pés nos degraus.
— Estás bem? —perguntou.
— Estou! — sorri.
— Via-a pegar no iPad, novamente, enquanto punha água aquecer. Escrevinhava Robert Pattinson no Google, e esperava pelos resultados das últimas notícias, e mexia a caneca do café, enquanto misturava o café com o açúcar, ainda sem ter água.
Não percebo porque é que, de repente, até eu estava tão interessada em saber sobre a relação de duas pessoas que nem sequer conheço, sobretudo quando também criticava as pessoas que as perseguiam e, posteriormente, os que os criticavam, ou não.
Em geral, parecíamos todas umas perseguidoras psicóticas que em vez de nos preocuparmos com a nossa vida, preocupávamo-nos com a dos outros… o que na verdade não era bem assim, muito menos era verdade.
Ambas tínhamos trabalho e fazíamos por isso!
Sempre tínhamos lutado pelo que queríamos e continuávamos a lutar, e não parávamos por nada… mas meter o bedelho na vida de quem não nos pertence, não é bem uma coisa lá muito bonita de se fazer.
— Parece que voltaram! — comentou enquanto comia um pedaço de torrada e olhava para mim.
— Pois… logo vi, já te tinha dito… Olha, vai-te sentar na sala…
— Mammie. We can go to the cinema… — berrou Susana.
— My sister has to go soon she can’t stay here for long…
— Yeah! But we can go see an early movie…
Cocei a minha cabeça e peguei no prato com a minha torrada e na caneca branca e preta com os desenhos dos cenários de Hollywood Boulevard.
— Por mim podemos ir… posso chegar a casa depois das 9, mas não muito mais tarde… —comentei.
A minha irmã olhou para mim e acenou de volta, com a boca cheia, enquanto a minha sobrinha subia, feliz, as escadas para se ir preparar.
— Desçam depois para verem qual é o filme que querem ir ver! — gritou a minha irmã.
Fui-me sentar no sofá da sala e liguei a televisão. Não sei qual filme é que íamos nos ver no cinema, mas uma coisa eu tinha a certeza: filmes de terror ou Missões Impossíveis era um NÃO bem carregado. Não é que não goste, é mais porque não tenho paciência nenhuma para os primeiros 40 minutos do filme, que são tragicamente iguais a todos os outros.
Ah, e porque os filmes de terror me fazem tremer, não durante o filme, mas depois quando estou sozinha em casa… e a casa é grande, e tem aquecimento central… e se tremer não ia ser de frio!
Quê?!
Não gosto de filmes de terror… gosto mas tenho medo!
Não gosto de me assustar com zombies e com espíritos e fantasmas e homens com serras eléctricas e bonecos que ganham vida à noite, ou assassinos profissionais que andam por aí a matar quem não cumpre as regras da espionagem…
Como se a espionagem tivesse regras!
Abri a boca em sinal de sono, e ou preguiça, e de algum desinteresse, também.
Pelo que tinha entendido o filme que eu queria ver só passava muito mais à tarde, por volta das 5 da tarde, e se assim fosse, só chegava a casa por volta das 11… isto é se o filme acabasse às 8… porque se acabasse mais tarde, só chegava a casa no dia a seguir, porque ainda queria ter tempo para jantar em casa da minha irmã.
Estava tanto calor que se houvesse possibilidade de trocar o cinema por uma piscina, era o que eu realmente faria.
A minha sobrinha Susana lá apareceu na sala, acompanhada da Mafalda e da Andreia. Sentaram-se as três à volta do iPad da minha irmã, enquanto ela via os horários do cinema. Doía-me a barriga, estava imensamente mal-disposta.
— Despachem-se! Preciso de ir à casa de banho —comentei.
— Go!
Olhei para Andreia de soslaio.
—Vá, Mariana. O que queres ver?
—Ted… —comentei.
— I want to go watch The Bourne Legacy —comentou Mafie.
— TED tem demasiadas palavras feias… E começa às 5:30…
A dor de barriga estava prestes a fazer-me explodir, estava cada vez mais enjoada, e se não fosse imediatamente à casa de banho, acabaria por explodir, o que não seria muito agradável de se ver…
Entranhas por todo o lado, coisas verdes e sangue vermelho pelo meio… oh! Não, rebentar não era mesmo nenhuma solução que se pudesse aproveitar. Não mesmo.
Não que tenha ficado enervada por não puder ir ver o filme que queria ver, mas cada vez gostava menos da ideia de, possivelmente, ter de ir ver um filme de terror.
Levantei-me do sofá castanho-escuro e com a barriga prestes a explodir, falei:
— Quais é que sobram?
— Hmm… Possession, The Bourne Legacy e Anna Karenina.
E a Susana lá se ergueu:
— No Karerina… please, let’s go watch the Bourne Legacy.
— Never watched it… — respondi. — Oh lord! Estou mesmo…
Fui a correr para a casa de banho e, quando lá cheguei, berrei:
— Escolham vocês! Confio no vosso bom… oh shit!
E, como é lógico, fechei a porta da casa de banho.
Enquanto me encontrava a explodir toda a miséria entranhada, as minhas sobrinhas iam escolhendo um dos três filmes que podíamos ir ver. Consegui ouvir os ânimos exaltados de Andreia, que queria ir ver o Possession, que se recusava a ir ver TED. A Mafalda queria ir ver Bourne Legacy e a Susana queria ir ver Possession, também, mas esse dava muito mais tarde.
— Então, já se decidiram? — indaguei quando me despachei do infortúnio.
— Vamos ver Bourne Legacy, com a actriz do Múmia!
Atirei-me para cima do sofá e cruzei os braços.
— Dizem que esse filme é bacano… — comentei.
— Yah! It’s with Matt Damon…
— Nope! — disse Susana. — It’s another guy… A new one!
— Who? — indaguei.
— I don’t know… I don’t care! I want to go watch Possession!
— Well, bad luck, Sus — insurgiu a minha irmã.
— Nunca vi nenhum filme sobre Bourne Legacy…
— Well, it’s about an assassin and when someone tells him that he needs to kill another person, he marks that person until he kills it. And he takes pills to forget about it… and….
— Nice… — comentei entrelinhas. — Outro Missão Impossível sem a parte do ser bonzinho… que bom!
*

Chegámos ao cinema por volta das 14:15, cerca de 55 minutos antes do filme começar.
Fomos comprar os bilhetes e, embora fosse a mais velha, parecia que era a irmã mais nova daquelas três miúdas, já que era a minha sobrinha mais velha que estava encarregada de pagar os bilhetes e de guardar o dinheiro.
— Are you paying for yours? — inquiriu.
— No, my sister told me she’d bought mine today.
Andreia lá tirou a cara de indignada e falou com o rapaz que estava à frente na caixa a vender os bilhetes.
— Hi! We want four tickets for… — olhou para mim.
— I don’t know…. It’s the one with Matt Damon — disse falando para o rapaz do balcão.
O rapaz lá olhou para o ecrã que estava à frente.
— Mary… is not Matt Damon anymore. It’s the other one — comentou Maffie.
— I still don’t know why are we going to watch that shit — refilou Susana. — I want to watch The Possession.
— Yeah, right! Mariana needs to be home at 9, don’t forget it’s not her house!
— But she has her own keys… and it’s her day off…
Enquanto a discussão se acendia, o rapaz da bilheteira ia fazendo olhinhos a Andreia que, embora tivesse maquilhagem, podia dizer-se que estava gira, com aquele chapéu creme com um laço castanho-escuro.
— Ok, ok… I get it!
— It’s The Bourne Legacy — comentou Mafalda.
— Ok — começou Andreia. — Four tickets for The Bourne Legacy.
— How old are you? — indagou o rapaz enquanto tocava no ecrã táctil do computador.
E lá vinha a conversa da idade…
— Those two are 14 and I’m 18…
— I’m 21 — respondi imediatamente.
O rapaz olhou para mim com cara de parvo e fez um sorriso estúpido, completamente estúpido!
— Are you serious?
— Yes. Do you want to see my ID? — indaguei.
A sério que me enerva quando se põem a perguntar se eu tenho mesmo, mesmo, mesmo, aquela idade, it just pisses me off!
O rapaz lá se despreocupou com a minha idade e tirou os bilhetes da impressora e riu-se, enquanto eu olhava para ele e pensava o quanto enervante ele parecia ser. Andreia olhou para os bilhetes depois de ele lhos passar, e mostrou-os de novo ao rapaz.
— Ooh! Sorry, my mistake!
— Yeah… We are not going to see My Boy, as the ticket says — refilou Mafalda.
— Sorry. When you get upstairs tell the boy that I got those wrong. He’ll let you come in. Don’t worry!
— I’m not worried! I just hoped you could do a better job — refilou Susana.
Antes que nos desse uma incrível vontade de rir, o homem deu-nos uma pura vontade de chorar, não tivesse sido o caso de termos de pagar cerca de 38 libras por 4 bilhetes de cinema, para um filme que nem eu queria ver.
Olhei para Andreia, de forma a tentar perceber onde é que aquele gajo se tinha enganado outra vez, mas a verdade, a que percebemos logo de seguida, foi que a única culpada, idiota, tinha sido eu… visto que podia ter passado por 18 anos, e assim não pagar bilhete de adulto, mas sim de estudante! Afinal, é o que costumam dizer… que tenho não menos de 15 e não mais de 18… e já que tinha a fama, porque não me aproveitar dela?
O erro já estava feito, depois compensava-as com um gelado ou com uma pizza depois do cinema, ou um Starbucks quando fosse a Wimbledon.
E, ainda faltava imenso tempo para o filme começar, e só demos por isso quando fomos para o piso de cinema e vimos que não se encontrava lá ninguém a rasgar e a inspeccionar as entradas para as salas.
Estava tanto calor no hall de entrada que eu sentia o meu cérebro derreter. Até me arrisquei a pensar que nas salas não havia ar-condicionado. Quando abordei o assunto com as minhas sobrinhas, só não se desmancharam a rir porque não deviam estar com paciência para me fazer passar figuras… e responderam ainda que, apesar de haver ar condicionado, não havia pausa no meio do filme…
— Are you crazy? This is not like Ski, where you can put pause and go to the bathroom — comentou a mais velha.
— Shit! Obrigado pelo aviso, Andreia.
Obrigado pelo fascínio de ter de estar fechada duas horas e mais não sei quantos minutos, numa sala a ver um filme que, possivelmente, me ia fazer adormecer… sim! Já tinha acontecido adormecer a meio do Missão Impossível e do Titanic… os filmes de acção, se é que se pode dizer que o Titanic é acção, fazem-me adormecer.
Só não adormeço no Velocidade Furiosa, e é porque os actores me mantem bastante bem acordada, e não é porque eles são bons actores… Que feliz que estava, ia ver o rip-off do Missão Impossível, ou da Vingadora, com um possível crossover de 007. Vá lá, tinha a Rachel Weisz, a actriz da Múmia, e não tinha o Matt Damon… E pelo lado bem negativo, teria um actor igualzinho a ele, do tipo irritante, um homem qualquer que me faria bradar às paredes o quanto mau ele era e que era visível que não era ele que fazia os duplos de acção!
A sério que me começava a sentir aborrecida. Histórias de espionagem não me fascinam, de maneira alguma, coisas que não fazem sentido nenhum, ainda pior quando são filmes que têm actores idiotas que nem sequer sabem como é que têm músculos, actores que têm duplos até nas corridas, ou nas idas à casa de banho…
É isso que me fascina em Hollywood, de uma maneira muito negativa! A sério! Fascina-me por completo aquele mundo em que o que quase morre nas filmagens é o que recebe menos, e o que quase não faz nada, e tem a cara bonita, é o que ganha mais! Fascina-me!
Tirando o Tom Cruise, que como já é velho se se magoar recebe o triplo do ordenado! E corre o risco de nunca mais se conseguir poder mexer…
Com tanta conversa interior, quando olhei para as minhas sobrinhas já elas estavam junto do balcão das bebidas. Ao mesmo tempo que me dirigia lá, o meu telemóvel tocou e eu apressei-me a ir buscá-lo à minha mala pequena, uma que as minhas sobrinhas dizem que nem de carteira de trocos serve!
Passei 4 libras à mulher do balcão para me vender uma soda, enquanto segurava no telemóvel e abria a mensagem que se encontrava impaciente a piscar no ecrã.
Mensagem de Jeremy. O meu coração bombardeou-se de felicidade…
Tinha tantas saudades dele! Estava em Itália com amigos. E eu ali, em Londres, pronta para ir ver um filme que tinha três prequelas que eu nunca tinha visto. Não estava com disposição para escrever mensagem de volta, queria algo que me fizesse sentir mais próxima dele. Depois de tanto tempo, tornava-me tão lamechas quanto eu nunca tinha gostado de ser.
Decidi acabar por matar as saudades telefonando-lhe, esperando que ele não estivesse muito ocupado, ou a divertir-se demasiado. Fazia-me tremer de fascínio e já tinha saudades dele, dos beijos dele, da forma como me tratava e do sorriso… a voz não era a mesma coisa, mas já era suficiente para matar as saudades.
Ouvi o som exasperante do telemóvel a tocar, enquanto as minhas mãos agarravam com força o meu GalaxyW, e olhava para o ar, quase a pedir que o ar o fizesse atender o telemóvel e que acabasse com o remoinho de emoções que iam surgindo cada vez que o bip do telemóvel se ouvia do outro lado da linha.
— Hello!
— Jeremy — quase berrei o nome dele.
Podia ver as minhas sobrinhas ao longe a falarem. Riam-se e apontavam para tudo o que era sítio, as mais novas e a mais velha. E eu ia observando-as, olhando para a imagem diferente que tinha acabado por surgir depois de anos e anos de crescimento.
A imagem delas em pequenas tinha-se retido por completo na minha mente, e era difícil tirá-la da mente e apagá-la, embora às vezes percebesse o quanto entediante era ter a imagem delas quando eram pequenas, agora que elas já não eram umas meninas de 5 anos que gostavam dos meus beijinhos e de me abraçar quando se despediam de mim.
— Hey, girl! — falou.
O meu coração preencheu-se de ar quente e senti-me entusiasmada por ouvir a voz dele, a voz que eu queria ouvir.
— I just read your message — confessei. — Are you enjoying Italy? — indaguei.
— Yes! A lot, wish you were here, though… — comentou.
Dei uma gargalhada e, subitamente, ele mudou de conversa.
— What are you doing? — perguntei.
— Hmm… chilling with some… with some friends. And you?
— I’m at the cinema. Going to watch Bourne Legacy.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Depreendi que fosse algo que tivesse sido relacionado com uma mínima falha da rede, já que estava dentro de uma sala enorme, possivelmente a rede tinha mesmo falhado.
— Did you choose it?
— No… not really — comentei. — I didn’t even see the poster. It’s with some substituting Matt Damon. I have no idea who, wish it was Colin Farrell — ri-me. — Probably it’s another shitty movie.
Do outro lado da linha a respiração tinha-se tornado pesada.
— Do you think that Bourne franchise is shit? — indagou.
— Don’t know! Have never seen it! I don’t really watch action movies, I don’t like spy movies… Though, I hope it’s worth… — comentei. — My sister paid 9 pounds for my ticket… Plus the coke. Did you know that there’s no break between the movies?
O rapaz deu uma gargalhada do outro lado da linha. Conseguia ouvir imensa gente falar do lado de lá, de onde ele estava a falar. Parecia uma festa, possivelmente era uma festa. Não me tinha sido confirmado o facto, ele apenas me tinha falado que ia passar uns dias com uns amigos.
Como não éramos namorados, nem nada que se parecesse, pelo menos mais que aquilo que parecia, contive-me de lhe fazer as perguntas da praxe, sobre se estava numa festa, se havia raparigas, se havia gente bonita, ou gente feia, ou se, pura e simplesmente, estava numa saída de rapazes, que indirectamente podia indicar que haveria raparigas pelo meio.
— Mary… — chamou-me. — Need to tell you something.
— You’ve found someone? — perguntei.
— No… Damn no. Not that! I…
— Mary! — ouvi a voz da Susana em altos berros.
Vi as minhas sobrinhas levantarem-se.
— The movie has already started! — berrou Andreia.
Agarrei o telemóvel na outra mão, e ajeitei a mala.
— Mary, I really need to…
— What?! —indaguei enquanto colava com força o telemóvel à cara.
— MARY! C’mon! You can talk to your mom, later. The movie already started! Andreia has the tickets.
— Mary, about the movie… I…
— Can’t really hear you, Jeremy. I’m entering the screen room.
— I… I… Mary, can you…
Linha branca e…
Chamada desligada!
Segui a minha sobrinha Andreia, e fiz sinal ao homem que estava a inspeccionar a entrada. Tinha o meu bilhete na mão, mas a Mafalda teve de se baixar para ir buscar o dela, visto que a esperta da irmã, a Andreia, tinha-o plantado no chão e tinha ido a correr para a sala onde o filme ia ser projectado.
Olhei para trás, e vi o homem rir-se e a abanar a cabeça, quando a minha sabrina de camurça saltou e foi parar ao outro canto do enorme corredor, com a correria estúpida e patética que as quatro estávamos a fazer. Parecia mais uma saída de palhaças pintadas, que propriamente uma saída de tia e sobrinhas.
Mas isso é que tinha piada… Tinha 21 anos, mas adorava brincar com elas, fazia-me esquecer que tinha aquela espécie de responsabilidade que ninguém quer ter quando chega à idade mais adulta…
E não admito que digam que ainda sou nova!
Entrei atrás de Mafalda e subi as escadas.
— What seats did you choose? — indaguei.
— There is no saved seats — comentou Susana.
Olhei com cara de parva para elas, mas acabei por não fazer perguntas, já sabia que iam olhar para mim e responder-me com a boca cheia de pipocas:
— You are in ENGLAND!
Sentei-me… A sala estava não tinha mais que 30 pessoas, se tanto… Tanta correria e o filme ainda nem sequer tinha começado. Na tela de ecrã estavam a passar anúncios.
Abri a minha pequena, pequeníssima, mala branca da Accessorize, comprada em Portugal, uma que as minhas sobrinhas dizem que nem de carteira serve. Tirei o meu telemóvel e esperei que surgisse o sinal de rede para poder telefonar a Jeremy de volta, mas não consegui.
O telemóvel não tinha nem uma ponta de rede, só apanhava o Wi-Fi do cinema.
— By the way, Sus… I was talking to a guy, and not to my mom…
— Whatever! — disse.
— No… wait! Who were you talking to? — indagou Andreia.
— Some guy… — senti as minhas bochechas corarem.
— Who’s guy?
— No one’s guy! — respondi. — Someone I met.
— Alexandre?
— No! Course not! It’s a guy I met in Wimbledon.
— What? — indagou, [lê-se WHU-AT]. — I can’t believe! Mariana met a guy… in England…
— More than one — franzi as sobrancelhas.
— You know what I mean. Move sits, Mafalda.
— No… — recusou-se Mafalda. — I’m good.
— So, the movie was supposed to be starting now… — quase grunhi, ao mesmo tempo que ignorava a minha sobrinha mais velha, com o seu fantástico sarcasmo.
— It is!
— No, it’s not Susie… Está a dar publicidade! — comentei.
E de repente o ecrã desceu e as luzes apagaram-se.
— What’s his name? — inquiriu Andreia, continuando a conversa e quase batendo na Mafalda.
— Jeremy! — disse com um sorriso enorme. — But I don’t think we are in a relatioship… — comentei enquanto me encostava à cadeira e olhava para o ecrã gigante. — We are just…
— Shh! It’s starting! — mandou vir Mafalda.
— Sexbu…
E finalmente, o filme estava a começar.
Um ecrã preto.
Uma memória.
Outra… O que pensei ser um flashback.
Uma voz, outra. Uma frase estranha, uma voz ainda mais estranha.
Outro ecrã preto, mais uma voz… Outro ecrã preto, um ecrã azul…
Água… Um braço, outro…
Um homem a mexer-se debaixo de água, um homem a nadar…
Um homem a sair da água, com uma barba enorme e…
— Oh--my--god! — engoli em seco.
— Be quiet, Mary!
— That’s him! — berrei ao apontar para o ecrã. — That’s… that’s Jeremy! He’s an actor?
— D’oh! — comentou Mafalda.
— No, I… He’s an actor!
— Shut up, lady! I’m trying to watch a movie!

E tenho estado este tempo todo a falar deste moço:
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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por Fox* em Qui Nov 01, 2012 6:22 pm

Hahahaha, então era este moço de quem falávamos... Hum, não me tinha apercebido! xD
Ela tem de ser uma total cabeça no ar para não saber quem ele é! Ou é mesmo desapegada de cultura pop!
Mas achei piada à forma como descobriu, no meio do cinema, gritando para uma tela!
Agora quero saber o que vai acontecer a estes dois quando se encontrarem! :D

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por CatariinaG' em Seg Nov 05, 2012 9:35 pm

Capítulo XI:

— What? Are you stupid or something?! Didn’t you watch the trailer?
— Yes, yes I did! When I went to the cinema with Alexandre… But it was so long before… I swear I didn’t realize he was an actor…
— So, you’re telling us you met that “hottie” — desenhou as aspas com os dedos no ar, — while he works in construction?
— Yes…
— Mary, you must have taken drugs…
— No! Fuck no! I mean it! That’s the guy. Jeremy Renner.
— We know his name; we read that in the credits.
— No… I mean, yes! — respondi. — It’s that guy, he told me that name.
— He’s a liar…
— He’s not… I’m telling you, he builds houses… And that’s the guy!
— Then, why was he in The Bourne Legacy? Don’t tell me that building houses it’s a hobby.
— Freakin’ hobby, you say — riu-se Mafalda.
— Mafalda… I’m telling you, it’s that guy… I’ve been dating that guy for weeks… 5 weeks now…
— Just as many weeks as you’ve been in London…
Andreia olhou para mim. Deu uma forte pausa, e quando olhei de novo para ela, já perto da saída da sala escura, quase cuspiu o resto da coca-cola no chão. A gargalhada dela foi tão grande que as pessoas que estavam a sair da sala de cinema connosco, tiveram de se desviar para não levarem com os restos da Coca-Cola em cima. Senti-me tão exasperada naquele momento que não conseguia distinguir se o que lhes estava a dizer era mesmo verdade, ou se era algo inventado.
— Mary, your obsession over celebrities should have ended years ago — comentou Susana bem alto, parecia querer que toda a gente ouvisse a conversa.
— Can you please tell me that you’re not obsessing over this guy… — indagou Mafalda. — Seriously, isn’t Leonardo DiCaprio enough?
Senti a minha cara escaldar.
Durante as férias de verão tinha-lhes prometido que não as ia maçar com as minhas terríveis paixões, que durante as ferias se manifestava pelo Jared Leto e pelo Colin Farrell. E, agora, sentia que tinha mentido, quando na verdade não tinha. Estava tudo tão confuso na minha cabeça, que não percebi bem quais argumentos é que podia usar para as fazer acreditar que eu realmente andava a sair com Jeremy Renner, o actor de The Bourne Legacy.
A palavra ‘actor’ suou-me tão mal na cabeça que quase tropecei nas escadas.
A confusão fazia-se sentir, mas o pior de tudo nem era o caos que se completava na minha cabeça e na minha mente, o que me começava a tirar do sério era o facto das minhas próprias sobrinhas não acreditarem no que eu estava a dizer. Parecia que a história do Pedro e do Lobo se tinha insurgido numa nova realidade, no mesmo planeta, mas num outro contexto, numa outra verdade que elas absolutamente renegavam.
— I know I had crushes with a lot of Hollywood guys, but I never lied about it. Never said I was dating them…
— Probably it’s your new phase… — comentou Mafalda entredentes. — And by the way, you kind of did tell us that you were dating Daniel Radcliffe.
— I was 13 years old… I thought I was in love… — confessei.
— That’s what’s happening now… As usuals, you think you’re in love and that you know him, but you kinda don’t… So you say you do… but you don’t! — comentou secamente Mafalda.
Não me apeteceu ficar calada, mas aquelas palavras pareciam facas espetadas na minha barriga. Pior que facas, sentia toda a verdade do que elas estavam a dizer, ainda para mais, da forma como antigamente eu retractava as minhas paixões idiotas, que não passavam disso, de paixões idiotas sem qualquer tipo de emoção e noção de realidade. Mas daquela vez era real!
Não estava a sonhar, era real! Andava a dormir com Jeremy Renner, e não só…
Dormia… E estava a ficar apaixonada, isto é… se já não estava!
Mal conseguia dormir se não falasse com ele primeiro. Parecia que tinha voltado à raça da escola primária, onde vivia a paixão como uma menina inocente que não sabia para que raio servia o ‘pipi’ sem ser para fazer exactamente isso – ‘pee-pee’!
E, como dizer que estava a ficar apaixonada por aquele actor/construtor, sem soar que nem louca? Estava a ser difícil, sobretudo quando tudo o que eu estava a dizer era verdade, e aquelas três não acreditavam em mim! E se aquelas três não acreditavam em mim, a minha irmã não ia acreditar em mim! E se a minha irmã não acreditasse em mim… Ia ser considerada, oficialmente, a louca da família!
Ainda ninguém me tinha ensinado a provar a verdade sem ter de apresentar provas… E, naquele instante, elas pareciam acreditar em toda a gente, menos em mim.
— I’m serious, Maffie… I’m dating him.
— Do you have photos? — indagou Andreia.
— No… — comentei.
Tinha uma a jogar ténis com ele…
— Then…
— Then, what? I’m serious… I am not lying! I didn’t even know he was an actor.
E de repente elas pararam no meio do caminho.
— So, you’re telling me that you met him and you didn’t know who he was? And he didn’t tell you he was an actor? And that his a builder? Seriously… Mariana, actor are everything but builders!
— For Christ sake! I didn’t know he was a fucking actor!
— Mary, you obsessed over Colin Farrell for two years! You’ve watched SWAT for about 5 times already. Are you telling us you didn’t know that Jeremy is the one who gets killed by a train, when he’s fighting your sweetie?
— I don’t know… — encolhi os ombros. — Maybe… But… I don’t remember. But, I-I’m dating him… It’s true!
— Does he live in Wimbledon?
— Yes… — murmurei. — We went out yesterday — corei.
— Cool. Call him and ask him to take you home…
— He can’t… — respondi.
— Why?!
— He’s in Italy.
— Ahm, ahm… see?! Stop dreaming! This is real life and you are 21, not 15!
— I know I’m 21. I’m being honest. I am dating the guy!
A minha garganta estava seca de tanto falar e de tanto me esforçar para que acreditassem em mim. Estava com frio, estava de saia e de collants transparentes. Estava super chateada, parecia que me tinham traído a confiança, tanto elas como com ele. Sentia-me uma pedra de calçada num sapato sujo, degradado pelo tempo.
Não tinha entendido que ele era actor. Tinha visto o SWAT, sim tinha, era o meu filme favorito, mas não me lembro de o ver no filme. Lembro-me de ver Colin, ai se me lembro… mas ele nem por isso. Lembro-me da luta, lembro-me do homem que era o melhor amigo do Colin, lembro-me que o Colin se chamava Jim… Jim Street, e que o amigo dele se chamava Gamble, Brian Gamble, que tinha sido despedido, e lembro-me da ‘quase luta no bar’, e lembro-me…
Lembrei-me de Jeremy. Era dali que tinha visto os olhos dele, era dali que o reconhecia… Mas não o reconhecia.
Enquanto as minhas sobrinhas andavam até à paragem fechada do autocarro, eu fui-me ficando para trás, ignorando o telemóvel que tocava insistentemente, ignorando os risos idiotas que elas formulavam, ignorando tudo o que não se tratava de ar para respirar. Ignorando o que me fazia mal e o que era tóxico para a minha saúde mental e psicológica.
E, além do mais, não era bem uma pergunta que eu tivesse a lata de fazer, ou que tivesse a capacidade de me lembrar de fazer. Não é todos os dias que se encontram actores a trabalhar nas obras, isso é quase impossível de imaginar! Aliás, isso é i-m-p-o-s-s-í-v-e-l de imaginar. Pelo menos na minha cabeça.
Com que dentes e com que língua e com que boca é que eu, na minha mais concreta imaginação, ia chegar à conclusão que o homem com quem estava a dormir, com quem andava a sair, e por quem me começava a apaixonar, era nem mais nem menos que um actor de cinema? Que ainda para mais trabalhava nas obras.
Nunca na vida, por mais modestos que alguns actores e celebridades sejam, nunca na vida, repito, imaginei que um podia ser também construtor civil.
Isso não faz qualquer tipo de sentido, não na minha cabeça.
Não quando acho que todos têm dinheiro suficiente e que não precisam de fazer mais nada, que trabalhar durante 6 meses num filme, ir de férias, dormir com trezentas raparigas, processar algum fotógrafo, ganhar mais uma quanta pipa de massa, adormecer, comer nos restaurantes mais caros, descansar no Hilton e acordar no Mariott. Dormir com 4 raparigas de uma vez, se isso se pode chamar ‘dormir’ e, finalmente, descansar o resto do ano todo, com o cu virado para as estrelas a lamber as botas de um realizador qualquer, durante a preparação para um novo filme.
Era tão irreal pensar que ele era construtor civil, como pensar que alguma vez podia vir a conhecer alguém como o Colin Farrell…
Oh my god! Ele conhecia o Colin Farrell.
Não, não parei no meio da estrada depois de perceber que ele tinha feito um filme com o Colin Farrell, e não fiquei que nem uma groupie, armada em parva, a chorar baba e ranho e a telefonar para todas as minhas amigas a dizer que tinha comido um actor de cinema e que tinha sido, consequentemente, comida por ele.
Ao contrário do que podia esperar, os meus pés, embora no chão, pareciam estar na lua, não pelo bom lado, mas pelo mais terrível. Sabia mal ter noção do que o que eu estava a dizer era real, e ser levada como uma mentirosa que não tinha vida suficiente para deixar de inventar coisas. E eu não estava a inventar nada, aquilo estava a acontecer. E o telemóvel era prova disso.
Peguei no meu Galaxy.
Jeremy.
— See?! — berrei.
Acho que até o cemitério de Enfield ouvira aquele berro, e o cemitério fica bem longe de Wood Green, onde o cinema ficava. As três ignoraram-me por completo. Senti-me tão idiota e tão adolescente quanto o dia em que percebi que nunca mais ia ver o meu namorado de verão…
Hi, sweety… — ouvi depois de atender.
— Am I talking to Aaron Cross or to Brian Gamble?! — indaguei.
Houve um silêncio patético na linha. Engoliu em seco e finalmente falou.
— So, did you enjoy it?
— Yes, indeed… but! Let me tell you — comecei. — There was I watching a bunch of ads, when all the sudden the movie starts and… what the fuck, little did I know I am dating the lead actor! At first I didn’t guess, but then what a fucking surprise you were the one on the screen… And Lord knows you don’t look good with beard…
Ouvi-o rir-se.
— It’s not funny, Jeremy. It’s not funny! — comentei.
— Mary, stop playing with your cellphone. Being obsessed won’t make you the most brilliant person in the family! — queixou-se Andreia depois de se sentar na paragem do autocarro.
— Seriously, do you know how sad is when your nieces don’t believe what you’re saying? I told them I am dating you, and they just laughed.
Why?
— Jeremy, you lied…
I didn’t lie — retorquiu. — I just didn’t have the chance to tell you I’m an actor. I thought you would Google me… I thought you...
— Why would I Google my…
O que raio ia eu dizer?!
— Your…
— I… why would I want to Google you? I don’t usually do that to people I meet in real life — fugi. — I gently believe that people are honest with me.
My… — parecia não ter ouvido o resto da conversa.
— Fuck, Jeremy! Why would I want to Google you?!
Senti a minha cara escaldar.
Era como se tivesse acabado de ser pedida em namoro por telemóvel.
— Well, I told you to do it!
— But that’s crazy! And I feel like… My nieces don’t even believe me.
— Why?
— ‘Cause I…
— Mary! — falou Mafalda. — Turn off the stupid phone. We both know you’re not talking to no one.
— I’m fucking talking to Jeremy! — berrei tão alto quanto podia.
Nem tinha pensado nas proporções do que tinha acabado de dizer.
Toda a gente olhou para mim.
Toda a gente que ouvira aquilo e que estava na estação de autocarro olhou para mim de forma estupidamente degradante, como se achassem que eu estava louca e obcecada. Andreia, a mais velha das minhas sobrinhas, a que devia acreditar, abanou a cabeça em sinal de negação e virou a cara.
Pela primeira vez, senti na pele a humilhação da minha própria família não acreditar no que estava a dizer. Não era fora do normal sair com um actor, o problema é que era demasiado real para ser verdade. Engoli em seco, chocada com a complexidade daquilo que tinha acabado de fazer. Senti o meu estômago contorcer-se, enquanto ouvia o silêncio que do outro lado da linha se ouvia.
— I’m sorry, Jere… Maybe we should hang up, and we…
No… — comentou. — I’m ok. You’re pissed off… I understand! And I’m sorry.
— I… — encostei o telemóvel à orelha e falei mais baixo. — I’m sorry… I-I really like you, but this… I had no idea you were…
How glad I am to know you like me… — riu-se. — I like you too, pumpkin’…
— Don’t call me that. It’s nervous racking! And I…
— Mary… — chamou-me. — Can we talk tomorrow night?
— Hmm… Yes… I guess. I’ll ring you…
— No need, honey… I’ll pick you up at 8… — comentou.
— You’re in Italy…
I know! I’m coming back to London sooner than I thought.
— Wish we could meet today — disse.
Is it that bad around there?
Enchi o peito cheio de ar. Olhava para elas, nem sequer isso já me retribuíam.
— Let me talk to them…
— No, Jere… It’s my mess!
— How come it’s your mess? — inquiriu.
— Long story…
— I have all night tomorrow… — comentou com sarcasmo.
— I hope I can do more than talking… — comentei.
Jeremy riu-se.
— You’re so naughty…
— I know… Anyway, tomorrow at 8?
— Yes, babe.
— Ok, we’ll talk tomorrow.
— I miss you, honey…
— See you.

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Re: Building Fences [+18]

Mensagem por Fox* em Qua Nov 07, 2012 4:51 pm

Bem, eu tenho de admitir que se a minha tia/irmã/amiga/avó/mãe/outro membro da família me viesse dizer que namorava um ator (que por acaso não sabia que era ator) e que, também por acaso, gostava de trabalhar na construção civil, também não acreditaria! Tipo, duh! xD
Mas a situação deve ser mesmo má para a Mariana! Nem a própria família lhe deu o benefício da dúvida... Cruel!
Ah, mas vão engolir essas ideias todas quando ele aparecer à frente delas...!

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Re: Building Fences [+18]

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