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O lado cinzento

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O lado cinzento

Mensagem por Karinchan em Sab Jun 01, 2013 7:26 pm

Resumo: 31 de Outubro de 1981: Voldemort morreu ao assassinar Harry Potter, o bebé que destruiu o poderoso bruxo das trevas. Como o mundo mágico irá reagir quando descobrir, 13 anos depois, que Harry Potter não está só vivo, como está sem qualquer interesse no mundo deles? AU, com Lily e James vivos..

                                                                         
Prólogo:

 Prólogo

Eu nunca fui uma pessoa muito emotiva… ou melhor, uma pessoa que demonstrasse muito as suas emoções mas observar a minha irmã, a única pessoa que sempre foi verdadeira para mim, a ser agredida foi demais e foi sem dúvida, esse ponto que fez a minha vida mudar completamente.
Passei de uma criança sem direitos para uma criança injustiçada, com demasiado azar na vida para ser real. Mas eles acreditavam, realmente, que eu achava que os meus pais me tinham perdido? Qual era a probabilidade de em 13 anos eles não me encontrarem? Eram bruxos, tinham poderes especiais, conseguiam fazer explodir coisas, desaparecer e tanta, mas tanta coisa, que achavam mesmo que eu me acreditava nisso? Se eles agora estavam felizes por me ver não era porque sempre gostaram de mim… não, era porque precisavam de mim e esse motivo ficou bem claro quando descobri o que era eu para o mundo bruxo.
Harry Potter, o salvador, o escolhido, a pessoa que fez o impensável, ao sobreviver a maldição da morte e que agora era mais uma vez precisa devido ao retorno do Voldemort, mais conhecido por: Aquele-que-não-deve-de-ser-nomeado.


Capítulo 1:

1. Sonhos nada perfeitos



Cinzento- O cinzento simboliza a ressurreição, mas também a dor, o luto e os estados de espírito de tristeza e melancolia.
O cinzento não é uma cor fria nem quente é  um meio termo e uma espécie de estado intermédio, um permanente estado de indecisão, imprecisão e evolução.

Infopédia



Pelo bem ou pelo mal, o evento que claramente mudou a minha vida, foi a descoberta que os meus pais biológicos estavam vivos. Eu sempre pensei que eles estivessem mortos e nunca pensei muito sobre o que poderia acontecer caso isso não fosse verdade.
A maioria das crianças no orfanato sonhava em ver os seus pais, em finalmente sair dali e ser tratado como uma criança especial, em vez de ser só mais um, por muito que fosse bem tratado. Era impossível, cinco pessoas darem a atenção necessária a 30 crianças e isso fazia-os sonhar com os seus pais perdidos, que iriam retornar com lágrimas de felicidade por finalmente estarem lá. Mas isso NUNCA acontecia e eu via crianças retornarem ao orfanato porque os seus pais adoptivos descobriam que afinal ter crianças era trabalhoso, retornarem porque simplesmente não se adaptavam com os filhos ou retornarem, por simplesmente, não se conseguirem adaptar a uma casa nova. Via crianças ficarem adultas em questão de meses, enquanto perdiam o brilho no olhar por estarem longe da sua família biológica. Via bebés que só choravam, transformarem-se em crianças com as mais diversas personalidades. Até que parei de ver porque eu, uma criança que já tinha 10 anos, tinha sido finalmente adoptada por um casal que parecia adorável, com o seu sorriso amigável, os seus olhos brilhantes cheios de vida e um carisma que fazia as pessoas simpatizarem com eles. Eram pessoas da classe média, que aparentemente não tinham problemas financeiros, sendo ele um funcionário de um banco e ela uma autêntica dona de casa e a minha vida com eles seria aparentemente perfeita.
E não vou mentir, ela foi… durante os primeiros meses.
Eu tinha atenção e cuidados sobre mim que eu nunca tive antes, fazendo-me inclusive descer as minhas defesas e começar a abrir-me com eles. Sorrindo, participando das brincadeiras e, principalmente, tratando aquela menina de cabelos loiros, olhos azuis e sorriso angelical, como se fosse verdadeiramente a minha irmã, amando-a acima de todas as outras coisas. No entanto, o improvável, na rotina que já tinha dada por garantida, aconteceu. O marido, o homem perfeito da sociedade, devia ter feito alguma coisa que fez a minha “mãe” desconfiar que ele a traía porque cada dia ela estava mais paranóica, desconfiada e as discussões entre os dois eram cada vez maiores. Um ano passou-se nisto, onde eles cada vez mais se fechavam no seu mundinho de discussões e se esqueciam da sua filha biológica e de mim. No entanto, enquanto eu estava habituado a ser ignorado, ela não e ficava cada vez mais fechada e infeliz. E foi ao fim desse ano, que a minha vida começou a tomar todos os passos para eu estar onde estou…
Ela, habituada a ter atenção, cheia de energia com os seus 8 anos, fez com que eles lhe dessem atenção obrigatoriamente. Durante a noite, depois de ir dormir, ela decidiu fugir de casa mas sem intenções de fugir para sempre e, por isso, fez barulho suficiente a sair de casa e fechou a porta com tanto barulho, que eu dei um salto da cama e fui espreitar pela janela, para ver o que estava a acontecer. Quando a vi ali, a andar, a olhar constantemente para trás, não pensei e corri atrás dela. É claro que os pais deram por nós quando ainda nem chegámos à estrada e o sermão que levamos foi um que eu nem me quero lembrar hoje. No entanto, o mal estava feito e a desconfiança agora para mim, o causador do comportamento rebelde da filha perfeita fê-los ser mais ásperos para mim, tratando-me como se fosse um animal e não uma criança. Já nem recebia um bom dia de manhã e tudo o que fazia era visto com desconfiança, não se acreditando em nada do que eu dizia. Afinal, eu era o rufia, a criança adoptada com os comportamentos que aprendi no orfanato, a tentar destabilizar a segurança de casa porque era só isso que eu conhecia. Nessa altura pensei mesmo que me iriam voltar a entregar como um brinquedo que já não tinha uso, mas um tempo mais tarde, percebi porque preferiram fazer da minha vida um inferno, em vez de me libertarem.
Eles eram um casal perfeito, viviam numa casa perfeita e tinham que ter a família perfeita. Logo, nunca entregariam uma criança porque isso não era uma acção perfeita.
Então eu fui vendo de ano para ano a situação deles piorar. Se antes havia amor naquela relação agora não havia nada que defendesse esse sentimento e isso fez com que eu estivesse a assistir a mais uma discussão deles. O meu pai, o Sr. Smith, gritava com a minha mãe a perguntar porque é que ela não tinha feito o jantar às horas combinadas e eu via a minha irmã, a minha pequena e angelical irmã, a chorar e a fazer o que nunca deveria ter feito… pôr-se no meio deles.
- Não discutam mais. – Ela disse, pondo-se à frente da mãe, enquanto olhava para o nosso pai com os olhos chorosos. – A mãe demorou mais tempo por minha causa.
Os olhos castanhos do meu pai faiscaram, quando ouviram o que ela disse e ele virou-se para mim, mais uma vez, levando as culpas.
- Rapaz! Quantas vezes tenho que te dizer para parares de importunar a nossa filha? Pára de lhe encher a cabeça com esses planozinhos...
Eu só levantei uma sobrancelha, inquisidor sobre o que ele queria dizer e senti o resto da esperança de que a minha mãe me defendesse, desaparecer, quando a vi só pôr uma mão em cima do ombro da Rose, protectora. Eu não fazia realmente parte daquela família e isso, estranhamente, doeu mais do que podia pensar… Porque é que eu alguma vez se quer sonhei que aquela era a minha família?
Acordei para o que ele estava a dizer quando o vi a levantar uma mão mas já era tarde de mais. A mão atingiu-me com força a bochecha e eu fiquei a olhar para o lado, directamente para o olhar assustado da Rose que se encolheu mais contra a nossa mãe, ou melhor, a mãe dela.
- Louis, já chega! O rapaz precisa de apanhar uma lição eu concordo – eu ouvia-a dizer. Ah, a ironia… para concordarem precisavam de estar a aleijar alguém… - mas o que vamos dizer se ele aparecer com nódoas negras?
Eu senti uma gargalhada sair da minha boca antes que conseguisse conter e isso foi o meu erro. Como é que eu tinha alguma vez pensado que isto era uma família perfeita e eles realmente gostavam de mim… que pelo menos ela gostava de mim? Ela que estava só preocupada com o que os outros diriam.
- Ainda te ris! – Ouvi-o rugir e surpreendi-me quando me deparei com ele a agarrar-me pela gola e a arrastar-me pela casa até ao meu quarto. – Eu vou-te ensinar uma lição.
E a verdade foi que ele realmente me ensinou uma lição… uma lição de como me aleijar sem fazer nódoas negras visíveis e uma lição de que os adultos só se interessavam por uma coisa e não era pelo bem-estar das crianças…
Era pelas aparências!
E aprendi também a lição mais importante da minha vida… eu não tinha realmente família! Aquele homem não era o meu pai! O homem que me abandonou ou simplesmente morreu, também não era o meu pai. Se eu tinha família ela chamava-se Rose Scout.
Esse acontecimento foi durante os meus 12 anos de idade e foi a primeira vez que eu servi como sítio para descarregarem a raiva. Eu, sinceramente, acredito que eles até não fossem más pessoas, afinal eles trataram-me bem durante um período de tempo e notava-se que eles até gostavam da Rose mas mesmo assim, nunca na vida os iria perdoar pelo que me fizeram durante estes três anos. Foram agressões, ameaças e, principalmente, não tomavam conta da Rose, a sua filha biológica. Foi por causa dela que eu não fugi de casa visto que sabia que assim iriam poder descarregar a raiva nela.
Eu era forte, ela era só uma criança.,,
Por isso, aguentava e tentava não pensar muito nisso… pelo que tinha visto no orfanato eram todos assim… eles eram só mais um que nos viam como uns animais, não como umas crianças e, apesar de tudo, eles alimentavam-me e davam-me coisas com qualidade. Tudo para manter as aparências mas mesmo assim davam. E isso foi o suficiente para eu me manter lá, a ouvir as discussões, a servir como meio de descarregar a raiva e, principalmente, a servir como apoio para a Rose. Para o resto da sociedade, eu era um aluno quieto mas brilhante, uma vez que tinha das melhores notas e apostavam em mim para ser uma pessoa com um grande futuro. Os meus “pais” apoiavam-me sempre, dizendo que iriam fazer tudo para me darem o que pudessem mas eu sabia a verdade. Se queria continuar a estudar teria que trabalhar e, por isso, comecei a fazer part-times. Às vezes simplesmente a servir de jardineiro, outras ajudando numa loja. As pessoas conheciam-me e caso precisassem de alguém, eu estava lá. Os meus “pais” sorriam para os meus patrões e apoiavam a causa, dizendo que aquilo era o que me faria um homem e que este dinheiro estava a ser guardado todo para a faculdade. Nesse aspecto, acredito que tivessem a falar a verdade, afinal, bens materiais era uma coisa, a única coisa, onde não me podia queixar.
E fui me mantendo assim, a ver a minha irmã crescer, até aos 11 anos que foi quando o mais improvável aconteceu e eu fiz o impensável… pela primeira vez, em 4 anos, eu respondia ao Louis.
O que aconteceu foi a coisa mais estranha de sempre… a minha irmã fazia 11 anos e como em todos os dias em que fazia anos, se levantou feliz e foi a correr para a cozinha. Os pais dela, lembrando-se da data sorriram e abraçaram-na enquanto eu ficava simplesmente no canto da sala, a sorrir pela felicidade dela. Enquanto os deixei para tomar pequeno-almoço em família, aproveitei e fui buscar as cartas. Surpreendi-me quando vi uma carta para a minha irmã e a pensar que era de algum amigo dela, levei para a mesa. Quando cheguei à cozinha, perfeitamente arrumada, e quase tão grande quanto a minha do orfanato, vi os meus dois pais adoptivos olharem para mim com desconfiança à espera que eu fizesse alguma coisa de mal, para terem uma desculpa para me mal tratarem, mas eu simplesmente sorri e olhei para a Rose com o meu melhor sorriso:
- Rose, recebeste uma carta. – Vi os olhos dela brilharem e saltar da mesa com um salto enquanto corria até mim. Eu não consegui evitar gargalhar enquanto peguei nela, contra o seu gosto e a rodei. – Feliz aniversário pequena. – Deixei-a finalmente pousar no chão e dei-lhe um beijo na testa. – Está aqui a tua carta. – Disse entregando-lhe a carta.
Vi-a abrir a carta com rapidez e a mãe dela levantar-se, enquanto lia a carta por cima. Vi-a contrair a sua bonita cara até se notarem as rugas de expressão, ficando com a testa toda enrugada. Os seus olhos azuis prenderam-se em mim com uma expressão tão furiosa que eu fiquei a pensar o que tinha feito de mal. O marido dela, ao ver o mesmo que eu, levantou-se também, olhou para a carta, leu e antes que eu reparasse estava outra vez a ser agarrado pelo colarinho e mandado contra a parede.
- Qual-foi-a-tua-ideia-de-mandares-esta-carta? – Ele sibilou entre os dentes, uma fúria que eu apesar de já estar habituado me fez contrair.
- Não fui eu. – Eu murmurei fracamente e olhei para a mulher dele, na esperança de que ela me ajudasse. Eu já estava habituado a isto mas à frente da Rose não, principalmente, no dia de aniversário dela.
A Serena só olhou para mim, com um olhar triste enquanto fazia um gesto negativo com a cabeça. Olhou para a Rose e pegou-lhe na mão:
-Rose, querida, o teu pai precisa de falar com o teu irmão. Essa carta foi só uma brincadeira. – Ela disse a última parte mandando-me um olhar ameaçador. O que raio estava escrito naquela carta para eles reagirem assim?
Ela parou de olhar para a carta, com os seus olhos arregalados fixos em mim. Olhou de mim para o pai dela, que me desagarrou rapidamente ao ver isso. Deve ter percebido o que iria acontecer porque simplesmente negou com a cabeça e olhou para mim com um sorriso:
- Não quero! Quero estar com o Harry!
Eu fiz um sorriso involuntário para ela mas vi que esse foi o gesto errado porque senti o meu braço ser agarrado pelo Louis com força. Ele queria que eu a mandasse embora.
- Eu já lá vou ter. – Murmurei, tentando sorrir mesmo tendo o meu braço a ser comprimido. – Eu prometo.
Ela olhou para mim e os seus olhos azuis fixaram-no no pai dela, cheios de palavras não ditas, mas mesmo assim foi, mais porque tinha sido puxada pela mãe do que porque queria. Ainda vi o olhar dela para mim, antes de sair pela porta com receio.
- Então rapaz – o Louis disse, com os seus olhos a brilharem ameaçadores – não me queres contar nada sobre a carta?
Eu encolhi-me mais uma vez, ao ouvir o tom dele. Ele usava aquele tom sempre antes de me bater.
- Eu só a fui buscar. Juro! – Apressei-me a explicar mas ele só sorriu.
- Esperas mesmo que eu me acredito que uma carta daquelas iria parar nas tuas mãos por acaso? A gozar com a minha filha? – Ele rugiu agarrando-me pelos ombros e olhando directamente nos meus olhos verdes. – Eu já te disse para a deixares em paz é assim tão difícil? Agora, tinhas mesmo que vir com mentiras? Mentiras onde a única pessoa que se iria acreditar era ela! Porque raio foste fazer isso?
Eu olhei para ele atentamente, tentando descobrir o que é que a carta dizia para eles reagirem assim.
- Mas não fui eu… o que é que estava lá a dizer? Alguém estava a ameaçar a Rose?
Ele soltou-me num gesto brusco e só abanou a cabeça, não se acreditando numa única palavra:
- Eu juro que tentei cuidar de ti… gostar de ti mas tu não deixas! Como esperas que alguém possa gostar de ti fazendo estas coisas, hã? Inventando coisas, destabilizando uma família, fazendo partidas para nós nos acreditarmos que coisas estranhas acontecem e ainda por cima a mandar cartas daquelas! Que mal te fizemos? Nós não te demos comida, as coisas que precisavas? O que querias mais, o QUÊ? – Ele gritou abanando-me pelos ombros e eu estava demasiado chocado com as palavras dele para reagir.
A minha não reacção deve ter sido uma má atitude porque ele largou-me mais uma vez mas desta vez não ficou a olhar só para mim, deu-me um murro tão forte que eu bati contra a parede e fui escorregando por ela, completamente desnorteado.
- Este foi a última coisa que eu vou ouvir de ti! Se fizeres mais uma, só mais uma, eu juro que te vou prender, nem que tenha que inventar provas para fazer isso! – Ele rugiu olhando para mim e dando-me um pontapé. Eu solucei com o embate e agarrei as pernas, fazendo uma concha sobre mim. Assim eu sabia que as maiores partes do meu corpo estavam protegidas e pelo menos ninguém notaria as nódoas negras.
Eu não sei quanto tempo fiquei ali, enrolado sobre mim mesmo, a ouvir os insultos dele enquanto mais uma vez eu me imaginava na minha casa de sonho, ao lado de uma lagoa, a ver alguns patos andarem por lá e a sentir o vento a bater-me na cara, abstraindo-me completamente do que estava a acontecer ao meu redor. No entanto, este estado foi interrompido por um grito fino e quando abri os olhos, vi as lágrimas nos olhos da minha irmã, ofegante pela corrida que fez e uma raiva tão grande para o pai que até eu tremi só de olhar para eles.
- Não acredito! Pai! Pára já!
E como uma pessoa bem mandada ele parou, olhando para ela chocado, sem saber o que fazer. Desde a primeira vez que me batearam, evitaram ter algum tipo de violência para mim com ela perto. Ser descoberto pela filha não deve ter sido uma coisa boa de acontecer. Eu ainda me tentei levantar mas estava demasiado fraco para isso, tendo que me limitar a ouvir a conserva deles, encostado à parede.
- Rose, foi ele que te mandou a carta! Eu só estava a ensinar-lhe uma lição!
- A carta é real! – Ela choramingou. – Eu sei que é! E pára de bater ao meu IRMÃO! – Ela gritou, correndo até mim e abraçando-me pelos ombros.
Eu acredito que se alguém tivesse visto aquilo, seria uma visão estranha. Um rapaz de 14 anos, provavelmente sangrento e com aspecto esfarrapado, a ser abraçado por uma menina de 11 anos, que se virava para o pai que só olhava para aquela situação como se não se acreditasse.
- A carta não é real! – Ele rugiu. – Eu já te disse que magia não existe! – Vi-o fechar a mão e por um momento desejei ter forças para me pôr à frente da Rose.
- Existe sim! Eu sei o que fiz! Queres ver? – Ela perguntou, esticando-se toda e enfrentando o pai que era o dobro do tamanho dela.
Eu tentei usar todas as minhas forças para me levantar, querendo impedi-la de fazer o que estava prestes a fazer, mas mal pus o braço no chão para me apoiar a subida, senti-o fraquejar e bati mais uma vez contra a parede. Vi nesse meio tempo a mãe dela chegar e abrir a boca, assustada, mas o mal já estava feito e ninguém conseguiria parar a Rose. Ela esticou o braço e o prato que ainda estava na mesa, atrás do pai dela começou a flutuar. Eu já estava habituado a essas demonstrações e apesar de nunca perceber o que aquilo queria dizer, sabia perfeitamente que o pai dela não gostaria nada.
Ele arregalou os olhos, olhou para ela como se a tivesse visto a primeira vez e nem a mãe dela conseguiu chegar a tempo de impedir a chapada que ele lhe deu, com tanta força que ela caiu sobre mim.
-  NUNCA.MAS. NUNCA. MAIS FAÇAS UMA COISA DESSAS OUTRA VEZ! – Ele gritou, olhando para nós. – Eu não sei o que fizeste à minha filha mas retira já o quer que tenhas feito!
Eu abri a boca, tentando protestar ou pelo menos a proteger mas não saiu som nenhum. Senti algo dentro de mim revoltar-se quando ele olhou outra vez para ela com o mesmo olhar que me mandava.
Ódio.
Eu não poderia deixá-la passar pelo mesmo que passei e, por isso, tentei e consegui levantar-me. Encostei-me à parede, tentando usar todas as minhas forças para não cair e sabia que estava a ser mal sucedido mas eu precisava de chamar a atenção para mim, não para ela. Ela não aguentaria uma coisa dessas.
- É verdade Rose. – Eu murmurei e senti um coágulo formar-se na minha boca, provavelmente sangue, se o sabor metálico queria dizer alguma coisa. – A culpa é minha. – Virei-me para ele que ainda estava preso a olhar para a Rose. – A culpa não é dela, por favor, deixa-a.
Ele olhou para mim, mais uma vez e eu fechei os olhos sabendo o que viria e não me surpreendi quando mais uma vez bati contra a parede pelo impacto do murro. As minhas pernas fraquejaram e quando dei por mim estava deitado no chão, com a cabeça encostada a ele e a minha visão a ficar completamente nublada.
- Não! Larga o Harry! Ele está só a proteger-me!
- Tu és uma anormal! Eu não sei o que ele te fez mas eu vou ter que te ensinar a ser diferente dele! – O pai dela murmurou e eu forcei-me a focar os olhos… isto não podia estar a acontecer.
O Louis levantou a mão, para bater mais uma vez à Rose, que estava em pé, outra vez, e quando estava quase a acertar na Rose algo aconteceu porque ele milagrosamente caiu para trás. A Rose soltou um gritinho e o Louis levantou-se mais uma vez, mais irado do que alguma vez eu tinha visto e eu sabia que a Rose não iria sair nada bem do confronto.
Era os anos dela porque eles não podiam ser uma família feliz só por aquele dia?
Ela merecia e além do mais ela não pedia muito. Só um bolo e um dia com a família, onde iriam provavelmente passear para o parque. Porque não podiam fazer isso pelo menos por um maldito dia! Só um!
E, por isso, não sei onde arranjei forças mas levantei-me mais uma vez e pus-me à frente dela, no exacto, momento em que ele lhe ia acertar com um murro, levando-o eu na barriga e fazendo com que eu mais uma vez me segurasse contra a parede.
- Não toques nela. – Eu mais balbuciei do que qualquer coisa mas o olhar que lhe mandei deve ter passado a mensagem porque ele encolheu a testa e encerrou o maxilar.
- Este assunto não é sobre ti. Sai daqui! – Ele tentou empurrar-me mas a força que me estava a manter em pé, fez com que eu continuasse ali mesmo ele estando a usar toda a sua força.
- Mãe fá-los parar!
Eu ouvi o grito da Rose mas estava demasiado concentrado em manter o meu equilíbrio naquela guerra com o Louis para lhes prestar atenção. Eu não podia e não iria deixá-lo tocar mais nela.
- Não vais magoar mais a Rose, nem que seja a última coisa que faça.
Ouvi um baque de alguém a cair e, por instinto, estava para olhar para o lado mas o murro que senti contra o meu braço fez-me concentrar só nele. Se era guerra que ele queria, seria guerra que ele teria. Desencostei-me da parede, com as forças que estavam a aparecer do nada e consegui dar um murro com sucesso na cara dele, fazendo-o cambalear e olhar chocado para mim.
- Parem!
Mais uma vez a Rose gritava do meu lado esquerdo mas mais uma vez eu a ignorava. Eu não queria e não poderia a deixar em perigo. Iriamos fugir de casa e nunca mais aparecer naquela casa de malucos nem que para nos sustentar eu tivesse que roubar.
Foi com esse pensamento que eu tentei agredi-lo mais uma vez mas ele protegeu-se e empurrou-me com tanta força que eu desta vez perdi as forças e fiquei no chão, tonto pela batida contra a parede e pelo choque. Só conseguia pensar que iria ficar muito machucado quando reparei que nesse intervalo de tempo, ele tinha agarrado um prato e me ia mandar com ele à cabeça. Eu não tinha forças para me proteger, até as que me tinham aparecido milagrosamente desapareceram e sentia cada bocadinho do meu corpo doer, por isso, só fechei os olhos e esperei o impacto mas ele nunca veio. O que veio foi um grito com tanta dor que eu abri os olhos e vi a minha irmã, a minha pequena irmã, cair no chão, com sangue pela sua cabeça toda.
Posso garantir que na minha vida nunca senti tanta raiva, tanta impotência e que só desejava mesmo que eles todos morressem. Algo dentro de mim mudou enquanto observava a Rose, sem lançar mais nenhum som, cair no chão ao meu lado com cacos dos vidros espalhados por todo o chão. Estava tão preso nela que nem reparei o olhar chocado do Louis. Tudo o que via era Rose, o meu pequeno e delicado anjo, magoado… por minha causa e dele.
Virei-me e a minha cara para ele foi com tanta fúria que ele andou um passo para trás, sem saber o que fazer. Eu estava com tanta raiva, tanta vontade de lhe bater, de o agarrar pelos ombros e mandar de um lado ao outro da sala como se ele fosse uma marioneta que fiz o que nunca pensei em fazer. Gritei, gritei com os meus pulmões todos, num grito de guerra, que só parou um bom tempo depois. Não sei o que esperava que acontecesse com aquele grito só sei o que não esperava, que foi exactamente o que aconteceu. Os vidros da cozinha partiram-se todos em sintonia, o Louis foi lançado para trás contra a mesa e desmaiou e a última coisa que eu vi antes de adormecer, foi o fogão começar a arder… Eu sei que iria morrer ali mas pelo menos aquele desgraçado iria comigo… só esperava que pelo menos a Rose sobrevivesse com a magia dela por um milagre. Foi o meu último pensamento antes de cair desta vez definitivamente contra a chão, sem forças, não vendo entrar um grupo de pessoas com roupas estranhas, sendo que a liderar o grupo estava nada mais, nada menos do que uma cópia minha, que mais tarde saberia ser o meu pai… o meu pai biológico.




Última edição por Karinchan em Sex Ago 02, 2013 5:44 pm, editado 4 vez(es)
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Re: O lado cinzento

Mensagem por Marfire em Seg Jun 03, 2013 7:17 pm

Devo dizer desde já que toda a ideia inicial atraiu-me imediatamente. Tive a imediata vontade de começar eu a digitar essa história, contudo roí as unhas durante trinta minutos e acalmei. Sinceramente, quem me dera que essa ideia tivesse sido minha e amaldiçoo-te trinta vezes por teres sido tu. OnDepressed2
Sejamos sinceros, a tua sinopse é a perfeita antítese da história original. Afinal, o Harry Potter não quer saber do mundo dos feiticeiros para nada e os seus pais biológicos, que tão misteriosos são no original, estão vivos.
Nunca associaria a saga Harry Potter com a escrita na primeira pessoa, porque dá um ar tão íntimo a uma história e a saga do feiticeiro mais famoso do mundo é tão imensamente abrangente...
Ainda assim, gostei. Gostei da tua escrita e gostei deste início.
Keep going!
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Re: O lado cinzento

Mensagem por Karinchan em Qui Jun 13, 2013 4:05 pm

A ideia é minha muahaahahahahah! 
Na verdade, esta ideia nasceu da vontade de escrever uma fic que tivesse como um dos pontos principais, a relação do Harry com os pais e acabei por criar esta ideia onde o Harry não foi criado pelos pais e está de certa forma traumatizado. 
Eu, pessoalmente, também nunca associei muito o Harry Potter à primeira pessoa mas quis levar esta fic como um desafio e como nunca tinha escrito antes na primeira pessoa, arrisquei.
O segundo capítulo já está aqui e se parar de ser preguiçosa daqui a 3 dias ou assim ponho o próximo que a fic até já está bem desenvolvida. Obrigada pelo comentário ;).
Capítulo 2:

2. Magia


“Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.”


Friedrich Nietzsche



Acordei com uma dor de cabeça que me fez continuar de olhos fechados mesmo tendo despertado. Não podia dizer que já não estava habituado, afinal ter dor de cabeça era recorrente devido ao Louis mas esta dor era estranha… doía exactamente onde tinha a minha cicatriz com a forma de um raio na testa e tive a estranha vontade de lhe mexer mas algo me impediu.
Não foi uma força física mas um instinto.
Ter vivido uns bons anos numa casa onde a mínima actividade minha levava-me a ser espancado fez-me ser uma pessoa cautelosa e, por isso, quando ouvi um suspiro ao meu lado, eu tive uma vontade imensa de me encolher todo. Se estavam no meu quarto, das duas uma, ou eu iria levar já um sermão ou então eu tinha ficado mesmo mal e eles estavam para confirmar que eu não tinha nenhum ferimento visível. De qualquer das formas isto queria dizer que eu tinha feito alguma coisa de mal e eu, realmente, não me lembrava.
Tentei pensar com mais força no dia anterior mas a pressão na minha testa continuava a fazer força, impedindo-me de raciocinar.
Quando senti uma mão sobre a minha, que estava pousada ao lado do meu corpo, senti todos os meus alertas virem ao de cima e ter uma vontade de me afastar com força dessa pessoa. A mão era suave e parecia fazer uma ligeira caricia, como se me tentasse dar força. Porque é que alguém me faria isto? Mãos suaves e pequenas só poderia ser a mãe da Rose… agora, sabendo a quem elas pertenciam só faltava descobrir o motivo.
Porque é que não me conseguia lembrar?
Raios, era mais fácil ser corajoso e abrir os olhos mas o meu corpo dolorido não me fazia ter muita vontade de mostrar que estava acordado para voltar a sofrer.
Ouvi passos e senti o meu corpo arrepiar-se ao pensar que era o Louis… se fosse ele, então é que eu seria espancado, até como bom-dia.
Suspirei e abri os olhos, espantando-me quando vi um tecto branco.
O tecto do meu quarto era ligeiramente amarelado.
Inclinei a cabeça, enquanto subi o meu torço um pouco na cama e vi com espanto um idoso, com uma barba gigante, a cara enrugada e uns brilhantes olhos azuis, que conjuntamente com o seu sorriso, o faziam parecer completamente inofensivo. No entanto, o seu fato colorido estranho, que incluía um chapéu pontiagudo fizeram-me duvidar da senilidade do senhor. Ou então da minha, por estar a ver uma pessoa tão estranha…
Ouvi um pequeno “Ah” de espanto e olhei assustado para o lado para a pessoa que estava a segurar a minha mão. Era uma pessoa que apesar de me parecer ligeiramente familiar, nunca a tinha visto antes. Ela era bonita, com um cabelo ruivo ondulado, uma cara fina, uns lábios finos e um nariz pequeno e delgado. Apesar da sua face ser muito bonita para uma mulher que aparentava ter mais de 30 anos, o que me prendeu foi claramente os seus olhos verdes vivos, que só tinha visto em mim, até aquele momento.
Ela abriu um sorriso fraco quando me viu, no entanto, as lágrimas soltas que caíam nos seus olhos mostravam que ela estava a sofrer. Ela soltou a minha mão para limpar as lágrimas e eu vi-me a suspirar, não conseguindo desviar-me daquele olhar que parecia tão doloroso mas tão feliz ao mesmo tempo, que simplesmente me fascinava.
Dei por mim a puxar o resto do meu corpo para cima para me sentar na cama e só despertei do meu estado, quando senti todas as dores outra vez. Pelos vistos desta vez tinha aleijado a minha perna, que parecia estranhamente sensível, alguma costela, se a impressão a respirar queria dizer alguma coisa e o meu braço que quis fraquejar, quando usei a minha força para me puxar. Contudo, o mais forte de tudo ainda era a minha cabeça. Desta vez não me controlei e mexi na cicatriz com a minha mão do meu braço direito, que era o braço bom que a senhora esteva a agarrar, segundos antes.
A cicatriz nunca me tinha doído antes, durante toda a minha vida, então porque é que ela parecia inflamada e me causava aquela dor de cabeça que me fazia querer voltar para dentro da cama e me esconder? No entanto, não podia fazer isso. Algo estranho tinha acontecido para estar ali, no que parecia uma sala de um hospital, se tivesse que arriscar, com pessoas estranhas. Será que eles tinham abusado tanto que eu tinha ido parar aquele sítio estranho para me curarem?
- Estás a sentir-te bem? – Perguntou o idoso, fazendo-me despertar da análise que estava a fazer ao local para ver se sabia que lugar era aquele. Parecia uma sala de hospital, com macas (estava deitado numa), alguns aparelhos estranhos e umas cortinas que dividiam a maca. Num armário estavam uns frascos com cores estranhas que me fez duvidar a minha análise. Mas mesmo assim, uma sala de hospital era a minha melhor aposta.
- E-estou. – Murmurei fracamente e odiei-me por estar a mostrar fraqueza à frente daquelas pessoas que eu nem sabia quem eram. Mas como resposta à preocupação do senhor, retirei a mão da cicatriz.
A mulher fez um barulho estranho outra vez e eu vi-me mais uma vez preso naqueles olhos. Ela agora claramente chorava e tentava abafar o som, com as mãos na boca. Olhei mais uma vez para o idoso à espera de uma explicação.
- Eu não me apresentei pois não, Mr. Potter? – Ele perguntou com uma gargalhada e eu senti a minha cara contrair-se numa careta. Potter? Quem quer que seja que ele estava a pensar que estava a falar, não era claramente eu. Eu tentei abrir a boca mas ele continuou a falar, parecendo não perceber a minha confusão. – Eu sou Albus Dumbledore, director da escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts.
A minha única reacção foi piscar os olhos.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Ninguém fez barulho, nem aquela estranha mulher com os seus soluços.
Magia? Feitiçaria?
Ok, aquele homem era claramente maluco e se a crise de choro da mulher queria dizer alguma coisa, ela também era. Ou então estava a sonhar… sim, essa era uma boa hipótese. Belisquei-me e senti-me desiludido quando não aconteceu nada.
- Eu não me chamo Potter, deve de estar a fazer confusão com alguém. – Eu murmurei, tentando criar teorias para o que estava a acontecer. – Mas tenho que admitir que estou confuso sobre o porquê de estar aqui. – Olhei pelo canto do olho para a mulher e vi que ela estava completamente absorvida na minha imagem. Não duvido que durante todo aquele tempo, ela não tenha olhado sequer para o senhor que se autodenominava, Dumbledore. Era como se nunca me tivesse visto antes e eu fosse a coisa mais fascinante do mundo.
O Dumbledore perdeu toda a sua felicidade aparente e ficou com uma cara séria, como se odiasse o que estava para dizer
- Mr. Smith, então, se não estou em erro?
Eu assenti com a cabeça e a mulher agarrou mais uma vez a minha mão fazendo-me olhar para ela. Ela tinha parado de chorar, mas ainda continuava com lágrimas na face e toda a sua cara estava distorcida numa careta de dor.
- Harry, desculpa. – Ela murmurou tão baixo que mais pareceu um suspiro.
Harry? Potter me chamou o outro no início? Porque é que isto me parecia familiar. A face dela e até a face do Dumbledore, se me concentrasse com força o suficiente.
Harry Potter.
Albus Dumbledore.
Magia. De repente uma imagem da minha cozinha a arder veio-me à cabeça e eu olhei assustado para a mulher.
Ela agarrou ainda com mais força a minha mão e isso fez-me ter estranhamente outro flash, de o Louis a gritar, a minha irmã a pôr-se no meio…
Não!
Ela a levar com o prato na cabeça.
NÃO!
Ela a cair no chão, numa poça de sangue e o fogo por todo o lado.
NÃO! A MINHA IRMÃ!
Olhei para ela outra vez e afastei-me, dizendo a única coisa que me vinha à cabeça:
- A Rose… por favor, digam-me que a Rose está bem! – Eu olhei freneticamente à minha volta, à espera que ela saltasse de algum lado mas não via nada. Parei para olhar para os dois e a mulher abriu a boca para falar mas um frasco de dentro do armário, explodiu, com um som tão alto que me impediu de ouvir.
Eu senti todo o meu corpo tremer ao pensar que eles não estavam a responder porque ela não estava bem e de repente até as janelas que estavam naquela sala explodiram… a minha irmã… onde é que estava a minha irmã… por favor, que não lhe tivesse acontecido nada.
Ouvi uma troca de palavras entre os dois mas não consegui perceber com tanta coisa a explodir. Só ouvi as palavras “poção…tanta magia… impossível… desculpa” e a última coisa que me lembro é de ver uma luz vermelha  e sentir a escuridão se abater contra mim outra vez.
- Por favor… - ainda consegui murmurar. – Rose
***
Quando voltei a acordar, estava demasiado cansado para levantar sequer a cabeça, no entanto, a minha mente estava ativa. O lado bom desta situação era que eu não sentia as dores que sabia que devia de sentir se as minhas lembranças do outro despertar queriam dizer alguma coisa. O lado mau era que eu me lembrava de tudo, incluído do porquê da minha aflição. O que tinha acontecido à Rose? Foi com esse pensamento que abri os olhos e nem me espantei ao ver que tinha outra pessoa desconhecida a olhar para mim. Era uma pessoa com mais idade que a mulher que esteve antes, tendo já alguns cabelos brancos entre os seus cabelos castanhos e possuía algumas rugas, que se notaram quando ela sorriu para mim, maternal. No entanto, os seus olhos castanhos ficaram fixos em alguma coisa ao meu lado enquanto ela murmurava alguma coisa.
Eu suspirei, por ter outra pessoa estranha, mas mesmo assim fui directo ao assunto:
- A-a Rose?- Eu perguntei, sentido a minha garganta seca. Ela pareceu ler os meus pensamentos porque pousou o pau que tinha na mão e deu-me um copo de água aos lábios, fazendo-me beber uns golos antes de me responder.
- Ela está bem, não te preocupes. – Ela murmurou, continuando a sorrir. Ela pisquei confuso, tentando absorver a notícia mas aquele ar maternal dela estava a fazer-me ficar confuso.
Eu tossi e tentei-me levantar mas não tinha força nos braços e ela pôr rapidamente a mão nos meus ombros enquanto me voltava a puxar para baixo.
- Querido, não te podes levantar. Estavas demasiado ferido quando vieste para aqui e as tuas últimas demonstrações de… - ela tossiu, parando de falar como se tivesse dito de mais. – Eu tive que te medicar por isso não vais conseguir levantar-te. Amanhã ou depois de amanhã já vais ficar normal. – Ela sorriu para mim mais uma vez e eu espantei-me ao reparar que ela parecia estar quase a chorar.
- A Rose está mesmo bem? Posso vê-la?
- Sim, está. – Ela assegurou-me. – Agora está a dormir, já é de noite como podes ver. – Disse apontando para as janelas onde se via que já estava realmente de noite. – Amanhã já vais poder falar com ela. Ela só tinha um ferimento na cabeça.
Eu estreitei os olhos não gostando da descrição dela. Só um ferimento da cabeça? A última coisa que me lembrava era ela a deitar sangue por tudo o que era lado!
- Ela estava muito ferida!
A enfermeira riu, para meu espanto. Porque raios estava a gozar com os pacientes assim?
- Se dizes que estava ferida foi porque não te viste. Ferimentos em todo o corpo, como é que fizeste isso rapaz?
Eu pisquei os olhos outra vez e quis não responder mas o ar sério que ela ganhou na conversa fez-me perceber que tinha que o fazer. Eu não iria dizer a verdade, isso eu sabia, se aquele fato de enfermeira queria dizer alguma coisa era de que caso dissesse a verdade eu era tirado dos meus pais adotivos e isso eu não deixaria acontecer. A Rose precisava de mim.
- Um conjunto de situações improváveis. – Murmurei simplesmente e fiquei espantado quando ela não disse mais nada sobre o assunto.
Houve um momento de silêncio onde ela tirou outra vez aquele estranho pau e começou a abaná-lo enquanto murmurava coisas. Será que eu estava num hospital de malucos?
- O que está a fazer? – Perguntei, passado um minuto, não aguentando a curiosidade.
- A ver como é que estás, claro! – Ela exclamou, como se tivesse dito alguma pergunta muito idiota e parou de repente, olhando-me como se nunca me tivesse visto antes. – Desculpa, sou a Pomfrey, a enfermeira da escola.
Escola? Isto não era um hospital? E porque estava numa escola?
- Onde é que estou mesmo? – Eu perguntei.
- Pensei que aquele idiota do Albus tivesse explicado. – Ela murmurou para si, olhando para mim outra vez com um sorriso, desta vez forçado. – Esta é a escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts e tanto tu como a tua irmã foram trazidos aqui devido aos vossos ferimentos. Não precisas de te preocupar com a casa, que o fogo foi apagado e ninguém se feriu. – Ela parecia querer dizer mais alguma coisa mas calou-se e ficou só a observar-me.
Ok, escola de magia e feitiçaria? Já o outro tal Albus tinha dito mas esta senhora também? E os ferimentos da minha irmã e meus? Onde é que estavam os pais da Rose?
- O que aconteceu? – O que eu realmente queria perguntar era o que vocês achavam que aconteceu mas tive que me contentar com esta pergunta.
- Alguém fez muita magia na tua casa e o ministério recebeu um aviso, mandando os seus aurores para lá, para averiguarem o que estava a acontecer.
Eu tossi mais uma vez, mais para ter tempo de organizar os meus pensamentos do que qualquer coisa.
- Ok, eu preciso de esclarecer uns pontos. – Eu tentei perguntar o mais calmamente possível, afinal se eles fossem malucos convinha ser cauteloso. - O que são aurores? E como o ministério recebeu um aviso de magia? E que raio de brincadeira é esta toda sobre magia?
Ela abriu a boca mais uma vez e parou ficando silenciosa.
- Eu vou chamar alguém para responder a todas as perguntas, pode ser?
- Porque é que não pode ser a senhora?
- Porque eu não sei o que tu sabes ou não. Aqui só há uma pessoa completamente informada e ela não fez claramente o que lhe era pedido, que era informar-te. Volto já.
E saiu deixando-me sozinho naquela divisão. Suspirei e olhei para o tecto tentando processar a informação. Eu tinha a má mania de não perguntar as dúvidas que tinha mas agora já eram demasiadas para me calar. Então, estava numa escola de magia? Isso era a piada do ano! E o que eram aqueles nomes estranhos?
Ouvi a porta bater mais uma vez e ela trazia consigo o senhor da outra vez, o tal Dumbledore que sorriu para mim mal me viu acordada.
- Estamos bem dispostos, Mr. Po-Smith? – Eu estreitei os olhos ao ver que ele estava quase a chamar-me de Potter outra vez.
- Tanto quanto uma pessoa que não faz a mínima ideia do que está a acontecer pode estar.
Ele sorriu e, estranhamente tirou uns rebuçados do bolso.
- Rebuçados de limão? – Perguntou fazendo-me franzir a testa e negar com a cabeça quando vi que ele ainda esperava uma resposta. – Certo, então primeiro de tudo eu preciso de me desculpar pelo meu comportamento anterior.  – Ele disse pondo um rebuçado na boca. - Eu pensava que tinhas algum conhecimento sobre o nosso mundo e agora já sei que não. Por isso, vamos de ter uma longa conversa onde eu vou explicar tudo. – Disse, puxando uma cadeira e sentando-se.
E tivemos realmente uma grande e longa conversa.
***
Pelos vistos havia um mundo paralelo ao meu mundo. Um mundo onde as pessoas usavam varinhas, chapéus pontiagudos e podiam fazer tudo com uma varinha. Para me convencer, o Director fez aparecer um esguicho de água e eliminou-o antes de chegar a mim. Se isto não fosse o suficiente para eu me acreditar, ele ainda transformou a cadeira que estava ao lado da minha cama numa poltrona, confortável, que foi onde ele se sentou depois de exemplificar isto tudo.
Quando o vi sentar-se lá, mais perto de mim do que qualquer coisa eu soube que vinha má noticia. O brilho no olhar que ele tinha desde que o conhecia, de repente desapareceu, e ele pareceu instantaneamente mais velho e mais cansado. Como se o fardo que tivesse que carregar era demasiado pesado para a sua pouca energia e eu percebi o motivo quando ele disse o assunto: eu.
Segundo ele, eu tinha família. Um pai, uma mãe e inclusive um irmão! Uma família que me adorava mas que me tinha perdido quando um tal bruxo das trevas, tinha atacado a minha casa, tinha morto a pessoa que estava a tomar conta de mim e me tinha atacado. Esse tal bruxo das trevas foi dado como morto porque a divisão onde estava explodiu e não sobrou quase nada dela. A partir desse dia todos pensaram que o Harry Potter e o Voldemort tinham morrido.
Tudo o que ele disse, fora a parte fantasiosa do mundo da magia, era o que qualquer órfão quereria ouvir. Os pais que amavam o filho perdido e que tinham pensado que ele estava morto devido a uma tragédia mas que agora, que sabiam que ele estava vivo, davam tudo para o ter de volta. Para o abraçar, beijar e acarinhar como um verdadeiro membro da família. Quantas vezes eu não tinha ouvido este discurso, no orfanato? Vezes e vezes sem conta. No entanto, conforme cresciam as pessoas perdiam esta história, tornando-se mais realistas e sabendo que era só uma história. Na verdade, os pais abandonavam as crianças, maltratavam-nas e não queriam saber delas. Havia pais que se preocupavam mas esses já tinham os seus filhos. Eu tinha visto na escola pais que iam buscar os filhos, lhe davam tudo o que podiam e não podiam e os filhos reagiam como se aquilo fosse perfeitamente normal.
Como é que não conseguiam perceber a sorte que tinham?
Eles faziam ideia do quanto eu tinha dado, para no primeiro dia da escola ter tido um pai ou uma mãe que me abraçasse, desejasse um bom dia e ficasse a olhar para mim, com uma lágrima no canto do olho enquanto eu entrava na escola? Ou uma mãe que me acordasse com um beijo na testa e me desse os parabéns quando tivesse uma boa nota ou fizesse anos? Parasse de ser só mais um e passasse a ser UM? Parasse de ser uma criança do sistema para ser a sua criança? Eles não faziam ideia porque para eles aquilo era o seu dia-a-dia. Tinham amor, atenção e estavam tão habituados que não conseguiam notar o quão bom era ter isso. Mas eu notava! Eu e todas as outras crianças que entrassem comigo. Éramos capazes de ficar quietos a observar um pai deixar o filho, só porque aquilo era um acto tão simples, tão querido, tão delicado que era fascinante. A forma como olhava para ele, sorria corajosamente e se despedia, com um sorriso mais fraco, como se lhe custasse deixar o filho ali. Lembro-me perfeitamente que na primeira noite da escola, eu sonhei que era aquela criança, a ser deixada por um pai que era uma cópia quase exacta do que sou hoje, que sorria e me abraçava, desejando-me boa sorte. Acho que essa foi uma das poucas vezes que chorei à noite. Eu queria tanto…tanto, tanto ter um pai! Poder ter alguém que me fizesse aquilo! Eu não pedia muito, só que me dessem um pouco de atenção. Mas ela não veio, como não veio para as outras crianças. Nós tínhamos sido abandonados essa era a verdade. Ou então, na visão mais bonita, os pais tinham morrido e eles não tinham familiares. Ninguém gostava de nós porque nós éramos as crianças que estavam fora do sistema. Os filhos de ninguém, os queridos de ninguém.
Foi claramente, nesse ano que eu mudei a minha personalidade e essa foi a minha salvação até aquele momento. Afinal, se eu tivesse ainda esperanças de ser completamente amado quando tivesse sido adoptado tinha sido destruído emocionalmente, ao sentir os maus-tratos. Assim, só aceitei porque eu continuava a ser um fora-do-sistema que não tinha pais, só tinha pessoas que fingiam que gostavam de mim e eu sabia que seria assim para o resto da minha vida. Os adultos não iriam gostar de mim de alguma forma especial, essa era a verdade da minha vida. Por isso, por muito que este senhor que parecia simpático, dissesse que eu tinha pais que me amavam, que estavam ansiosos por me ver, eu não me acreditava. Havia algum motivo escondido para isso e por isso é que sorri quando ele me contou o motivo.
Segundo ele, no ano anterior, o Voldemort, esse tal bruxo das trevas, tinha feito um seguidor raptar o meu irmão e tinha conseguido restituir a sua força anterior através de um ritual estranho.  Vi o Director franzir a testa ao ver a minha não reacção quando ele me avisou e eu simplesmente não reagi. Ele queria que fizesse o quê? Me risse? Que era a minha vontade, naquele momento? Então, eu tinha voltado para os meus pais porque o meu irmão tinha sido raptado e o Voldemort tinha voltado a aterrorizar o mundo mágico. Que salvador mais poético pode haver do que a reencarnação do herói, que tinha destruído o bruxo mau, o salvador do mundo mágico, o Harry Potter.
O Harry Potter que não era eu! 
Que foi o que lhe disse mas ele continuou a insistir que foram feitos todos os testes que identificassem e confirmaram que eu era mesmo filho dos meus pais e que eu iria reparar quando eles voltassem do jantar, que era onde eles se encontravam naquele momento.
Eu suspirei, quando ele parou finalmente de dar desculpas sobre eles, em como tudo seria bom e eu não precisava de me preocupar. Ficamos em silêncio uns segundos, a olhar um para o outro, ele demasiado perto para o meu gosto, com o seu rosto preso numa expressão de tristeza e eu finalmente disse a falha na lógica dele.
- Eu sei que essa história é muito bonita – eu ouvi-me dizer , com uma voz fria e impessoal, que fez o Director suspirar – mas há uma grande falha. Eu não tenho magia. – Eu disse rindo. – Eu vi a minha irmã levitar coisas mas eu não tenho nada, nadinha, nada de nada. É tudo ela. Como posso ter derrotado um bruxo todo poderoso se não tenho poderes? E em bebé, ainda por cima!
Ela passou uma mão pela cara, como se fosse a acordar e quando olhou para mim o seu brilho no olhar tinha voltado mas continuava com uma cara tão cansada que se eu não soubesse que tinha que fazer aquilo, calava-me só para o deixar descansar.
- É verdade o que disseste sobre não teres magia no passado mas agora tens. – Ele suspirou e inclinou a cabeça, pensativo. – Ainda não existem certezas mas eu desconfio que com o susto, com o medo e com o choque de veres uma pessoa ser assassinada à tua frente, a maldição te acertar e fazer essa cicatriz – disse, apontando para a minha cicatriz na testa – tu ficaste traumatizado. Tão traumatizado que conseguiste bloquear toda a tua magia, de uma forma que todo o mundo mágico pensou que tivesses morrido, porque até aqui, nas escrituras dos alunos inscritos em Hogwarts, o teu nome desapareceu.
- M-mas então não tenho magia, certo? – Perguntei, não percebendo bem o que estava a acontecer e para meu espanto ele sorriu.
- Tens. Até nas escrituras o teu nome voltou. O quer que seja que aconteceu em tua casa, ontem foi tão forte, tão traumatizante, que tu soltaste a tua magia como resposta. Não tentes fazer magia agora que ela está suprimida por uma poção porque está a acontecer uma coisa muito curiosa contigo.
Eu estreitei os olhos, não gostando de o ouvir insinuar que eu era uma cobaia que ele estava a usar
- Que coisa? – Perguntei desconfiado fazendo-o rir.
- O teu coro da magia está a formar-se e é como uma avalanche. A tua magia foi tão suprimida que ela está em todo e qualquer lado. Se eu não te tivesse dado a poção que te faz impossível de usar magia agora, tu estarias com um poder tão grande que eu sentiria daqui. – Ele riu ainda mais quando viu a minha cara de desacreditado. – Eu sei que não parece grande coisa mas não é suposto sentir-se a magia de outra pessoa. Só quando um mago é muito poderoso é que isso acontece e isto acontece contigo. A tua magia é das coisas mais bonitas que já vi mas como uma criança irrequieta também é demasiado perigosa. Tu tens tanto poder agora, enquanto desenvolves o teu coro até o seu tamanho normal que qualquer coisinha pode te fazer explodir coisas ou até incendiar casas, que foi o que aconteceu lá.
Eu abri a boca espantado. Tinha sido eu que tinha incendiado a casa… eu! A culpa tinha sido mesmo minha! Agora, mesmo que eu conseguisse inventar uma história sobre o porquê de aquilo ter acontecido, onde não culpasse os pais da Rose eu não iria conseguir fazer com que eles continuassem comigo e proibir-me-iam de ver a Rose. O que aconteceria à Rose sem mim? Eu fique tão perdido nos meus pensamento que o Director disse apressado:
- Não precisas de te preocupar, nós chegamos a tempo.
Eles iriam me proibir de ver a Rose. Estes meus pais se calhar iriam querer-me, se o que o Director estava a dizer queria dizer alguma coisa e eu nunca mais veria a Rose. E se ela fosse também maltratada? Eu poderia fazer queixa deles mas não se iriam acreditar em mim, afinal o mundo era dos adultos. Eu poderia tentar fugir com a Rose mas ela não iria querer. O que iria fazer?
Senti algo borbulhar dentro de mim, algo que não tinha antes e lembrei-me das palavras dele. Era a magia que tinha sentido a minha confusão, o meu sentimento de ineficácia e estava pronta a ajudar e a agir ao mínimo sinal. Eu dei por mim a sorrir, ao senti-la percorrer o meu corpo, dando me energia o suficiente para me sentar, fazendo o Dumbledore olhar espantado para mim.
- Tu estás a controlar a magia, não estás? – Ele perguntou, parecendo genuinamente fascinado. – Estás a sentir a magia?
Eu olhei para as minhas mãos onde parecia ver uma pequena coisa branca sair dos meus dedos se olhasse com força o suficiente.
- A magia é linda. – Eu murmurei observando essa luz, passar da minha unha para o outro dedo como se estivesse a brincar.
O Dumbledore pareceu ver o mesmo que eu pois ficou só a olhar fascinado, como se nunca tivesse visto antes.
- Posso experimentar uma coisa? – Ele perguntou, levantando-se.
Eu olhei para ele e vi a varinha levantada na minha direcção. Eu sabia que devia de ter medo mas eu não conseguia porque sentia a magia em todo o meu corpo. Ela estava comigo e enquanto estivesse comigo eu nunca mais estava indefeso, por isso, acenei com a cabeça afirmativamente. Vi com espanto um raio vermelho sair da varinha dele, bater contra mim mas uma parede branca pôr-se à minha frente, desaparecendo de seguida, conjuntamente com o raio.
- Lindo! – Ele murmurou parecendo completamente perdido em pensamentos até que pareceu se lembrar de mim e sorriu. – Se eu não estou enganado, vais-te sentir cansado daqui a uns minutos e provavelmente até dormires mas o que acabaste de fazer devia de ser impossível. O teu coro mágico está a formar-se e está a formar-se com toda a magia que tem ao seu redor mais a tua que tinha sido comprimida. Isso faz um poder tão grande que a magia pode parecer agir por si própria, defendendo-te mesmo quando tu não sabes o que é uma ameaça. Não acredito que tivesse conseguido defender nenhum feitiço forte mas o facto de já fazer isto quando ainda se está a formar faz-me pensar como é que ela será quando tiveres o coro mágico completo. Estou ansioso para ver o seu progresso, Mr. Potter. – Ele murmurou, quando me viu fechar os olhos e a minha última lembrança foi de ele puxar-me para baixo, deitando-me e ajeitando-me os cobertores. – Mas por agora descansa. – Murmurou e a última coisa que senti foi um sentimento agradável na testa, do que parecia um beijo na testa.
Acordei estranhamente irritado. Já estava farto de estar sempre a acordar e acabar por adormecer sem ser escolha minha. Por isso, sentei-me na cama com rapidez e abri um sorriso quando vi que na cama ao lado da minha se encontrava a Rose, a observar o tecto como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
- ROSE! – Mais gritei do que chamei e fiquei feliz ao ver que ela olhou para mim com um sorriso.
- Harry! – Ela também me chamou, saltou da cama e quando vi, estava a abraçar-me, sentada também na minha cama. – Estava tão preocupada. Eles diziam que tu estavas bem mas eu só te via a dormir e ontem foi tão mau… - Ela calou-se como se se estivesse a lembrar dos acontecimentos e provavelmente foi o que aconteceu porque só senti os braços finos dela apertarem-me com força pela cintura e ela encostar mais a sua cabeça no meu peito enquanto chorava.
- Calma… - Eu murmurei, puxando-a mais contra mim e recostando-me na cama. Odiava-a ver sofrer e ela estava completamente destroçada.
Não sei por quanto tempo ficamos ali, eu sentando, com ela a abraçar-me e a chorar enquanto eu fazia pequenos aconchegos nas costas e murmurava palavras de apoio mas sei porque paramos. Um menino que não devia de ser mais velho do que a Rose tinha entrado.
Ele tinha olhos castanhos claros, era pequeno e atlético, tinha uma face ligeiramente fina, com bochechas coradas, um queixo firme, umas sobrancelhas definidas, uns lábios grossos e um cabelo preto, desalinhado muito parecido com o meu. Ele pareceu-me estranhamente familiar e eu pus-me a observas as nossas parecenças… tínhamos o formato da face parecido, o cabelo igual e eu comecei a recear verdadeiramente o que ele iria dizer e o que ele era, quando ele ficou boquiaberto a observar-me, parecendo estupefacto.
- Eu não acredito! – Ouvi a voz da enfermeira que saia da sala ao lado. – Saia já daqui. Não devia de estar com os seus pais? Ainda não é hora para o ver e o menino é um convidado. Como é que entrou? – Ela gritou para o menino e eu fiquei desconfiado que ela tinha visto o meu reencontro com a Rose e tinha ficado simplesmente calado.
Senti a Rose parar de chorar e largar-me para observar os recém-chegados. A criança parecia constrangida sobre o olhar da mulher, mas ela pareceu não desistir.
- Tu vais vê-lo depois, agora sai! – Ela gritou e eu vi-me a agir contra a minha vontade ao ver os olhos castanhos dele, baixarem-se com tristeza e começar a virar-se.
- Acho que isso não é necessário. – Murmurei e toda a atenção foi para mim, fazendo-me ter vontade de encolher. O menino só olhou para mim, franzindo a testa e depois para a Rose.
- Quem é ela? – Ele perguntou com uma autoridade que eu não gostei nada.
- A minha irmã! – Disse, vendo-o encolher-se ao ouvir o meu tom e tendo um estranho prazer nisso. 
- T-tu… - ele murmurou, franzindo a testa e parecendo genuinamente confuso – mas tu… tu és o meu irmão!
Vi a Rose soltar um grito de espanto, olhar para mim assustada, a Madame Pomfrey negar com a cabeça, como se não se acreditasse nisso e ele continuar a olhar para mim, com um olhar de cachorro perdido.
- A minha única família é a Rose. – Murmurei, recusando-me a olhar outra vez para ele e olhando para a Rose que estava completamente confusa. – Se era só isso que vinhas dizer, podes ir.
A Rose abriu a boca em protesto mas voltou a calar-se pelo barulho que vinha da porta. Quando olhei vi a Madame Pomfrey empurrar o menino pela porta, enquanto ele parecia demasiado chocado se quer para andar. Vi de relance uma adolescente olhar para mim, do lado de fora, com repreensão nos seus olhos cinzentos. Estranhamente, não senti pena nem raiva pela minha acção. Se eles pensavam que por aparecerem à minha frente, eu me ia ajoelhar e submeter-me à vontade deles, eles estavam enganados. Eu ia ser independente, tratar da Rose e nunca mais ouvir falar deles.
- É o teu irmão? – A Rose perguntou espantada, fazendo-me suspirar e olhar para a Madame Pomfrey que somente sorriu e voltou para a sua sala.
- Não sei. – Murmurei francamente. – Provavelmente, sim. – Ela voltou a abrir a boca mas eu interrompi. – Disseram-me ontem que eu tinha uma família que achava que eu tinha morrido e que agora me queriam de volta. Só me estão a dar tempo para assimilar a ideia antes de os ver.
- E-então, vais-nos abandonar? Vais parar de ser meu irmão? – Ela perguntou e vi espantado uma lágrima no canto do olho.
- É claro que não. – Eu disse sorrindo e abraçando-a. – Tu és a minha única família, a única pessoa que eu preciso. Não te preocupes.
Eu ouvi-a soluçar e sentir a minha camisola ficar húmida e repreendi-me mentalmente por a fazer chorar.
- Mas tu mereces uma família melhor do que nós. O que o pai fez… ele…ele. – Ela não continuou, ficando só a chorar e fazendo-me afastar dela e olhar directamente para os olhos azuis dela.
- Rose, tu não és o Louis. – Vi-a contrair a face ao ouvir-me dizer o nome dele, em vez de pai, mas eu nunca mais chamaria aquele homem de pai, ele não merecia esse título. – Tu és a melhor pessoa que eu alguma vez poderia ter na minha vida por isso não fiques assim. Eu adoro-te e vou continuar a adorar-te. O Louis não interessa.- Disse, abraçando-a com força e vendo-a descontrair no abraço.
Ficamos assim por um tempo, com ela a abraçar-me com toda a sua força, como se não se acreditasse que isto estava a acontecer. Quando vi que ela se acalmou e estava só a descansar decidi finalmente perguntar:
- O que aconteceu realmente?
Ela afastou-se do meu peito e olhou para mim com confusão:
- Não te lembras? O-o…
Eu interrompi-a antes que ela continuasse, ao ver a dor que dizer aquelas palavras lhe traziam.
- Isso eu lembro-me… mas o depois?
Ela franziu a testa pensativamente, provavelmente pensando na melhor maneira de dizer o que estava a pensar:
- Eu quando acordei estava aqui. – Ela murmurou, olhando à volta. – Fiquei assustada afinal não sabia onde é que estavas mas aquela mulher, a enfermeira – disse apontando com a cabeça para a porta onde se tinha refugiado a Madame Pomfrey depois de expulsar o menino – explicou-me que estava numa enfermaria, que tu estavas bem e os pais estavam a ser interrogados mas estavam bem.
Eu abri a boca espantado. Então mesmo não parecendo eles, os bruxos, sempre souberam o que tinha acontecido realmente. No entanto, para não me terem dito nada devem ter achado aquilo normal… típico de adultos.
- E depois? – Eu perguntei, revoltado comigo próprio por estar chateado por ver que eles não iriam fazer nada… como é que ao fim de tantos anos eu ainda tinha uma esperança mínima que eles fizessem alguma coisa?
- Perguntaram-me o que aconteceu e-e – ela desviou o olhar, nervosa – e eu contei tudo. O que aconteceu. – Ela disse voltando a chorar e eu senti uma raiva inexplicável por aqueles bruxos. Fizeram a minha irmã relembrar aquele acontecimento para nada? Só para o prazer estúpido deles? – Depois uma mulher começou a fazer-me perguntas sobre ti. Como eras, etc… estás com problemas Harry? – Ela perguntou com os seus olhos azuis brilhantes, preocupados e eu não me contive e abracei-a.
Ela era realmente um pequeno anjo. Tinha enfrentado o pai para me proteger, tinha sofrido mas mesmo assim disse tudo o que sabia, prejudicando os pais dela e ainda estava preocupada porque eles tinham feitos perguntas sobre mim? Como é que ela poderia ser tão desinteressada nos seus interesses e preocupar-se tanto comigo? Quando eu é que era o irmão mais velho e a função de a proteger era toda minha?
- Não, pequena. – Murmurei, sentindo a minha camisola ficar mais uma vez molhada por ela estar a chorar. – Não fiques assim, tu fizeste o que era justo, nada mais.
- M-mas eles são bruxos! – Ela murmurou. – Eles conseguem fazer coisas magnificas com a varinha… E eu vou ser uma deles. Como é que eu posso estar tão excitada por isto quando acabei de passar por isto? E os pais, eles podem estar com problemas e eu não os ajudei e…
Eu calei-a, afastando-me e pondo um dedo na sua boca. Ela tinha a mania de falar tudo o que pensava quando estava nervosa e se eu não a impedisse era o que iria acontecer.
Ela estava confusa e com as emoções completamente descontroladas. Por um lado estava nervosa, afinal sabia que os seus pais estavam a ser interrogados, os bruxos estavam interessados em mim, eu tinha aparentemente uma família mas por outro ela sabia que a magia dela era real e que iria aprender mais.
Quando ela levitava coisas, notava-se a felicidade na cara dela, por ser especial, diferente das outras pessoas e apesar de isto ser uma coisa egoísta, notava-se que era o sonho dela. Ela queria ser diferente, a melhor pessoa que pudesse tendo em consideração as suas limitações e a sua magia permitia-lhe isso. Daí ela estar completamente feliz, por saber que iria saber como usá-la mas nem ela, com os seus 11 anos, conseguia ignorar o fato que a nossa vida iria mudar bruscamente.
- Não te preocupes, tudo se vai resolver. – Eu disse, tirando o dedo e vendo-a se ajeitar à minha frente, sentando-se  e observando  a minha face, como se estivesse a vê-la pela primeira vez.
- Naquela interrogação havia um homem que era muito parecido contigo. – Ela murmurou inclinando a cabeça para o lado. – Só os olhos é que eram diferentes e ele estava com uma cara tão triste…  - ela murmurou relembrando-se. – Estava abraçado a uma mulher ruiva que foi a senhora que os mandou parar de me interrogar sobre essa noite e começou a fazer perguntas sobre ti. – Ela parou mais um pouco, franzindo a sua pequena testa enquanto pensava. – E ela começou a chorar quando eu falei de ti. Tanto que teve que sair dali levada por esse homem… - Ela observou. – Serão os teus pais?
Eu acho que parei de respirar por um segundo com a pergunta dela e a descrição. Mulher ruiva… a mulher que me parecia familiar e estava comigo da primeira vez que acordei, será que era a mesma? Que tinha vindo ver o seu filho? Se fosse, será que esperava que eu a tivesse reconhecido e abraçado? Ou será que estava só a observar para ver se eu valia a pena de ser reconhecido como um membro da família? Aqueles olhos verdes pareciam tão tristes quando ela esteve comigo… seria isso fingimento?
- Harry?
Eu abanei a cabeça para sair da minha confusão mental e sorri para a Rose, tentando ser claro e parar de ter aquelas emoções baratas que só me iriam por em confusões se eu as seguisse.
- Não sei… Eu não faço ideia de como eles são mas não te preocupes eu nunca te vou abandonar.
A Rose sorriu para mim e ficamos num silêncio confortável enquanto quando um pensava nas suas coisas.
- Harry? – Ela voltou a perguntar, incerta.
- Sim?
- O que vai acontecer?
Eu mordi o lábio ao ouvir a pergunta dela, cheia de incerteza. Ela não devia de estar a passar por isto! Como é que ela poderia voltar à sua vida com a energia e felicidade dela, depois disto tudo? Mesmo que não houvessem consequências? Ela nunca esqueceria a dor que sofreu, o meu estado, esta dúvida e incerteza. Ela nunca mais seria a mesma e era tudo por culpa dos estúpidos jogos dos adultos!
- Não sei mas vai ficar tudo bem. – Eu disse puxando-a contra mim outra vez, de forma a ficarmos os dois meio deitados na cama, com o meu peito a servir de almofada para ela. – Só sei que vais voltar para casa, vamos fazer uma grande festa, vais aprender magia e isto tudo vai passar.
- M-mas e o pai? Ele agrediu-te! Isso é crime!
- Não lhe vai acontecer nada! Se não dissermos a mais ninguém, ninguém vai fazer nada.
- Mas eu não quero! E se ele repete? Ele estava possuído! Podia-te ter morto!
O que eu não lhe disse foi que provavelmente nós nunca mais seriamos uma família. Por muito, que eu não fizesse queixa dele, eu seria tirado deles. Ou pelo menos eles não me quereriam de volta. No entanto, eu tinha magia e iria fazer de tudo para vir para esta escola mesmo que para isso tivesse que aceitar aquela família. Seria uma troca, a minha presença na luta contra o Voldemort pela oportunidade de ver a minha irmã.
Ficamos mais uns minutos em silêncio e senti o abraço dela no meu torso, relaxar e ela murmurar com uma voz fraca:
- Harry, como é que estás sem qualquer marca?
- Magia. – Murmurei, simplesmente, também fechando os olhos e descansando com ela.
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Karinchan
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Capítulo 3

Mensagem por Karinchan em Sex Ago 02, 2013 6:18 pm

Capítulo 3:


3. Reencontro

“Eu e tu somos uma coisa só. Não te posso maltratar sem me ferir”
Gandhi


- Ele ainda está a dormir? – Ouvi uma voz sussurrar, preocupada. – Tens a certeza que ele está bem? Dormir tanto, em três dias, não é normal… pode ter algum problema.
- Calma Lily, está tudo bem. – Ouvi a voz calma da enfermeira sussurrar em resposta. – Eu tenho a certeza! – Ela murmurou mais ríspida, provavelmente a cortar alguma resposta da outra pessoa.
- Eles são tão pacíficos juntos. – Ouvi uma voz murmurar que eu reconheci como do Albus Dumbledore. – Nem quero pensar como vão reagir com as notícias.
- Eles mereceram! – Ouvi outra voz masculina murmurar com raiva. – O que aconteceu naquele dia… se eu tivesse chegado mais cedo… eu…. eu… - a voz disse com tanta raiva que eu comecei a sentir-me alerta.
- Prongs, agora não é a hora. Se calhar é melhor voltar mais tarde. – Disse outra voz masculina, parecendo mais calma e cautelosa. – Vamos deixá-los descansar.
- Não! – Eu reconheci a primeira mulher, a tal Lily dizer, mais alto do que deveria ser necessário, para quando estavam próximos de duas pessoas a dormir. – Eu recuso-me a abandonar mais uma vez o meu filho, Remus! – Filho? Oh, não… - Eu compreendi que ele precisava de tempo antes de nos encontrar mas eu não aguento mais. Eu preciso de vê-lo… por favor…
Eu ouvi o som de uns soluços e presumi que a mulher tivesse começado a chorar. Ela era realmente uma boa atriz. Fingir assim que se importava comigo não era para qualquer um. Senti o peso no meu peito diminuir e presumi que a minha irmã estivesse a acordar com aquele barulho. Eu não a podia deixar sozinha com os lobos, não era? Por isso, abri também os olhos a tempo de ver que tinha na enfermaria uma pequena assembleia.
Estava lá a enfermeira, com o Director Dumbledore ao lado, com os seus olhos azuis brilhantes e um sorriso que já eram a imagem de marca dele. Ao lado dele encontrava-se um homem com uma aparência cansada, que aparentava ter uns 40 anos, com um cabelo castanho e alguns brancos misturados na sua cabeça. Observava-me com um sorriso no rosto e eu vi espantado que ele tinha uma lágrima no canto do olho quando me viu abrir os olhos. Ao lado dele encontravam-se um casal que eu presumi ser os meus pais. Não consegui evitar abrir a minha boca de espanto ao olhar para ele.
Eu era uma cópia dele mais novo.
Ele tinha um queixo forte e definido, um nariz fino e não muito comprido, umas sobrancelhas grossas e um cabelo revoltado preto, exactamente como o meu e o do meu dito irmão. A única diferença eram os olhos, que nele eram um castanho clarinho e em mim, eram iguais aos da mulher que se encontrava encostada a ele em apoio, a soluçar e que eu tinha visto no primeiro dia.
- H-Harry? – Ouvi a Rose perguntar e eu acordei do meu estado, sentando-me e vendo-a seguir o meu exemplo.
- Está tudo bem, Rose, não te preocupes. – Eu ouvi-me dizer enquanto olhava para a enfermeira como que a pedir uma explicação.
Ela limpou a garganta, sentindo-se intimidade sobre o meu olhar e olhou de volta para o casal.
- Tem visitas, Mr. Potter. Eu vou deixar-vos sozinhos. – Ela murmurou, saindo dali com uma rapidez fenomenal e escondendo-se outra vez na sala. Uma vozinha na minha cabeça disse-me que ela só nos queria dar privacidade, afinal iria ser a primeira conversa entre mim e os meus pais biológicos, mas essa voz foi rapidamente calada quando percebi que ela me tinha chamado Potter. Eu era Smith! SMITH! Maldita cobarde.
- Como a Madame Pomfrey disse eloquentemente, os teus pais não aguentaram mais e quiseram ver-te. – O Director Dumbledore disse, dando um sorriso carinhoso para o casal que estava estupefacto a observar-me como se eu fosse a coisa mais milagrosa do mundo.
Eu suspirei. Presumo que realmente não pudesse fugir sempre deles mas estava demasiado adormecido para ter aquela guerra.
Olhei para o homem que era o meu pai biológico e não consegui evitar lembrar-me do meu sonho de há muito tempo atrás. Eu tinha sonhado exactamente com aquele homem, que me colocava na escola. Qual era a probabilidade de isso ter sido um sonho? Ele era exactamente igual a mim, até no gesto de morder o lábio quando nervoso e remexer no cabelo, para lhe dar força.
- Harry. – Ele murmurou, finalmente falando e parecendo sem palavras.
Vi o outro homem que não se tinha apresentado olhar para o Dumbledore, como que se a dar a ordem para eles saírem para nos dar privacidade. O Dumbledore acenou com a cabeça e estavam já a ir para a porta quando a minha irmã falou e os fez parar.
- Vocês são os pais do Harry?
A mulher soluçou ao ouvir a pergunta frontal dela e o homem só assentiu, abraçando a mulher pelos ombros.
- Porque é que o abandonaram? – Ela voltou a perguntar com uma frontalidade tal que a mulher respondeu sem pensar.
- Nós não o abandonamos! – Disse indignada. - Nós pensávamos que ele estava morto… Se nós soubéssemos…
- Mas ele não morreu! – A Rose voltou a insistir. – E vocês deixaram-no estar, sem o procurar, deixando-o sem pais e a sofrer no orfanato. Se não fôssemos nós, ele continuava sem família.
- E que grande família foram vocês. – Murmurou o homem, o meu pai biológico. – A espancá-lo quase até à morte!
- F-foi só uma vez. E-e o meu pai não queria…
- Só uma? – Voltou a insistir o homem, mesmo tendo recebido um aviso do outro homem para parar. – Ele foi agredido por mais de dois anos, se os testes diziam alguma coisa e vocês concordaram todos! Como podem fazer isso com uma criança, como? – Ele perguntou quase gritando.
Eu não tinha conseguido reagir durante a discussão, devido às múltiplas emoções que estava a sentir mas quando vi a Rose soltar um “Ah” chocada e encolher-se sobre si, agarrando as pernas com os braços, eu não aguentei mais. Toda a raiva guardada em mim pelos meus pais, por não terem estado lá comigo como era a obrigação deles, veio ao de cima e eu não me controlei. Levantei-me com rapidez, mesmo tendo uma vozinha que dizia que estava a ser protegido pela primeira vez por um adulto e quando dei por mim estava a 3 passos de distância dos meus pais biológicos.
- Nunca, mas nunca mais fales assim com a minha irmã. – Eu quase que gritei com tanta raiva que o homem se encolheu e eu ouvi algo partir-se. – Ela não é a culpada. Ninguém é.
O homem abriu a boca e voltou a fechar. Vi a mulher largá-lo e ficar só a olhar para mim, com as suas mãos a tremer. Ela estava tão nervosa que até eu admiti que não havia fingimento. O seu lábio inferior tremia, tinha uma lágrima ainda a descer pela face...
- O James não queria dizer isso… a culpa não é dela mas…
- Mas nada! – Eu voltei a insistir. – A culpa não é de ninguém!
- Harry, - ouvi a voz do outro homem dizer- acho que todos se devemos sentar e conversar. Estão todos demasiado nervosos para terem uma conversa.
Eu virei-me para o homem, focalizando a minha raiva toda nele.
- E quem é o senhor? Mais um pai perdido?
- Não. – O homem disse simplesmente. – Remus Lupin, um amigo dos teus pais. – Ele disse fazendo-me rir.
- Mas eu agora sou um animal do circo para ser observado por todos? – Eu perguntei. – Não é por ter vencido um bruxo das trevas que VOLTOU que eu o vou fazer outra vez. – Eu disse agora olhando directamente para os meus pais que estavam parados a observar-me. – Eu não sou rico, eu não sou poderoso. Podem-se ir embora! – Eu murmurei estranhamente cansado e virando-lhe as costas para voltar para a minha irmã que olhava para mim espantada.
No entanto, fui parado a meio caminho por dois braços finos que me abraçaram por trás e senti a minha camisola ficar molhada pelas lágrimas da pessoa que me abraçou. Eu acho que paralisei por um segundo, não esperando aquela reacção, só voltando a acordar quando senti os braços apertarem o meu peito, como se a dona tivesse medo de eu fugir.
Eu não me contive e fechei os olhos, imaginando somente como seria se aquele abraço fosse real. Como se houvesse alguém que gostasse o suficiente de mim para não aguentar ouvir as minhas palavras e abraçar-me numa demonstração de amor. Tinha sonhado tanto com aquilo, imaginado tanto, que eu não pude evitar o sentimento de dúvida que ficou no meu coração por dois segundos e o desejo de me virar e a abraçar, com todo o meu amor e desejo para finalmente ter uma família.
Mas isso não iria acontecer.
Eles não me amavam.
Para eles fazer esta cena se calhar era fácil, não imaginando que brincar com os sentimentos alheios não era bonito mas eu não poderia cair na encenação deles. Eu era forte, eu iria conseguir manter a minha posição.
- Não Harry. – Ouvi-a murmurar, atrás de mim, encostando a sua cabeça no meu ombro. – Não sei o que te fizeram para pensar isso mas nós não te queremos por isso. Tu és o nosso filho.
Eu fechei os olhos com dor ao ouvir as palavras dela, tentando ganhar coragem para o que tinha que fazer mas a mão que senti no meu outro ombro não ajudou.
- Sim, - Disse a voz do meu pai biológico – a Lily tem razão. Nós não te queremos porque temos interesse, queremos-te porque gostamos de ti.
Eu fechei os olhos e agradeci por estar de costas para eles, de forma a que não vissem a lágrima que caiu dos meus olhos. Eu queria tanto mas tanto que aquilo fosse real, que a dor era física. O meu coração parecia estar acelerado, batendo com tanta força que eu não me espantava se todos ouvissem mas eu precisava de fazer isto pelo bem da minha irmã. Por isso, limpei a lágrima, esperei um segundo só para memorizar como era sentir-se abraçado pela mãe e soltei-me da mulher e da mão dele, virando-me para eles, sabendo perfeitamente que não conseguia esconder que estava a tremer de emoção.
- Como gostam tanto de mim se me acabaram de conhecer? – Perguntei, sentido um sorriso frio nascer na minha cara ao ver a face chocada deles. – Não esperavam mesmo que eu vos fosse abraçar e tratar como família depois de 13 anos sem me verem, pois não? Provavelmente, nem têm lembranças de mim e as que têm devem de ser para fazer o papel de pais do menino que derrotou o bruxo das trevas. Parem de encenar e sejam adultos. Eu tenho uma família, não preciso de mais. Eu chamo-me Harry Smith não Harry Potter!
Vi-os olharem para mim espantados e a face do homem se contornar numa de raiva.
- Eles maltrataram-te Harry, tu não podes voltar para eles!
- Então deixem-me ser independente. Eu trato de mim e da Rose. Ela vem estudar para aqui, eu também e fora daqui, eu trato dela. Eu não preciso de família porque ela é a minha família.
- Mas tu tens-nos a nós!
- Durante 13 anos, 13 ANOS, vocês não se preocuparam comigo! Não me amaram, não me esperaram, nem se lembraram de mim! Como querem que eu acredite em vocês?
- T-tu estavas morto!
- Eu sei essa história toda! – Eu quase que gritei para ela. – Eu não estava nos registos das crianças e ninguém sabe como eu sobrevivi visto que o quarto explodiu mas se vocês gostassem mesmo de mim, tinham pelo menos tentado procurar-me porque não conseguiam viver com a ideia que o vosso filho tinha morrido. Não foi tão mais fácil só me dar como morto e seguir com a sua vida?
- Harry… - O outro homem começou mas eu calei-o.
- É verdade! – Eu exclamei virando-me para ele. – E por bem ou por mal, os Smith são a minha família. Foram eles que me deram comida, trataram de mim e me viram crescer. Não foram vocês! – Eu disse, virando-me para eles e vendo com satisfação, os dois ficarem sem reacção, chocados. – Tudo o que vocês querem é o vosso filho que tem magia. Como é bonito que vocês me conseguiram encontrar mal eu tenha descoberto a magia. Agora que sou um mago vocês já me querem outra vez. Não acham que é uma coincidência perfeita?
- Nós não sabíamos! Nós só descobrimos porque fizeste magia acidental. – Murmurou o homem. – E quando eu cheguei e te vi, eu soube que eras o meu filho…. És tão parecido comigo.
Eu estreitei os olhos para ele.
- Tu nunca me procuraste nem nunca me quiseste, se não tinhas-me achado. Eu não vou voltar para vocês! – Eu disse decidido, virando-lhe as costas e sentando-me na cama, ao lado da Rose que olhava chocada para mim.
- Preferes voltar para os Smith do que para nós? – Perguntou a mulher.
- Eu nem sei os vossos nomes. – Disse, olhando para eles com desprezo. – Acho que prefiro a minha família de sempre do que vocês, que são o tipo de pais que só se finge importar quando vos dá jeito. Com eles eu sei o que esperar, de vocês… nem quero pensar. – Murmurei, olhando para a Rose e vendo a dor nos olhos dela. – Saiam! Não vos quero ver mais!
- Mr. Potter, os seus pais…
- EU NÃO ME CHAMO POTTER! – Gritei para o Director, que se encolheu ao ver que a minha aura branca voltava com força e tudo ao meu lado parecia palpitar. – Eu não sou um maldito brinquedo que vocês vão manipular como quiserem. Eu chamo-me Smith, S-M-I-T-H.- Soletrei. – Eu não quero saber se tenho pais, irmãos ou o quer que seja biológicos. Eu não me interesso por eles e nunca me vou interessar, por isso, eles que desapareçam!
Eu vi os meus pais biológicos olharem para mim, para a Rose, e para o Dumbledore, que só murmurou:
- É melhor saírem. – Disse e eles saíram, dando-me mais um olhar cheio de dor.
Eles eram a minha família biológica e se eu não estava enganado eu tinha acabado de perder qualquer oportunidade de me restabelecer como uma família com eles. Tinha passado muito tempo desde que tinha sentido uma vontade tão forte de chorar como aquela. A mulher, a Lily, a minha mãe, parecia estar realmente feliz por me ver. Eu conseguia ver o nervosismo dela que podia ser fingimento mas não sei porquê não duvidei que ela amasse aquela criança que tinha vindo cá anteriormente. A criança que eu podia ter sido se eles se tivessem preocupado comigo e me tivessem procurado…
- Harry, acho que precisamos de falar. – Murmurou o Dumbledore, despertando-me dos meus pensamentos.
Eu olhei para o homem que continuava ao lado do Dumbledore que parecia estar também há beira das lágrimas.
- E ele? Não vai sair?
O Dumbledore limpou a garganta e negou com a cabeça.
- Ele tem coisas a tratar contigo. – Ele olhou para a Rose e dei-me por mim a puxa-la contra mim, como que para a proteger do olhar dele. – A conversa que vou ter vai interessar os dois, Mr. e Miss Smith. – Ouvi, com um estranho prazer, ele chamar-me por aquele nome. – O Senhor Louis Smith foi preso pelos maus-tratos a menores. A vossa mãe –ele pareceu ter engolido um limão ao murmurar, o vossa, mas eu preferi ignorar – está com um processo devido a ter auxiliado e não ter feito nada para parar. Não tenho dúvidas que vão ser considerados culpados afinal os aurores, que podem considerar a polícia bruxa, ajudaram a investigação e têm provas precisas, sem margem para erro. A Senhora Smith deve de ficar presa só 3 ou 4 anos mas o marido vai ter uma pena muito mais pesada. – Ele deu-nos uns segundos para assimilar a informação e eu vi o meu aperto na Rose ser mais forte. – Por isso, Harry, eles perderam automaticamente a tua guarda. Apesar desta discussão os teus pais biológicos vão lutar por ela, no entanto, se preferires podes ficar aqui em Hogwarts nos próximos tempos, até esta confusão assentar. Rose, tens a opção de ir para a casa dos teus avós, que se envergonham pela atitude da filha ou ficares com o mesmo destino do Harry. Não duvido que os pais dele também te adoptassem. – Eu abri a boca para protestar mas ele impediu-me. – E não vale a pena pedir para tirar as queixas, elas já foram feitas, investigadas e o processo já está a decorrer. Não há nada que possa ser feito.
Eu senti a Rose chorar e olhei desesperado para o Dumbledore:
- Por favor, digam que a culpa é minha. – Supliquei. – Mas não a façam ficar sem pais.
O Dumbledore fechou os olhos, como se ele também sofresse com a decisão mas quando os abriu, estavam decididos e eu soube que não iria responder à minha súplica.
- Eu não fico feliz em separar famílias. Foi uma tristeza quando te deram por morto e eu sei o sofrimento que os teus pais tiveram mas neste caso não há outra hipótese. Eles bateram-te, maltrataram-te, física e psicologicamente e quase que vos mataram. Eles vão ser culpados e não posso dizer que não é merecido.
Eu engoli em seco e separei-me da Rose para ver o que ela dizia:
- Desculpa, Rose, - murmurei, sentindo algumas lágrimas caírem dos meus olhos, pela confusão com os meus pais biológicos, por isto, por tudo… - eu… eu não queria que nada disto acontecesse.
Ela olhou para mim por uns segundos, sem saber o que fazer mas quando falou eu fique completamente espantado pelo que disse:
- Não fiques chateado Harry… o que eles fizeram… eles iam-te matar. E a mãe não fazia nada se eu não me tivesse posto no meio. Eles são culpados e merecem! E-eu.. – A voz dela fraquejou e ela não conseguiu dizer mais nada, só olhando para as mãos.
- Vocês podem pensar nas vossas escolhas até ao ano novo. Os estudantes vão-se embora brevemente e vamos ter acomodações para vocês aqui preparadas, até depois dessa altura. Se precisarem de alguma coisa, chamem-me a mim ou a quem quiserem pela Madame Pomfrey. Harry, tenho mais uma notícia para ti. – Eu olhei para ele e não devo ter conseguido esconder o meu medo porque ele sorriu, aliviando a expressão na sua face, para uma mais amigável.- Esta, se está no meu alcance dizer, é uma boa notícia. Pensaste na minha proposta de vir para Hogwarts, no início do próximo ano lectivo, com a tua irmã?
Eu assenti. Com as notícias dele, a única certeza que tinha era que queria voltar com ela para esta escola, para pelo menos conseguir estar junto dela, ali.
- Sim, eu quero vir para Hogwarts.
Ele sorriu.
- Brilhante, é ai que o Senhor Lupin entra. Quando entrares vais estar no quinto ano, se tudo correr bem e para isso vai ser necessário aprender muito até Setembro. Não tenho dúvidas que vais conseguir, observando os registos das tuas antigas escolas, mas de forma a passar nos exames, que vais fazer em Julho, vais ter um ensino intensivo com alguns Professores que eu escolhi, estando dentro deles o Sr. Lupin, - disse apontando para o homem, que só sorriu fracamente – e o Sr. Black que não está aqui por causa de um problema familiar mas deve de estar a chegar. – Ao ouvir aquilo o Lupin só revirou os olhos, fazendo-me pensar que problema familiar era aquele. – Como já são horas de almoço eu vou-lhe dizer para vir depois. Eu agora vou-vos deixar para descansarem. Um bom almoço. – Ele disse dando um aceno de cabeça, sendo seguido pelo Sr. Lupin.
Eu e a Rose ficamos por um minuto em silêncio cada um preso nos seus pensamentos até que a Rose perguntou:
- O que vamos fazer Harry?
- Eu não sei. – Eu disse abraçando-a para lhe dar conforto. – Mas tudo vai ficar bem, não te preocupes. – Disse-lhe dando um beijo na testa e pensando no que iríamos fazer.
O mundo estava cheio de oportunidades para nós mas não estava a gostar de nenhuma delas. Eu tinha acabado de expulsar os meus pais, a Rose tinha acabado de perder os pais dela e quase de certeza que nós íamos ficar separados. A única coisa que eu não queria que acontecesse… tudo por causa daquele maldito mundo!
*****
- James, espera! – A Lily gritou, agarrando-o pelo braço.
Ele virou-se para trás, fazendo-a ver o queixo cerrado e a raiva que não conseguia conter dentro dele.
- James, por favor, acalma-te. – Suplicou.
Ele só fechou os olhos, tentando controlar-se e pensar na melhor maneira de sair dali antes de explodir com a mulher e dizer alguma coisa que se arrependeria para todo o sempre.
- O Harry… - Ouviu-se a murmurar. – Ele… - Ele fechou os olhos vendo que não conseguiria continuar devido às emoções diversas que o estavam a atingir.
Por um lado, tinha o Harry, o bebé que tinha voltado e estava um homem. O quanto ele não dava para poder voltar atrás no tempo e ter procurado por ele e tê-lo visto a crescer … Mas já era demasiado tarde, ele estava um homem, marcado por aqueles Muggles nojentos que o agrediram e não os reconhecia como pais porque eles não o procuraram! E ele não podia dizer que não compreendia, afinal a função deles como pais, dele, como pai, era de nunca desistir dele e ele tinha feito isso. Era verdade que tinha ficado tão preso na dor de perder um filho que por muito que sonhasse e imaginasse como seria a sua vida com o Harry vivo, ele nunca imaginou que isso fosse verdade. Nunca fez nada para caso isso fosse verdade. Mas como é que ele podia ter pensado que era verdade quando passou pela sala e viu a Marlene morta e o quarto do seu filho, do seu bebé completamente destruído. Só restava um pouco da porta. Era impossível sobreviver àquela explosão e ainda se estavam a criar teorias do que tinha acontecido ali realmente, no entanto, só duas pessoas sabiam e uma não queria ouvir falar dele e a outra só o queria morto…
- Eu sei, James. – A Lily murmurou, abraçando-o e deixando-se chorar nos braços dele. – Ele está tão grande! Ele está igualzinho a ti!
O James não conseguiu evitar sorrir ao ouvi-la dizer aquilo. Tinha dito exactamente a mesma coisa quando o viu pela primeira vez na enfermaria. Ela tinha-se recusado a sair dali até ver o que o Harry acordava e estava bem e teimosa como só ela sabia ser, tinha convencido até o Dumbledore. Sempre que se lembrava dela a chegar ao quarto onde eles estavam em Hogwarts, com lágrimas nos olhos e uma felicidade que não via desde a morte… morte não, desaparecimento do Harry, ficava com o seu coração mais leve.
- Mas tem os teus olhos amor, exactamente como quando em bebé. – Disse, puxando-a mais contra si e abraçando-a com toda a sua força.
Eles ficaram ali abraçados por um tempo, ignorando a discussão que o filho tinha tido com eles e só pensando no quão bom era ele estar vivo.
- James, achas que ele nos vai perdoar? – Ouviu a Lily perguntar, afastando-se dele para olhar directamente para os olhos amendoados do marido, que não conseguiam esconder a dor que estava a sentir.
- Não. – O James murmurou baixando o olhar para o chão para não observar a face da mulher. – Eu pelo menos sei que eu nunca me vou perdoar.
Ele largou-a e estava para se virar outra vez quando a viu agarrar o braço outra vez.
- E o que vais fazer? O que vamos fazer? – Ele sentiu o aperto no seu braço aumentar enquanto a Lily esperava atenciosamente pela solução.
Ele mexeu no cabeço com a mão livre, nervoso e confuso. O Harry estava vivo e ele daria tudo para poder ficar com ele e finalmente agirem como uma família mas sabia que isso nunca aconteceria. O Harry queria independência e não mostrava confiança nenhuma neles. Como é que eles podiam ser uma família, se ele nem os queria reconhecer como pais? Se nem sabia os nomes dos pais?
- Eu não sei Lily. – Disse fechando os olhos com dor e sentido uma vontade enorme de chorar. Chorar de raiva, de dor, de tudo. Porque é que ele não podia ter uma vida simples por uma vez na vida? Porque é que lhe tinham tirado o Harry? Eles só queriam ser uma família e ele não podia dizer que eram. Tinham sido muito protectores do Charles, quando 3 anos depois do Harry desaparecer, ele nasceu. Foi graças a esse bebé que eles conseguiram sair da depressão e o James não estava orgulho em dizer, mas se não fosse esse bebé provavelmente eles já não eram um casal. Esse bebé e a Natalie, a bebé que eles passaram a amar como se fosse uma filha quando a mãe dela morreu para proteger o Harry. Mas mesmo assim, ele não podia dizer que eles foram uma família normal. Sempre se recusaram a falar do herói do mundo mágico ao Charles que cresceu, vendo os seus pais tristes e sem energia nas datas de festa. A Lily nunca mais tinha sido a mesma, tendo sempre uma sombra no olhar que nunca ninguém conseguiu tirar e ele sabia que também não foi o mesmo. Ainda era brincalhão e descontraído mas tudo isso era artificial e as pessoas sabiam. Tinha-se tornado mais activo na luta contra os bruxos das trevas do que alguma vez foi, conseguindo assim chegar à sua posição de Auror Chefe e meteu-se nas políticas para caso o Voldemort retornasse, como o Dumbledore dizia que iria acontecer, ele poder complicar-lhe a vida. No entanto, nada disso fez efeito quando viu, há um ano, o seu filho ser raptado e viu o Voldemort vivo outra vez! Estava fraco se a descrição que o seu filho tinha dito era verdade, a ganhar a sua magia de volta, que foi a sorte para ele ter conseguido chegar a tempo naquela noite, quando estavam prestes a matar o Charles. Nisso tinha que agradecer o facto de ser demasiado protector, se não fosse a pulseira que indicava onde é que ele estava, nunca imaginaria que ele estava num cemitério a ser vitima de um ritual que o Pettigrew fez para retornar o seu mestre… Aquele rato maldito…. Não o tinha conseguido apanhar há 13 anos mas quando ele lhe pusesse as mãos em cima…
- James, não podemos desistir. – Ouviu a Lily dizer, ao não ter uma resposta sua, com a determinação típica dela. – Eu não vou desistir! – Ela disse, com um fogo no olhar que ele tinha saudades de ver, no entanto, ele ainda continuava sem ideias para saber o que fazer e o seu desânimo fez com que ela lhe largasse o braço. – James, nós finalmente encontrámos o nosso filho, eu não vou desistir dele!
Ele suspirou, ela podia estar forte e decidida mas ela não estava a ver a verdade: o Harry detestava-os e qualquer atitude deles seria interpretado negativamente por ele.
- Eu não sei o que fazer Lily. O nosso filho odeia-nos.
- Se me permitem dizer, ele não vos odeia. – Ouviu uma voz atrás da Lily dizer, muito mais velha do que eles e mais sábia. Era o Dumbledore que retornava com o com Remus ao lado. – Nós não sabemos o que o Harry passou mas sabemos sem dúvidas que ele ainda gosta de vocês.
- Ele expulsou-nos Albus! – Ouviu-se a dizer, vendo a sua mulher ganhar esperanças parvas pelas palavras dele.
O Albus só suspirou, não ficando muito desanimado com a resposta.
- Que seria de esperar. Ele nunca ouviu falar disso e eu vi toda a conversa e a resposta dele. Ele é frio, é verdade mas ele sente alguma coisa por vocês. – Disse, finalmente parando ao lado deles. – Ele está só a tentar proteger a Rose Smith.
- Ele realmente gosta dela, não gosta? – Perguntou a Lily impressionada com a lealdade do filho, fazendo o Dumbledore sorrir.
- Sim, ele trata-a como a uma irmã, extremamente protetor. Quando a notícia assentar e eles acalmarem-se, acredito que vocês possam ter uma conversa mais civilizada. Isto ainda foi demasiado cedo.
- Eu precisava de o ver Albus… ele é o meu filho! – Suplicou a Lily fazendo o Albus sorrir, simpático.
- Eu sei e compreendo. Treze anos a pensar que o vosso filho morreu… 13 anos sem esperanças para descobrir que ele estava vivo mas mal tratado, não foi uma coisa leve para descobrir e eu compreendo. Mas vocês precisam de se pôr do lado dele. Ele precisa de tempo.
Eles ficaram em silêncio, processando as palavras do Dumbledore até que ouviram passos e viram a figura do Sirus Black a correr até eles, parando ao lado deles, espantado.
- Eu não cheguei muito tarde, pois não? – Ele perguntou ofegante pela corrida. – A Natalie teve mais uma crise e eu não a conseguia fazer compreender que eu era necessário aqui. – Ele parou, ao ver a dor nos olhos da Lily e do James e começou a ter um mau pressentimento. – O que aconteceu? Vocês já foram falar com ele? Correu bem? O que se passou?
- Calma Sirius. – Murmurou o Remus, vendo o amigo estar quase sem ar por fazer tantas perguntas, sem respirar. – Nós já falamos e vamos-te contar tudo enquanto comemos. Encontraste-te com ele há tarde.- Disse desviando o olhar para o James e a Lily. – Vão descansar que estes dias tem sido muito stressantes para vocês. Vão ver que tudo se resolve. – Disse dando um pequeno sorriso no entanto, eles não corresponderam estando demasiado preocupados com o seu filho. Contundo, agora tinham uma certeza, se tinham achado finalmente o filho, não iriam desistir dele por nada neste mundo. Podia não dar em nada mas pelo menos tinham tentando! E se o Dumbledore dizia que eles podiam ser perdoados, quem eram eles para o desmentir?
N.A. Vocês se calhar vão achar estranho os anos que eu disse que os pais da Rose iriam ter, no entanto, o James é Auror Chefe e tem poderes no mundo Muggle, por isso, tem a certeza que a pena dos dois vai ser alta. É a vingança dele pelo que fizeram ao Harry.
Bem, qualquer dúvida avisem. No próximo capítulo, é as consequências do que foi dito aqui e as respostas. Digam o que acham da fic e até lá =).


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Karinchan
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Re: O lado cinzento

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