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Ceriege

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Ceriege

Mensagem por ALSo em Qui Jan 10, 2013 3:37 pm

Prólogo

Clara é uma recém-licenciada da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Julian é um jovem executivo que administra algumas das empresas da família.
Ela é feliz, até o conhecer! Ele era atormentado por pesadelos diariamente!
O seu mundo é completamente distante, enorme como o oceano que os separa.
Esta é, essencialmente, uma história de amor. Espero que gostem!
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Capítulo I

Mensagem por ALSo em Qui Jan 10, 2013 6:44 pm

Naquele dia primaveril, quente já, muito quente de facto, Clara acordou cansada e excitada!
Cansada porque não tinha dormido com a excitação de viajar para a Bélgica, onde iria encontrar a sua amiga de longa data! Ambas eram pen palls desde os dez anos e, desde essa altura, eram as melhores amigas!
Clara nunca se conseguiu exprimir livremente e a escrever era a única forma onde se sentia verdadeiramente como peixe na água!
Flor, diminutivo de Florence, era o oposto de si! Expressiva, elegante, linda, sociável e... Muito graciosa. Ao contrário de Clara que parecia ter a coordenação de uma criança de 4 anos!
- Clara!!! - é a mãe a chamar-me!
Olhou para o relógio - Bolas! Já estou atrasada!
Tomou um duche rápido, vestiu-se com a roupa que tinha tido a sensatez de preparar no dia anterior e desceu as escadas em tropeção!
As malas já estavam no carro, certamente colocadas pelo Carl, o seu padrasto, pouco dado a afectos, mas que amava como a um pai. Aliás, fora o único que conhecera! O seu pai morreu, no Iraque, quando a mãe estava ainda grávida de si!
Entrou na cozinha, sorveu o leite que a mãe preparou, pegou na sande e meteu-a à boca!
- urrrrkkmndhd! - disse ao padrasto
- Clara, não se fala com a boca cheia! Impressionante que ainda tenha de te dizer estas coisas! Acabada de sair da universidade e ainda te portas como uma garota!- disse meio a ralhar, meio condescendente.
- Mãe, também te amo muito e vou ter saudades! Eu ligo! - e virando-se para o padrasto- Vamos Carl?
Tinha proibido a mãe de a acompanhar ao aeroporto porque sabia que não evitaria uma cena de abraços e choros no terminal e tinha demasiada vergonha para passar por isso!
- Diverte-te muito e liga-me! Comporta-te filha, olha que os pais da Flor são gente diferente de nós e podem não gostar das tuas...trapalhadas!
Disse isto já com uma lágrima a correr pelo rosto. Nunca se tinha separado tanto tempo da filha, apesar de ainda há pouco ela ter voltado para casa da universidade. Mesmo quando estudava vinha todos os fins de semana a casa!
- Não te preocupes mãe! Os Bernet já me conhecem e são tão simpáticos e simples! Ninguém diria que tem aquele dinheiro todo!
Já tinha conhecido os pais da Flor uma vez que a sua amiga tinha vindo estudar para a América na mesma universidade que ela e moraram juntas aqueles últimos quatro anos!
- Sim, mas desta vez é diferente! Vais para a casa deles, o meio deles... É diferente filha tu sabes...
Nesta altura já Carl bufava e encaminhava-se para a porta pronto para me levar ao aeroporto de Myrtle Beach.
- Xau mãe! Amo-te!- deu um beijo fugaz à mãe e desatou a correr porta fora.
Percorreram o caminho todo calados, silêncio só interrompido pela Christina Perry, que cantava na rádio a sua música favorita, "A thousand years", resquício da sua mais recente leitura da saga Twilight!
Ficava triste sempre que ouvia a música, não por causa dos livros, mas porque aqueles versos lembravam-lhe que nunca se tinha realmente apaixonado! Acreditava mesmo que a música falava de si e iria ter de esperar mil anos para encontrar o amor!
Sacudiu o cabelo comprido para tirar aquele pensamento da cabeça! Devia estar feliz por ir viajar para a Bélgica, estar com a sua melhor amiga e relaxar depois de tanto tempo enfiada nos livros! A Flor disse-lhe que tinha uma surpresa para ela, ontem quando ligou, mas não lhe quis dizer!
Já estava na mesma excitação com que acordou quando Carl parou nas portas de entrada do aeroporto!
O padrasto saiu rapidamente do carro e dirigiu-se para a mala, de onde tirou a bagagem e a colocou pronta para levar! Pousou-lhe um beijo na testa como sempre fazia e desejou-lhe boa viagem!
Clara dirigiu-se para dentro do terminal e procurou nos écrans o seu voo. Já estavam a fazer o check-in mas não se preocupou. Os pais da Flor tinham-lhe reservado um lugar em 1a classe! Uau!
- É a nossa prenda de final de curso. - disseram quando lhes ligou a dizer que não podia aceitar! E ficariam ofendidos se o fizesse! Ok!
Esperou mais meia hora na sala VIP do aeroporto até que uma jovem assistente de bordo se dirigiu a ela e lhe disse que podia encaminhar-se para o avião e que a acompanharia! Uau! -Isto de vida de rico é fantástico! - pensou.
No entanto, não havia dinheiro nenhum no mundo que evitasse a escala que teria de fazer até embarcar, de facto, em direcção a Bruxelas.
Quando entrou no segundo avião do dia, passados quinze minutos da descolagem adormeceu como um bebé! Só iria chegar a Bruxelas no dia seguinte!
Acordou quando o comandante anunciou que se ia preparar para aterrar e era necessário colocar os cintos de segurança! Fez o que ele mandou e espreitou pela janela.
- Caramba! A Flor tinha razão! Na Bélgica está sempre a chover!
O dia estava carregado e caiam pequenos pingos de chuva! Era, de facto, um clima deprimente!
Ao sair pelas portas de desembarque, olhou em todas as direcções até descortinar a Flor que entrava agora no terminal! Bem, a sua pontualidade estava a melhorar. Quando foram viver juntas tinha sempre de adicionar pelo menos trinta minutos às horas que ela marcava para se encontrarem.
Correram uma para a outra como se não se vissem há anos, quando na realidade, tinham-se separado há quinze dias! Sentia a Flor quase como a irmã que nunca tinha tido! Falavam de tudo, bem... falavam não é bem o termo! Ela falava e Clara ouvia! Sabia-lhe bem ouvir a vida fantástica que ela tinha, cheia de emoção, rapazes...
- Oh Clara! Estás com péssimo aspecto, até parece que passaste a noite num avião!Ehehehe - tinha o dom de fazer brincadeiras com o óbvio! - Anda, o carro está à nossa espera. Para a casa dos meus pais ainda temos de fazer trinta minutos de viagem!
Foram todo o caminho a falar (bem, Clara ia a ouvir como sempre), e o caminho fez-se extremamente rápido. Quando chegaram aos portões da casa dos Bernet nada a tinha preparado para o que ia encontrar. Estavam escondidos numa rua de paralelo, entre uma casa de pedra e as traseiras de uma igreja. Abriram automaticamente quando se aproximaram e rangeram à medida que o jipe Volvo que a Flor conduzia deslizava entre eles.
- Uau! A casa é enorme! - pensou.
Divertida com a sua admiração a amiga riu-se.
- Ainda não viste nada! Espera até conheceres o castelo por dentro!
- Mas a tua casa é um castelo?? Nunca me tinhas dito nada!
Clara sabia que os pais da Flor eram condes, mas como na Europa ainda haviam algumas monarquias, nunca se tinha impressionado muito.
Entraram pela " porta de serviço" e foram dar a um corredor escuro cheio de troféus de caça que a Flor lhe ia dizendo que eram do avô e, por isso, o pai nunca teve coragem de se desfazer deles!
A mãe dela estava na cozinha a falar com uma empregada, nos seus modos gentis que tanto admirava, quase como se falasse com uma amiga. Quando ouviu os passos das raparigas, virou-se e sorriu de braços abertos enquanto se encaminhava para Clara.
- Clara, estamos tão felizes por estares aqui! Correu bem o voo? - enquanto isso deu-lhe um abraço apertado seguido de dois carinhosos beijos na face.
- Obrigada Madame Chloe! Correu perfeitamente!
- Ainda bem! Ninguém conseguia calar aqui a tua amiga Flor com os planos que tem para quando chegasses! Vão lá pousar as malas no quarto e desçam depois para o jantar!
A Flor agarrou-a pelo braço e encaminhou-a para o quarto onde iria ficar! Subiram umas escadarias duplas em mármore enormes até um corredor iluminado por várias janelas e decorado com fotografias de família. Flor abriu uma das portas à direita e entrou.
- Gostas? - perguntou-lhe enquanto entravam.
Era lindo! Todo branco, com um pé direito enorme e todo decorado em tons de bege e azul claro! A cama era mais que king size, certamente cabiam lá à vontade cinco pessoas! Em frente, haviam portadas antigas que davam para uma varanda em grades de ferro trabalhado, com vista para um jardim lindo com a forma de uma borboleta!
Do lado direito, uma porta alta de madeira maciça dava para um quarto de banho com uma banheira antiga que dominava toda a divisão!
Estava sem palavras! Clara sabia que a amiga era rica, mas não fazia ideia da casa onde ela vivia! Se aquele era o quarto de hóspedes nem podia imaginar como seriam os outros!
- E então? - perguntou a Flor com um ar divertido.
- Flor! Tu cresceste nesta casa? Meu Deus!
- Ehehehe! Sabia que ias ficar assim! Mas não te habitues muito, não vais ficar aqui muito tempo!
Olhou para ela com ar interrogador mas absteve-se de fazer alguma pergunta. Já a conhecia o suficiente para saber que só lhe diria alguma coisa quando quisesse e quanto mais a interrogasse mais tempo demorava a revelar as suas ideias.
- Va! Agora toma um banho relaxante, descansa e depois volto para te buscar para o jantar.
Fez exactamente o que a amiga mandou! Quando voltou, Flor vinha linda como sempre. Com os seus jeans desbotados de marca e uma camisola larga vermelha que realçava o preto do seu cabelo! Era linda a amiga. Alta, elegante, de cabelos pretos com grandes caracóis, olhos verdes profundos e uma tez morena-dourada! Ao contrário de Clara que tinha uma pele tão branca que quase se podia ver através dela!
Clara era alta, alva como a neve (o que a fazia corar bastantes mais vezes do que queria), uns olhos grandes azuis escuros e um cabelo, sempre selvagem, loiro escuro. Nunca se tinha achado bonita apesar de toda a gente que conhecia lhe dizer o contrário! Era desajeitada e trapalhona e a sua estima nunca foi lá grande coisa!
Desceram para a sala de jantar, onde um candelabro gigante se impunha por cima da mesa comprida, de madeira, com lugar para mais de 20 pessoas, certamente! Os pratos estavam colocados de forma elegante, rodeados de talheres de prata e tantos copos!
- Oh meu Deus! Eu sei lá distinguir copos e talheres! - pensou.
Mais uma vez, a Flor riu-se do seu espanto e com o ar mais simples deste mundo disse-lhe
- Não te preocupes! Eu ainda hoje não sei para que serve tanta coisa em cima da mesa! - e piscou-lhe o olho.
Foi no fim do jantar que a Flor a encaminhou para a sala, seguida pela mãe e onde lhe disse qual era a surpresa! Já se tinha até esquecido!
- Amanha, apanhamos o TGV e vamos para a casa de férias dos meus pais no Sul de França! Que te parece?
- Isso é fantástico! Flor, a sério? Tenho só de avisar a minha mãe porque ela pensa que vamos ficar por aqui.
- Não te preocupes, Clara. - disse a Madame Chloe - Já falei com ela ontem quando vinhas a caminho. Não vos deixaria ir antes de pedir permissão à tua mãe!
- Então está combinado! Amanhã apanhamos o TGV às dez horas e depois das quatro da tarde já lá estamos! Mãe, pedes ao Paulo para nos ir buscar?
- Não te preocupes, mon coeur, já está falado. Ele estará à vossa espera!
- O Paulo é o marido da governanta da casa, a Ana. Vivem lá e tratam os dois da propriedade. Vais gostar de os conhecer! Ela cozinha divinamente! Agora, siga vamos dormir que deves estar cansada e amanhã vamos estar seis horas num comboio!
Flor já lhe tinha falado de Ceriege, a casa que os pais tinham numa pequena vila no Sul de França. Iam para lá todos os verões e divertiam-se imenso. Já tinha visto fotos, principalmente da piscina e de Saint-Tropez, onde iam à praia e onde Flor e os amigos saíam à noite.
Quando as via, Clara sonhava em como seria ter umas férias tão divertidas! As suas resumiam-se a ir para a praia com alguns amigos e com os seus livros a tira-colo.
Estava novamente ansiosa.
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Re: Ceriege

Mensagem por charlotte h. em Dom Jan 13, 2013 3:32 pm

Estou a gostar muito da história até agora! Gosto da maneira como escreves, sinto que não falta nada à narrativa (às vezes as pessoas esquecem-se de mencionar pequenos nadas e isso faz toda a diferença). Só tenho a acrescentar que não é necessário usares tantos pontos de exclamação no final das frases, talvez um ponto final ficasse melhor, mas é só uma sugestão :)
Estou ansiosa também por mais OnGCute
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Re: Ceriege

Mensagem por ALSo em Seg Jan 14, 2013 9:12 pm

Obrigada pelo feedback Charlotte h.. Vou tentar seguir a tua sugestão, se conseguir ;)
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Capítulo II

Mensagem por ALSo em Seg Jan 14, 2013 9:17 pm

A viagem foi, surpreendentemente, rápida e confortável e passavam vinte minutos das quatro da tarde quando chegamos à gare de Toulon.
À nossa espera estava, como previsto, o Paulo. Um homem bonito, à volta dos seus quarenta anos, com um cabelo grisalho e um porte a lembrar o George Clooney!
- Olá Flor - cumprimentou-a com um beijo na cara enquanto lhe pegava na mala.
- Paulo, esta é a Clara! Clara este é o Paulo.
Pegou também nas minhas malas enquanto me cumprimentava.
- É um prazer conhecer a famosa Clara. Aqui a sua amiga fala sempre muito de si.
- Espero que sejam só coisas boas! - disse enquanto dava uma cotovelada na minha amiga! Toda a gente a quem me apresentava parecia já me conhecer. Era irritante!
Encaminhamo-nos para o parque de estacionamento, seguindo o Paulo, enquanto a Flor lhe perguntava pela Ana, pelo tempo, pela piscina.... Enfim, bombardeava-o com perguntas, como sempre fazia com toda a gente.
A viagem ainda demorou mais de uma hora e fui pelo caminho admirada com as paisagens lindas e com o tempo fantástico que estava. Ali já era verão!
Quando viramos para um caminho à direita, percebi que tínhamos chegado. Era um caminho em cimento que subia entre árvores e relva até um pequeno portão eléctrico. A Flor explicou-me que aquela parte da propriedade estava vedada por uma cerca eléctrica por causa dos javalis.
- Não te preocupes! Só liga à noite. Não é Paulo?
- Sim. A partir das nove, mais ou menos. E se levar um choque só sente um formigueiro. Não serve para matar!
Riram-se os dois do meu ar de pânico enquanto ouvia o que me explicavam!
Paramos num parque de pequenas pedras, rodeado de arbustos e árvores. A Flor saiu a correr enquanto perguntava ao Paulo pela Ana, a governanta de que me tinha falado.
- Deve estar na cozinha, claro. - disse isto enquanto se encaminhava para a mala e me dizia para seguir a minha amiga que ele se encarregava das bagagens.
Fui atrás dela para uma entrada de uma casa baixa, com um grande vaso vermelho à entrada, carregado com pinhas, um banco cinzento lindo e uma pequena placa em azulejo verde que dizia Ceriege.
Quando entrei, já a Flor tinha desaparecido e eu vi-me num hall com um quadro pousado do lado direito, um enorme espelho e um candeeiro de pé do lado direito. Podia ver em frente o inicio daquilo que parecia um jardim interior atrás de um vidro.
- Clara! Anda! Estou na cozinha. - ouvia-a dizer e o som vinha do lado direito. Desci umas escadas e virei por uma porta à direita. Passei um pequeno corredor com armários embutidos e uma porta para o que parecia ser uma casa de banho de serviço. Segui e entrei em frente por outra porta que dava para a maior cozinha de uma casa que eu tinha visto!
Tinha uma mesa para dez pessoas, em frente; à direita, uma pequena secretária e um balcão; e à esquerda, outro balcão alto com o fogão e os fornos mesmo atrás.
- Ana, esta é a Flor. Flor, esta é a Ana, a melhor governanta e cozinheira do Sul de França!
Dirigi-me a ela e cumprimentamo-nos com dois beijos.
- Então é esta a tua grande amiga Clara. Finalmente que a conheço! Bem, na verdade acho que só me faltava conhece-la pessoalmente porque esta menina conta-me tudo sobre si, sempre que aqui vem, por isso, já sei o que gosta de comer e tudo.
- É! Parece que a Flor fala de mim a toda a gente! - disse eu divertida. A Flor era mesmo assim.
- Preparei-te o teu quarto e para a tua amiga preparei a casa da piscina. Pode ser?
A casa da piscina? Oh meu Deus! Olhei para a Flor interrogando o que seria a casa da piscina.
- Está óptimo! Anda, vou mostrar-te a casa.
Agarrou-me pela mão enquanto saíamos por outra porta da cozinha que dava para uma sala de jantar enorme! Do lado direito, janelas a todo o comprimento e largura da parede, que davam para um deck onde repousava um Buda de pedra que me daria pelo joelho certamente. Do lado esquerdo, encostado à parede estava um sofá, ladeado de duas pequenas mesas com candeeiros, e em frente dele uma mesa de apoio comprida forrada a tecido. Em frente, uma mesa grande de madeira, com outros vinte lugares. Em cada cabeceira havia um cadeirão enorme e à volta cadeiras de madeira. Havia ainda na outra parede um buffet lindo com duas jarras com flores acabadas de colher.
- Aqui é a sala de jantar! Vamos por ali. - e seguimos por uma porta que ficava perto da mesa e que tinha umas pequenas escadas.
- Aqui são os quartos dos meus irmãos e o meu.
Flor era a mais nova dos três filhos dos Bernet, sendo também a única rapariga. Conhecia bem o irmão do meio, o Charles, casado e com uma filha linda. Tinha trinta anos e morava agora em Inglaterra. O irmão mais velho, o Julian, tinha trinta e três anos e eu só o tinha visto uma vez, na nossa formatura. Ambos eram lindos, como a minha amiga, mas o mais velho tinha algo que não conseguia definir. Era qualquer coisa nos seus olhos verdes profundos e escuros, uma intensidade, uma tristeza. Era intrigante.
Mostrou-me o seu quarto e a sala de jogos que ficava entre ele e os outros dois quartos. Era uma sala com dois níveis, com uma tv em 3D, um sofá lindo e armários embutidos cheios de brinquedos do tempo em que eram crianças e que agora eram usados pela sobrinha.
Saímos daquela parte da casa e virámos à direita, onde consegui ver que, de facto, ali no meio havia um jardim rodeado de janelas de vidro, com um belíssimo Bonsai a dominar no centro!
Passamos por uma sala que ficava dois degraus abaixo do nível onde estávamos! Era linda. Com um sofá rosa com várias almofadas, uma mesa baixa mesmo à sua frente cheia de várias bolas de vidro, colecção da mãe, com certeza. O sofá estava virado para mais janelas de vidro a preencher toda a parede, e lá fora viam-se mais jardim e árvores.
- Aqui é o salão de verão! Os mais pais adoram vir para aqui no fim de jantar e falar com os amigos.
- Ah! É verdade! Quando vêem os teus pais? - sabia que todos os anos os Bernet vinham passar o mês de Julho a Ceriege, para fugirem do verão belga.
- Surpresa!!! Este ano não vêem! Como acabamos a universidade deram-nos de prenda estas férias sem eles! Não é fantástico?
- Claro que sim! Então estamos sozinhas todo o mês nesta casa extraordinária?
- Bem, sozinhas não será bem o caso! Temos sempre a Ana e o Paulo, e o meu irmão Julian chega no sábado para passar aqui duas semanas. Mas não te preocupes! Sabes que ele não é muito sociável, por isso, não vai atrapalhar as nossas férias!
Flor já me tinha contado que Julian, apesar de bem sucedido nos negócios, não era pessoa de muitas falas e, por isso, nunca teve muitos amigos. Era o membro mais diferente da família! Cada vez que pensava nisso, mais intrigada ficava.
Continuamos com a visita pela casa, e Flor mostrou-me os quartos de hóspedes, o salão de inverno, o deserto, a biblioteca e o quarto dos pais! Ufa! Meu Deus! A minha casa cabia cem vezes naquela!
Saímos para a piscina, rodeada de pequenos jardins e uma oliveira, onde vários cadeirões e espreguiçadeiras estavam já preparados para receber quem quisesse apanhar um pouco daquele sol magnífico! Ao fundo, vi uma pequena casa com um coberto no meio. Via um balcão de bar e vários sofás de aspecto confortável, e a Flor explicou-me que aquele era "o salão marroquino"! Muito apropriado! De cada lado do coberto podia ver-se uma porta. Entramos pela do lado direito e vi uma pequena sauna, um wc e um chuveiro ao ar livre! Lindo!
Saímos e entramos na porta que se encontrava do lado oposto.
- É aqui que vais ficar! A casa da piscina!
A casa da piscina era constituída por uma pequena sala/escritório, logo à entrada, com um sofá e uma secretária com um Pc. Daí passámos para um corredor com armários embutidos, que chegavam ao tecto, do lado direito e uma porta do lado esquerdo, que dava para uma casa de banho com banheira e chuveiro! Ao fim do corredor, entrámos no quarto! Mais uma vez era enorme!
Tinha alguns sofás virados para uma tv, uma lareira linda decorada com pinhas e uma cama king size! Era uma divisão cheia de janelas mas pouco iluminada. Mais tarde, iria agradecer por isso.
- Que tal, Clara? Gostas?
- Como havia de não gostar? Esta casa é linda!
- Ainda bem. Olha, o Paulo já te trouxe as malas. Troca-te e vamos apanhar um sol e dar uns mergulhos. Eu vou ao meu quarto vestir o biquini e venho aqui ter!
Saiu apressada e eu fiquei especada ainda a admirar a beleza de tudo aquilo!
Procurei na mala um dos biquinis que tinha trazido e troquei-me. Enquanto esperava, liguei a tv e ao fim de algum tempo percebi que, embora tivesse aprendido algum francês, não percebia metade do que diziam. Estava já a desligar quando a Flor chegou.
- Vamos?
Segui-a para a piscina e deitamo-nos cada uma numa das espreguiçadeiras lá colocadas.
- E que tal? Gostaste da surpresa?
- Flor, adorei! A tua casa é realmente fabulosa! E este tempo então nem se fala.
Passamos os dias seguintes a apanhar sol, a nadar, a falar e a ler. Almoçávamos na piscina e jantávamos num terraço lindo, do lado de fora da cozinha, onde todos os dias nos sentávamos a ver o pôr-do-sol! Era idílico!
Claro que ao fim de dois dias a Flor já estava aborrecida com tanto descanso! Começou a ligar para os amigos que sabia estarem naquela zona e a combinar saídas para jantar e sair à noite!
Fui algumas vezes com ela mas não era tão adepta dessas saídas como ela.
Na sexta-feira desculpei-me com o sono e deixei-me ficar em casa.
- Tudo bem! Hoje ficas mas amanhã vamos almoçar a Saint Tropez! Só as duas.
- Ok! Mas depois vimos para casa, pode ser?
- Claro que sim. Até porque amanhã chega o meu irmão e tenho de estar aqui para o receber e jantar com ele.
Já me tinha esquecido que o Julian vinha passar aqui alguns dias e, sinceramente, não estava muito entusiasmada com a ideia. Mas também não me aborrecia muito, a casa era tão grande que podia bem evitar estar com ele. Achava-o soturno, intrigante é certo, mas taciturno também.
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Capítulo III

Mensagem por ALSo em Qui Jan 17, 2013 10:52 am

No sábado fomos almoçar ao Pearl Beach, um restaurante refinado e moderno, localizado junto à água. Almoçamos no terraço mesmo por cima da praia e estava tudo delicioso, do vinho à comida!
No final, demos uma caminhada pela praia e depois seguimos para o carro para voltar a casa.
Quando chegamos, estava já estacionado no parque um jipe Mercedes ML, último modelo, que deduzi ser do irmão da Flor.
- Ups! Chegamos tarde, o meu irmão já veio!
Saímos do carro e encaminhamo-nos para casa. Quando entrámos estava o Julian a falar com o Paulo no fim das escadas e voltou-se imediatamente para nós.
- Minha Flor! Que saudades! - esticou os braços e ficou à espera.
A Flor saltou por cima das escadas atirando-se certeira para os braços do irmão! Rodopiaram algumas vezes até ele a pousar no chão e pegar na sua cara com ambas as mãos!
- Continua linda como sempre a minha mana bebé!
- Julian para de me chamar bebé! Já tenho 24 anos!
- Perdão minha senhora, julguei que seria mais nova! Sendo assim, está muito acabada para a sua idade! - e desatou a rir enquanto a Flor lhe dava murros no braço!
Aquele não era o Julian que a Flor me falava; era o irmão mais velho a brincar com ela como se fossem dois garotos ainda.
- Clara já conheces o Julian.
- Claro que sim. - desci as escadas e cumprimentou-me com dois beijos na cara, como era hábito naquela família.
- Estás a gostar destas férias? - perguntou-me mais por delicadeza do que realmente interesse.
- Claro, quem podia não gostar de passar o verão aqui? - respondi-lhe seca, apesar de não ser essa a minha intenção. Aquele homem criava uma certa tensão em mim e eu não conseguia perceber porquê!
- Bem, vou arrumar as coisas e depois vou até à piscina. Estás por lá?, perguntou virando-se para a irmã.
- Claro! Esperamos lá por ti!
Fomos trocar a roupa pelos nossos biquinis e deitamo-nos na piscina, eu com a minha última leitura, "As cinquenta sombras de Grey", e a Flor com as suas revistas de moda!
Aquele romance estava a mexer comigo! Sonhava todas as noites que era a personagem principal e encontrava um Christian lindo (mas não tão depravado!) que me cobria de atenção e beijos!
Estava tão embrenhada na história que nem notei quando Julian se sentou na mesa que se encontrava entre as nossas espreguiçadeiras!
- Olá outra vez! - desta vez falava para mim, com uma expressão curiosa no rosto.
- Olá. - já sentia a minha cara a ficar corada com aquela atenção não esperada. Tentei continuar a ler mas tornava-se perturbante fazê-lo enquanto me observava. Foi a Flor que me libertou daquele sufoco que estava a sentir.
- Então maninho! Que tens feito desde a minha formatura?
- Oh! O normal, trabalho. - senti aquele suspiro mais como um lamento de tristeza do que uma resposta à irmã. - E vocês? Que tal estão a correr as férias das mais recentes licenciadas?
- Óptimas! Tenho saído com alguns amigos para jantar e dançar!
- Tens saído? Então e tu Clara não tens ido com a minha irmã?, perguntou virando mais uma vez a sua atenção para mim.
- Ahhh. Bem .... Não sou tão dada a saídas como a Flor. Prefiro ficar por casa a ler. - disse atrapalhada e, mais uma vez, corada! Pff! Era enervante estar sempre a sentir a cara a arder!
- Ai sim? Nunca pensei que a minha irmã pudesse ter uma melhor amiga tão diferente dela! Esta miúda sempre gostou de estar rodeada de amigos a dançar e sabe-se lá mais o quê! - disse enquanto a despenteava com uma carícia no cabelo.
- Que engraçados que estamos Sr. Julian! Muito humorado sim senhor! - ao mesmo tempo que lhe dizia isto, Flor fez-lhe uma careta pateta.
- Muito bem. Vou deixar-vos aqui na vossa leitura e vou deitar-me no ninho a descansar.
O ninho era parte da mobília de jardim que consistia num sofá redondo com várias almofadas e com uma cobertura que se movimentava para tapar ou destapar quem nele se deitasse.
Vi-o a afastar-se com o seu iPad na mão e observei pelo canto do olho enquanto se deitava no ninho. Meu Deus! Ele era mesmo lindo e tinha um corpo... Assim só de calções dava para perceber que fazia exercício; tinha um peito bem trabalhado e umas pernas esculturais, já para não falar naquele rabo em forma de coração! Clara concentra-te! Virei a cara, envergonhada com as minhas próprias constatações e voltei a enterra-lá no livro!
Mas já não conseguia ler! Só pensava naquele deus terreno, de pele dourada, olhos verdes, cabelo negro encaracolado e um corpo divinal!
- Meu Deus Clara, estás parva? - Perguntava a minha consciência. - Ele é irmão da Flor! E tem quase mais dez anos que tu!
- E depois? - Respondia-lhe eu! - Não posso achar que é lindo? Estou só a admirar, não estou a ponderar casar com ele! Pfff!
A minha consciência conseguia irritar-me! Calei-a e continuei a relembrar aqueles traços lindos, aqueles olhos expressivos e que, no entanto, não deixavam descortinar o que pensavam!
Fiquei assim presa nestes pensamentos durante aquilo que me pareceram tempos infinitos!
- É bom? - a voz grave dele dissipou os meus pensamentos como o vento que empurra as nuvens.
- Hum? Desculpa? - meu Deus, será que ele percebeu que estava a pensar nele? Não pode ser!
- Perguntei se o livro é bom.- disse com um sorriso malandro nos lábios lindos, vermelhos e carnudos.t
Clara, concentra-te e responde-lhe! - A minha consciência voltava para me repreender! E com razão!
- Sim! É bom o livro. - mas tu és mais! Lá ia a minha mente outra vez a divagar! Concentração precisa-se!!
- Qual é a história?
- Bem, é complicado... - não podia dizer-lhe que estava a ler um "romance erótico"! O que iria pensar de mim? Que era uma romântica frustrada, sem namorado, que sonhava em encontrar um Christian como no livro? Era de facto tudo isso mas não havia necessidade de ele o saber!
- Já ouvi falar do livro e a história não me pareceu muito complicada. Interessante talvez, mas não complicada.
Merda! Já conhecia a história do livro!
- Sim, não era isso que queria dizer! O que é complicado é explicar... - não te enterres mais Clara. Descalça a bota. - Bem, eu estou a gostar.
- Ainda bem. - abriu um sorriso que me parecia trazer um pouco de malícia junto! - Flor, vou para cima. Jantámos às oito, como de costume?
- Claro. Às oito estamos à mesa.
Enquanto se afastava, continuava a olhar para aquelas costas bem definidas, até ouvir a voz da Flor como se viesse do fundo de um poço.
- Clara, estás a ouvir o que te digo? Clara!!!
- Desculpa! Diz! Estava distraída. - disse-lhe eu corada por ter sido apanhada perdida nas minhas divagações.
- Isso reparei eu! Estavas a apreciar o meu irmão ou foi só impressão minha?
- Estás parva? Claro que não estava a apreciar o Julian, estava era distraída a pensar numa coisa. Só isso!
- Pois pois! Olha, eu vou tomar um duche e trocar-me para o jantar. Vais ter à sala por volta das oito?
- Claro. - a ela nada lhe escapava e reparou, com certeza, na forma como olhei para ele. Certamente pronta a babar-me!
Na única vez que o tinha visto estava vestido com um fato e, apesar de ter um aspecto fabuloso, não perdi nem dois minutos para o apreciar. O que eu tinha perdido!
Sacudi a cabeça para tirar aqueles pensamentos da mente e encaminhei-me para a casa da piscina. Despi o biquini e entrei direta para o duche. Mas era mais forte que eu! Só pensava naquele corpo acompanhado de um rosto lindo de perdição! Tentei afastar esses pensamentos e lembrei-me do que a Flor me tinha dito numa das raras vezes que falava dele.
- O meu irmão teve um problema quando estava perto dos vinte e sete anos e os meus pais internaram-no numa clinica! - nunca soube porquê.
Não me parecia doente nem que tivesse algum dia abusado de drogas, mas era um facto que esteve internado quase um ano! Mas porquê? Bem, também não me interessava! Era só um homem lindo, nada mais! E foi disso que tentei convencer-me enquanto acabava o duche e me vestia.
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Capítulo IV

Mensagem por ALSo em Qui Jan 17, 2013 10:53 am

Ao jantar, mal falei envergonhada por todos os pensamentos que me assaltaram essa tarde acerca do irmão da minha melhor amiga! Ambos falavam animadamente, mas não me conseguia concentrar o suficiente para seguir a conversa! Só de olhar para ele todos os meus pensamentos voltavam em turbilhão e era dificílimo comer nessas condições!
Como é que podia estar neste estado depois de o conhecer há meia dúzia de horas? Mas estava! Estava nervosa só por pensar nele e olhar para ele nem pensar! Arrepiava cada pêlo do meu corpo só de pensar! Pensa noutra coisa! - berrei para mim mesma!
A refeição era deliciosa! A Flor tinha razão quando dizia que a Ana, a governanta, era uma excelente cozinheira! Tinha deixado tudo pronto, a mesa posta para os três e o jantar no forno para se manter quente. À volta da comida, tremeluziam algumas velas e o seu brilho dava um ar ainda mais transcendental ao Julian!
Merda! Para de pensar nisso, Clara! Se não te concentras na conversa, concentra-te ao menos na comida!- lá estava a minha consciência a fazer-me corar!
Ok! A comida é boa! O que será este molho? Parece que leva mostarda de Dijon; tenho de me lembrar de agradecer à Ana amanhã pelas deliciosas refeições que nos tem preparado. E já agora peço-lhe algumas receitas para experimentar em casa.
Podia ser desastrada mas gostava de estar na cozinha. Era dos poucos sítios onde não me achava tão desajeitada. E ainda bem! A Flor era uma péssima cozinheira. Se fosse ela a cozinhar nos últimos anos que vivemos juntas das duas uma: ou passávamos fome ou todos os dias comíamos Take Away! Ri-me sozinha ao lembrar-me da única vez que ela tentou grelhar um bife! Meu Deus! Parecia sola de sapato de tão rijo que ficou!
- Em que pensas tu, que te diverte tanto?
Assustou-me a pergunta da minha amiga. Estava tão concentrada em não os ouvir que até dei um salto na cadeira!
- Caramba, Clara! Estavas mesmo distraída! Em que pensavas tu assim que até te assustaste?
- Oh! Nada. Estava só apreciar a comida e a pensar no "Bife à lá Flor" que fizeste uma vez. - não evitei novamente o sorriso ao lembrar-me daquele "manjar"!
A Flor ficou entre o furiosa e divertida quando lhe mencionei o episódio!
- Não me digas que a minha irmã te obrigou a comer uma refeição preparada por ela? - Julian devia conhecer os atributos culinários da irmã e sorria para mim, com aqueles dentes brancos e um sorriso de cortar a respiração!
- Pois, mas só tentou uma vez! Foi aquilo que se pode chamar uma experiência irrepetível!
Rebentamos os três em sonoras gargalhadas! O ambiente ficou mais ligeiro. Já não me sentia tão perturbada pela sua presença agora que falávamos das peripécias da Flor. E assim ficamos o resto da noite a falar.
Mais tarde, quando me deitei estava exausta e adormeci mal cheguei à cama. Passei toda a noite a sonhar com aquela cara e aquele corpo que apareciam para me atormentar!
No dia seguinte, ao pequeno almoço a minha amiga avisou-me que não iria estar todo o dia em casa e, possivelmente, também não dormiria!
- Então? O que se passa? - perguntei ainda a bocejar.
- Sabes aquele meu amigo que te falei, que todos os anos vem para cá na mesma altura que eu?
Acenei que sim com a cabeça sem de facto perceber de quem falava. Todos os seus amigos belgas se reuniam naquela zona nesta altura do ano, mas não estava com vontade de lhe perguntar a qual se referia.
- Convidou-me para passar o dia com ele e vamos passear. Vamos estar fora todo o dia e, se tudo correr bem, conto não dormir em casa! - e piscou-me o olho com aquela excitação que eu muito bem conhecia.
Era o ar da Flor quando se entusiasmava por um rapaz e só queria estar continuamente com ele, a toda a hora, até se fartar até aos cabelos! O normal!
- Tudo bem. Sem problema. - respondi eu ainda a abrir a boca de sono.
- Brigada!
Só quando ela saltou da mesa, me deu um beijo e saiu a correr para o seu quarto para se preparar é que estranhei o agradecimento. O Tico e o Teco começaram a funcionar e demoraram uns segundos até perceberem. Ia estar todo o dia sozinha com o deus grego do irmão dela!
- Merda! E agora? - pensei em voz alta.
- E agora o quê? - era a voz dele atrás de mim! Borrifei a mesa com o sumo que tinha acabado de meter à boca.
- Desculpa ter-te assustado! Não era essa a minha intenção. - disse ele enquanto se aproximava e me colocava uma mão no ombro. - Estás bem?
Agora melhor ao sentir o teu toque! - lá estava eu a dar asas à imaginação!
- Sim, obrigada! Sou um pouco assustadiça e, para piorar, trapalhona. Sujei a mesa toda agora.
- Não faz mal, eu peço à Ana para trazer um pano e limpa-se já isto. Ana?
A governanta veio e limpou tudo num abrir e fechar de olhos.
Que vergonha! Seria possível que não conseguia estar perto dele sem ter pensamentos impróprios ou atrapalhar-me toda? Ou os dois ao mesmo tempo?!
Sentou-se no cadeirão à cabeceira da mesa e colocou graciosamente o guardanapo com um B bordado a azul no colo, símbolo do nome de família, e, enquanto se servia de flocos e leite, olhava para mim, com um olhar penetrante, como se me quisesse sugar todos os pensamentos com ele.
Estás a imaginar coisas, Clara! Só se está a lembrar da trapalhada que fizeste quando chegou! - berrava-me a minha consciência. Corei mais uma vez de vergonha.
- Coras muito facilmente.
- É uma pergunta ou uma afirmação? - disse-lhe secamente. Porque raio falava assim com ele?
- Uma constatação, de facto. - disse-me a sorrir, indiferente ao meu mau acordar.
- Sou muito branquinha e qualquer coisa me faz corar.
- Ai sim? Por exemplo? - perguntou ele, sorrindo maliciosamente como ontem quando falávamos do meu livro.
- Sei lá. Olha, a minha mãe diz que é por dois motivos: por tudo e por nada!
Riu-se sonoramente, com uma gargalhada linda. Merda! Agora até a gargalhada dele te faz sonhar! Tu não estás bem da cabeça! - cala-te consciência! É que já estou farta de te ouvir! Remédio santo. Escondeu-se nas profundezas do meu cérebro e não a voltei a ouvir.
Quando tinha estes debates internos corava sempre e isso só o faria reparar ainda mais!
- E agora foi por tudo ou por nada? - perguntou ainda a rir.
- Por nada. - disse-lhe envergonhada.
Virei a cabeça para o meu prato do pequeno almoço e tentei comer os meus ovos mexidos. Estava tão nervosa que aqueles outrora saborosos ovos me sabiam agora simplesmente a palha!
Com aquele gesto terminámos a conversa. Ele virou-se para os seus flocos e abriu o jornal que a Ana tinha colocado ao lado do seu prato. Era um jornal de negócios e ele parecia verdadeiramente interessado. Tinha um ar concentrado, enquanto o lia, e reparei, pelo canto do olho, que franzia a testa e, mesmo assim, com o semblante carregado, tinha um aspecto fabuloso. Um ar de modelo de passarela, o sonho de qualquer mulher no mundo!
Pareceu reparar que o mirava e olhou para mim com um sorriso que lhe subia até aos olhos, fazendo-os brilhar! Sorri timidamente e levantei-me da mesa. Não aguentava mais estar perto dele e não conseguia sequer pensar em condições. Já é difícil para ti raciocinar logo ao acordar, quanto mais nestas condições! Pronto! A consciência tinha voltado para me atormentar!
- Até já. - atirei-lhe e quase corri em direcção à piscina.
Voltei para o meu quarto e só parei quando me sentei na ponta da cama. Que se passa comigo? Nenhum homem algum dia tinha tido aquele efeito em mim! Será do livro? Deve ser isso! Só pode! Só o conheço há um dia e parecia que estava completamente enfeitiçada! Todos os meus pensamentos, desde essa altura, giravam em torno dele e, no entanto, mal o conhecia! Só podem ser efeitos da história do livro! Não há outra explicação!
Sacudi a cabeça e dirigi-me à casa de banho para passar água fresca pela cara, para ver se acordava e conseguia pensar com mais clareza. Enquanto olhava para o espelho, com a água a escorrer-me pela cara, pensava como poderia algum dia julgar que um homem como aquele ia olhar para mim a não ser pelo simples facto de ser amiga da sua irmã. - És mesmo crente Clara. Claro que ele só fala contigo por educação. Achas, por acaso, que ele te vê como outra coisa que não seja seres a amiga da Flor? Pfff!
Óbvio. Claro que era isso. Julian era um homem educado e falava comigo por isso mesmo, nada mais!
Após este diálogo comigo mesma, estava mais calma e decidi passar, como sempre, o dia estendida na piscina a ler. Voltei para o quarto, vesti o biquini e saí para a piscina. Estendi a toalha na espreguiçadeira que costumava usar e que já estava virada na direcção do sol. Adorava estes dias em Ceriege, deitada a apanhar sol e a relaxar com um livro na mão. Tinha apenas de ter o cuidado de de duas em duas horas colocar protector solar. A minha pele é tão branca e o sol tão forte que se não o fizesse estaria já tipo camarão.
Como hoje a Flor não estava, levei também o meu iPod para ouvir as minhas listas de música enquanto lia. Estava há algum tempo a ler o meu livro, finalmente concentrada, quando o vi a chegar por umas escadas escondidas atrás da piscina. Uau! A minha boca descaiu! Vinha de calções, em tronco nu e com uma t'shirt pendurada no pescoço. Limpava com ela o suor que lhe escorria pela cara e nem as melhores definições de Christian Grey podiam competir com aquela visão! Soberbo! Tinha os abdominais brilhantes de suor, bem definidos e umas pernas... Meu Deus aquelas pernas!
Enquanto caminhava sorria para mim, com um sorriso triste e estranho. Percebi que estava a passar a língua pelos lábios enquanto o olhava e devia ser por isso que sorria.
- A Flor já te mostrou os trilhos que percorrem a propriedade?
- Hum. Acho que não, mas é natural. Nenhuma de nós é adepta de desporto.
- Pois, já reparei. Gostas mais de apanhar sol e ler. Certo?
- Sim, é isso. - murmurei baixinho como uma criança que tivesse sido apanhada em falta.
Virou-se para a outra espreguiçadeira e começou a descalçar as sapatilhas e de seguida os calções! Meu Deus! Vai despir-se? Enterrei mais os olhos no livro mas era inevitável não espreitar. Ah! Trazia uns Speedo por baixo dos calções de corrida! Não sei se estava desiludida ou aliviada!
Conforme se libertou da roupa caminhou para uma ponta da piscina e deu um mergulho. Esteve mais de trinta minutos a nadar de uma ponta à outra, mesmo depois de ter vindo de correr. Agora percebia de onde vinha o corpo bem torneado. Sorri. Nessa altura tocava no iPod a música Underwater Love, dos Smoke City! Apropriado!
Ainda sorria quando o vi a subir as escadas da piscina enquanto puxava com ambas as mãos o cabelo para trás! Parecia saído de um anúncio televisivo a um qualquer perfume, que passam na tv vezes sem fim no dia dos namorados!
Agarrou a toalha e dirigiu-se novamente para a espreguiçadeira ao meu lado. Não sei o que viu em mim, enquanto não conseguia tirar os olhos daquela visão, quando falou.
- Não, Clara. Não te aproximes de mim! - disse num murmúrio que me pareceu triste.
Ahhh?? Fiquei aturdida com aquilo! Sacudi a cabeça! Não percebi o que quis dizer e isso aguçou-me a curiosidade.
- O que queres dizer com isso, Julian?
- Aquilo que disse, apenas. Afasta-te de mim! - já falava com mais dureza na voz.
- Mas foste tu que te sentaste na espreguiçadeira ao meu lado. - ri-me tentando disfarçar as borboletas que voavam aturdidas no meu estômago, depois daquelas palavras tão despropositadas!
Olhou para mim com uns olhos baços, duros, desprovidos de qualquer tipo de emoção, e arqueou a sobrancelha. Não falou comigo o resto da manhã.
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Re: Ceriege

Mensagem por ALSo em Qui Jan 24, 2013 9:39 pm

Espero q estejam a gostar, ate agora! Por favor deixem os vossos comentários! Fico a aguardar.
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Capítulo V

Mensagem por ALSo em Qui Jan 24, 2013 9:44 pm

Quando a Ana veio colocar o almoço na piscina, ainda estava a pensar naquelas palavras e não tinha desfolhado uma única pagina do livro. Olhava para a folha mas não via nada, só pensava no que me tinha dito!
Levantamo-nos os dois em silêncio e fomos para a mesa. Serviu-me como sempre de um copo de vinho branco. A Ana tinha preparado algumas saladas frescas, como sempre fazia para o almoço. Servi-me de um pouco de cada uma, distraída, e sem fome absolutamente alguma!
Fui picando distraidamente e sorvendo o vinho que era, naquele momento, a única coisa que tinha algum sabor. Talvez por isso bebi mais dois copos, o que não era normal, mas nem notei. Sempre que ficava com o copo vazio, Julian voltava a enche-lo!
Talvez levada pela arrebatadora coragem que o álcool nos traz, quebrei aquele silêncio ensurdecedor!
- És algum criminoso? Por acaso violaste alguém ou algo do género? - disse-lhe quase a berrar!
Notei que o apanhei do surpresa quando estremeceu ao ouvir o que lhe dizia.
- O quê? Se sou criminoso? Mas porque perguntas isso? Não estou a perceber! - e notei na sua voz e expressão a confusão que transmitia!
- Não me posso aproximar de ti porquê? És algum criminoso? - voltei a perguntar!
- Ah, isso! - subitamente percebeu do que estava a falar. - Não Clara! Não sou nenhum criminoso! - notei alguma diversão naquela resposta. Foi fugaz. Quase imediatamente os seus olhos ficaram turvos, duros e sem expressão! - Não te deves aproximar de mim e ponto. Só isso! - disse com um tom parecido ao que a minha mãe usava quando eu era pequena e me dizia que ela é que mandava e eu devia obedecer sem mais perguntas!
- Estás habituado a que as pessoas te obedeçam sem mais explicações? Só porque dizes algo isso é lei?? Eu não funciono assim, Julian! - estava mesmo furiosa! Cada vez mais! Então largava uma bomba daquelas, calava-se toda a manhã e agora dizia-me que não o devia questionar e fim de conversa?? Nem pensar!
- Clara... - Nem o deixei acabar!
- Nem Clara nem meia Clara! Fazes o favor de me responder? Devo-me afastar de ti porquê? - notava que ele estava tão magnetizado por mim como eu por ele. Quando estávamos juntos podia sentir a electricidade que nos atravessava aos dois! Éramos dois ímans a lutar para nos afastarmos! Mesmo depois das suas palavras ríspidas desta manhã, não tinha arranjado forças para me levantar e sair do seu lado! Bem, nem ele!
- Explica-me, por favor, Julian! - a minha voz saiu quase como um súplica! - Quero entender!
Pelo seu rosto passaram mil e uma expressões! Da surpresa à tristeza, finalizando com uma expressão tão doce que me liquefez o coração!
- Clara, é muito complicado! É óbvio que estou a tentar lutar para me manter afastado de ti porque sei que te vou magoar, apesar de não estar a ser bem sucedido. Obviamente! - Oh! Ele estava a tentar manter-se afastado e não conseguia! Dei dois mortais encarpados à retaguarda dentro do meu cérebro!
- Mas porque é que o fazes? Diz-me.
- Não consigo, Clara! É muito duro! Só não quero que saias magoada! Percebes? - passou-me a mão docemente pela cara e deixou o polegar a afagar-me. Não resisti, fechei os olhos e deixei-me ficar.
Tentei clarificar a cabeça e responder. Era difícil fazê-lo quando o que queria era ficar ali a ser acariciada.
- Posso ser eu a decidir isso? Se me magoar o problema é meu! - Já não tenho dez anos, pensei!
Aproximei-me dele na esperança que me beijasse e fiquei próxima o suficiente. Podia sentir o hálito dele e ouvir a sua respiração a aumentar. Rezei para que me beijasse. Senti-o a aproximar-se e fechei os olhos. Baixou-me a cabeça e depositou-me um beijo demorado na testa. Respiramos fundo, ao mesmo tempo!
Afastou-se e sacudiu a cabeça como se aclarasse as ideias. Encostei-me para trás e, num reflexo, meti o anelar direito à boca e comecei a roer a unha! Agarrou-me a mão e estremeci! Caramba, o toque dele electrizava-me!
- Não faças isso! - pediu-me num tom doce e deixou ficar a mão a agarrar a minha. Os nossos olhares cruzaram-se e incendiaram-se de desejo! Largou-me bruscamente. Sabia agora que sentia exactamente o mesmo que eu! Essa sensação aqueceu-me o coração! Senti-me ser invadida por uma felicidade que nunca antes tinha sentido! Seria aquilo que a Flor chamava de paixão? De certeza que sim! O meu coração batia com tanta força que tive medo que fosse saltar do meu peito! Estava apaixonada pela primeira vez e estava a ser correspondida!!!! Só me apetecia saltar de alegria e, de repente, senti os olhos a ficarem molhados! A emoção era tal que uma lágrima deslizou pelo meu rosto! Chorava de felicidade!
O seu rosto suavizou-se enquanto me agarrava na cara com as duas mãos. Eram tão macias e tão ternas! Com um dos polegares limpou a lágrima e ficou a olhar para mim embevecido. Aproximou-se e depositou-me um beijo suave nos lábios! Senti-me desfalecer e derreter naquela boca suave, carnuda e tão deliciosa! Encostou a sua testa à minha e ficou a olhar ternamente para mim com aqueles olhos verdes, fundos e cheios de uma emoção que me pareceu ser de felicidade!
Sacudiu novamente a cabeça e afastou-se devagar. Notava que lutava contra os seus próprios pensamentos! E era uma luta dolorosa de se ver! Voltou a ficar com o rosto suave quando falou.
- Quando volta a minha irmã?
- Hummm! Não sei. Quer dizer, ela disse que, se tudo corresse bem, podia nem vir dormir a casa! - Ups! Será que devia ter dito isto?
Ponderou na minha resposta enquanto afagava o queixo. Quando tinha chegado, no sábado, trazia a barba feita mas desde esse dia não a tinha voltado a fazer. Tinha uma barba pequena e rija extremamente sexy!
- Já volto. - levantou-se calmamente e dirigiu-se para casa.
Fiquei a olhar para ele, enquanto se afastava, a tentar perceber o que tinha acontecido!
Parecia que estava a sonhar! Tinha-me apaixonado pelo estranho irmão da Flor! Como tinha isso acontecido? E como tinha acontecido tão rápido? Lembrei-me das vezes sem conta em que recriminei a Flor por se ter apaixonado à primeira vista! Bem! Mas certamente seria diferente. Ou não! Mas aquela era a primeira vez que isso me tinha acontecido e estava tão feliz! Sorri e passei os dedos pela minha boca tentando sentir novamente o beijo doce que o Julian me tinha dado!
- Já falei com a minha irmã.- então era isso que tinha ido fazer. - Ela só volta amanhã para almoçar. Conheces Cannes?
- Ah? Acho que não! Não é em Cannes que fazem um festival de cinema aqui na Europa?
- Sim, é isso mesmo! Gostava de te levar lá para conheceres. Queres? - o seu ar era tão doce que quase parecia uma criança a pedir à mãe para a levar ao parque de diversões!
- Claro que sim! Agora? - a minha pergunta fazia transparecer alguma desilusão. Depois do seu beijo cheguei a sonhar passar a tarde com ele ali na piscina.
- Sim! - o seu entusiasmo era tanto que não percebeu a minha desilusão e não tive coragem de lhe recusar o pedido!
- Ok então. Mas primeiro tenho de me vestir! - ainda estava de biquini!
- Claro. Daqui a trinta minutos estou à tua espera no carro. - saltou da mesa e, depois de me depositar outro beijo fugaz na testa, correu para casa.
Fiquei ainda um minuto sentada na mesa, abananada com tudo aquilo. Quando chegou às portas de vidro ao cimo das escadas, virou-se e lançou - Trinta minutos, Clara, trinta minutos. - foi o suficiente para me acordar e fazer levantar da mesa! Meu Deus! Ia sair com o Julian! Fui aos saltinhos para a casa da piscina, qual criança parva! Tinha de me arranjar!
Demorei o que me pareceu ser uma eternidade a escolher o vestido! Finalmente decidi-me por um vestido que a Flor me tinha escolhido numa das raras vezes que tive a paciência para ir com ela às compras. Era um vestido rosa pálido, sem costas, juvenil mas elegante. A Flor tinha dito que me assentava lindamente e eu sabia que um elogio dela era como receber uma crítica fabulosa numa qualquer revista de moda!
Quando cheguei ao parque de estacionamento, Julian esperava-me junto a um Mini azul escuro descapotável! Adorava aquele carro mas a visão dele, com uns calções pelo joelho, de sarja azul marinho, e uma leve camisa branca que ondulava ao sabor da brisa era de cortar a respiração! Será que ele podia ficar mais absolutamente lindo de cada vez que o via? Não podia ser possível. No entanto, era!
Abriu-me a porta e apontou-me com a mão delicadamente para o meu lugar! Sentei-me, e ele fechou a porta e rodeou rapidamente o carro para se sentar ao meu lado! Senti o cheiro dele e era tão delicioso, tão...masculino, que fechei os olhos para o saborear.
Ligou o carro e pusemo-nos em marcha! No rádio tocava Cosmic Love, dos Florence and the Machine, e fiquei a ouvir a música enquanto pensava que ela reflectia bem os últimos acontecimentos! A atracção que sentia por Julian era tão forte, tão sufocante que me sentia a afogar nele! Sentia-me na sombra do coração dele!
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Re: Ceriege

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