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Maltrato Animal

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Maltrato Animal

Mensagem por mrmadeirense em Dom Set 23, 2012 2:44 pm









Por uma vez mais o carniceiro que dá as boas vindas a esta velha rua deixou-me um fémur soberbo, é enorme, duplica o meu tamanho. Este resquício, tal como outros, serviu para mim e para dez mais como eu que todos os dias anseiam pelo sol que com ele traz este belo senhor encarquilhado como uma passa. Não sei o seu nome, não sei o que diz, mas sinto que emana amor quando ecoa sons direccionados à minha peluda cara, regozijo-me de prazer quando os seus duros calos suavemente me acariciam a barriga. Já não há muitos como ele, antes sim, pelo menos era o que dizia a minha mãe, mas agora não, agora escasseiam, ela dizia que a culpa é de uns grandes e frios gáudios repletos de comida para mim, mas… eu não sei comprar, eu não entendo como funcionam aqueles bocados de metal que já cheguei a engolir porque eram escuras, sujas, pequenas, e alguém deixou cair, como me deixaram a mim, e tal como eu, não a foram buscar. Ainda olharam de soslaio com o seu semblante adusto, mas isso já exigiu demasiada atenção.
Não sou novo por esta rua, novos são os rostos que todos os dias olham para mim com um sorriso enorme ou com uma cara de piedade ainda maior, mas apenas são capazes de massajar-me o lombo até o momento que encontram estes pequenos bichos que me parasitam, que me incomodam, que me sugam o sangue. Mas isso realmente não me importa, quando sugam demasiado coço-me insaciavelmente até que mudam de sítio. Pior foi a minha mãe, era pequeno, adorava dormir na sua barriga privada de pêlos, aquela barriga quente confortava-me tanto, trocávamos olhares continuamente, tentávamos desvendar as palavras dos seres que nos tinham acolhido, falávamos horas e horas enquanto ela ensinava-me os truques para conseguir mais atenção, a argúcia necessária para conseguir biscoitos, mais compaixão…
Chovia como nunca, acordei quando uma alimária retirava-me a mãe com uma brutidão inexplicável, e já com uma corda ao pescoço permanecia a duas patas atada a uma árvore morta, apenas tinha um elevado tronco seco. Vi um funesto metal acertar-lhe na cabeça vezes sem conta, vi como chorava, ouvi como gritava que fugisse enquanto suplicava misericórdia, mas também vi como os seus olhos azul caribenho saltaram repentinamente da sua cabeça… Da minha mãe apenas sobrou um rasto de existência, um corpo quase que suspenso e um lago escarlate donde apenas nadavam os seus olhos e alguns dos seus dentes.
Foi uma semana depois desta atrocidade que conheci outros tantos como eu, todos entendiam o que dizia e o que sentia e por isso nunca me senti tão bem, nunca fui tão compreendido, mas infelizmente a compreensão não nos traz comida nem água, não me traz abraços e mimos, apenas traz uma sensação de falsa segurança por não estar só.
Nunca contei a minha história a nenhum que não fosse da minha espécie, não foi por não tentar, foi unicamente porque sempre que tentava fugiam, tinham medo de mim, batiam-me ou afugentavam-me. Eu sei que vou morrer conformado com estas infrutíferas tentativas e por essa razão anseio pelo dia em que alguém com voz possa falar por todos nós.
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