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Coração de Relógio

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Capítulo III

Mensagem por Moggo em Seg Jun 04, 2012 3:45 pm

Capítulo III - Janelas Partidas
Emma estava a tentar adivinhar o que rachara em primeiro lugar.

O conjunto de loiças que Yasemin estivera a habilmente equilibrar, enquanto se inclinava para deixar Claritia servir-se de um quadradinho de pão torrado, talvez. Este caíra-lhe das mãos e desfizera-se em mil e um cacos quando o seu noivo tropeçara nela na pressa de sair. A sua fachada irrepreensível só havia começado a criar estilhaços segundos mais tarde, e Emma sabia que fosse qual fosse a emoção que o seu rosto exprimia, esta era indescritível. Ela tirou algum conforto de saber que Claritia estava demasiado interessada em reduzir a lágrimas a jovem ajoelhada entre fragmentos de porcelana para a atenção que esta lhe dedicava ser grande.

- É uma dificuldade conseguir criadagem de valor, actualmente – disse Claritia, assim que Yasemin desapareceu para ir buscar uma pá e vassoura. - Algo a recordar, quando fores a senhora desta casa.

- Sim, minha boa senhora Radley - replicou Emma. Claritia insistia em ser tratada por “boa senhora Radley”. Ela tratava-a pelo nome próprio em pensamentos, mas era toda cortesia ao dirigir-se-lhe.

Ainda que o que da boca da mulher saía não lhe agradasse.

Quando esta tocara no tema da noite de núpcias, ela precisara de se conter para não fazer a sua mão voar para a testa. A reacção de Zeph fora muito menos comedida. Ele saltara do sofá e fugira a correr, derrubando um capital em pratinhos e tacinhas pelo caminho. Tratara-se da primeira atitude racional que Emma o vira tomar desde que chegara, e a ser honesta, ela desejara ardentemente imitá-lo.

- Não te consumas à conta dele, Emma. Ele está apenas ansioso. O meu Zeph é tímido, como deves já ter notado. Ele não tinha muitos amigos na Cidade Flutuante, e raparigas, nem vê-las.

- Eu notei. – Se “tímido” tivesse, através de alguma deturpação linguística que lhe passara ao lado, passado a significar “Incapaz de socialização normal, com pavor crónico a outras pessoas e estranho, estranho, estranho”, então por quem ela era, não existia quem fosse mais tímido do que Zeph.

- Lauressa, mais licor. – Claritia estalou os seus delicados dedos para chamar a atenção da criada que ficara, que se apressou a encher-lhe a taça. A mulher continuou, entre goles. - Suponho que não deste um passeio pelo quintal antes de teres entrado, ou tê-lo-ias visto, mas começámos já a montar pára-sóis para proteger os convidados, caso chova durante a recepção. O que me lembra…já recebeste as respostas definitivas de todos na tua lista? Fiz por encomendar uma mesa suplementar, mas receio que não teremos recordações para todos se uma grande quantia deles decidir à última da hora que irá comparecer afinal. Algo que terá de ser resolvido ainda antes do fim-de-semana, e…

Emma passou em revista a sua lista mental de convidados. Bertha. Luce, mas em Luce um convite seria esbanjado. E Amelie, ela supunha dever convidar Amelie. Das mulheres que partilhavam o seu turno na fábrica de peixe, não recebera réplicas. As reacções das que convidara pessoalmente haviam-se resumido a fungadelas abafadas e comentários de que era simpático da sua parte convidá-las, mas receavam não ser material de casamentos e recepções elegantes. Emma entendia as suas reticências. Os Radley eram novos em Cráduma. Um ano seria pouco para ganharem a confiança dos locais ainda que procurassem integrar-se e misturar-se, algo que ela duvidava terem tentado.

- A mesa suplementar não deverá ser necessária. O único acrescento de última hora é a minha prima, que chegou hoje. Uma pessoa, portanto. Como se encaminham as coisas com o jantar pós-cerimónia?

- Esplendidamente, querida. Não resisti a adequar o cardápio à tradição local. Teremos truta recheada com queijo fresco, e salada de algas com amêndoas e…bem, esses são os pratos que tenho na ponta da língua, mas sente-te livre de examinar a listagem completa. Já há quem esteja a tratar do assunto.

Emma tentou recordar que tradição craduense tinha algas com amêndoas como componente, mas o regresso de Zeph travou-lhe a linha de inquirimento. Os seus olhos pálidos passaram sobre ela, detiveram-se na ponta do seu nariz, passaram para a sua franja e transferiram-se para os cacos no chão. Emma deduziu que Yasemin fora buscar vassoura e pá ao outro lado de Cráduma, para estar a demorar como demorava. Não que lhe pudesse censurar querer manter-se afastada.

- E o fotógrafo confirmou. - Emma engoliu em seco ao sentir o olhar de Claritia pousar-lhe em cima, com toda a subtileza de um cargueiro ancorado em praça pública. Zeph acabava de se sentar no outro extremo do sofá, mas um indicador autoritário enviou-o mais para junto dela. Ele deixou-se lá ficar, com uma das mãos a batucar sobre o joelho, e a olhar para os próprios pés como se esperasse extrair ouro dos atacadores se os fitasse ainda mais intensamente. - Confesso que não poderia ter pedido um melhor; o homem soube ver de imediato que até visualmente vocês dois são um par perfeito. Mesma cor de cabelo e tez, mesma pose digna…- Lauressa deixou escapar uma risadinha. Claritia virou-se, projectando o queixo e dilatando as narinas, qual tubarão a farejar sangue.

- Conta piadas a ti própria no teu intervalo, querida - silvou a mulher, numa voz que pingava ácido. A criada apressou-se a fazer-se séria. - É o que te digo, Emma, a dificuldade de conseguir pessoal co…

- Nada a temer, capitão Base Gama! - Emma estivera a divertir-se com a noção de que sabia de uma pessoa milhares de vezes mais perfeita para Zeph do que ela, e a pensar ser uma tremenda pena que Jesha Amanil não o tivesse conhecido primeiro. Ter o seu noivo a levantar-se e gritar aquilo, quase no seu ouvido, fê-la engasgar-se na azeitona que era o que de mais comestível encontrara no primoroso pratinho disposto sobre a mesa. Ela tossiu, com tanta delicadeza quanto alguém à beira da asfixia era capaz, e o carroço foi aterrar no guardanapo posto sobre o seu colo. Devia estar habituada, mas toda a preparação mental era insuficiente quando Zeph se saía com algo inteiramente aleatório.

Especialmente quando ele decidia gritá-lo na sua orelha.

- Zeph, querido, então! - censurou Claritia. Zeph esboçou uma careta. Ou podia ser que a sua cara se estivesse a contorcer num espasmo, era difícil dizer. - Se insistes nesse comportamento embaraçoso, a pobre Emma ainda repensa a sua decisão à última da hora, e não queremos isso, não é assim?

Zeph anuiu. A ponta de uma língua cor-de-rosa passou pelos seus lábios, humedecendo-os.

Emma duvidava que ele tivesse sequer entendido o que se encontrava em causa. Uma vida inteira ao cuidado de Claritia devia tê-lo condicionado a aquiescer de cada vez que esta levantava a voz, como mecanismo de sobrevivência. A mulher esboçou um sorriso satisfeito e levou a taça aos lábios.

- E agora - disse, com uma excitação que faria Amelie parecer moderada - falemos do vestido.

- Ah, sim. Falemos do vestido. - E de algum modo, ela saberia manter a compostura durante.


Havia algo de errado com a casa de Emma. Amelie apenas o entendera após se deitar, com um livro na mão, uma manta grossa drapejada sobre ela e o regulador que pedira emprestado sobre a mesinha de cabeceira. Não demorara até ela deixar de lado o livro e se embrulhar melhor na manta. Era anormal que fizesse tanto frio. Bertha trouxera-lhe lenha suficiente para dois invernos, após lhe mostrar como funcionava o aquecedor. Ela agradecera-lhe profusamente e abastecera-o de imediato, chamuscando os dedos no processo, mas embora o aquecedor funcionasse em pleno e as chamas estivessem a crepitar alegremente no seu interior, ainda se sentia mais gelada do que devia estar.
Amelie descartou a manta, vestiu um roupão e dirigiu-se, em chinelos, até ao aquecedor. A ser sincera, ela estranhava a quietude mais que o frio. Em Danebre ruídos nocturnos eram uma constante, em casa dela e em todo o lado. Não era pouco comum a oficina continuar em funcionamento até altas horas da noite, o que a habituara a adormecer com os ouvidos cheios de um coro de ruídos de metal a ser moldado e sovado na forma pretendida, sons sibilantes de ferro em brasa a ser imerso em água, e a esporádica explosão de “Eureka!”. Casas conscientes repudiavam silêncio. Quando acompanhara Bertha à cave, ela vira o aglutinado de fios e díodos que eram o cerne, cuja presença era praticamente obrigatória em qualquer casa edificada depois de 2300. Cernes não eram Relógios mais do que casas eram gente, embora funcionassem de acordo com os mesmos princípios, e que estes se encontravam activos era imperceptível grande parte do tempo. Mas a sua paragem, essa era sempre notada.
As quedas na temperatura tendiam a ser pista flagrante.

Amelie abriu a portinhola do aquecedor e atirou mais um torro de lenha para dentro dele. Que o cerne falhasse era algo esperado quando casas eram tão antigas como ela desconfiava que aquela era. A passagem do tempo fazia-os deteriorar tal como Relógios, mas era possível obrigá-los a retomar o seu funcionamento em caso de quebra. Emma e Bertha teriam de ser informadas do problema.

- Brr - disse ela para ninguém em especial, quando avivar o fogo falhou em acalorar a divisão. A jovem andou até à parede e encostou a mão nela. De metal eram os veios que a percorriam, e tocando-lhes e não sentindo o zumbido de algo vivo ser transmitido ao seu Relógio, ela comprovou a sua teoria.

Uma comoção no andar de baixo varreu-a da sua mente quase de seguida. Constatando que passava da meia-noite, Amelie deduziu tratar-se de Emma que regressava.

Quando ela desceu, com pretensões de confrontar a prima com a história do casamento e a inospitalidade da sua morada, Amelie deparou-se com todas as luzes apagadas e a porta da frente escancarada. A jovem adiantou-se para a fechar, mas um pé-de-vento arrancou-lhe a maçaneta das mãos e mandou a porta ao encontro da parede, com um som de tiro. Com os braços enrolados à volta do corpo para melhor se aquecer, ela conferiu que não partira o vidro por acidente. Este encontrava-se intacto com excepção de uma racha, mas a porta em si tinha um ar tão antigo que era perfeitamente possível que esta tivesse lá estado antes. Mais sossegada, ela dirigiu-se à cozinha.

Havia uma figura nas sombras, inclinada para dentro da despensa. Amelie congelou.

- Tu não és a Emma - disse ela, recordando de súbito que por vezes, por vezes a causa de um cerne falhar não era tão natural como antiguidade. A figura imobilizou-se e virou a cabeça para a fitar, sem mover o resto do corpo um milímetro. A jovem ia preparada para formular uma questão como “Quem és tu, e porque estás a invadir cozinhas a meio da noite?”, mas a figura não lhe deu oportunidade. Ela ainda ia em “Quem…” quando esta se propulsionou para a frente, dando um salto mortal sobre a mesa antes de lhe agarrar o pescoço e a pregar contra a maior das três salgas encostadas à parede. Amelie sentiu o barro duro estalar com a força da colisão, mas menos do que sentiu os dedos afundar na sua pele, brusca e dolorosamente. Ela gemeu. Aquilo…aquilo iria deixar marcas.

- Mala – disse a figura, numa voz que soava nasalada, se porque a procurava disfarçar, se porque o tecido elástico que lhe cobria a cara e o corpo todo se estava a meter no caminho, Amelie não saberia dizer. Os dedos apertaram mais. Ela lutou contra eles com tudo aquilo que tinha. Uma vez que tudo o que tinha não deitaria alguém abaixo se ela o tentasse fazer de propósito, lutar serviu somente para enfurecer o atacante, que aproximou o seu rosto encoberto do dela. – Mala. Agora.

- Qual mala? – quase gritou a jovem, à beira das lágrimas. Aquele aperto doía, e quem a tinha presa não fazia tenções de o afrouxar. Ao mesmo tempo, ela compreendeu que tendo-lhe sido dada voz para responder à questão, tinha voz que podia usar para outro fim. – BERTHA, SOCORRO!!!

O invasor soltou um impropério e largou-a. Amelie recuou aos tropeções e derrubou a salga no processo. Quando Bertha descesse, pensou, tonta do embate, esta ia matá-la. Peixes do tamanho de tábuas e montes de sal malcheiroso derramaram-se pelo chão quando a salga se estilhaçou. A jovem gatinhou às arrecuas e reuniu uma mão cheia de sal, que atirou na direcção do invasor quando este tornou a carregar para cima dela. O tecido que lhe cobria a cara protegia-lhe os olhos, e os grãos não eram eficazes como arma de agressão, mas o grande bacalhau caído ao lado dela era uma diferente história. Quando o outro a agarrou, Amelie presenteou-o com uma cara cheia de peixe.

O que não o deteve nem o mais minúsculo milímetro.

- SOCORRRRROOO! – berrou ela, ao mesmo tempo que uma mão enluvada se fechava sobre a sua boca. Amelie tentou morder os dedos e quase partiu um dente. Aquela mão não era definitivamente feita de carne. Ela tinha sabor e consistência de aço. Era possível que fosse feita de aço. – Socmhf…

- Mala – disse o invasor pela terceira vez, quase rosnando. Pelo canto do olho, ela viu a mão dele descer e produzir um objecto, que lhe foi encostado à orelha. Amelie estremeceu ao ouvir um estalido.

- Diz-meonde está-a-mala e deixo-te-vi-ver. – O invasor sacudiu o objecto, exasperado, e pressionou um diferente botão. – Diz-me onde está a mala e eu deixo-te viver. Resiste, e serás obliterada.

Amelie torceu o pescoço de forma a poder encarar o invasor de frente. Este nada disse, mas a ameaça era clara, e não carecia de palavras gravadas para ser enunciada. “Ri-te e morres!”

- A mala é tudo o que quero. Ela não vale a tua vida e tu não vales o meu tempo.

- No sótão. Malas, o que quer que seja, está tudo no sótão! - exclamou Amelie, freneticamente. Ela olhou as sombras além do umbral da porta e viu uma delas destacar-se. Os seus olhos foram rápidos a concentrar-se no seu atacante uma vez mais, e a sua língua ainda mais rápida a recuperar o tempo perdido. - Vocês não têm lojas neste fim-do-mundo, para se poderem abastecer sem precisarem de invadir casas, casas de gente trabalhadora que trabalhou para com esse trabalho conseguir dinheiro para conseguir roupas que também conseguirias se trabalhasses para o conseguir, e as minhas malas só têm vestidos e chapéus dentro delas, tirando aquela com a roupa interior e os artigos de toilette que eu francamente não entendo porque alguém quereria a não ser que se trate de alguém obcecado por artigos de toilette que esteja também interessado na minha roupa interior, caso no qual devo apenas dizer que essa é a coisa mais perversamente nojenta que consigo conceber, embora para ser honesta eu não esteja a esforçar-me muito no sen…

WHAM!

-…oh, Criadores, finalmente! – suspirou ela, soltando o ar que estivera a reter. O invasor cambaleou e tropeçou nos próprios pés na pressa de se esquivar a um novo golpe de frigideira. Bertha demorara o que lhe tinham parecido eternidades a aproximar-se e provar haver um fundo de verdade nas histórias com que fora anteriormente regalada. – Já julgava…

- Menos murmurar e mais mexer, moça!

- Certo - murmurou a rapariga, para logo cobrir a boca com as mãos. O invasor continuou a recuar em direcção à parede, mantendo-se à distância do utensílio-de-cozinha-a-ser-usado-como-maça.

Amelie notou que ela sacudia a cabeça como se tentasse endireitá-la.

- E sai do caminho enquanto vais nisso, também. - Bertha agachou-se, de pernas flectidas como uma rã, e esticou a palma da mão livre na direcção da figura. De seguida, a caseira recolheu os dedos no gesto universal para “Vem cá e mostra o que vales!”, deixando Amelie com sérias dúvidas sobre quem era a mais perigosa pessoa naquela divisão. - Ou dá um contributo útil, isso também serve.

- Fantasticamente certo…- Naquele momento, Amelie sentia menos medo de atacar quem segundos antes a estivera a atacar, do que de desobedecer a Bertha e ter de a enfrentar mais tarde. Bradando como uma possessa, a caseira lançou-se em frente. A rapariga conseguiu distinguir palavras no meio da gritaria, fragmentos de “Yaarhh!” e “Morre!” e “KHANN!” e “Isto é o máximo de excitação que tenho desde dois mil e quinhentos!”. E então os corpos colidiram, frigideira encontrou cocuruto, e quaisquer similaridades com discurso compreensível tornaram-se pura coincidência.

Amelie avançou e apanhou o bacalhau de onde o deixara cair. Até onde armas ofensivas iam, não se tratava de uma particularmente impressionante. Ela era uma jovem dama que não recebera uma educação vocacionada para brandir facas, e certamente não para brandir pescado, mas assistir à chuvada de faíscas criadas por facas recém-sacadas a chocar com panelas amolgadas fê-la desejar que assim não fosse. O invasor acabava de se atirar para o chão, a partir do qual passou uma rasteira a Bertha. Esta prosseguiu de pé não obstante, o que devia estar a fazê-lo pestanejar de estupefacção quase tanto como Amelie pestanejava. O que era consideravelmente.

- Cofre - resmungou a caseira, com um jeito irritado que seria mais indicado para expulsar vândalos do seu relvado do que para empregar numa altercação que o seu atacante parecia desejar tornar fatal.

- Cofre? - repetiu Amelie, estupidamente. Talvez recordando que era a ela que se dirigia, em vez de a alguém que automaticamente descodificaria o que pretendia dizer com cofre, Bertha estalou a língua e apontou para o exterior da cozinha. Não muito clarificada, mas aliviada por lhe estar a ser dado algo a fazer que não requeria a sua presença ali, a jovem moveu-se para a porta, ainda com o peixe seguro entre os dedos. O invasor escolheu aquele momento para rolar e atirar um pedaço de salga contra a cabeça da caseira. Ele levantou-se de um salto e, mais velozmente do que Amelie julgaria possível, agarrou-a e encostou a nada embotada faca à base do seu pescoço.

- Eeekkk! - exclamou Amelie. A sua captura fez Bertha deter-se. Ela foi puxada para trás e o bacalhau foi puxado para fora da sua mão, enquanto o gravador continuava a cuspir intimidações com cada vez menos sentido. O invasor deteve-se para o tirar da pilha de sal em que terminara caído, afastou a faca dela no processo, e agrediu-a com a mão fechada quando a jovem tentou tirar partido disso.

- Mala - insistiu. Amelie tocou a sua bochecha, siderada. A pancada fora dada com força, mas nenhum rubor lhe coloria a face, pois o sangue fugira dela. Acabavam de lhe bater. Isso não era permitido. Ela era espelhos quebrados e engrenagens oleadas a sangue, e havia regras escritas no código do seu Relógio que decretavam nãoépermitidonãoépermitidonãoé, repetido à quinta potência e multiplicado nos reflexos de uma infinidade de cacos. Os dedos da mão que levantara contraíram-se num punho.

Tiquetaque, tiquetaque. Espelhos. Fragmentos. Engrenagens. Sangue.

- Por favor… - disse ela, e eras glaciares arrastaram-se no pedido que não era um pedido - MORR…

- Bertha, ainda estás de… – A interrogação ficou no ar quando a sua prima abriu a porta de rompante e se imobilizou na entrada, pasmada. Ela demorou a recuperar a voz. – O que se passa aqui?

- Mala! – A faca resplandeceu ao ser apontada a um diferente alvo. Amelie ia para abrir a boca num aviso, esquecida do coro que de dentro dela cantava de artérias cortadas e imagens distorcidas e das gratificações de justificada retribuição, mas o ar foi-lhe roubado quando o outro a atirou para o lado.

Ela nunca se sentira tão aliviada por a terem descartado sem pensar.

- Para repetir…- disse Emma, assentando as mãos nas ancas e mirando o que a rodeava com uma expressão que nem com generosidade se diria satisfeita. Tudo nela gritava “A minha noite foi uma má noite. Não. Provoquem!”, e Amelie não se sentia inclinada a tentar a sua sorte. - O que vem a ser isto?

- Tu…- O invasor deteve-se, antes de aclarar a garganta e falar com a sua própria voz. - Mala. Agora.

Emma cravou os olhos nele. Deliberadamente sem parecer deliberada, ela moveu-se.

- Debaixo do meu tecto, ninguém me dá ordens – declarou, antes de se dirigir a Amelie. - Baixa-te.

- Bwuh? - fez a rapariga. Um estrondo soou nas suas costas. Amelie virou-se a tempo de ver Bertha derrubar a segunda salga e mandá-la para onde ela e o seu atacante se encontravam. De repente, a ordem de Emma fazia todo o sentido. - Baixando, baixando, baixando…

- Bertha! - ouviu ela exclamar, quando desenterrou o rosto dos seus braços cruzados e rebolou para fora de um monte de arenque. O invasor também se desviara, e atirara-se para o chão, embora não a tempo de evitar cruzar-se com Bertha. O “twack” monumental de frigideira a encontrar crânio foi um que Amelie sentiu nos dentes. Aquilo tinha de ter doído. – Bertha, onde deixámos a espingarda?

- Cofre, moça. - Emma acenou e começou a recuar, presumivelmente para ir buscar o referido objecto.

Amelie parou de questionar o porquê de terem armas em casa pelo tempo de verificar, e gritar em tom agudo à conta disso, que o invasor rodava para escapar a um pontapé, se baixava, e retirava algo de dentro da sua bota. Bertha viu-o ao mesmo tempo que ela. – Criadores, ele tem uma…

- Abram passagem! – exclamou Emma, mudando de ideias sobre ir armar-se e correndo para a frente em vez disso. À frente dela havia uma mesa, que foi empurrada quando o seu corpo lhe bateu, e em frente à mesa estava o invasor, que foi apanhado no estômago por um dos seus cantos quando se virou para descobrir o que se passava. Este dobrou-se sobre si, largando o explosivo ao ser mandado contra o vidro verde, e entalado entre ele e a mesa. De trás dele veio o ruído de algo a rachar.

Emma andou até à mesa, segurou a sua borda com ambas as mãos e empurrou. Amelie tragou ar, horrorizada. Pedaços de vidro choveram juntamente com a mesa, duas canecas por limpar, um bule e um invasor de domicílios. A sua prima parou, como se ponderasse, e uma reflexão tardia mais tarde, a granada foi atirada atrás da procissão descendente. Amelie tapou os ouvidos, o que de nada lhe serviu. A explosão encheu-lhe os tímpanos, e a cozinha iluminou-se como se fosse dia.


Dorien conhecera Lucy Vedra no ano lunar de 129.

Deparar-se com a sua cópia a carbono fizera-a pestanejar, mas não a perturbara uma vez passado o choque inicial. Charles nunca fizera segredo da sua condição de clonada. Tentativas de amplificar a diluída densidade populacional por vias outras que as normais haviam tornado duplicados demasiado comuns para que fossem feitos escândalos à conta de se o ser. Dorien espantara-se mais por ter em boa autoridade que a rapariga que lhe servira de molde morrera, do que por se deparar com uma que partilhava o seu rosto. Ela conseguia ver-se, tão claramente como se os acontecimentos tivessem tido lugar há dias. Uma Dorien de sete anos a cortar caminho pelo pátio do centro educativo. Um embate. Uma mão a ajudá-la a levantar-se e a recolher os livros que se haviam espalhado pelo chão. Um rosto que era o dela, a fitá-la de cima com os olhos arregalados de choque. Lucy. O seu clone, a sua gémea e a sua melhor amiga. Superstições que a sua espécie trouxera consigo ao abandonar a Terra diziam ser aziago que se encontrasse o seu sósia. Se nisso havia um grão de verdade, o azar não caíra nela.

Dorien fechou os olhos, mas mesmo com as pálpebras cerradas, ela conseguia ver uma nave a aproximar-se de uma Terra hostil, e o seu rosto a ser consumido por chamas quando esta explodia.

- Aqui tens. - Um objecto alienígena às suas rememorações foi-lhe empurrado para a mão. Ela fechou os dedos em torno dele, reconhecendo-o como um copo. Mikail encarava-a como se esperasse que o fosse beber. Dorien não queria fazê-lo. Os seus lábios precisavam de ser mantidos desimpedidos para lhe poder gritar, e que chuvas e tempestades levassem a opinião dos vizinhos. - Maiken, fala comigo!

Falar com ele? Esse era um pedido ao qual ela teria todo o prazer em aquiescer.

- Tu perdeste o que te restava do pouco juízo que já tinhas? - Dorien deu-se conta de que tremia. Ela contara que os anos fossem reduzir a ânsia de Mikail pela Terra a um nível mais aceitável. Porém, era irrelevante que exterior dele tivesse ganho rugas mais vincadas, e a sua cabeça cabelos grisalhos. Por dentro, ele continuava a ser um idealista que sonhava com um planeta azul. - Quando é que decidiste isso, e porque não estive envolvida na decisão? E a Clar, já pensaste em como isto a afectará?

- Na verdade, eu…- A porta da frente bateu, sobressaltando-os a ambos. A tranca caiu no lugar, e a porta em si foi atirada contra a parede com um estrondo que fez o olho esquerdo de Dorien começar a tremelicar. Passos matraquearam o chão, sinal de que Clar tinha calçadas as botas barulhentas que ela jurava ter atirado para o lixo antes do início da longa noite. Instantes depois, o furacão conhecido como Clariane Maiken-Lindsay trambolhou para dentro da sala, de guitarra ao ombro e malas na mão.

- Estou em casa! - anunciou ela, como se o facto não fosse um que se anunciava sozinho.

- Boa noite, Clar. Como correram as coisas no campo de bandas? - Por acordo tácito, Dorien e Mikail pausaram a discussão. Clariane resmungou algo ininteligível. Nos últimos meses, essa parecia ser a única resposta que era possível extrair-se dela. A crise dos onze, chamara-lhe Mikail, quando Dorien reclamara do facto. Ela perguntava-se se a sua adolescência havia sido igualmente custosa. Era duvidoso que assim fosse. Na sua memória, Lucy fora a mais rebelde delas duas, e Clariane era Lucy sem a genialidade. Enquanto ela se estudava, a sua gémea entretivera-se a roubar as chaves do jacto de Charles para voar até os baldios e bases vizinhas, e a invadir áreas restritas da Rede através do seu computador pessoal. - Eu e o teu pai estávamos a falar de como ele pretende descer à Terra.

- Contaste-lhe? - Qualquer que fosse a resposta ou reacção que ela contara ir receber, aquela não era certamente. Clariane soltou um suspiro que a fez parecer mais velha que a criança que era, e franziu o nariz com desagrado. - Certo. Eu vou enfiar-me na cave até a gritaria acabar. E pai, eck! Toma banho!

- Tu contaste-lhe?! - silvou ela, quando Clariane desapareceu com a mão em frente à cara. - Contaste à Clar antes de me contares a mim? Em que espécie de realidade distorcida é que isso faz sentido?

- Se eu te tivesse contado primeiro, terias infectado a cabeça da miúda com as tuas paranóias.

- Temor justificado não é o mesmo que paranóia! Tu devias ter-me dito.

- Depois da maneira como reagiste da última vez que te informei de antemão? Acabei de te poupar a noventa dias de angústia inútil. “Não te preocupes, tudo correrá bem!” não funciona com alguém tão fatalista como tu. Sabes quantas pessoas morreram no decorrer de uma missão desde que aqui nos estabelecemos? Quinze. Quinze, em cento e sessenta e oito anos. Só duas delas não eram tripulantes da nave da Lucy. Uma caiu de um penhasco, a outra levou uma dentada de serpente. Há 0,00000…1 por cento de probabilidade de a nave explodir na aterragem, farei os possíveis por prestar atenção a ondo coloco os pés, e levarei comigo um frasco de antídoto. Isso deixa-te mais descansada?

Dorien sacudiu a cabeça, mas não se manifestou até estar segura de ir conseguir fazê-lo sem histeria. Clariane estava quase de certeza a escutá-los das escadas, e havia uma migalha de verdade no que Mikail afirmava: a sua filha não precisava de receber razões para se preocupar.

- No dia em que a Lucy partiu - disse ela, sentindo sangue martelar-lhe nas orelhas à medida que este era drenado do seu rosto e as memórias rompiam a superfície da sua mente - ela disse-me, “Dor, não precisas de te enervar por minha causa. É simpático, mas garanto-te que não é necessário. O risco de algo me acontecer é inferior a zero.” E no dia seguinte eu tinha o Charles à minha porta, e ela…

- A tua irmã estava a mentir para não te preocupar. Eu estou a dar-te factos. - Ele tocou-lhe no queixo, forçando-a a encará-lo. A sua voz soou mais rouca quando se tornou a dirigir-lhe. Ela revirou os olhos mentalmente, sentindo dificuldade em crer que mesmo passados anos, ele continuava a acreditar que repetindo a mesma cantiga num diferente tom, a persuadiria a levá-lo a sério. - Eu não vou morrer.

- Mas a possibilidade existe. O que me estás a dar é uma garantia vazia, pois é impossível que saibas que o teu caso não será aquele ao qual esse infinitésimo de probabilidade corresponde.

- Alguma vez te menti? - Ela emitiu um pequenino e abafado som de descrença, o que o indignou. - Se os motores falharem e a nave estiver prestes a despenhar-se, tratarei de ter um pára-quedas comigo. Se ele não abrir, usarei uma navalha para cortar as amarras. Se cair no mar, tentarei agarrar-me a um dos bocados de chapa que sem dúvida irão chover e boiar até à costa. Se cair noutro lugar inóspito…

- Há tantos buracos e impossibilidades nessas garantias que nem me incomodarei em contá-los. Seria uma tolice levá-las a sério. - Dorien interrompeu-se, descobriu que as suas mãos tinham cessado de tremer apesar do que acabava de dizer, e ofereceu-lhe o que com um mínimo de boa vontade se poderia chamar um sorriso. - Mas se de facto entrares naquela nave, irei tentar mantê-las em mente.

- “Se de facto”? - Ele inclinou-se para ela e prendeu uma onda do seu cabelo entre os dedos, fitando-a com divertimento e exasperação em iguais partes enquanto enrolava e desenrolava a madeixa em torno do polegar. - Julguei já ter deixado claro que se trata de uma decisão definitiva.

- Nada é definitivo - disse Dorien. O comunicador no seu bolso apitou, alertando-a de que a conversa a estava a atrasar. Detestando interromper-se, mas detestando ainda mais a perspectiva de ir receber de Charles um sermão que se adequaria mais a ser dado a uma jovem de dezasseis, ela levantou-se e devolveu-lhe o copo. - Especialmente não se eu o tenciono impedir. Tencionas dormir aqui?

- Depende. Se dizes tencionar impedir-me, não há um elevado risco de eu acordar algemado à cama?

- Não sejas ridículo - bufou Dorien, sacudindo a cabeça para ele. - Eu nunca faria isso.

Ela tinha a certeza de ser capaz de inventar algo melhor.


Bertha encontrava-se ocupada a retirar do caixilho da janela os pedaços de vidro pontiagudos que se projectavam para fora dele, e a depositá-los num saco de papel. Emma juntou-se-lhe, varrendo para um canto os vidros que haviam caído para dentro da cozinha. As duas trabalharam em silêncio, cada qual imersa nos seus próprios pensamentos. Os dela estavam a estruturar-se em formato de lista à medida que os formulava, do mesmo modo que haviam feito após a primeira desgraça daquele ano. Organização mental era vital para manter a postura e a sanidade face a realidades desagradáveis.

- Então segundo entendo, ele veio pela bagagem da Amelie - ruminou a rapariga, quando a caseira lhe facultou a versão condensada dos acontecimentos. Ela deitou um relance à sua prima, que se sentara num canto da divisão e encolhera em posição fetal. Quando ela pressentira que esta traria problemas, o seu sentido detector de desastres falhara em alertá-la quanto à dimensão deles. - O que trouxeste tu que seja um possível isco de ladrões? Pensa bem, para nos podermos imediatamente livrar dele.

- Uhm. - Amelie fixou-se num montículo de sal e mergulhou o dedo nele, traçando padrões aleatórios sobre as tábuas do chão. Ela recusava-se a encará-la, o que Emma tomou por sinal de culpabilidade, e por conseguinte, motivo para repetir a pergunta com maior brusquidão. - Não sei. Dinheiro, talvez?

- Tens muito dinheiro vivo contigo? - A rapariga acenou, e ela falhou em mascarar uma ínfima medida de inveja ao falar-lhe novamente. - Guarda-o no cofre, daqui em diante. Ou de preferência, no banco.

- TU. EXPLODISTE. UMA. PESSOA! - bradou Amelie, sobressaltando-a não porque não esperara que a reacção da outra fosse envolver histerismo, mas porque esta demorara a incluí-lo nela. A sua prima pôs-se de pé, de passagem limpando as mãos à saia do vestido. Os seus olhos encontravam-se muito abertos, e havia um princípio de lágrimas a acumular-se neles. - Tu estouraste metade da rua. E uma pessoa! Tu atiraste uma granada através da janela. De onde eu venho, isso estoura ruas. E pessoas!

- Criadores, tenham paciência! - suspirou Emma, e agarrou-a pelo braço. Amelie estremeceu, mas deixou-se arrastar até onde a janela estivera. A noite não era cerrada ao ponto de ocultar a água que ia e vinha e batia e descia metros abaixo da casa. Estreitando os olhos, era possível ver o paredão de cimento que sustinha a rua inteira. Ele terminava em rochas cor-de-carvão que se prolongavam até à linha de água. - Eu poderia ter atirado um míssil, e ele não faria mais que dentear a costa um pouco.

- Está bem - sussurrou Amelie, afastando-se da janela mal ela a largou, como se temesse que fosse sua intenção atirá-la também. - Tu não estouraste a rua. Mas, o invasor…tu mataste-o! Temos de…eu não sei, nós temos de chamar a lei. Vocês têm lei aqui em Cráduma, certo? Porque julgava que este era um lugar pacato, não um antro de iniquidade onde assaltos ocorrem regularmente e violência é encorajada como resposta. Vocês não vão fazer-me sentar à mesa e dizer-me para não ter medo e comer um bolinho, porque isto acontece todos os dias e me irei habituar. Certo?!

- Eu, pela parte que me toca, não pretendo fazer nada do género - assegurou Bertha, abeirando-se da tremelicante e chorosa jovem e tomando-a pelo braço. - Vamos agora enfiar-te na cama para teres um descanso de toda esta excitação, enquanto eu e a tua prima limpámos e contactámos a lei. Parece-te bem? - Amelie aquiesceu, tão animada quanto era possível estar em semelhante situação, e deixou-se guiar para o corredor. Emma aguardou que as duas se fossem, e marchou para fora também.

Uma vez chegada à entrada, ela arrancou o seu casaco do cabide junto à porta e abriu-a. Para variar, a rua não se encontrava deserta apesar da hora tardia; curiosos haviam-se acumulado junto da sua casa. Emma sentiu dúzias de olhos acompanhá-la disfarçadamente quando parou no degrau de cima do patamar e encarou a audiência. Vizinhos, na maior parte. Vizinhos suficientemente habituados a ouvir estranhos ruídos dali oriundos para não irem de imediato avisar a lei, o que era uma bênção se ela alguma vez recebera uma. A rapariga cruzou os braços e aclarou a garganta enfaticamente.

- Senhorita Hanover, passa-se algo de errado? - perguntou alguém, cujas feições ela não reconhecia com a sombra a encobri-las. Não um dos seus vizinhos, em todo o caso. Esses ocupavam-se a trocar cochichos e a interrogar-se o que seria mais provável, que o maluco do Walt tivesse regressado do hospício ou que a sua filha mais velha tivesse decidido retomar a tradição familiar de provocar um mínimo de uma explosão semanal. Emma conseguiu apanhar um “Pelo menos a dona Elysa, que descanse em paz, fazia-nos a amabilidade de não disparar contra nada depois do anoitecer” antes de os sussurros se calarem e ela se lhes dirigir, num tom que teria deixado a sua mãe orgulhosa.

- Não. Tudo está perfeitamente bem, e lamento pelo barulho. É tudo? Óptimo. Boa noite para todos.

Os murmúrios dobraram de intensidade depois de ela lhes fechar a porta. Em qualquer outro lugar, fazer o que terminava de fazer seria um curso de acção absolutamente inviável. Todavia, aquilo era Cráduma. As pessoas tomavam conta dos seus próprios assuntos, e uma garantia suficientemente firme de que ajuda não era necessária e tudo se encontrava sob controlo tendia a ser bastante para se ser deixado em paz. O seu pai ensinara-lhe que tratar os outros com consideração assegurava que as suas súplicas seriam escutadas em tempo de necessidade. A sua mãe ensinara-lhe que convencer os outros da sua auto-suficiência assegurava que nunca se veria a braços com intromissões alheias.

Emma sempre tendera a dar mais ouvidos à segunda que ao primeiro.

- A Luce está a dormir – Emma não soltou um guincho, pois era possível que estivessem a escutar do outro lado da porta, mas ela saltou e sobressaltou-se quando a voz de Bertha soou, demasiado perto da sua orelha e demasiado de repente para não a apanhar de surpresa e incendiar os seus nervos. À luz mortiça do candeeiro, os olhos da caseira pareciam mais escuros do que eram na realidade. – O certe foi reactivado e a tua prima está no quarto dela. E nós temos de falar muito a sério, moça.

Emma deitou-lhe um olhar exasperado. “Nós temos de falar” devia ser a sua deixa.

- Podes ir começando – disse, passando por ela e dirigindo-se à sala. A única mobília a ocupá-la era um cadeirão, cujo estofo de couro gasto pelo uso se encontrava a universos de distância da repelente cobertura de florzinhas dos bancos que habitavam a sala de visitas dos Radley. Empoleirando-se nele e colocando um pé em cada braço, ela desviou um quadro de um vaso de amores-perfeitos, revelando o cofre por detrás. Os seus olhos estreitaram-se ligeiramente. – Quem deixou isto destrancado?

- Provavelmente a tua mãe. Porque estás a remexer no arsenal, de qualquer dos modos?

- Eu vou descer o paredão.

- Não sejas ridícula. - Emma fungou e retirou uma espingarda das profundezas do cofre.

- Eu vou descer o paredão – repetiu. Mantendo o dedo indicador sobre o anel e afastado do gatilho, ela testou a espingarda. Tinha quase a certeza de que se encontrava descarregada, mas prevenir era preferível a remendar alguém. – Eu preciso de ir verificar se o matei ou não. Tenho de o fazer agora, antes que a maré suba e largue o corpo na praia. Se ainda estiver vivo, nada garante que estará pela manhã. - E se ele estava vivo, ele era uma ameaça e a espingarda necessária. Ela não era estúpida.

- Ah, não, moça. - Bertha tinha as mãos nas ancas, sabia-o sem se virar para conferir. - Disse-te que precisávamos de falar, não disse? Pois pára e escuta. Quem aqui entrou era Creaturarum. Reconheci o símbolo deles e reconheci o estilo de luta. Tivemos a sorte de apanhar um agente verde, mas o que quer que o tenha guiado a esta casa, ele irá voltar para o procurar, e trará companhia consigo.

- Creaturarum. - Emma interrompeu-se. - Terroristas. Em Cráduma. Inteiramente plausível.

- Ainda bem que concordas. - A rapariga perguntou-se se a tensão estava a desregular a caseira, ou se os anos a haviam tornado impermeável a sarcasmo. - Teremos de tomar medidas. É uma sorte que amanhã seja o meu dia de folga, pois poderei contactar quem preciso de contactar e alertar a lei assim que abrirem a esquadra. - Emma encontrava-se prestes a dizer-lhe que estar presa numa investigação era o que menos lhe convinha numa altura como aquela. Mas o seu rosto devia ser mais transparente do que se permitira a acreditar, pois Bertha fulminou-a com um olhar ao qual só a vira recorrer em uma outra ocasião, quando lhe haviam insultado a sua infusão de tília-camomila-casca-de-batata. - E que não te ocorra levantar objecções, moça. Isto é maior do que tu ou eu. Se terroristas andam a monte na cidade, todos devem estar informados, para que se possam prevenir e proteger como lhes aprouver.

Ela detestava quando a caseira, contrariamente aos seus desejos e vontades, tinha razão.

- Age como te parecer melhor, Bertha. Eu estarei lá em baixo, a conferir se sobrou algo do teu suposto terrorista. - A rapariga rebuscou mais fundo no cofre, retirando uma lanterna e uma caixa de munições. O que a sua mãe procurara ensinar-lhe não se restringia a bordar e cozinhar, embora fosse indubitável que se tratavam de talentos vantajosos de possuir. Esta havia sido uma aficionada das armas de fogo, e como qualquer progenitor obcecado com determinado passatempo, tentara partilhar com ela a sua paixão. Emma não ficara demasiado impressionada, mas aprendera o suficiente. - E que não te ocorra levantar objecções. Trata-se da minha casa e trata-se do meu problema, e honestamente, não te pago o suficiente para me sentir confortável com exigir-te que te arrisques de novo. Mas - adicionou, ao ver a reprovação da outra acumular-se na sua fronte como massas de nuvens tempestuosas - não me irei opor se decidires colocar-te à janela, com um fuzil e óculos de visão nocturna, para vigiar e intervir se a situação descambar. Apenas certifica-te de que a Amelie não sai do quarto. A última coisa que quero é tê-la a seguir-me, escorregar numa alga e quebrar o pescoço nas rochas. - Bertha sorriu. Os sorrisos dela tendiam a inclinar-se para o grotesco, mas a sua raridade tornava-os preciosos.

- Linda menina.


Laertes declarara que o seu plano era loucura. Curiosamente, isso apenas servira para deixar o homem das luvas mais decidido a colocá-lo em prática. A sua única concessão à segurança consistira em aceitar a corda que um dos do grupo do sujeito lhe oferecera, com um sacudir de cabeça pesaroso e uma expressão que seria mais apropriada se lha estivesse a dar para que se enforcasse com ela.

O que, a acreditar nos avisos que lhe haviam sido feitos, parecia ser considerado facto.

Ao olhar a cidade de cima, o homem das luvas compreendera porque haviam depositado o aeródromo sobre a falésia. Entre a sua base e o princípio do mar não restava espaço onde construir um complexo tão volumoso fosse viável. Outros edifícios acompanhavam-no na sua dança sobre a borda rochosa; lojas de recordações, um posto dos correios e uma minúscula pensão, na qual Laertes e o seu grupo haviam insistido em vão que alugasse um quarto. Ele cirandara entre os edifícios até se deparar com o caminho que se desenrolava falésia abaixo até Cráduma, com as grades que barravam a passagem e com o sujeito que a guardava. Este informara-o piedosamente de que não senhor, apenas abririam de manhã, e se o senhor sabia que mesmo ao virar da esquina havia quartos onde podia pernoitar.

O homem das luvas voltara para trás, absolutamente convicto de que os donos da pensão em causa eram os padrinhos locais, e que subornos haviam estado envolvidos no enorme empecilho que era o fecho nocturno do caminho. Porém, ele não se irritara excessivamente. Tentar a via normal fora um tiro no escuro cujo falhanço não obstruía o plano em que mais confiança colocara. Com uma corda na mão e uma canção no coração, ele afastara-se dos edifícios e percorrera a borda da falésia até dar com o ponto onde esta encontrava a barragem. O sol desaparecera há muito atrás do horizonte, e a água escura de um lado do colosso de pedra era distinguível das casas escuras do outro lado apenas através da ondulação. Ele prendera a corda em redor da cintura, passara a sua ponta através de uma das argolas de ferro do lado da barragem que dava para Cráduma, agarrara o meio da parte que ficara a balançar, e atirara-se. A corda retesara-se ao acabar, deixando-o pendurado.

Com um grunhido satisfeito, o homem das luvas começara a mover as mãos ao longo da parte de corda que sobrara para lá do seu aperto. Ele fora descendo lentamente, até se deparar com uma nova argola, à qual se agarrara enquanto com a sua outra mão fazia a corda libertar-se da primeira. A acção foi repetida até os seus pés encontrarem uma saliência de cimento. Estando eles assentes nela, ele puxou a corda para si, enrolou-a em torno do braço e começou a andar. O espaço onde colocar os pés era exíguo, e as chuvadas do dia haviam-no tornado escorregadio, mas ele sucedeu em não cair. Não seria, de resto, uma desgraça se o fizesse. A sua composição assegurava que iria ao fundo como um saco de tijolos, mas assegurava também que não se afogaria. Bastar-lhe-ia arrastar-se pelo fundo da enseada até dar com terra firme, o que consumiria tempo, mas não seria catastrófico. Pior seria se a queda se desse em mar aberto, onde as correntes eram imprevisíveis.

A saliência terminava num pequeno muro, sobre o qual se içou. Do outro lado havia um terraço que o homem das luvas assumiu ser um miradouro, até se virar e dar com o estabelecimento embutido na parede atrás dele. As suas sobrancelhas levantaram-se milimetricamente. Havia luz no interior. Não muita, não o suficiente para ter dado por ela enquanto descia, mas ele sabia que não a alucinava.

- Estamos fechados! - informou uma voz arreliada. O homem das luvas estampou um punho na porta, recusando-se a dar-se por vencido. Ao tornar-se evidente que desaparecer não era o seu intento, mais luzes foram acesas. Passos arrastaram-se até à porta, e as cortinas atrás dela foram desviadas. - Está surdo? Isto fecha às onze e meia, e passa da meia-noite. Desande, ou chamo a lei!

- Preciso de direcções para a cidade. - O homem das luvas deteve-se. Parecera-lhe ter ouvido algo na distância, e ele julgava reconhecer a sua origem, mas esta era tão despropositada que decidiu ter-se tratado de imaginação sua. Cráduma alterara-se desde 2360. Explosões e sangue na rua faziam parte de um passado que no ver dele, passado podia continuar. - Para o cais, se puder ser.

- Que tal tentar o caminho por onde veio? - sugeriu o outro, abrindo e espreitando através da frincha.

- Isso seria a modos que complicado - retorquiu o homem das luvas, indicando a corda e apontando para cima. O rapaz, pois era um rapaz quem o interpelava, acompanhou os seus gestos com os olhos e enrugou a testa até as suas sobrancelhas, tão ruivas como o resto da sua cabeça, se juntarem numa linha. De seguida, para seu choque e desconcerto, ele inclinou-se e farejou-o.

- Você não andou a beber. O que tomou então, para estar com delírios desses?

- Direcções, por favor - insistiu o homem das luvas. Era provável que as raparigas que viera ver já se encontrassem a meio do seu segundo sono, mas entre acordá-las a meio da noite e de madrugada não existia uma considerável diferença. Talvez presumindo que se ele efectivamente ingerira algo estranho, livrar-se dele com celeridade era a melhor iniciativa a tomar, o rapaz apontou-o para um lance de escadas que lhe passara despercebido e informou-o de onde devia virar. Ele agradeceu-lhe e retirou-se, deixando o outro a murmurar para si sobre forasteiros e as suas esquisitices.

Cráduma mudara, mas não muito dramaticamente. A cidade ainda clamava, com uma clareza que reverberou por ele todo, que queria ser deixada em paz. Que não hesitaria em fazer o que preciso fosse para assegurar que essa paz lhe seria dada. O homem das luvas detestara-a quando primeiro colocara os pés nela, e os anos nada haviam feito para diminuir a intensidade do sentimento. Porque Walter a escolhera como morada era uma boa questão. Ele duvidava que tivesse sido a formosura dos fiordes a atraí-lo, e não era como se não existissem lugares mais hospitaleiros e distantes de Harold.

O homem das luvas suspirou. Harold. O seu criador, o mais aproximado a um pai que se podia ter quando um construído era o que se era. O que fazia dele o mais desnaturado dos filhos, pois Harold estivera deitado no chão onde com ele se deparara durante pelo menos um ano, sem que quem quer que fosse tivesse notado ou estranhado algo. Investigar assassinatos não era a sua especialidade. Em perseguir contrabandistas de peças e Relojoeiros sem licença, nisso ele podia afirmar-se competente. Era algo irónico, que a sua primeira aventurança numa área que lhe era pouco familiar assentasse no facto de conhecer todos os envolvidos como os batimentos do seu Relógio.

Tecnicamente, a sua investigação não era sequer oficial, embora lhe fosse custoso conceber o que podia ser dito mais oficial que ordens dadas por Sua Majestade em pessoa. Mas perceber Maud e aquilo que Maud pretendia sempre fora tarefa equivalente a interpretar uma ilusão de óptica pincelada por um mestre surrealista, e analisar as motivações das decisões por ela tomadas era tarefa que a ser encetada, lhe ocuparia o resto da eternidade. Se nada mais, agir sozinho concedia-lhe uma liberdade de movimentos que de outra maneira não teria. Especialmente considerando que fora ele a deparar-se com o corpo. A sua reputação deveria bastar para o colocar acima de qualquer suspeita, mas a lei da Cidade Flutuante não seria a lei da Cidade Flutuante se lhe roubassem o direito a desconfiar de tudo e todos pelos mais burlescos dos motivos. E as raparigas…elas precisavam de ser informadas.

As filhas de Walter viviam nas redondezas do cais. Lá chegado, o homem das luvas procurou orientar-se. Ele percorreu as docas, passou para cima do paredão que suportava a rua mais chegada à água, andou até chegar onde as casas começavam, e buscou sinais que indicassem onde estava.

Uma tarefa dificultada pelo feixe de luz que lhe incidiu nos olhos, praticamente o cegando.
- Nnhg? - grunhiu ele, levantando uma mão e cobrindo o rosto com ela, até a luz se desviar e lhe ser possível espreitar por entre os dedos sem receio de ir carecer de reimplantar a retina. Nas rochas sob o paredão, algum exemplar de retardado trilhava poças rasas com uma lanterna na mão, que sacudia como se procurasse algo. Bizarro, visto que tesouros habitualmente residiam em areia.

O portador da lanterna virou-a para o mar, permitindo-lhe descortinar o contorno de um vestido e o recorte da espingarda que tinha nas mãos. O homem das luvas estreitou os olhos e concentrou-se na parte de trás da cabeça do que pelo tempo presente, assumiria ser uma rapariga e não um travesti. Subitamente ela voltou-se, como se pressentisse que era observada. A luz da lua incidiu no seu rosto pálido e no ponto luminoso que se agitava, vermelho como uma marca de sangue, sobre a sua testa.

O homem das luvas soltou um grito, mas o som do tiro que se seguiu reduziu-o a nada.

Olhando para Amelie, era fácil deduzir sobre que membro da família caíra a predisposição para súbitas perdas de equilíbrio. Emma não recebera nem parte dela, mas com a maré baixa, os rochedos cobertos de sargaço e alfaces-do-mar eram uma armadilha à espreita de vítima. Mais que uma vez ela teve de se apoiar em projecções de rocha, e mais de uma vez ela escapou por pouco de escorregar. Já não havia como salvar os seus sapatos, mas descobrir se tinha uma morte a pesar na consciência sobrepunha-se em importância a ser cuidadosa com o seu calçado.

- A mala é tudo o que eu quero. - Emma girou sobre si, fazendo a lanterna incidir na direcção de onde a voz viera. A sua outra mão preparou a espingarda. O seu Relógio estava a fazer aquilo que tendia a fazer sempre que ela sentia medo: a jogar um jogo parte estranho, parte aterrador, de batidas fortes intercaladas com batidas que pareciam não existir. Ela esperou. A luz cegara o invasor, ou este vira a espingarda e não se atrevia a aproximar-se. Hesitantemente, ela deu um passo em frente, tomando o cuidado de manter a arma onde esta pudesse ser vista e fazendo o mínimo de barulho.

- Mostra-te – exigiu, enquanto nivelava o cano com os olhos. - Eu sei que estás aí. Mostra-te.

- Ela não vale a tua vidaterminemosistoamigavelmen…crack!

Emma baixou a espingarda. Uma ruga formou-se na sua testa, um sorriso nos seus lábios. Ela avançou e ajoelhou-se numa depressão rochosa. Os seus dedos pescaram o gravador de onde este ficara preso e desligaram-no, calando a voz em definitivo. Ela guardou-o no bolso e prosseguiu, com a lanterna a ser passada pela base do paredão. Numa das poças maiores boiava a mesa da cozinha. A jovem pausou para a retirar da água, pois deixá-la de molho até ao dia seguinte faria a madeira inchar.

Um ruído vindo de localização não-identificada alertou-a. Ela tornou a varrer a linha costeira com o foco da lanterna e deu um par de passos atrás. Embora fosse provável ter-se tratado de um dos barulhos típicos de uma cidade consciente, a sua mão foi para a espingarda. Probabilidades não eram certezas. Se falta de prudência lhe custasse a vida, Bertha faria o possível e o impossível para reactivar o seu Relógio e nunca a deixar ouvir o fim do assunto. Ela ergueu os olhos para o paredão.

Ser alvo de tiros distraiu-a.

Emma atirou-se ao chão. A espingarda caiu junto dela, e a rapariga alcançou-a enquanto se refugiava atrás de uma das projecções de rocha nas quais anteriormente se amparara. Do lado do paredão veio um som, um pouco como asas a farfalhar e muito como o chape, chape de solas de borracha a correr sobre água rasa. Um segundo tiro troou, vindo da direcção oposta. Olhando em redor para descobrir a origem do fogo cruzado, ela deparou-se com a silhueta de Bertha parada na cozinha, diante de onde antes se havia encontrado a janela.

A caseira interrompeu o carregamento do fuzil que empunhava para lhe acenar. Percebendo que se esta a via, altas eram as probabilidades de quem atirara contra ela a ver também, Emma desligou a lanterna. Saindo detrás da rocha, correu até ao paredão e tacteou até encontrar a escada de ferro pela qual descera. Um silvo perto do seu ouvido comunicou-lhe que o terceiro tiro do invasor passara perto. Ao compreender a razão - estavam a atirar contra a sua casa - ela interrompeu a subida por um instante, disparou na direcção de onde ele viera e colocou-se de pé na viela para onde a escada dava, com a sua territorialidade satisfeita.

- Foram-se os dois - informou Bertha, do degrau da entrada. Emma anuiu distraidamente. A dona Gail da casa ao lado acabava de enfiar a cabeça para fora da porta para vociferar que honrar a sua mãe ao iniciar-se no seu passatempo predilecto era muito bonito, mas havia horas mais indicadas para estar a fazê-lo. Ela ofereceu-lhe um sorriso amarelo, desculpou-se curtamente e fechou a porta atrás de si.

- “Foram-se”? - perguntou, despindo o casaco e pendurando-o no cabide.

- Estava alguém no paredão, que fugiu quando comecei a atirar. Não um vizinho, não alguém daqui.

- Ele foi-se também. - Não se tratava de uma questão, mas Bertha anuiu. - Óptimo. Boa noite, Bertha.

- Moça? - A caseira gesticulou para o que ela tinha na mão. - Talvez devesses deixar a espingarda.

- Ah. Certo.


Como a situação lhe saíra do controlo tão depressa, ele não conseguia adivinhar.

O homem das luvas correu ao longo do paredão, espiando as trevas entre as casas que davam para o calhau. A rua seguia uma organização de edifício, ruela, edifício, e entre vários dos edifícios as ruelas terminavam em escadas. Impossível saber entre quais, porém, o que o obrigava a deter-se de metro a metro para investigar se uma existia e se o atirador trepava por ela. Os seus passos haviam deixado de se escutar depois de os tiros terem terminado. Ele memorizara de que casa o outro conjunto viera.

A rua terminava oito casas à frente, num prolongamento do paredão. Os miúdos da zona haviam pregado tábuas ao longo dele, presumivelmente para se servirem delas como pranchas de saltos. Algo que teria voado longe dos pensamentos do homem das luvas, se não fosse por uma delas ter rangido de uma forma que o fez deter-se. A prancha rangedora estava a curvar-se como uma régua a ser dobrada. Ao contrário de uma régua, ela não cedeu ao atingir o ponto de ruptura. Em vez disso, as mãos que seguravam a sua ponta avançaram ao longo dela, tacteando. Apoiando-se nos cotovelos, eles içaram o resto do corpo para cima da tábua. O homem das luvas parou e esperou.

A figura de negro endireitou-se na ponta da tábua e olhou para baixo. Depois ela olhou para o lado, deu pela presença dele, e gelou. Era impossível ver-lhe o rosto, pois este encontrava-se coberto por tecido e um par de óculos largos, mas o símbolo que o outro tinha costurado na lapela com fio de prata era mais esclarecedor do que as suas feições seriam. Dois corpos sobrepostos no interior de um círculo e um quadrado, esse era ele. A humanidade como centro do universo. Creaturarum.

O homem das luvas foi forçado a baixar-se quando uma bota veio contra ele. Ser atingido não seria um desastre, mas se o fosse, perderia um segundo a refazer-se. Ele preferiu usar esse segundo para ripostar com um soco que atordoou a figura, o agente, pelo tempo de lhe tirar a arma com mira laser e a atirar ao mar. Para seu crédito, o outro não permaneceu atordoado por muito tempo.

- É que nem brincando…- O agente saltou da prancha para o paredão. Os seus pés ainda mal haviam tocado o chão quando girou sobre si para desferir um pontapé que o apanhou no queixo. Quando tentou repetir o golpe, o homem das luvas apanhou-lhe o pé pelo tornozelo e puxou-o para o fazer perder o equilíbrio, dando-lhe de seguida um esticão. Tratara-se de um erro usar o mesmo truque, um que um terrorista e assassino mais experiente não teria cometido. Aquele ali tinha de ser jovem.

- Boas noites – disse, em tom ameno. O agente, que se encontrava a balançar de cabeça para baixo fora da borda do paredão, cessou de se debater e fez-se mole. O homem das luvas agarrou-lhe o outro tornozelo, não fossem as suas mãos escorregar e inadvertidamente largá-lo. – Podes tirar um instante para despejar a tua frustração, e chamar-me tudo o que houver de vil e injuriador no teu não-duvido-que-impressionante reportório de pragas a declamar em caso de captura. Depois, teremos de passar para a consideravelmente menos agradável parte em que eu te coloco perguntas, e tu podes escolher entre responder e aprender a voar. Entendido? - O agente manteve-se teimosamente calado, e cruzou os braços. Tendo em conta que este se encontrava virado de cabeça para baixo e vestido de preto da cabeça aos pés, a imagem fez o homem das luvas pensar num morcego gigante. - És surdo, mudo ou idiota? - inquiriu, sacudindo-o. O agente gritou, provando que mudo não era. - Ah, batam-me e chamem-me Celestina, tu afinal sabes falar. Tens também um nome? Número? Código de barras?

- Vai-te foder! – bradou o agente. – Com…com uma serra eléctrica! Sobre uma cama de alfinetes!

O homem das luvas sorriu um pouco.

- Criativo. Mas receio que a tua oportunidade para me insultar tenha passado, e oh não, não me olhes dessa forma. Esta é a altura ideal para recorreres a essa tua voz…- E que voz. Ela devia encontrar-se em fase de mudança, pois ele estava a só a custo refrear a tentação de informar o agente de que tinha timbre de menina pequena. -…para me contares o que a tua organização faz neste fim do mundo, pois confesso-me assombrado. Cráduma, realmente? Acabaram-se os prédios por explodir no continente?

- A Lua descerá sobre nós, e os virtuosos levantar-se-ão…

- …e devolveremos a Terra aos nossos pais criadores, e largaremos bombas sobre escolas e centros médicos, pois é óbvio que as crianças são os verdadeiros cérebros por detrás do banimento deles, e aqueles em quem bate um Relógio em vez de um coração são larvas, etecetera etecetera. Vocês são o maior conglomerado de sofredores de complexo de inferioridade que há, já vos disseram? Mas ei, acredites ou não, eu não estou aqui para discutir contigo os teus princípios fundamentalistas. O que se passou ali atrás? Quem eram aquelas pessoas, e porque estavam vocês a tentar matar-se?

- …a minha vontade é forte, os meus lábios inamovíveis.

- Eu não vejo nada de errado com a sua capacidade de mover. Poupa-me o sermão; não sou um dos vossos recrutas, e a minha tolerância para com crenças alheias esgota-se a partir do momento em que os crentes resolvem que é uma boa coisa bombardear uma cidade por nenhum outro motivo que o de não lhes agradar o som daquilo que os seus habitantes têm no peito. Já te ameacei vezes suficientes. Porque é que não avançámos para a parte em que engoles o sapo sentado na tua garganta, escolhes colaborar, e me acompanhas à esquadra? - Ele interrompeu-se. - Este sítio tem uma esquadra, certo?

- V…vai-te lixar. - O pontapé que o agente desferiu na mão dele apanhou-o desprevenido, e fê-lo abrir os dedos por instinto. Tornozelo e sapato escaparam-se por entre eles, e sem um grito, o agente caiu no escuro. O homem das luvas atirou-se para a frente, sem planear, sem ponderar, sem pensar algo além de “Merdamerdamerda!”, mas não foi a tempo de lhe agarrar a mão. Enquanto se colocava de pé e amaldiçoava o facto de, entre a canalhada que compunha o Creaturarum, lhe ter saído nas sortes um agente com tendências suicidas e integralmente desafinado dos pirolitos, ele esperou pelos gritos.

Nenhum se fez ouvir. Em vez deles, ou de gemidos, ou dos barulhos característicos de ossos a quebrar, o som que subiu das rochas foi um como o raspar de unhas em ardósia. Ainda abalado, mas demasiado intrigado para o seu próprio bem, o homem das luvas inclinou-se sobre a borda. O agente tinha-se alapado ao cimento do paredão, recorrendo, até onde ele era capaz de ver, apenas às mãos.

- Ainda connosco? - Ele segurou um suspiro aliviado. - Impressionante. Precisas de uma mão?

- Não – disse uma voz nas suas costas. Ela era fria, e ela tinha rebordos afiados. – Ela não precisa.

- Nn?..- começou o homem das luvas, mas antes de poder apanhar um relance de quem estava atrás dele, uma corrente de dúzias de amperes foi-lhe enfiada no abdómen por meio de um tição eléctrico.

Metros abaixo, Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco engoliu em seco e continuou a subida.


Última edição por Moggo em Qua Set 12, 2012 1:21 pm, editado 2 vez(es)

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por PandoraTheVampire em Sex Jun 08, 2012 11:48 am

Olá Moggo! Finalmente tive um tempinho para ler isto tudo de uma assentada :p E muito me contas neste capítulo... O Zeph é adorável! Okay, tem falta de alguns parafusos, mas é mesmo adorável. Pelo menos por enquanto, não é? Contigo nunca se sabe...

E quem diria... terroristas em Cráduma? O que é que eles estão à procura? Veio mesmo na mala da Amelie? Isto só vem provar que qualquer fundamentalismo pode virar extremista, seja ele uma religião ou querer que os humanos voltem à Terra. Fiquei curiosa... Mas a Emma sabe seriamente dar um enxerto de porrada! Mulher de armas! Literalmente xD

E omg, diz-me que aquela manobra doida com o tição no abdómen não lixou de vez o relógio do homem das luvas! Diz-me apesar de eu achar que ele está completamente finito neste momento... até porque comentaste algo do género: "não é necessário saber o verdadeiro nome dele porque daqui a alguns capítulos isso já não interessará." lá naquela coisinha simpática onde tens as personagens todas. Okay isto está a soar-me mal... acho que ele se foi!

Estou deprimida. Não pensei que fosses já começar a exterminar as personagens apesar de saber que isso seria uma opção viável... damn u Moggo. Agora tens mesmo de postar mais para eu tirar as dúvidas. Ah e por falar em dúvidas, esclarece-me uma: os Creaturarum são humanos ou são relógios que tendem a simpatizar (extremamente) com os humanos? Se explicaste isso não ficou colado ao meu cérebro...

Pronto, é isto. Estou a gostar imenso. PS:
Ah, batam-me e chamem-me Celestina, tu afinal sabes falar.
---> Óscar para melhor frase do ano. Tenho dito.

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Fox* em Sab Jun 09, 2012 5:56 pm

Ok, a mulher é extremamente irritante! Todo aquele controlo sobre cada situação que vive, a forma como ela organiza o casamento como se do dela se tratasse (leva-me a pensar que teme que a Emma repense mesmo a situação à última da hora, que era o que qualquer ser humano com dois neurónios minimamente funcionais faria se ainda os quisesse manter nesse estado...), como despreza empregados, a própria futura nora, o Zeph...
Aplaudo (começo a aperceber-me que aplaudo muitas das tuas personagens, mas acredito que tenho boas razões para isso...) a Emma por se manter tão calma e ponderada durante toda a "cerimónia" quando, muito provavelmente, eu teria uma reação que teria os mesmos resultados da quebra de porcelanas da pobre Yasemin! Ainda vou no terceiro capítulo e já tenho preconceitos com personagens... (Não me estou a queixar, acho bastante positivo sentir uma empatia, ou "desempatia", tão grande com estes Relógios!)
Zeph... Ora bem, ou ele é mesmo total e irreversivelmente louco, o que explicaria a falta de parafusos e nexo em muitos dos seus comportamentos (adorei a reação dele aquando da menção da noite de núpcias), ou está apenas a fingir e é mais do que aparenta. Não faço a mínima ideia do que poderá acontecer porque tu tens uma capacidade de criar e inventar enredos que me ultrapassa em grande escala, e por isso já espero tudo (e adoraria de sobremaneira que ele não fosse louco, se bem que duvido tendo em conta a pessoa com quem ele viveu praticamente a vida toda!)

Hum... Malas, invasores a meio da noite, Bertha a armar-se em Gladiadora de metal... Esta cena deu-me vontade de rir principalmente pelas tuas descrições e palavras que usas. O facto de procurarem um objeto entre as malas da moça já é assustador, mas o momento em que a Caseira entra e começa à pancada com um frigideira roubou o protagonismo todo! Entre golpes, palavras esquisitas, a educação eu-não-vou-bater-ou-praguejar-nem-que-seja-para-salvar-a-vida da Amelie, o estado die-bitch-die da Bertha e o momento saiam-da-frente-que-eu-não-estou-com-paciência da Emma, não sei o que me divertiu mais! Mas adorei este momento totalmente inesperado, principalmente porque não correu dentro dos padrões. Ok, vou tentar explicar, mas o gravador, a mão de metal, a necessidade de roubar uma mala e não dinheiro ou jóias, o atuar sozinho e a luta em si foram muito esquisitos. Divertidos, mas esquisitos (especialmente a Amelie, demasiado sobre controlo... E aquele pensamento do sangue! A miúda tem de ter mesmo uma mal-função do Relógio!)
E terroristas... Oh, fico super entusiasmada para ver que a queda para explodir e destruir pertences não é exclusiva da raça humana! Presumo então que os agentes sem nome mas com números pertençam a esse belo grupo e que têm razões mais que suficientes para fazerem o que fizeram e tentarem mais umas vezes (se bem que verão a tarefa dificultada pelos génios da Bertha e da Emma, o que me faz adorá-las ainda mais!).
E apoio totalmente a Pandora, não me mates o Homem das Luvas agora que comecei a engraçar com ele... (Antes ele que a Bertha, que se está a tornar uma bela personagem, e nunca pensei dizer isto xD!)

Engraçado, falaste de planeta azul (aquando da conversa dos humanos) mas, por qualquer motivo, imagino-o laranja por causa das máquinas e da atmosfera steampunk! Acredito que continue azul e verde, mas tenho na cabeça uma imagem amarela e laranja :)
Gostei da entrada da miúda, principalmente porque deu um ar humano a toda a situação. Já não eram duas pessoas a discutir sobre o regresso à Terra e a possibilidade das máquinas serem assassinas, mas uma miúda a voltar do festival de bandas. É engraçado como, mesmo na lua, os hábitos se mantém!

Well, I think I'm done for today :D!

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Dom Jun 17, 2012 11:37 pm

Bem, cá estou eu novamente. Peço desculpa pela ausência prolongada, e espero que uma dose dupla de capítulos vos vá compensar pelo menos um bocadinho. Mas antes disso, penso que me restavam uns quantos comentários a precisar de resposta. Então:

Pandora, eu ia dizer-te qualquer coisa acerca desse primeiro parágrafo, mas o que quer que escrevesse ia acabar por ser um spoiler de proporções titânicas. Basta dizer, eu ri-me como uma perdida quando o li. Não de ti, mas no sentido de “Ai caramba, ela não faz ideia do que a espera”, uma sensação que acredito que deves conhecer :p

A tua pergunta seguinte é parcialmente respondida no capítulo seguinte, espero eu. Quanto à Emma, achei por bem estabelecê-la desde cedo como alguém que se sabe defender sozinha, ainda que não seja *fisicamente* forte. Dependendo de se estás a ler isto antes de passares os olhos pelos capítulos seguintes ou depois, já deves saber qual o destino do HDL ou estás prestes a sabê-lo, por isso não devo precisar de explicar muito mais acerca disso. Sobre o Creaturarum, podes assumir que os seus elementos não são humanos. Não estou a dizer que não podem existir alguns lá pelo meio, mas até receberes declaração textual do contrário, todos os que encontrares são apenas simpatizantes. E por fim, ainda bem que estás a gostar. E pelas tuas valiosas opiniões. Agora, penso que te “devo” um comentário nas Crónicas, que para minha eterna vergonha não tenho acompanhado ultimamente. (Sorry!)

Foxxxyyy!

Então a Claritia irrita-te? Objectivo concluído e conseguido XD Infelizmente ou felizmente, dependendo do ponto de vista, a Emma atura a parte de esta ser controladora, visto que, bem, ela também tem a mania do controlo. Mim estar muda quanto a se ela irá ou não desistir do casamento.

Ter preconceitos com certas personagens é bom, na minha opinião. Especialmente se me contares quais são, para que possa ir acenando ao ler e pensar para mim que é óptimo que desgostem/gostem desta personagem, porque significa que estou a fazer o meu trabalho. E também ajuda em casos em que uma certa personagem não está a ser recebida da maneira pretendida, pois assim fico com motivos para olhar novamente para ela e tentar entender onde falhei.

Gosto das tuas teorias-barra-esperanças em relação ao Zeph. Não posso confirmá-las ou desmenti-las para além da parte em que yep, ele não bate muito bem, mas asseguro-te de que desenvolvimentos irão acabar por ocorrer nessa frente. A cena da luta foi, confesso, colocada para espicaçar e dar a entender que existe uma ameaça real, e que CDR não será quinhentas páginas de “Omg, nós somos diferentes e não nos entendemos mas temos de viver na mesma casa e suportar-nos, halp!”. Quer dizer, esse não seria necessariamente um mau enredo para ter se fosse trabalhado mais ou menos decentemente, mas acabaria por me aborrecer a escrevê-lo. (Eu escrevo da mesma maneira que leio. Se não houver coisas interessantes a acontecer, perco o interesse.) Se achaste alguns dos detalhes da luta e do resto “esquisitos”, tenho só duas palavras para ti: be prepared!

Também não sei como me sinto sobre estarem a apanhar todas as minhas insinuações e foreshadowing. Quer dizer, não estou propriamente a ser subtil e a tentar esconder as coisas, mas tenho muito medo de exagerar na quantidade de pistas que largo no meio do texto e ter alguém a chegar ao fim e dizer “Ai que previsível!”. A tua dedução acerca dos agentes está correcta, sim. Gosto de dar um descanso entre capítulos de acção, porque não estou aqui a tentar escrever um thriller, razão pela qual não irão ocorrer mais invasões nas próximas partes, mas se as próximas tentativas deles não forem abortadas da mesma maneira, irão com toda a certeza ser muito dificultadas. E se gostaste dos humanos (coisa estranha para se dizer, I know, mas fazer o quê?), a primeira metade do próximo capítulo é dedicada a eles. Espero que satisfaça *cruza os dedos*

Okay, com isto fora do caminho…here you go!


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Capítulo IV

Mensagem por Moggo em Qua Jul 11, 2012 4:22 pm

Capítulo IV - A Mala Abre-se

Vista de cima, a base de Mare Nubium poderia confundir-se com uma canalização gigante. Ela era tubos de aço cromado e prédios em forma de bloco onde a arquitectura de Mare Nectaris era esférica e espiralada. Ela era casa, de maneiras que o seu recanto em Nova Bruges nunca seria casa para Dorien. O micromundo que esta via crescer através da janela era um que abandonara há trinta anos, e ao qual regressara com raridade depois disso. O espectro de Lucy pairava sobre a zona, e acordando memórias que nem concentrar-se na sua família viva era capaz de anestesiar.

Porque ela e Lucy tinham sido idênticas em tudo excepto em mente, e mesmo esse ponto era discutível, Dorien passara a sua infância a saltar entre duas peles e vidas distintas. Passar-se por Lucy, ser Lucy e permitir que Lucy fosse ela, fora algo que começara como um jogo e em pouco tempo se tornara a única forma de viver que ela conhecia. Entre os seus sete e dezasseis anos, a linha que a separava da sua gémea esborratara-se até ser perto de invisível. Regressar era fundir-se com um fantasma. Uma parte dela tinha sido Lucy Vedra, e continuava a sê-lo mesmo já não havendo quem fosse Dorien no seu lugar. Mare Nubium era o seu lembrete de que isso seria sempre verdade.

O jacto cessou de descer e executou uma manobra em L que o colocou perpendicularmente aos tectos, aos quais passou rente sem nunca os roçar. O zumbido da velocidade e do vento a ser cortado pela fuselagem era relaxante, mas esse relaxamento vinha tardio. Dorien esforçara-se por dormir durante o voo, mas o sonho iludira-a mesmo estando cheia de calmantes.

Uma voz mecânica, à qual ela obedeceu com igual mecanismo, anunciou que os cintos deviam ser apertados. Instantes mais tarde, o jacto aterrou e imobilizou-se. O mostrador do seu relógio de pulso confirmou-lhe que ainda se encontrava dentro do tempo. Assim que a luz vermelha sobre a cabeça dela se apagou e a porta foi descida, Dorien levantou-se e saiu para a pista. Um olhar em redor confirmou que Charles não viera esperá-la, e ela preparava-se para andar até à gare de naves-táxi quando um sujeito de blazer cinzento lhe fez sinal para se aproximar. Ela pestanejou.

- Cletus? - disse, e tapou a boca com a mão logo de seguida. O muito abusado secretário-adjunto de Charles exibia uma carranca aborrecida que indicava não ser no melhor dos seus interesses comentar que recebê-la não devia ser da competência dele. - Que agradável rever-te. O Charles mandou-te?

- Gnarf - respondeu ele, o que não constituía surpresa, pois Dorien não se recordava de Cletus como sendo o que se poderia chamar um homem de muitas palavras. Competente, certamente. Eloquente, jamais. Ele não a apreciava, mas isso não a ofendia. Era questionável se Cletus gostava de quem quer, ou o que quer, que fosse. - O carro está lá atrás.

- Estou a ver - comentou, e deixou-se guiar até ao veículo. Cletus abriu-lhe a porta como um perfeito cavalheiro, enfiou-se no lugar do condutor como uma perfeita besta, e passou os quinze minutos que o carro demorou a sair da zona residencial imerso no mais perfeito dos silêncios.

Era fácil observar que Mare Nubium era um lugar de privilégio. Em nenhuma outra base se podia encontrar vegetação fora de áreas específicas e fortemente vigiadas, e em nenhuma outra base o ar tinha uma pureza que embora incomparável ao da Terra, era prova fulcral de que racionamentos de oxigénio não tinham lugar ali. Olhando pela janela, Dorien viu que a ladeira asfaltada que conduzia à casa de Charles não sofrera visivelmente com as acções do tempo. O relvado em redor da casa era ainda de um tom de verde conseguido só à custa de fundos e obsessiva atenção. Houvera no entanto um notório incremento no número de duendes de jardim dispostos sobre ele, sob focos de luz artificial estrategicamente colocados para os iluminar. Charles coleccionava-os. Ela daria graças se essa fosse a única particularidade pouco ortodoxa do seu pai adoptivo, mas esse estava longe de ser o caso.

O carro entrou pelo portão e deixou-a em frente à fachada principal. Cletus grunhiu quando se despediu dele, uma das melhores respostas que Dorien se podia gabar de lhe arrancar. Ela parou em frente à porta, evitou o degrau armadilhado e piscou os olhos para os habituar à claridade.

Antes que pudesse estender a mão para o batente, a porta abriu-se por si só. As sobrancelhas dela ergueram-se. Charles estivera a brincar com a instalação eléctrica da casa. Nunca um bom sinal.

- Charles? - Cautelosamente, ela deu um passo em frente. Depois outro. E outro. - Charles? Olá?

- Dorien! – Ela ouviu o chamamento quando se preparava, após um longo exame para conferir se não havia fios ligados a ela, rodar a maçaneta da porta para a sala. O chamamento viera de muito perto, e Dorien virou-se para descobrir a sua origem. Ao descobri-la, recuou por reflexo. O “Ahhh!” que deixou sair foi reflexivo também. Charles pousou-lhe uma mão no ombro. – Então, um pouco de mais calma.

- Eu estou calma! – replicou ela, em tom histérico. A sua vontade era bater-se. Como se esquecera de se prevenir era uma enorme questão, mas acabava de ser vítima da manobra que Charles convertera em marca registada: aparecer subitamente por detrás, segundo todas as aparências materializando-se a partir de ar. Ela exalou, obrigando-se a refazer-se. – Vês? Calma. Perfeita, totalmente calma.

- Como é óbvio – disse Charles, despreocupadamente, não lhe apontando a mentira. Dorien notou que ele emagrecera desde a última vez que o vira. Distraidamente, ela interrogou-se quanto sono ele teria perdido desde a queda do meteorito. - Vi-te no noticiário. Chuva em Imbrium. Um grande feito.

- Obrigada. - Ela e Mikail tinham trabalhado três anos no projecto que o tornara possível, o que apenas aumentava o seu rancor por ter estado sozinha na hora de o comunicar à Lua.

Mas era agradável que Charles reconhecesse o valor do seu sucesso. Ela tinha presente que a sua escolha de carreira não era do agrado dele, pois a carreira por ela escolhida não era a dele. Na altura em que o informara da sua decisão de estagiar no Ómicron, Charles não lhe colocara entraves. Lucy ainda vivia, e embora esta não fosse filha dele oficialmente, era evidente qual delas era a mais indicada para próxima Intendente Geral. Mas Lucy despenhara-se, junto com todo o seu talento e potencial, e quando Charles se voltara para ela, Dorien dissera-lhe que pretendia ser uma cientista e não uma déspota. Três décadas depois, ela ainda não se arrependia das suas palavras. Excepto talvez da acusação de despotismo. Embora fosse quase certo que esta não o ofendera.

- Notei que o traste não estava contigo - comentou Charles. Dorien emendou a sua declaração mental de há horas atrás: Charles era tão mau como Mikail. Ela devia ter contado com um ataque similar. Não havendo como criticar a sua escolha de carreira numa ocasião como aquela, era óbvio que ele iria em vez disso atacar o seu segundo alvo predilecto. Nomeadamente, a sua escolha de marido. Ex.

- Ele tinha outros compromissos.

- Depreendo que com “compromissos”, te referes a “estar bêbado no chão da minha cozinha”. - Dorien deitou-lhe um olhar de lado. Charles ascendera ao cargo de Intendente em parte graças ao seu talento para obtenção de informações, mas que ele fosse parcial a certas coisas só podia ser explicado com ter uma bola de cristal escondida algures. - Estou certo, ou não?

- No sofá da sala de estar - admitiu ela. A expressão que Charles fez era parte frustrada por ter errado, ainda que por uma margem infinitesimal, parte sombriamente satisfeita por ter recebido munições para arremessar contra o alvo da sua detestação. - E…há algo que preciso de discutir contigo. Acerca dele. Mas não aqui - acrescentou, ao ver que Cletus acabava de entrar, colocar-se em sentido junto à porta e inquirir em tom congestionado se havia necessidade de passar um espanador pela sala antes de o senhor Intendente e a sua convidada entrarem. Dorien tinha quase a certeza de que ele estava a ser sarcástico, mas com Cletus, era difícil dizer. - E há possibilidade de ele ser recordado de que o meu nome é Dorien, algo que já devias saber visto que me conheces há anos, Cletus, obrigada?

- Não sejas tão dura com o rapaz - censurou Charles. - Ele faz tudo aquilo que genes ordinários e uma medíocre educação permitem. Continua o bom trabalho, Cletus. E se puderes avisar na cozinha que…

- Já a tratar disso - replicou o outro, falando em ruminações. Dorien desviou-se para lhe dar passagem e notou que ele tomava uma atenção escrupulosa com onde colocava os pés, sinal de que não errara em pensar que Charles actualizara outras coisas que não a fechadura. O piso térreo era seguro, para certos valores de seguro, mas o mesmo não podia ser dito do subsolo, primeiro andar e água-furtada. A maioria das armadilhas que enchiam a casa era obra de Lucy, que tivera uma quantidade imensa de tempo livre durante os anos que ali vivera. Dorien suspeitava que sentimentalismo era parte do motivo pelo qual Charles se preocupava em mantê-las bem oleadas e funcionais.

A outra parte era o facto de ele não ter o mais seguro dos sentidos de humor.

- Sabes que é muito provável que ele te vá cuspir na comida, não sabes?

- Deixa-o. Toda a gente precisa de um passatempo. - Dorien riu-se. Era impossível evitá-lo. Charles abanou a cabeça e fez-lhe sinal para que o seguisse. - Mas é inacreditável, não? População de mil milhões, e estou para encontrar um indivíduo que seja um mais adequado sucessor. Não a mais feliz das noções, essa. - Ele cofiou a barba, pensativo. - Memorando: tratar de conseguir imortalidade.

- Não sejas derrotista. Tenho a certeza de que alternativas existem, mas o Cletus não é uma má.

- Ele é um mordomo impecável e uma mão direita exemplar, mas hesito em dizer que seja material de Intendente Geral. No entanto, estando a escolha entre ele e um dos jovenzinhos imberbes que julgam ter direito ao cargo porque os seus tetravôs comandaram as naves que nos trouxeram aqui. O primeiro Maiken a pisar solo lunar tinha limpar janelas como profissão. Isso não me tornou menos adequado para o posto, assim como o contrário não faz com que eles o sejam. Nomear um desses abutres? Feh!

- Em todo o caso, essa não é uma preocupação que devas ter até mais tarde, não é verdade? - disse ela, em tom conciliador. Charles estava parcialmente certo. Era discutível se existia um substituto que fosse encaixar no buraco que ele escavara. Ele ocupara o cargo durante tanto tempo que Charles Maiken se tornara sinónimo de Intendente Geral em mais que uma mente. Se o conflito originado pela queda do meteorito se arrastasse por anos, a Lua precisaria dele, não da segunda melhor opção.

As coisas teriam sido diferentes se essa opção fosse Lucy, mas Lucy era história.

Eles passaram para a divisão seguinte. A mesa da sala de jantar, que a ocupava quase pela metade, estava posta com dois pratos, um em cada extremidade. Charles deslocou-se para uma ponta, pegou em prato, copo e talheres, e regressou para os pousar junto ao lugar do qual Dorien se apoderara.

- Uma mente prática, essa é a única coisa que preciso que quem vier depois de mim tenha - continuou ele, puxando de uma cadeira para si. - Uma mente prática e um pingo de autonomia. Mas desafio-te a encontrar apenas uma dessas características na corja que por aí anda a rondar, à espera do momento em que cairei fulminado. Bronislavs e Reiserts e Darins e Svanas, e nenhum tem aquilo que os seus ilustres antepassados têm de ter tido para verem o senso de nos exilarmos aqui em cima. Isto, apenas para te dar um exemplo. - Charles bateu com o punho da madeira na mesa, sobressaltando-a. - Quem inventou mesas com esta configuração estava dolorosamente carente de uma medida de praticidade.

- Ouvindo o que dizes, poder-se-ia pensar que tencionas cair morto amanhã.

- Não tentes o destino, Dorien - criticou ele, agitando um dedo em frente ao rosto dela. - A não ser que vocês lá no Ómicron já tenham descoberto o segredo das viagens na quarta dimensão, e eu me possa oferecer como voluntário, o facto é que sou velho que não viverá para sempre. O máximo que está em meu poder fazer é garantir que a minha eventual morte não criará caos no curral. Porque é isso o que a Lua é, por muito que o procurem negar. Recordas-te do meu predecessor?

- Como poderia recordar-me, Charles? Eu ainda não era uma célula num tubo na altura.

- Verdade - concedeu ele. - Ebenezer Dalla. Um crápula da pior espécie. Um cego conseguiria ver que a Lua estava a apodrecer a partir de dentro sob a sua influência, mas ninguém moveu um dedo para o depor durante anos a fio. Foi necessário…- Charles interrompeu-se e olhou para o lado. - Ah, transvin. Pousa a garrafa ali, Cletus. Como estava a dizer, foi necessário aparecer alguém para mandar que ele fosse tirado de onde estava. Eu. Se o rapazola que fui não tivesse agido, o velho Eb teria permanecido Intendente Geral, e escolhido um crápula idêntico a ele para o substituir quando se finasse. Porque as gentes da Lua são ovelhas, Dorien. E desde que caiu o meteorito, são ovelhas aterradas. Finalmente estão a dar-se conta de que a nossa permanência neste satélite é precária para além de difícil, e muito me espanta que tenham demorado só cento e sessenta e oito anos a percebê-lo. Portanto, um brinde a Eb Dalla. Sem o seu exemplo, não teria ideia daquilo com que estou a lidar e…abre-te, maldita!

- Uhm - disse Dorien, pois onomatopeias de poucas sílabas eram mais seguras como resposta do que tentativas de acrescentar algo relevante, tratando-se de Charles. - Precisas de ajuda com a garrafa?

Charles deitou um relance irritado ao saca-rolhas com o qual andava há um minuto a martirizar a garrafa de transvin, antes de lhos passar a ambos. Dorien rolou os olhos e extraiu a rolha com um só movimento. A artrite dele piorara, mas Charles nunca tomaria a iniciativa de levantar o assunto ou dele reclamar, e por conseguinte, ela não o faria também.

- Em todo o caso - continuou ela, após encher um copo para si e abrir espaço para que uma travessa de puré lhe pudesse ser colocada à frente - viagens no tempo não são encargo do meu departamento. O grupo do terceiro andar é quem investiga essa temática. Discute-a com eles; não garanto que te possam oferecer imortalidade, mas com a frequência com que são acusados de desperdiçar fundos, tenho a certeza de que ficarão extáticos por alguém dar atenção positiva aos seus projectos.

- Um problema do qual tu patentemente não sofres, se o mediatismo em torno do teu é indicação.

- Água é uma maior prioridade para os de poucas posses que o circundar dos limites temporais.

- Verdade. Mas mesmo que consigas fazer chover na Lua toda, duvido que isso vá acalmar os ânimos que se têm andado a exaltar. Depreendo que tenhas dado pelas interferências. - Dorien anuiu. - Quão más estão as coisas em Nectaris? Aqui temos tido manifestações quase diárias à porta da câmara.

- Interferências. Luzes apagadas. Há dias, os racionadores de água e electricidade foram desligados. Mas protestos públicos ainda não ocorreram, que seja do meu conhecimento. Porque perguntas?

- Porque tenho o dever de estar informado sobre esses assuntos. Não apenas como Intendente Geral, mas como pai preocupado. Parecias nervosa quando entraste. Como este é de outro modo um grande dia para ti, calculei que tivesses encontrado dificuldades no caminho para cá.

- Não, nada do género. - Dorien picou um grumo de puré até o desmanchar e brincou com os talheres, sem se conseguir convencer a reunir apetite. Ele esperava uma explicação. Ela deu-lha. - Mikail.

- Ah, sim. - Charles parou o copo a meio caminho da boca. - Tu mencionaste qualquer coisa acerca do traste. O que fez ele agora, para lá de ser um imprestável bêbado? Tornou a pedir-te em casamento?

- Não, Charles. Duas vezes bastou-me, obrigada.

- Estás…grávida? - Dorien não sabia se devia rir ou mostrar-se atónita por aquelas serem as primeiras possibilidades a ocorrer-lhe. Presa na sua indecisão, ela esqueceu-se de o refutar. Charles brindou-a com uma mirada horrorizada e pousou o copo com tanta força que ele rachou. - Oh, não! Tu estás…

-…a ter demasiados problemas com a filha que tenho para me atrever a considerar acrescentar mais.

- E não imaginas o quão aliviado isso me deixa. Arriscares-te novamente a que a criança saia ao pai, quando já é uma sorte que a Clariane não tenha herdado as mais insalubres características do lado da família dele…- Quando Dorien fungou desdenhosamente, ele meneou a cabeça. - Uma conclusão que baseio em nunca ter dado com ela a cantar hinos às flores sobre o meu telhado, ou precisado de a desacorrentar de um portão. Com gente como aquela, nunca se sabe. Malditos hippies encardidos.

- O Mikail planeia ir à Terra! - explodiu ela.

- Ah, é esse o problema? Sossega. Se da outra vez o inimigo o considerou demasiado patético para abater, duvido que desta vá regressar muito mais amassado. Erva ruim nunca morre, e tudo o mais.

- Charles…- Desviando o prato para o lado, Dorien uniu as mãos debaixo do queixo. - Eu nunca te pedi fosse o que fosse. Eu nunca tentei depender dos teus meios ou reputação para nada nesta vida. Mas se há algo que te ocorra e o impeça de colocar pé naquela nave, ficar-te-ei imensamente grata.

Ela esperava tudo menos que ele se risse na sua cara. Com gosto, para mais.

- Que esperas que faça? Que puxe alguns fios e faça com que abortem a missão? Haverá outras, e ele não perderá a oportunidade de se tentar juntar a elas. E consegui-lo-á, pois por muito que isso me deixe perplexo e abale a minha fé na nossa espécie, o teu ex-marido tem reputação de ser entendido naquilo que a Terra se tornou. Se impedi-lo de embarcar é o que pretendes, tens maiores hipóteses de o conseguir se tratares de o deixar inconsciente até à descolagem, e nisso posso ajudar. Eu tenho clorofórmio. Precisas que te empreste clorofórmio?

- Charles, eu não quero drogá-lo!

- Pena. Nesse caso, conto apenas que não tenciones deitar-te em frente à nave. Outra vez.
- Tu nunca me irás deixar esquecer isso, pois não? - Ele anuiu. Ela apoiou a cara nas mãos e enterrou os dedos no cabelo. - Recorda-me porque é que ainda me incomodo em te contar seja o que for.

- Porque irei chegar a sabê-lo de qualquer das formas? - Dorien grunhiu, duplamente irritada por saber que a razão estava com ele. - Mas é excelente que tenhas levantado a questão da Terra, pois há algo que te gostaria de propor. Uma distracção. Mas gostaria primeiro que me desses os teus talheres.

- Porquê? - Charles gesticulou, e ela passou-lhes os talheres com um suspiro. - Charles. Porquê?

- Porque, lamento dizer-te, foste retirada do teu projecto de fazer chover.

Dorien pestanejou, interrogando-se se ouvira bem.

- Perdão? - Charles olhou para o lado em vez de elaborar, e elaborações eram necessárias, pois ela perdera-se. - Porque é que haveriam de pensar em retirar-me? Eu e o Mikail estivemos à cabeça dele desde o início. Concluímos com sucesso a fase de testes! Afastar um de nós quando nos preparámos para disseminar o método não tem nexo nenhum, especialmente quando não há motivo para o fazer.

- A direcção do Ómicron partilhou esse ponto de vista, inicialmente. Discutimos o assunto ao almoço, e mostraram-se relutantes em transferir-te, até os persuadir de que os teus esforços seriam melhor empregues se os canalizasses para…Dorien, estás a sufocar?

Sim. Ela estava.

- Tu…tu fizeste com que me despedissem?

- Transferissem. Há uma enorme diferença. A propósito, alguma vez provaste os brownies da cantina? Porque são deliciosos. Mas de regresso ao que importa, não há motivo para fazer escândalo. – Dorien sabia que a sua boca estava a pender aberta, mas fechá-la requereria energia que a serviria melhor se empregue numa verbosa e volumosa exposição de porque havia motivo para fazer escândalo, e porque tinha ela toda a intenção de criar um. Charles devia ter lido isso na sua face, pois foi rápido a acrescentar: - Não há, garanto-te, e tu mesma entenderás isso se parares e me escutares até ao fim.

- Charles…- Ela arrastou a voz, pronunciando cada letra do nome com cuidado, mais para dar a si própria o tempo de se acalmar do que por necessidade de lhe colocar ênfase em cima. Ela entendia o porquê de ele lhe ter pedido os talheres. Ela absolutamente entendia. - Não podes…não podes entrar, estalar os dedos e dizer que me queres ter transferida para sabem os pioneiros o quê! Não sem pedir, e certamente não sem primeiro me consultar. Em que espécie de planeta é isso um acto decente?

- Eu entendo o teu ponto de vista. É por isso que te estou a informar antes do anúncio oficial.

- Que gentil da tua parte. O meu coração está a derreter de tão emocionado.

- Sarcasmo, Dorien? Não tens porque te reduzir a esse nível. Tenho a certeza de que o traste não terá dificuldade em coordenar as coisas sozinho, agora que a maior porção do trabalho se encontra feita. E eu tenho outra tarefa para ti. Uma tarefa exponencialmente mais importante que fazer chover.

- Eu não quero saber. Eu não quero sequer ouvir-te.

- Dorien, receio não ter muito tempo. - A voz dele flutuou até ela, detendo a sua retirada furiosa. - Tudo o que eu antes te disse é verdade. Vivemos numa época de instabilidade como a Lua nunca viu, e não creio ser possível impedir a situação de escalar. Existe um risco nada desprezável de ela se ir arrastar por anos, e eu não ir viver para ver o seu fim. Se um novo Eb Dalla conseguir o ofício…bem, por muito que a ideia de ser referido como “O Intendente em cujo tempo as coisas eram melhores” me tente, eu tenho um dever para com a humanidade. Eu posso dar-lhe uma alternativa ao caos. Eu irei fazê-lo.

Dorien temia saber para onde se encaminhavam.

- Charles - começou ela, a sua raiva a ser reduzida a algo manejável, a sensação que a atravessava a ser uma de momento repetido. - Como te disse há anos, eu sou uma cientista. E não quero o cargo.

- Precisamente. - Charles uniu as pontas dos dedos e fitou-a por cima deles, silenciosamente pedindo-lhe que se sentasse e sossegasse. Ela recusou-se. - Ainda hoje me pergunto como isso foi acontecer, mas se inadvertidamente criei uma cientista, estúpido seria se não desse uso ao facto. Eu planeio ser o último Intendente Geral que a Lua terá, Dorien. O último que a Lua precisará de ter. Um projecto para o qual receio precisar do auxílio de alguém versado em áreas que não domino. Um projecto ao qual gosto de chamar…Vamos Recuperar a Terra Por Meio de Extermínio Com Armas Químicas. - Ele deteve-se e riu-se da expressão dela. - Não te preocupes, é só um título provisório. Se quiseres podes sempre alterá-lo para incluir latim ou uma letra grega, ou o que quer que actualmente esteja em voga.

Dorien encarou-o, pestanejou e começou, muito lentamente, a deslizar de volta à sua cadeira.


- Farinha - pediu Emma, esticando na direcção da sua prima uma mão coberta de massa pegajosa. A mão em causa roçagou-lhe a manga por acidente, arrancando à outra uma careta. Esta não rivalizava a que ela própria esboçara ao ver Amelie descer e verificar que esta encavalitara um ovo estrelado na cabeça. A sua prima declarara tratar-se de um chapéu. Ela ainda aguardava provas disso. - Não, não despejes o saco inteiro. Uma mão cheia basta. E tenta despejá-la dentro da tigela em vez de no chão.
Amelie enfiou a mão dentro do saco e largou a quantidade indicada na tigela. A sua expressão era uma diante da qual impérios se teriam vergado e flores murchado. Emma tê-la-ia considerado mais impressionante se ela não se encontrasse conjugada com o penteado de alguém que tentara e falhara em assaltar um galinheiro. Ela prosseguiu com o amassar da massa, pensando que a outra se encontrava invulgarmente sossegada. Era certo que a conhecia demasiadamente mal para se tratar de uma opinião informada, mas a sua prima passava a impressão de ter amor à tagarelice. E contudo, desde que ela acordara os seus lábios apenas se haviam separado em defesa do alegado chapéu.

- Ovo. - Um ovo foi-lhe passado. - Já guardaste os teus valores no cofre?

- Não, Emma.

- Trata disso, então. O cofre será pelo menos um obstáculo, se tornarem a assaltar-nos.

- Sim, Emma.

- Excelente. Ovo.

- Emma, tu mataste alguém! - explodiu Amelie, formando punhos e esmagando o ovo que segurava no processo. Gema e clara escorreram por entre os seus dedos e pingaram para o chão, para desgosto e exasperação de Emma. A sua prima nem pareceu dar pelo facto, de tão consumida pela cólera que estava. - Tu mataste alguém. Isso não é algo que podes…varrer para debaixo do tapete como cacos de talha, ou algo do género! Já imaginaste que o invasor pode ter entes queridos? Família que se interroga porque não terá ele voltado, e amigos que estão a revirar a cidade em busca dele, e um cão que está a raspar a porta e a implorar e ganir por um prato de comida que nunca virá…

- Amelie - disse Emma, fechando os olhos, passando dois dedos pelas pálpebras para mascarar o seu ar de pessoa em frente da qual se quebrara uma lei fundamental do universo, e lamentando tê-lo feito quando as suas sobrancelhas acabaram enfarinhadas. - Ele não está morto. Depois de te deitares, fui à rua para me certificar. Ele estava vivo o suficiente para atirar contra mim e fugir. E limpa esse ovo.

- Dispararam contra ti?

- Sim. - Meio segundo mais tarde, ela arrependeu-se de ter falado. Amelie acabava de a envolver num abraço e apalpar o seu busto como se estivesse à procura de buracos. Emma decidiu que teria de ter uma palavra com ela acerca das suas inadequadas e indesejadas manifestações de intimidade. - Ovo, Amelie. Deixa de ser impertinente e trata de o limpar antes que se entranhe entre as tábuas.

- Eu não estou a ser impertinente, estou a ser uma prima preocupada. Estás bem? Ele acertou-te?

- Sim, acertou. É por esse motivo que estou aqui, em vez de morta ou numa cama do centro médico.

Amelie fitou-a, perdida entre horror e confusão, e franziu a testa como se tentasse entender.

- Sarcasmo - suspirou Emma, apontando para si própria. Era cada vez mais evidente que não lidava com um génio certificado. - Eu estou bem. Assim como o invasor. Infelizmente. A Bertha irá avisar a lei, o que espero ir resolver o assunto. Entretanto, nós iremos terminar esta tarte, que depois levarei à dona Gail da casa ao lado, como oferta de paz. Se restar tempo, teremos também de içar a mesa para dentro de casa. Está previsto chover nos próximos dias, e a madeira irá inchar se a deixarmos nas rochas o fim-de-semana inteiro. Quando eu sair, podes ocupar o resto do dia como entenderes.

- Oh? - murmurou Amelie, numa vozinha muito frágil e com o rosto contorcido numa careta que o fez parecer quase comum. - Tencionava fazer algo engraçado, para desanuviar de tudo aquilo de ontem. Dar um passeio, pintar as unhas uma à outra, trocar histórias de infância…não ficas comigo, então?

- Não. - Silenciosamente, ela deu graças por a sua prima ter a capacidade de atenção de um peixinho dourado particularmente retardado. - Preciso de ir deixar a Luce no infantário, e hoje é dia de trabalho.

- Tu trabalhas? Nunca te tinha ouvido mencioná-lo.

- Estou a fazê-lo agora. Se não conseguires pensar noutro plano, posso sugerir que trates da loiça?

- Bem, eu posso fazer isso, mas tenho a certeza de que serei capaz de encontrar outra coisa com que me entreter. - Emma acenou em sinal de aprovação. Amelie ociosa era um caixote de explosivos à espera de ser detonado. Se há duas semanas lhe tivessem dito que o seu casamento se tornaria uma preocupação menor, ela teria respondido que o seu pai procurava um colega de quarto.

Mas isso fora antes de colocar olhos na sua prima. A noite anterior provara o que o seu instinto lhe estivera a comunicar incessantemente ainda antes de a outra chegar: Amelie significava sarilhos. Deixá-la sozinha em casa por um extenso período de tempo acarretava um elevado risco de regressar para dar com um pilar de fumo a desprender-se do tecto, as paredes carecas, os armários vazios de valores, e Amelie em si a tombar pelos cantos na tentativa de travar uma invasão de guaxinins.

- Podes passar pelo mercado - sugeriu. - Ele está aberto do raiar ao pôr-do-sol.

- Um mercado? Isso é tão pitoresco. - Amelie bateu palminhas. Emma decidiu que teria também de lhe falar sobre existirem métodos menos espalhafatosos de transmitir emoções positivas. - E, coincidência das coincidências, eu estava a pensar fazer compras. Excepto que contigo. Mas posso perfeitamente fazê-las sozinha, embora fazê-las contigo provavelmente fosse ser mais divertido. A mala com a qual eu estava a ter problemas insiste em não abrir, e o meu vestido novo e material de leitura estão dentro dela, por isso preciso de novos. E eu também gostaria de fazer remodelações no sótão, se estiver tudo bem para ti. Não que ele tenha algo de errado. Mas sabes, o ambiente! Ele não é muito eu.

- Remodelar. - Emma hesitou. - Referes-te a mudar mobília de lugar, e outras alterações que tais?

- Sim. E talvez retocar a tinta dos caixilhos da janela e das paredes? E encerrar o chão?

- Isso…é aceitável. - Se a outra ocuparia o sótão, seria de se esperar que se esforçasse por o manter em condições, mas pasmava-a e admirava-a que Amelie tivesse decidido fazê-lo por iniciativa própria.

A custo, ela obliterou a sua nascente suspeita de que esta tramava algo.

- Maravilhoso! - Emma pensou em subtrair o ponto de consideração que acabava de atribuir à jovem à conta daquele maravilhoso. Todavia, Amelie depressa acabaria com valores negativos se os retirasse de cada vez que a palavra abandonava os seus lábios - O mercado, ele é perto daqui ou precisarei de pedir uma carruagem? E queres que te traga algo? Quinquilharia, ou um adereço para o cabelo?

- Futilidades - fungou Emma, para se emendar quase de seguida. - Não. Muito gentil da tua parte, mas não. E podes perfeitamente andar até ao mercado, contando que calces sapatos confortáveis. Há um mapa da cidade na estante da sala. Procura pela Rua da Batalha, não é difícil lá chegar. Forma.

- Uh? - Emma gesticulou para a forma de tarte à esquerda da rapariga. O rosto dela iluminou-se com compreensão. - Oh, passar-te a forma. Aqui tens. E, por curiosidade, porque é isto uma oferta de paz?

- Porque a dona Gail da casa ao lado pode nunca ter conseguido bater a minha mãe em pontaria, mas isso será irrelevante se ela decidir disparar à queima-roupa. E o marido dela é um veterano que preza o seu sono. Apaziguar esse tipo de gente é preferível a confrontá-la. - Emma acabou de untar a forma e começou a dispor a massa dentro dela. - O que me lembra…o invasor deixou-nos algo. O gravador.

- Deixou? – perguntou Amelie, a medo. Emma respondeu à questão retórica com um aceno de cabeça irritado e começou a verter pêssegos em calda sobre a massa. - Ugh. Isso é tão bizarro. Não consigo imaginar o que lhe terá passado pela cabeça para pensar ser boa ideia gravar ameaças. Quer dizer, porque o faria ele? Não tem sentido algum. Tu vês algum sentido em semelhante coisa?

- Sim. É óbvio que ele não pretendia ser reconhecido.

- Bzuh? Como concluíste isso?

- Cráduma, Amelie - suspirou ela, procurando ter presente que era compreensível a outra não ver o que era óbvio para os seus olhos. - Todos conhecem todos. Assaltantes locais precisam de ocultar as suas identidades. Caso não o façam, a lei encontrá-los-á no tempo de um batimento.

- Certo. Entendo que escondam o rosto, mas a voz? Sem referir que apenas aqui estou de passagem e não conheço quem quer que seja. Porque haveria o invasor de tomar tantas precauções comigo?

- Isso…- Emma deteve-se a meio de colocar a forma no forno. Admiti-lo era um horror, mas a rapariga levantara uma questão pertinente. - Bom ponto. Calculo que ele meramente não tenha desejado correr riscos, mas caso o tenha feito por existir um real perigo de o reconheceres…quem daqui conheces?

- Eu disse-te, ninguém. Primeira vez que aqui venho, certo? Nem tu me conhecias quando cheguei.

- De facto. - Ela fechou a porta do forno e ligou-o, reflectindo.

Ela passara parte da noite a recuar e avançar com a cassete do gravador. Analisar a resma de insultos, ameaças e reivindicações que a constituíam esclarecera-a quanto ao propósito do assalto. Mala, essa fora a palavra que mais vezes escutara repetida, e ela solicitara à prima que listasse tudo o que as suas malas continham. Nenhum dos itens que esta papagueara parecera-lhe particularmente motivador de invasões nocturnas. Mas ocorria-lhe, e a conjectura era uma que embora baseada em factos, contrariava toda a lógica, que havia alguém em Cráduma que Amelie conhecia e ouvira falar.

Ocorria-lhe que também que a mala encravada podia recusar abrir por um mais negro motivo.

- Emma? - Amelie sacudiu uma mão em frente ao nariz dela. - Terra chama Emma Hanover? Olá?

- Quieta. A tua mala. Aquela que não abre. Poderias trazer-ma? - A suspeita que acabava de emergir à superfície da sua consciência era uma que demandava ser imediatamente refutada ou confirmada. Emma marcou passo enquanto a sua prima subia as escadas e regressava com o que lhe havia sido pedido. Se esta estranhara a natureza do pedido, a sua animação não o traía. - Óptimo. Passa-ma.

- Mas para que a queres tu? - inquiriu a rapariga. Emma deu de ombros e sacudiu a cabeça, tomando a mala para si e abandonando a divisão. Após um breve momento de vacilante indecisão, a sua prima seguiu-a. A testa desta franziu-se quando desceram as escadas que conduziam à cave, mas por uma extasiante vez, os seus lábios mantiveram-se fechados. Pelo menos até Emma accionar o interruptor.

- Shhh. Sem histerismos - censurou ela, cobrindo-lhe a boca com a mão e presenteando-se com uma medalha dourada de intuição. A sua suposição sobre como Amelie reagiria a bicheza fora correcta.

- Aranha! - A jovem apontou um dedo tremelicante a um aranhiço demasiado mínimo para merecer a classificação de aranha, que se balançava na teia em frente ao seu nariz. - Emma, aranha! Faz…algo!

- Sem histerismos! - Enquanto Amelie exalava um arquejo surpreso, Emma deu um piparote ao infeliz aracnídeo e avançou, parando metros à frente para rodar a maçaneta da porta que dava para a oficina sob a casa. A cave prolongava-se uns metros mais, terminando num espaço amplo, onde os seus pais haviam armazenado tralha que era demasiada para ser limpa e catalogada numa vida inteira.

Ela sabia-o porque o tentara.

- Não me tinha apercebido de que isto existia - sussurrou Amelie, como se temesse que subindo a voz uma oitava, mais aranhas se fossem lançar das paredes e atacá-la. - Eu e a Bertha continuámos até ao fim quando ela me levou cá abaixo. E ela não acendeu a luz, por isso não consegui ver esta porta.

- Então não é a primeira vez que vens aqui? - perguntou Emma. A outra acenou com solenidade. - Se é esse o caso, não deverias já estar adequadamente familiarizada com a existência das aranhas?

- Eu disse-te, nós viemos com a luz apagada - foi Amelie reclamando, enquanto elas se introduziam na oficina. Emma parou e olhou em redor. Geralmente, ela evitava o espaço. No passado ano, entrara nele por duas vezes. Uma, para lavar o sangue das tábuas. Duas, para dar indicações aos rapazes que haviam vindo arrancá-las e substituí-las por cimento e azulejos cor de creme, pois por muito que o tivesse limpo, conseguira cheirar e senti-lo mesmo andares acima, sal e ferrugem e vida desperdiçada. Ela levara as tábuas retiradas para o calhau e deixara a água levá-las. - Agora que me lembro, havia esta…substância viscosa contra a qual fui de cara. Emma? Emma, eu penso que bati em teias!

- Obviamente, isso não te incomodou na altura. Não vejo porque o deveria fazer agora. - Emma foi até à bancada central e colocou a mala sobre ela, enquanto a outra era distraída do seu silencioso ataque de pânico pelas gravuras penduradas na parede. - Poderias dar-me a combinação dela, por favor?

Amelie foi arrancada à sua contemplação de uma válvula e debitou a sequência de números. Os olhos de Emma rolaram como se possuíssem vontade própria. Haveria maior prova que aquela de que a sua prima não tinha o tique e o taque conjugados? Combinações de números idênticos eram o que arrombadores primeiro testavam. Ela rodou os discos. 0000. A fechadura recusou-se a ceder.

- Traz-me o óleo que está na prateleira de cima do armário ao teu lado. À tua esquerda.

Amelie deu um passo e estampou a testa contra um gerador.

- Outra esquerda, Amelie - acrescentou ela, suspirando de desalento.

- Está bem. Certo - apressou-se a outra a dizer, mudando de direcção. Emma lançou à mala um olhar prolongado. O corpo desta era de alumínio polido, uniforme excepto pelas ranhuras para as rodas da fechadura, que tinham todo o ar de haverem sido rodadas até à exaustão. - Não encontro e…yuck!

- Tenta as gavetas. O meu pai vivia a mudar as coisas de sítio - sugeriu ela, enquanto Amelie torcia o nariz e procurava limpar na bancada a substância em que acidentalmente mergulhara a mão. Se aquilo continuasse, não tardaria a deixar de ser engraçado. Como sobrevivera ela com o tio Harold?

- Emma, eu já te disse que malas dessa marca não enferrujam nem emperram, já para não mencionar que esta é nova demais para…oh, óleo! - Emma cortou o tagarelar da outra tirando-lhe o tubo de óleo das mãos e ignorando o seu protesto indignado. Ela verteu o óleo sobre as juntas, sobre a fechadura e sobre os discos numerados. Após aguardar para garantir que ele se entranhava devidamente, passou o dedo sobre o primeiro disco e rodou-o até o zero se encontrar alinhado com o marcador. Ela repetiu o processo para o segundo, terceiro e quarto. Ao chegar ao último disco, a fechadura fez “clic”.

A mala em si recusou abrir.

- Isso significa que a combinação está errada - forneceu Amelie, prestavelmente. - Porque é que tens uma oficina de Relojoeiro em casa, a propósito? Julguei que o tio Walter já não…

- Ele fazia biscates como mecânico, electricista e remendador de cernes. Metade da parafernália que vês encontra-se aqui por isso, a outra porque ele precisava de um passatempo. - Emma percorreu a divisão no seu habitual andar maquinal e pegou num banquinho, sobre o qual se empoleirou para chegar à mais alta das prateleiras. A caixa posta sobre ela oscilou quando procurou alcançá-la, mas instantes mais tarde, a rapariga tinha-a segura nos seus braços. - Aqui. Segura esta extremidade e…

- O que é isto, uma máquina de soldar? - Amelie torceu o nariz ao instrumento que a outra acabava de fazer surgir, menos por asco e mais por curiosidade. Ele assemelhava-se a um berbequim, mas quando Emma o ligou, o calor que dele emanou fê-la duvidar que fosse um. - Nunca vi uma dest…

- Projectada pela minha mãe - disse Emma. Ela encostou a boca da ferramenta à fechadura e fez um gesto de corte. Um sulco laranja nasceu para acompanhar o movimento, e ante os olhos pasmados da sua prima, o metal fumegou e começou a criar borbotos ao longo da sua superfície. Emma pegou num lado e no outro da mala e puxou para os separar. A fechadura semiderretida esticou-se e cedeu como queijo fundido. - Uma laceradora. Ela concebeu-a modificando tecnologia dos Criadores e…papel?

- Huh? - Amelie debruçou-se para ver, obrigando a rapariga a cortar a corrente da laceradora a toda a pressa, não fosse a desastrada bater nela e privar-se de um braço. - Tenho a certeza quase absoluta de que foram vestidos, regulador e livros o que guardei aí. Isto é nada fantasticamente estranho.

- De facto. - Emma pegou no invólucro de plástico transparente contendo a pilha de folhas, puxou pelo seu fecho e retirou-a de dentro dele. Tratava-se ao menos de uma pilha organizada. Clipes de ferro obrigavam-na a manter a forma, e apesar do quanto se atirara com a mala, nenhuma dobra fez a sua aparição em qualquer das páginas que examinou. - Um manual de engenharia algum tipo. Deves ter feito confusão e levado papelada do tio Harold no lugar de bagagem. Mistério esclarecido.

- Emma, eu não sou assim tão tontinha.

- Claro. Estúpido da minha parte, deixar o H. Hanover impresso no fim do texto induzir-me em erro.

- Mas onde é que vês…- Os olhos de Amelie caíram no fundo da página. -…oh.

- Oh - repetiu Emma, sentindo-se estranhamente desiludida. A sua suposição fora provada infundada, mas não soubera ela desde o princípio que esta carecia de fortes fundamentos? - Em todo o caso, agora sabemos o que o invasor pretendia. Como ele soube que trazias isto quando nem tu ou eu fazíamos ideia é uma enorme questão, mas não uma para a qual julgue que iremos receber réplica. Guarda os documentos no cofre; assim que tiver disponibilidade, irei enviá-los ao tio Harold.

- Está bem. - Amelie interrompeu-se e deitou-lhe uma mirada duvidosa. - Uh, Emma? Está tudo bem? Contigo, quero dizer. Porque pareces…desanimada. Não que eu alguma vez te tenha visto animada.

- Eu tinha uma teoria. Ela estava errada. Nada mais que isso.

- Que teoria?

- Não importa. Esquece.


Última edição por Moggo em Qua Set 12, 2012 1:22 pm, editado 2 vez(es)

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Qua Jul 11, 2012 4:37 pm

Capítulo V - As Muitas Portas de Dentro

Cráduma, não estando coberta de coberta de nuvens ou alagada em chuva, era sufocante.

O basalto escuro das casas atraía os raios solares, absorvendo-os e fazendo vaporizar a água que a chuva do dia anterior deixara na rua. Amelie vestira um casaco, mas tendo andado três quarteirões, descobriu que estava a suar em vez de a tremer, e que a humidade atmosférica se estava a agarrar a ela de tal modo que se sentia como se tivesse vestido um fato de condensação.

- Cofcofcof - fez ela, sacudindo como um leque a aba do alegado chapéu. A humidade era terrível. Ela estava preparada para acreditar que os locais se encontravam munidos de guelras, para conseguirem mover-se naturalmente apesar de estarem a respirar um oceano em água. Desgraça das desgraças, o seu cabelo começava a encrespar-se e frisar-se. Amelie devolveu o chapéu ao seu lugar devido, numa tentativa vã de controlar os danos, mas o seu cabelo afundou-se debaixo dele como um mau soufflé.

O rebuliço do mercado chamou-a até si. A rapariga guardou na mala o mapa que trouxera com ela, felicitou-se por ter sucedido em não se perder, e embrulhou-se na multidão, abrindo caminho aos encontrões. A rua onde as barracas haviam sido montadas era larga para uma rua craduense, mas ela viu-se obrigada a lutar por uma área de solo onde colocar o pé. Lembrando-se daquilo que Emma lhe dissera antes de sair, ela manteve a mão na sua bolsa. A sua prima ainda resmungara algo acerca de rapazes da barragem e essa corja, mas a isso Amelie não prestara atenção. Tal como não tencionava fazer caso das garantias da outra de que não precisava de nada. Emma era demasiado parcimoniosa para que a ideia de adquirir algo bonito em vez de algo útil lhe cruzasse a mente. A lista de prioridades de Emma era um atestado de demência se Amelie alguma vez vira um, portanto. Esta perdera toda a fé no senso de estilo da sua prima quando esta expressara a sua opinião a respeito do chapéu dela.

Emma tinha evidentemente direito a opinião, mas como se atrevia ela a insultar o chapéu?!

- Uma jóia para outra jóia? - gritou alguém atrás dela. Amelie rodou a cabeça, e descobriu que era alvo do mais afectado sorriso que já encontrara nos lábios de alguém. Quem o esboçava estava a estudá-la com indisfarçada curiosidade, por entre as mechas cor de moeda recém-cunhada que lhe caíam sobre os olhos. Quando ela lhe devolveu o olhar, ele apontou para baixo. A sua atenção transferiu-se para a banca, e os seus pensamentos travaram, directa e indelevelmente, em “Ooo, brilha!”.

- São tão preciosos! - exclamou, praticamente arrulhando. Ela inclinou-se para a frente, espetando o nariz numa das almofadinhas de veludo que se encontravam dispostas sobre as tábuas da banca. Um dos colares chamou-lhe a atenção. Uma conta de rubi vermelho pendia de uma corrente em ouro, e embora vermelho não fosse decididamente a sua cor, Emma podia usá-lo. Se esta alguma vez usasse algo que não fosse insonso e descolorido, ou acessórios além da sua permanente careta de alguém a quem o mundo devia um capital. - E este daria um maravilhoso presente para a minha prima. Quanto?

- Sessenta coroas, esse aí. Mas eu vou com a tua cara, por isso posso fazer-te por cinquenta e cinco.

- Hmmm - disse Amelie, balançando a cabeça como um sempre-em-pé com torcicolo. Consumismo brilhava-lhe no olhar com a força de legiões. Ela ergueu a corrente e estudou-a. - O ouro. Verdadeiro?

- Claro. - Amelie passou a ponta da unha sobre a corrente e franziu o nariz. Um tiquetaquear ominoso partiu do seu peito, mas o rebuliço em redor deles abafou-o. A sua cabeça estava cheia de linhas e roldanas que mexiam com sons de páginas a serem desfolhadas, e a sua respiração pesava como se acabasse de correr milhas. Os batimentos do seu Relógio começaram a acelerar, e ela não tinha um regulador, e eles continuavam a acelerar, e ela sabia que ele lhe mentia. Ela pestanejou. O vendedor pestanejou. Ambos pestanejaram. - Er…para um dado valor de verdadeiro? Acho. Penso.

- Bem, verdadeiro ou não, ele é muito bonito - concedeu a rapariga, relaxando um pouco. - É provável que a minha prima não vá dar pela diferença, também. Ela não é muito entendida em joalharia. Mas é claro que não irei dar-te cinquenta e tal coroas por uma contrafacção que não vale mais de vinte. Isso partindo do princípio de que a pedra é genuína. A pedra é genuína, certo?

- Uh… - disse o vendedor, virando-se de seguida para trás e colocando as mãos em redor da boca. - A pedra é genuína, Tom? - Quem quer que Tom fosse e onde quer que este se encontrasse, ele não lhe respondeu. O vendedor tornou a encará-la, ainda com o mesmo sorriso afectado no lugar. - …talvez? Mas não preocupes a tua cabecinha! Se a tua prima se parece contigo, irá brilhar ainda que seja falsa.

- Oh, não, ela não é parecida comigo - retorquiu Amelie. - Eu sou um Outono. A Emma é Primavera-a-caminhar-para-Verão. O que é estranho, pois o temperamento dela é decididamente invernal, mas estas coisas raramente são lineares. - A jovem sorriu e pestanejou, consciente de que o outro estava ocupado a encará-la com o rosto aturdido de alguém que tentara burlá-la e acabara por receber uma improvisada lição de roda das cores. Não se tratava de uma expressão facial que se pudesse chamar atraente, mas Amelie podia trabalhar com isso. - Ela vai casar-se. Não que seja uma boa coisa que ela se vá casar, já que o está a fazer por dinheiro e não porque ama o seu noivo ou outra tolice do género, e se a conseguir dissuadir será absoluta totalmente esplendidamente maravilhoso, mas imagina que ela realmente se casa e ohmeuscriadores, lhe faltam acessórios! Será euzinha ao salvamento!

- Ahhnnn…- começou o vendedor, com o sorriso petrificado daqueles a quem acabava de ser dada a observar a profundidade do poço em que haviam caído. - Isso é bom…suponho? Acessórios, e isso…

- Sim, sim, é. Haja alguém que entenda que essas coisas são importantes. Sou a Amelie, a propósito. Amelie Marguerite Scarlett Aston Hanover-Finn, Mel para os amigos. Podes chamar-me Mel…apesar de realmente não te dever deixar fazê-lo, visto que me tentaste enganar com o preço. O que é mau.

- John - disse o vendedor, após um segundo de pausa pasmada. - John Everett Christopher Francis.

- John é um nome bonito. Eu costumava ter um gato chamado John, apesar de toda a gente me dizer para lhe chamar algo mais próprio de gato. Ele acabou atropelado por um comboio. Foi muito triste.

- Eu…tenho a certeza de que foi. Hanover, dizes? Alguma relação com os chanfrados que vivem lá para as bandas do cais? Cráduma - acrescentou ele, ao notar a surpresa com que ela acenou. - Toda a gente conhece toda a gente. Fica algum tempo e acabarás por habituar-te. Supondo que és nova.

- Sim, eu sou nova aqui. Como tenho a certeza de que já sabias, pois se toda a gente conhece toda a gente, toda a gente deve saber que vendes falsificações. Não adiantaria experimentar enganar alguém que não julgasses novo. O que é verdade no meu caso, mas ainda assim, mau. Não repitas. Porque é mau e…oh, estes brincos são tão perfeitos e detalhados e fofos que a minha boca não tem palavras.

- Também os queres? - Amelie mordeu o lábio inferior e acenou. John retirou um envelope de debaixo da bancada e deixou brincos e colar cair neles, selando-o de seguida. - E aqui tens. Fica por quarenta.

- Quarenta - repetiu ela. - Apesar de o ouro ser falso e o rubi o ser quase de certeza.

- Estou a ver que tem um Relógio regateador, senhorita Mel - suspirou ele, fingindo desapontamento. Amelie sabia-o fingido porque uma piscadela lhe acabava de ser lançada. - Trinta e cinco, então?

- Indecisa, indecisa, indecisa…- Ela passou a pontinha da língua pelo lábio, lenta e deliberadamente.

- Hm? - John inclinou-se para a frente e pousou os cotovelos na bancada. Amelie notou que os olhos dele não haviam abandonado a sua boca, e revirou os olhos mentalmente. Rapazes eram fáceis. - E o que posso eu fazer para te ajudar a decidir?

- Nada. - Amelie juntou as pontas dos dedos, quente por dentro como se tivesse engolido um sol. - Eu já decidi. Podes ficar com os quarenta, apesar de me teres tentado enganar, mas com uma condição. Não realmente uma condição-condição, porque é óbvio que estás ocupado, mas a minha prima está a trabalhar, e a caseira dela está de folga, e eu não conheço mais ninguém nesta cidade, e tenho um dia inteiro para aproveitar mas ninguém que o aproveite comigo. Se é que me percebes. Portanto, se não tens planos para quando terminares e depois de terminares fizéssemos algo, isso seria maravilhoso.

- Um momento. - John fez-lhe um gesto de enxotar e produziu o seu melhor sorriso de vendedor. Uma senhora de carrapito acabava de se abeirar da banca, em frente da qual parou para observar, tactear, e barafustar sobre tudo ser demasiado coquete para o seu gosto, antes de se afastar de mãos vazias. John sacudiu a cabeça para a forma que se afastava e devolveu a atenção à rapariga. - Estavas então a dizer, se percebi como deve ser, que te ofereces para me remunerar por passar tempo contigo. Ena.

- Não exactamente. Mais como, eu vou pagar-te o que as minhas compras não valem porque sou uma pessoa muito, muito simpática, e tu vais mostrar-me o que há de divertido a fazer nesta cidade, porque tu és uma pessoa muito, muito simpática, e porque se for a contar com a minha prima para me levar a locais interessantes, boa sorte mim. Penso que ela pensa que irá morrer se for exposta a divertimento.

- Mais um momento - pediu John, virando-se para trás. - TOM! Tenho aqui esta princesa do continente que quer que lhe sirva de guia turístico. Tomas-me conta da banca até eu regressar?

- Não, não precisa necessariamente de ser já…- começou Amelie, para ser interrompida por alguém, presumivelmente o tal Tom, que da distância vociferou algo irrepetível sobre a tipa poder aguardar que o turno dele terminasse. John abriu a boca, como que para lhe devolver algo igualmente inadequado a ouvidos alheios, mas lançar um olhar de viés ao rosto chocado dela fê-lo mudar de ideias. - Ainda nem terminei as compras, para começar. Podemos combinar uma hora e um local para nos encontrarmos?

- Dá-me uma hora para ver se me livro daquele desmancha-prazeres e volta aqui, combinado?

Amelie anuiu e bateu palmas. Aquele dia prometia.


- Isto é chato – declarou Clariane, peremptoriamente. Dorien concordou. Ela devia ter contratado uma empregada assim que se tornara patente que arrumações nunca seriam a sua prioridade, e o preço de adiar estava a ser pago. Deitando um olhar desconsolado ao interior da arrecadação, ela passou à sua filha um trapo e um balde. Era quase certo que a água lhe fosse ser cortada durante o resto do dia à conta daquilo, mas tratava-se da primeira vez em dois anos que entrava na divisão com o intuito de a colocar em ordem. Sacrifícios precisariam de ser feitos. - Eu tinha combinado com a Erika que…

- Clar, não passa um dia sem que tenhas algo combinado com a Erika. Ou a Carol, ou a Merle, ou a tua amiga que pintou o cabelo de fluorescente. Penso que não morrerás por não a ires ver hoje.

- Essa foi a Carol. E eu tenho de passar tempo com elas, para treinar. Temos um concerto na quinta.

- Oh? - Dorien soprou uma madeixa da frente dos olhos, dançou entre dois camiões de brincar, evitou tropeçar numa figurinha de acção, e pontapeou para o lado uma caixa de berlindes. Clariane nunca fora particularmente apreciadora de bonecas, nem mesmo quando mais nova, como evidenciavam os minúsculos corpos decapitados que ornamentavam o cimo de uma das estantes. Ela encontrara uma das cabeças há minutos, rapada e pintada de azul. Alguém menos optimista diria que semelhantes atitudes numa criança eram prenúncio de distúrbios. - Um concerto? E eu só o estou a saber agora?

- Eu disse-te! - exclamou Clariane, largando, num acesso de indignação, o candeeiro de lava que estivera a examinar. Dorien não tinha memória de o adquirir. Até onde sabia, ele materializara-se na arrecadação a partir da dimensão da tralha, tal como o lixo e a pletora de objectos de vários tamanhos e formatos que podia jurar nunca ter visto antes. - É para a festa de final de trimestre. Eu convidei-te.

- Quando? Não me recordo de alguma vez teres mencionado algo do género.

- Mandei uma mensagem e um vídeo para o teu comunicador na passada segunda.

- Um vídeo - ruminou Dorien. Agora que Clar o mencionava, ela tinha vagas memórias de ter visto algo do género. - Estamos a falar daquele que veio identificado como EMC2? Julguei que se tratasse de um convite para alguma actividade escolar sobre história das fórmulas.

A sua filha virou a cara para o lado, sem dúvida para esconder uma careta. Dorien segurou um suspiro de fastio. A noite mal dera para passar pelas brasas. Charles dera-lhe demasiado para pensar para que pausar as suas ruminações mentais fosse mais que uma doce ilusão. Guerra química era o termo que lhe preenchia os pensamentos, e colocar o termo em prática era a tarefa que lhe fora dada.

Mas antes de poder começar a atacá-la, ela precisava de agir como uma mãe.

- Energia equivale à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz no vácuo - explicou. Clar esboçou uma carranca de desagrado, o que só a incentivou a prosseguir. - Uma precursora da fórmula de Leyman, que caiu em desuso há séculos. Julguei que se tratasse de uma referência.

- EMC2 é o nome da banda - ripostou Clariane, rigidamente. - Erika e Merle e Clar e Carol. - Após uns instantes de amuada quietude, ela acrescentou: - E este é o último dia em que poderei treinar antes de me exilares para a quinta dos avós! Mas nãooooo, tu precisas de mim para fazer limpezas.

- “Exilada”? Estamos a exagerar um pouco, não estamos? - Clariane ia para responder, mas Dorien foi rápida a cortá-la. - Eu irei estar demasiado ocupada com o meu novo projecto para te dar a atenção que mereces. O teu pai tenciona partir para a Terra por um período indeterminado. Estarás melhor em Frigoris, na companhia da tua trupe de primos, do que a arrastar-te por casa sem ninguém que te faça companhia. Além disso, não te proibi de levar a tua guitarra. Podes perfeitamente treinar lá.

- A Helena odeia-me, mãe - Clar fez tudo menos estampar com as botas. Dorien agradeceu a atenção. Fazê-lo só mandaria pelos ares a espessa camada de poeira que cobria os tijolos. O ar já era rarefeito dentro da arrecadação sem essa ajuda. - E a Lenka é uma tolinha e o Anton tira porcaria do nariz.

- Não sejas ridícula. Sempre me pareceu que vocês se davam lindamente. - Ao contrário dela e o resto da, para se apropriar da designação favorita de Charles, tribo de hippies descontrolados que constituía a família Lindsay. Aqueles com quem travara conhecimento, nas reuniões para as quais Mikail ainda tinha por hábito arrastá-la embora já não estivessem juntos, eram o género de gente cujo conceito de actividade consistia em meditar e a fumar a relva do quintal. Plácidos e de fácil trato, assim eram eles a maior parte do tempo, até o rastilho lhes arder e explodirem de incríveis modos.

- Da última vez que visitei, a Helena tentou passar com uma debulhadora por cima de mim.
- Crises e vapores, Clariane! A miúda ligou a máquina por acidente. Ela estava assustada de morte quando finalmente a conseguiram parar, e a julgar pelo rasto que deixou, nem sequer passou nas tuas imediações. - Clar murmurou um surdo “Isso é o que ela quer que vocês pensem”. - E não podes dizer que não te ofereci uma alternativa mais que aceitável. Uma que tu recusaste de imediato.

- Ficar com o maluco do Vô Charles na sua casa que me quer engolir? Prefiro a psicopata da Helena.

- Então, então. O Charles nunca foi nada que não gentil para contigo. Não tens razão para reclamar.

- Ele está sempre a dar-me aqueles livros giganormes dele para ler, sobre direito e tácticas ofensivas e política e outra treta. Livros verdadeiros. E ele olha torto para mim se eu não os abro e leio mesmo.

- Sim, agora que falas no assunto…- Ela precisava de perguntar a Charles se havia um curso intensivo de olhares tortos que este seguira, e em caso afirmativo, se ele podia ter uma palavrinha em favor dela junto do instrutor. Se exercitar o globo ocular na direcção dela faria Clariane pegar em algo que não fosse banda desenhada ou aquelas intragáveis histórias de jovens com poderes mágicos, valia a pena colocá-lo à prova. – Mas eu não daria importância a isso. Ele está a tentar interessar-te numa carreira governamental, não a tentar arrastar-te para uma pelos cabelos. – E mesmo que o tentasse, essa era uma situação da qual um firme “Não!” a livraria. Dorien sabia-o por experiência própria.

- É o mesmo. Ele é como tu, mas pior. Os dois a querer fazer de mim uma coisa que não sou.

- Como? Que seja do meu conhecimento, eu nunca te pressionei a seguir os meus passos. O máximo que faço é encorajar-te a estudar algo que não pautas musicais. À parte disso, e contando que os teus resultados escolares não decresçam até níveis subatómicos, é-me indiferente que profissão escolhes exercer. – Dorien passou em revista as suas palavras, e emendou-se antes que Clar fosse capaz de interceder. – Desde que não envolva pular num palco enquanto produzes barulho de rachar tímpanos, isto é. Não me oponho a que o faças como divertimento, mas torná-lo carreira? Não terias futuro.

- Tu nunca me ouviste tocar, sequer. Como podes saber que não tenho futuro?

- Bom saber que só estava a alucinar de cada vez que acordei contigo a fazer uma chinfrineira infernal no alpendre. O Charles tem uma certa razão, também. Em lugar de praticares os teus acordes, o que fazes com frequência suficiente para o bairro inteiro depreender que tencionas ser a próxima aspirante a artista a pedir cama num albergue de sem-tecto, devias ler algo. Talvez não os tomos dele, mas…

- Eu estou a trabalhar nisso. - Dorien ergueu uma sobrancelha, surpresa e impressionada. - O último volume de Abigail a Astronauta acabou de sair, e a Carol passou-me o ficheiro. É neste que finalmente descobrem a verdade sobre o Nexus, e a Bibi e o príncipe de Stojan admitem que gostam um do…

-…algo educacional. Como o teu livro de Física. Quem sabe, abri-lo poderá salvar a tua média em decadência. E podes mover aquele caixote e colocar estas revistas no saco para papel, por favor?

- O teu problema, mãe, é que não sabes o que é ter um sonho. Por isso és assim, vazia e ressentida. E como se não bastasse, ainda consegues ter tempo para espezinhar os das outras pessoas.

- Eu não estou a tentar espezinhar os teus sonhos, Clar. - Esta fez um som de descrença e transferiu a sua atenção para as revistas. Estas eram antigas, datando de quando ficheiros não eram utilizados exclusivamente. - Apenas quero que dês à tua vida um rumo com algum préstimo.

- Hm, hm. Foi por isso que disseste “Sim, claro, adoraria!”, quando o Vô Charles te propôs substituí-lo?

- Estamos a falar de situações diferentes - protestou Dorien, mas a sua filha já estava a escrutinar as revistas, contentada com a crença de que a abalara e decidida a ignorá-la. Suspirando, ela deixou a entreter-se e continuou a arrumar. Muito do que entupia a arrecadação fora mantido por nostalgia. Não havia, por exemplo, razão para não se ter ainda livrado dos fatos espaciais pendurados num gancho. Clariane crescera demais para o seu e ela não saía da proto-astmosfera desde antes do seu segundo divórcio. Idem para as bolas de bowling indicadas para serem utilizadas em baixas gravidades.

- Ew. Só…ew. Foleiro! - disse Clariane, de repente. - Vocês vestiam mesmo calças de plástico quando eras nova? Quem é que faz isso? – Dorien ia para ripostar com um cortante comentário a respeito do vestuário preferida dela e do grupinho de amigas dela, que de decente ou admissível tinha pouco. Mas a sua filha já avançara, livrando-se das revistas e apropriando-se de um velho álbum de fotos, sem dúvida na esperança de descobrir nele uma foto comprometedora dela vestida com um fato polimérico justo em textura e berrante em cor. Dorien desejava-lhe boa sorte. Lucy fora a mais esteticamente inclinada delas, e Lucy sempre se procurara moderar para Charles não ter uma apoplexia.
- Mãe…- continuou Clar, apontando para uma foto e levantando uma sobrancelha. - Isto é o que eu penso que é? Porque se é, então meteoros e meteoritos, eles já andavam nisso nessa altura?

- Os teus avôs odiaram-se à primeira vista, sim - respondeu Dorien. Ela tinha sido tão jovem, na altura. A ocasião era uma que recordava por ser, literalmente, inesquecível. “Aquela vez em que quebrei uma garrafa de transvin na cabeça do Intendente Geral, e não fui deportado para algum ermo de gravidade zero por o ter feito” era uma das histórias favoritas de Franklin Lindsay. Era necessário ter-se um tipo especial de família para que responder à pergunta de porque se haviam separado com “Para que não fossemos obrigados a organizar eventos familiares” fosse aceitável. - Não te preocupes, o Charles não chegou a disparar contra ele. A tua tia Lucy desarmou-o imediatamente após tirarem a fotografia.

- Esta é ela? - Clar cessara todas as pretensões de estar a esforçar-se por ser útil e instalara-se num pufe com mais de vinte anos, onde folheou o resto do álbum. - Radical, ela era mesmo igual a ti.

- Como sabes que estás a olhar para ela e não para mim, então?

- Porque a tia Lucy tem o cabelo mais bem tratado, e tu nunca estiveste nos esquadrões espaciais. E quem é a senhora de cabelo preto que está de braço dado com o Vô Charles? – Dorien deitou um olhar à foto que lhe estava a ser mostrada, e a cor foi drenada do seu rosto. A sua filha não deu por isso. Os seus dedos contorceram-se na ânsia de arrebatar a foto comprometedora das mãos dela, mas fazê-lo apenas a alertaria de que havia algo de errado. - Isso és tu ao lado deles?

- Essa é a falecida mulher do Charles, a Dianne. De quem já te falei várias vezes e mostrei fotografias, pelo que a pergunta que fizeste foi desnecessária. Essa deve ter entrado nesse álbum por engano.

- Pensei que ela tinha morrido antes de tu teres nascido, foi por isso que perguntei.

- Ela morreu antes de eu ter nascido - replicou Dorien, sem pensar. Felizmente, a sua filha ignorou-a e continuou a murmurar para consigo, sem dar sinais de ter detectado a discrepância no que dizia.

- Mãe? - perguntou Clariane, levantando a voz. Dorien encontrava-se deitada de bruços atrás do armário, a tentar alcançar um tubo de sabão que rolara para debaixo dele, mas voltou à tona a tempo de a encarar. - Porque é que tenho de ficar na quinta? Com os outros projectos nunca foi preciso.

Dorien suspirou. Contar-lhe a verdade encontrava-se fora de questão. Charles pedira segredo sobre tudo o que ao projecto se referia, e mesmo que estivesse autorizada a divulgar informação, ela hesitaria em discutir o assunto com Clariane. Esta crescera a ouvir Mikail falar da Terra, e a visão que este tinha dos seus ocupantes era suave em comparação com o que devia ser. Eles não eram pessoas. Acabar com eles era não mais moralmente reprovável ou criminoso que retirar a tomada da arca frigorífica. Ao contrário de Charles, ao contrário de Mikail, Dorien não sonhava com a Terra. Ela era da Lua e das suas bases, nascida numa e em várias delas criada. Mas tudo o que havia nela e era humano reconhecia a justiça, o senso de certo daquilo que planeava fazer. Olho por olho, e tudo mais.

Mikail não o via assim, e ela ignorava até que ponto este fizera Clariane concordar com ele.

- Como eu disse, este projecto irá consumir uma muito maior parte do meu tempo que qualquer outro. Eu irei praticamente viver no Ómicron nos próximos tempos, e tu sabes que o teu pai não poderá ficar contigo. - Clariane estava a amuar, ela sabia-o sem ver. - A propósito, não pude deixar de reparar que não pareces nem um pouco preocupada por ele ir descer à Terra e colocar a sua vida em risco.

- Preocupada? Porque haveria de estar? As probabilidades de a minha nave para Frigoris bater num edifício são maiores que as da nave do pai despenhar, ou de ele e a tripulação serem canibalizados.

- Clariane! - Clar podia ser a sucessora espiritual de Lucy, mas o seu sentido de humor mórbido era puro Charles. - Não te atrevas sequer a brincar com assuntos de tamanha gravidade. Nunca mais.

- Gravidade? Mãe, vá lá! O pai foi à Terra duas vezes e voltou bem, centenas de pessoas vão à Terra todos os anos e voltam bem. O programa espacial é seguro, e tu não devias fazer cenas.

- Eu estava a referir-me a fazeres piadas sobre ires morrer num acidente.

- Oh. - Elas terminaram de arrumar a arrecadação em silêncio.


Amelie regressou a casa com uma leveza no peito e na mente, e os braços a vergar-se com o peso de sacos cheios de latas de tinta. Num saco em separado ela levava o presente de Emma e um vestido que não resistira a adquirir. Ele era simples o suficiente para provavelmente ir ter a aprovação da sua prima, mas colorido o suficiente para que usá-lo não a fosse fazer sentir-se a sua prima. Emma ainda não havia reclamado da sua indumentária, mas ela suspeitava que isso se devia à rapariga ter estado mais focada no chapéu. Embora tudo isso fosse muito exagerado da sua parte, Amelie julgava que se desejava ter um agradável resto de estadia, era sensato não procurar antagonizar a outra mais que o estritamente necessário. Mesmo que isso exigisse vestir-se de forma enfadonha e vulgar.

Ela saltitou um pouco, tomando o cuidado de se manter afastada da borda do paredão. Aquele dia tinha sido um bom dia por outras razões que não ter feito as compras que pretendia. Ela adquirira um amigo, o que se fosse a contar Bertha, elevava a dois a soma total. Dois não era um mau número, mas ela encontrava-se decidida a fazer dele três antes de o dia terminar. Especialmente agora que lhe havia sido dado material para iniciar com a sua prima uma conversa com significado. Algo que podia agradecer a John, que não era realmente tão mau quanto isso quando se ultrapassava todo o assunto de ele a ter tentado burlar. Ele elogiara-lhe o chapéu; ele vira de imediato que se tratava de uma flor e não de algo saído de uma galinha, pois John era perceptivo e tinha olhos e a simpatia de dizer algo agradável em lugar de “Pelos Criadores e pelo Êxodo, quantas dessas coisas ridículas tens tu?”.

Ele estivera também a sondá-la de um muito pouco casto modo, mas esses eram os ossos do ofício de ser perfeita em aparência e carácter. Não era culpa de John que ele se tivesse deparado com alguém a cujo magnetismo era fútil resistir, e em sua defesa, ele não havia sido propriamente subtil. O seu interesse nela havia sido deixado tão perfeitamente explícito que Amelie nem se conseguira sentir constrangida. Ele perguntara-lhe se ela desejava repetir a experiência, e ela sentira-se tentada. Mas a verdade era que Emma certamente faria uma cena se ela anunciasse ir encontrar-se com alguém que não recebera carimbo de aprovação. Emma afigurava-se-lhe uma pessoa que não via com bons olhos que rapazes fossem abordados, excepto na presença de uma matrona com mau génio que fungasse e aclarasse a garganta quando contacto físico fosse iniciado. Dizer-lhe o que pretendia fazer acarretava um sério risco de lhe ser pedido que levasse Bertha consigo. Ela não imaginava algo mais humilhante.

Amelie enfiou a sua cópia de chave na porta de casa, pendurou o casaco no cabide da entrada e largou os sacos num canto. A cozinha e sala encontravam-se vazias, levando-a a supor que Bertha e Emma não haviam regressado ainda. Ela entreteve-se como pode, primeiro arrumando as compras e de seguida indo até à sala para investigar se havia livros ou jogos nela. A única estante encontrava-se cheia de livros de receitas e cadernos de capa de couro, que a jovem folheou e recolocou no lugar ao entender que se tratavam de apontamentos de mecânica e engenharia e relojoaria, nenhuma das quais ela considerava digna de interesse. Ela estava a repor o mapa que levara consigo e a considerar o Grande Almanaque Anual da Real Colónia de Fron como leitura leve, quando tocaram à campainha.

- Boas tardes - disse a rapariga parada no alpendre quando Amelie abriu. Esta era minúscula, com feições ainda mais minúsculas emolduradas por cabelo liso e escuro e recto, e estava a saltar de um pé para outro com algo que Amelie inicialmente supôs ser nervosismo, mas uma análise aprofundada revelou ser impaciência. Havia uma caixa de cartão nas mãos dela. - A Emma está em casa?

- Ela está a trabalhar, penso eu. És uma das amigas dela?

- Dificilmente. Tu és a tal prima, Amelie, ou lá o que é? Eu sou a Yasemin. Venho da parte da ameixa seca. A boa senhora Radley – acrescentou a rapariga, ao ver a confusão com que o comentário foi recebido. Uma vez tendo entendido que Amelie não ficara nem mais nem menos baralhada com a atribuição de nome à ameixa em questão, ela suspirou. – A futura sogra da Emma. Ela pediu-me para lhe vir entregar isto. - O caixote foi muito pouco cerimoniosamente empurrado para as suas mãos. - E a…boa senhora Radley gostaria de a informar de que as circunstâncias conspiraram para que seja impossível encontrarem-se amanhã, apresenta as suas desculpas pela inconveniência, e espera vê-la no próximo domingo de manhã, por volta das dez e meia se possível. Podes passar a mensagem?

- Oh, sim. Claro! - apressou-se Amelie a dizer, lembrando-se de seguida de que, na ausência da sua prima e de Bertha, era seu dever ser uma anfitriã graciosa. - Gostarias de entrar e tomar uma bebida?

- Não tenho muito tempo - avisou Yasemin. Amelie anuiu e puxou-a para dentro.

- Temos água - tagarelou ela, enquanto conduzia a outra para a cozinha. - E laranjas, há laranjas que posso usar para sumo, e umas garrafas de gin no armário de cima, mas penso que essas pertencem à Bertha e ela não deverá ficar muito satisfeita se lhes tocar sem permissão. E há chá, mas ele esfriou.

- Qualquer coisa menos isso. Os chás da dona Wallace são conhecidos por aqui. O senhor Faramont do café da praça bebeu de um bule dela e morreu. Os dois acontecimentos não tiveram relação um com o outro - acrescentou Yasemin, ao ver a expressão dela. Amelie relaxou. - Posso aceitar o sumo.

- Maravilhoso. - A jovem gesticulou-lhe que se sentasse e tropeçou até ao cesto da fruta. Após um par de laranjas serem dele retiradas e deixadas cair com movimentos tão desastrados que um malabarista choraria ao observá-los, um espremedor ter escapado por um triz de ir parar ao chão e sido enchido, e Amelie quase ter deitado abaixo o armário da loiça ao tirar um copo dele, este último foi apresentado a Yasemin. A rapariga demorou a levá-lo aos lábios, como se lamentasse dar-lhe esse destino após ele ter, por milagre, chegado intacto. Amelie deslizou pouco graciosamente para a cadeira ao lado dela.

- Então, que pensas da cidade até agora?

- Ainda não vi o suficiente, mas adorei o que vi, embora ela seja um pouco húmida demais para o meu gosto. As pessoas parecem simpáticas, e provavelmente são-no. E é tudo tão rústico e diferente!

- Eu nunca fui ao continente. Ou além de Hakon, na verdade. De onde é que vens?

- Danebre. É uma cidadezinha no sul de Perant, mas não passo lá tanto tempo assim. O meu pai por pouco não vive na Cidade Flutuante, por isso costumo dividir o ano pelos dois lugares. Cráduma não é nada como nenhum desses sítios. Não no mau sentido, é claro. Só no sentido de não ser como eles. E no sentido de ter precisado de me habituar…ainda me estar a habituar, na verdade…a todos saberem quem eu sou, ou parecerem sabê-lo, só um dia depois de ter chegado. O que, novamente, não é mau, mas é esquisito. Estou habituada a receber atenção devido ao meu nome, mas não que todos saibam o meu nome apenas olhando para mim. Ou que associem isso às coisas que parecem associar.

- Bem - disse Yasemin, devagar - tu estás em casa da Emma, pelo que não se tratou de uma dedução assim tão assombrosa da minha parte. E espanta-me que ela te tenha mencionado o que por aí se diz, tendo em conta que o que é dito de pessoas raramente é dito às pessoas em questão. Para não referir que a tua prima é fechada como uma ostra, mas suponho que como és família…

- Oh, não, a Emma não me contou nada. Outras pessoas fizeram-no e, bem…eu estou preocupada.

- Com ela? Não vejo porquê. Não é como se houvesse algo escandaloso em Emma-a-Pessoa, e com o casamento que aí vem até irá subir na vida, embora se me pedirem a opinião, nada valha o sacrifício de fazer parte daquela família. O pai dela, que recupere em breve, e mãe dela, que descanse em paz, eram os mais problemáticos. Contaram-te da vez em que o maluco do senhor Walter tentou “arranjar” um cerne e a casa engoliu o proprietário? Quando o tiraram de lá, estava branco como leite e vivo só porque durante o cativeiro se tinha alimentado de peixes salgados. Depois havia as explosões, a que eu nunca assisti mas que dizem que ocorriam de semana a semana. E a dona Elysa, essa era uma bela de uma peça. Dava tiros nas janelas e falava como um construído apesar de não o ser. Daqueles de há séculos que encravaram no passado e não entendem valores modernos, sabes? Essa era ela.

- Bem, sim, isso realmente soa um pouco peculiar - reconheceu Amelie, que já havia sido devidamente informada acerca das idiossincrasias dos seus tios quando John tentara e fracassara em travar uma conversa casual. - Mas sim, é a Emma quem me preocupa. Ela é, uh…estranha. Estranha como dizes que a minha tia era estranha. Excepto que ela faz coisas com janelas que não são dar tiros nelas. Não sei, é como se…tu tens razão, ela é como uma ostra. Uma ostra na qual eu quero muito acreditar que há uma pérola, mas não me deu ainda provas de que isso é verdade.

- Ela é da maneira que é desde que me lembro - disse Yasemin, soando como se preferisse discutir os duvidosos feitos dos Hanover seniores a desviar a conversa para Emma, mas não quisesse ofendê-la com uma recusa em comentar. - Nós estivemos juntas no ensino obrigatório. Ela só estava…lá, e não arranjava problemas e não se intrometia nas vidas alheias, e não tenho memória de ela alguma vez se ter tentado misturar com o resto de nós, e isso foi isso. E depois formámo-nos e arranjamos trabalho, e ela acabou noiva do patrão. Nunca a conheci como alguém célebre por levantar ondas ou atitudes fora do normal. Queres que te fale de estranho? Coloca os olhos no meu patrão e irás declarar a Emma sã como um pêro sem um segundo de hesitação, e tão comum como pão com manteiga e sardinha.

- O noivo dela - repetiu Amelie. Ela sentia-se embaraçada ao constatá-lo, mas os acontecimentos da noite anterior haviam varrido da sua mente o assunto do casamento, assim como a necessidade de ter uma conversa com a sua prima a respeito dele. - É verdade, tu disseste que vinhas da parte da sogra dela. Como são eles? Como é ele? A Emma não me contou nada, e a Bertha foi vaga nos detalhes.

- A boa senhora Radley é uma - Amelie cobriu a boca com as mãos. Porque ela fora educada como se recomendava que jovens decentes fossem educadas, ela tinha apenas uma confusa e provavelmente errada noção do que aquele vocábulo significava, mas tom da outra era esclarecedor o suficiente. - O filho dela suporta-se mais facilmente, mas funciona com umas retortas a menos. Não que isso seja um facto digno de censura. Nós somos muito compreensivos para com os…menos bem regulados, aqui. A não ser que eles sejam o tipo de maluquinho que anda pela praça com um machado ou a tirar olhos a quem o rodeia com um anzol, a tendência é deixá-los em paz. Ele é do género mais sossegado.

- A…Emma não me tinha dito nada acerca de problemas mentais ou loucura.

- A palavra que costumámos usar para o Zeph é “especial”. Como ele e ela se irão dar, nem sei, mas a ideia de trocar um doido por outro foi dela. - Yasemin deu de ombros e bebericou o resto do sumo. - O pobre senhor Walter não devia ter sido internado, se me perguntares. Não é como se ele estivesse tão mal assim. A minha tia-avó tende a sair de casa em camisa de noite e empoleirar-se no telhado todas as quartas e feriados, mas não passaria pela cabeça de ninguém da família enviá-la para Skagard, oh, nem pensar. O senhor Walter foi sempre inofensivo apesar de nunca ter tido o juízo todo, por isso não estou a ver razão para a Emma o despachar para lá quando ele perdeu o que ainda tinha. Para mais, é quase garantido que só desafinou por causa do que aconteceu à dona Elysa, e quem o pode culpar? A maneira como morreu foi uma coisa que, pregos dos Criadores, me teria endoidado a mim! Mas é claro que isso não é da minha conta - acrescentou a jovem, à pressa. - Vida alheia é vida alheia, e tal.

Amelie sentiu as palavras penetrar a sua consciência e estabelecer conexões, e sentiu vontade de bater em si própria. Ela havia sido criada com princípios de relojoaria a ser murmurados como ruído de fundo, e era um monumental descuido da sua parte que não tivesse começado a interrogar-se mal lhe fora dito que a sua tia falecera. Relógios funcionavam cerca de um século, até pararem por razões de desgaste. Relógios Eternos eram a excepção, e esses não se fabricavam desde o tempo da rainha Eldora, podendo somente ser encontrados em construídos. Mas Eterno ou não, inserido num invólucro de metal ou carne, Relógios não se imobilizavam tão cedo como o da sua tia. Não naturalmente, e não sem uma elevada quantidade de danos físicos envolvidos. Parando o Relógio parava o corpo, e o contrário também era verdade. Que idade tinha a sua tia tido, aquando da sua morte? Quarenta anos, cinquenta? Em todo o caso, não tantos que a sua morte pudesse ser atribuída a causas naturais.

- Bem, neste caso, vida alheia diz-me respeito, visto que ela era a minha tia. O que lhe aconteceu?

- Ninguém sabe o que aconteceu, só os resultados. Sangue por todo o lado, é o que se diz por aí.

- Uhm…- Amelie detestava-se por ter de perguntar, mas a necessidade impunha-se. - Ela apresentava sinais de ter sido atirada através de uma janela? Porque isso explicaria muita coisa.

- Não. - Yasemin deitou-lhe um olhar interrogativo, manteve-o no lugar durante cerca de um minuto e decidiu por fim que era melhor nem perguntar. - Mas tiveram de levar o Relógio dela em separado.


Em Setembro de dois mil duzentos e vinte e quatro, tivera lugar o massacre de Cahil. Todos os Relógios na capital haviam-se imobilizado, e embora não houvessem demorado mais que uma hora a retomar o funcionamento, acidentes causados pelas paragens abruptas haviam sido legião. Outubro do mesmo ano fora marcado pelo falecimento de Sua Majestade Maraura Cremona, a primeira rainha de Astarte. Em fins de Novembro realizara-se a por ninguém antecipada coroação da princesa Eldora.

O homem das luvas presenciara os três eventos. Em Cahil ele fizera o possível e o impossível para reverter a situação. Não houvera muito que pudesse ser feito em relação a Maraura, mas sabiam os Criadores que ele tentara. Aquando da coroação, ou antes depois dela, ele não contara que muito fosse ser exigido dele. Porém, quando se deslocara aos aposentos da nova rainha para a congratular, e esta se agarrara a ele como uma criança amedrontada, tornara-se claro que errara em pensá-lo.

- Eu quero-a de volta - lamentara-se a monarca adolescente, com o nariz enterrado na manga do seu vestido de seda. Ele olhara-a, olhara o seu rosto lacrimoso e olhos inchados, e nostalgia atravessara-o como uma facada. Eldora era a sua mãe em tudo exceptuando temperamento e cabelo. Um era calmo demais, o outro escuro em vez de vermelho. Escuro como o dele. - Isto…isto não devia ter acontecido.

- Não - dissera ele, sabendo que ela esperava palavras de conforto, sabendo ser seu dever oferecer-lhas apesar de a sua dor não ser menor que a dela. Desastradamente, o homem das luvas murmurara mentiras inocentes e prometera-lhe que o tempo dissiparia a saudade. Eldora não acreditara nele. Ele nunca fora suficientemente competente como pai para a fazer comprar promessas vazias.

Em dois mil trezentos e quarenta e dois, o homem das luvas encontrara-se deitado numa mesa de metal, a absorver o mundo através de olhos que se haviam aberto pela primeira vez. Ele não usara luvas, na altura. Isso viera depois, depois de Harold lhe ter arremessado um saco de roupa e mandado juntar-se ao resto dos recrutas. Ele obedecera sem pensar. A gravidade do que se passava e o objectivo da sua criação encontravam-se gravados indelevelmente no código do seu Relógio. Ele era um soldado. Soldados obedeciam a ordens. Algo que fizera sem questionar, durante talvez cinco dias após a sua activação. Depois disso, ele começara a sentir-se suficientemente como um indivíduo para pensar acerca das ordens que lhe eram dadas. Para se atrever a questioná-las.

Walter reagira como se essa fosse uma ofensa capital. Walter sempre fora, na modesta opinião do homem das luvas, um filho de torradeira cuja cabeça inchada apenas era desculpável por o que ela continha ser uma mistura caótica de génio e gases e bolas coloridas. Era possível tolerá-lo, visto que o seu ego não era desprovido de bases e o seu desequilíbrio mental demasiado grande para que ele se desse conta de ser de mau gosto exibi-lo. Apreciá-lo era toda uma outra questão. Mas Harold…Harold era diferente. Harold respondia às questões que ele colocava, explicando-lhe com infinita paciência as razões de esta e aquela medida serem necessárias, qual a lógica por detrás de uma dada decisão. Ele sentira desde o início haver motivos ulteriores no interesse que o Relojoeiro demonstrava por ele, mas apenas se colocara a par de quais estes eram quando ela lhe havia sido apresentada.

O homem das luvas pára de andar, olha a cena à sua frente e suspira.

Harold e Walter haviam tido interessantes ideias acerca do funcionamento de Relógios. Ideias que ele escutara e que o haviam feito sacudir a cabeça, apesar de ser um leigo em relojoaria. Walter defendia que Relógios não eram mais que complicados armazéns de memórias, a passo que Harold os julgava o começo e fim do ser. Ambos haviam resolvido ignorar que as conjecturas não eram necessariamente mutuamente exclusivas. Não se, como o homem das luvas fazia, se acreditava que as lembranças que se acumulavam com o tempo eram quem se era.

Mas ele não se pronunciara a respeito, assim como não comentara que quando fechava os olhos e deixava o mundo dentro dele sobrepor-se ao mundo real, o que via se assemelhava menos a um armazém e mais a um corredor com portas de ambos os lados. A sua aparência tendia a mudar. Quando ele primeiro se refugiara dentro de si, rodas dentadas compunham o chão e jactos de vapor espiravam dos espaços entre elas. O tempo transformara-o, tal como o transformara a ele. Civilizara-o. Papel de parede pastel substituíra cabos entrelaçados sobre chapas, e uma carpete castanha cobria o pouco habitual chão. As portas haviam mudado também, tendo passado de monstros maciços mais adequados a cofres para comuns portas de escritório. Por detrás de cada uma delas escondia-se um pedaço da sua vida. Tendo em conta o quão longa e movimentada esta fora e costumava ser, não era surpreendente que o número de portas à vista entrasse na ordem dos milhares.

O homem das luvas abre uma delas e depara-se com duas figuras familiares.

- Tu és o tal, então - diz Maraura. O homem das luvas vê a sua memória dele próprio acenar. Ela é a única parte da cena que não possui a clareza de detalhe de uma fotografia, pela simples razão de ser difícil ver-se de fora recordações que o incluem quando estas são as suas recordações. Algo a ver com mudanças de perspectiva e auto-imagens distorcidas. Visto como um todo, o que ele tem à sua frente é um borrão com uma forma vagamente similar à sua. Mas concentrando-se nos detalhes é possível distinguir-se um nariz que ele vê com regularidade, olhos que brilham com uma esperança que só ignorância gera, e uma boca torcida num sorriso do qual os anos farão um esgar cínico.

- Não, Sua Majestade, eu sou “aquele” - diz o homem das luvas, avançando e inconscientemente ajeitando a gola do seu casaco. Ambos ignoram-no. As pessoas na sua memória não reagem à sua presença a não ser que ele as obrigue a isso, algo que a maioria das vezes não vê sentido em fazer.

Falar com quem se perdeu é arriscado. Tenta-o a demorar-se na companhia, e se à partida isso não soa como um mau plano, ele conhece suficientes casos de viúvos e órfãos que se tornaram dependentes dos espectros que os seus Relógios lhe mostram para resolver que esse não será o seu destino. O corredor não é desagradável até onde lugares vão, mas isso não o torna bom material de morada permanente. Portanto, ele deixa as duas memórias ignorá-lo e limita-se a assistir.

- O Harold acredita que és capaz de me resistir - continua Maraura, que nunca acreditou em rodeios. Ele ouve-se murmurar algo sobre sinceramente duvidar, e contorce-se de embaraço retroactivo. Mas Maraura sorri um pouco, algo que ele não acredita ter notado na altura. Pelo menos não de forma consciente. - Eu gostaria de testar isso. Com o teu consentimento, evidentemente.
A versão mais jovem dele acena de novo. Maraura inclina-se para ele, aproximando o rosto do seu. Cabelos como chamas cascateiam em redor dele, fazendo-lhe cócegas nas faces enquanto ela lhe sussurra ao ouvido uma ordem à qual a sua outra versão obedeceria prontamente se o contrário não fosse o que se pretende. O seu olhar está apontado, com uma fixidez normalmente apenas encontrada nos olhos de mortos, para a mulher à sua frente. O homem das luvas resiste à tentação de revirar os seus. Ainda que não se estivesse a olhar a si próprio, ainda que o outro ele não estivesse a pensar pensamentos que ele pensara em tempos, é óbvio o que lhe corre pela mente.

O homem das luvas recua, abandonando a divisão e fechando a porta nas suas costas.

Ele ignora há quanto tempo caminha pelo corredor, abrindo portas ao acaso e revendo a sua vida para se entreter. Mesmo no corredor, o interior do seu Relógio é um lugar movimentado. Nem todas as suas memórias apreciam estar trancadas entre quatro paredes, por mais metafísicas que estas sejam. Elas andam lado a lado com ele, difusas e nebulosas. Só esforçando-se é possível dizer quem a maioria delas foi. Amigos, rivais e irmãos-em-armas, conhecidos e mentores. Apenas família e antigas amantes negam-se a fazer aparições. Ele não tem por hábito pensar nos seus ilustres parentes, e as suas recordações de Maraura encontram-se devidamente encarceradas.

Ele abre a porta seguinte, fazendo um esforço consciente para ignorar aquela que se situa à sua esquerda. Esta é vermelha e branca, e não há uma fechadura nela por não se tratar de uma porta que foi feita para ser aberta. Aquela que ele abre é de madeira, assim como as outras. Atrás dela há um campo de batalha. Ou antes, um campo após uma batalha, como comprova o silêncio que seria extremamente deslocado caso esta ainda se encontrasse em curso. Ele vê-se a si próprio, ou o borrão que é ele próprio, debruçar-se sobre um corpo e levantá-lo antes de abandonar a trincheira na qual se refugiu, para se ir juntar ao que sobrou do seu pelotão. Do outro extremo da planície erguem-se colunas de fumo, e corpos semeiam o seu caminho. Ele vê-se olhar em redor, à procura de um rosto em particular, e vê um princípio de alívio introduzir-se na sua expressão quando este entra em vista, imundo e sangrento e rasgado até ao metal, mas ainda assim vivo e radiante.

Maraura. A sua rainha, a sua comandante, a sua mestra e o seu amor.

- Ganhámos! - proclama ela. O seu grito converte-se num crescendo de vozes quando aqueles que a seguem o ecoam. O urro varre o campo de lés a lés, e a sua versão mais jovem junta a sua voz a ele, embora o homem das luvas se consiga recordar de pensar “Hoje” com tanta claridade que se poderia enganar em acreditar que a palavra de facto lhe saiu da boca. - Vitória! LIBERDADE!

- Estás acordado. Excelente - disse uma voz. Ele foi arrancado da recordação com um choque.

O homem das luvas pestanejou. As suas pálpebras descolaram-se custosamente, e ele cerrou os olhos quando o foco de uma lâmpada incidiu no seu rosto. Um picar de electricidade desviou-lhe a atenção para o seu peito, e ele soltou uma praga mental ao ver o engenho que nele tinham fixado. Um regulador. Fios de cobre saíam dele como patas de insecto resplandecentes, entrando-lhe pela camisa e cravando-se na sua carne precisamente onde o seu Relógio estava. Ele engoliu em seco, avaliando a situação. Assim que a sua avaliação dela foi dada por terminada, ele procurou libertar-se dela. Mas esse era um objectivo fora do seu alcance, percebeu, ao tentar dobrar-se para a frente e ser impedido por um aperto em redor da cintura e um clamor de metal. O seu captor exalou, com óbvia satisfação.

- Inútil - declarou, e o homem das luvas viu-se forçado a concordar. O canalha não subestimara a sua força. Ele encontrava-se enrolado em mais correntes que um milionário de curiosos gostos na cave de um clube alternativo, e suspeitava fortemente que estas se encontravam electrificadas. Contudo, a luz era a pior parte. Ela estava directamente nos seus olhos, e a armação de ferro acoplada à sua cabeça impedia-o de a virar para lhe escapar. Mesmo com as pálpebras fechadas, ele via laranja.

- Quem Criadores és tu? - cuspiu. Que se tratava de um elemento do Creaturarum era dolorosamente óbvio. O outro vestia-se exactamente como o agente que ele temporariamente capturara, embora este tivesse sido mais baixo e enfezado. A sua voz era diferente, também.

- Podes chamar-me General - disse este. O homem das luvas pressionou os lábios juntos.

- Nome invulgar. Tens apelido, “General”? - Ele começava a compreender porque haviam colocado um regulador nele. Tratava-se de uma precaução para a eventualidade de ele ser um Leitor. Tendo-o no lugar, era-lhe impossível abrir o Relógio às ondas de código que de outro modo lhe revelariam o nome de com quem lidava. O que lhe permitia dizer que o assim chamado General era cauteloso, e que este possuía uma identidade pública que fora baptizada de acordo com a tradição. Informações que na sua condição actual de nada lhe serviam. - Não? Tudo bem, apenas isso serve. O que queres comigo?

- Contigo? Nada demasiado esotérico. Desejo apenas colocar-te algumas questões. Recusar-te a respondê-las não é muito aconselhável. Não se considerarmos as alternativas.

O homem das luvas negou-se a dizer o que a sua limitada porção de nervos pensava disso.

- Ó alegria. – A lâmpada foi, abençoadamente, desviada para o lado. Até onde conseguia determinar, encontravam-se num poço para desperdícios. Barras e amontoados de metal corroído de ferrugem empilhavam-se até onde a vista alcançava, e as paredes recurvavam-se à medida que subiam. Sobre a sua cabeça havia uma abertura em redor da qual estas se juntavam, dando ao espaço o formato de um funil virado. Embora a luz que por ela entrava não representasse muito em matéria de iluminação, ela permitia-lhe distinguir a parafernália eléctrica que havia sido disposta em seu redor.

O homem das luvas teve de se esforçar para não engolir em seco.

- Agora que nos entendemos - continuou o General, avançando e colocando a sua cabeça encoberta ao mesmo nível que a dele - gostaria que começasses por explicar o que trouxe um agente da Coroa a um lugar como este. Estamos um tanto ou quanto longe de casa, não estamos?

- O mesmo poderia dizer-se de vocês - replicou o homem das luvas, forçando o queixo para a frente e movendo os lábios num esgar. As farpas da armação que lhe prendia a cabeça enterraram-se no seu pescoço, mas ele manteve-se firme. Ou algo que podia credivelmente fazer-se passar por firme. Que o outro se encontrasse ao corrente da sua ocupação era um revés, embora não inesperado. Tinham-no decerto revistado, e as suas credenciais encontravam-se no bolso do casaco. - Não me cheira que vos interesse a história do sítio, e vocês fundamentalistas tendem a desdenhar de prazeres terrenos como comida. Para não referir que o lugar pulula de veteranos que não engraçam com as vossas filosofias.

- Nós desempenhámos a nossa missão - disse o General. O homem das luvas suspeitava que este sorria atrás do tecido preto. - Lutámos em nome dos governantes que nós, abominações indignas da vida que por eles nos foi dada, usurpámos. Como sempre fizemos e sempre faremos, até o dia em que a Lua descerá sobre nós e a Terra será retomada pelos seus primeiros e justos senhores.

- Ámen. - Ele não viu a faca vir. Subitamente, a lâmpada encontrava-se nos seus olhos novamente. O homem das luvas só se deu conta do que era feito quando a ponta da lâmina foi espetada na sua sobrancelha e descida até ao olho. A sua reacção foi instantânea. Mesmo com a armação a limitar-lhe os movimentos, mesmo estando atado de mãos, pés e resto, ele procurou esquivar-se.

O General emitiu um som de desapontamento, e a luz foi desviada mais uma vez.

- Não te devias ter mexido – criticou, enquanto limpava o sangue da ponta da faca com um lenço de pano. O homem das luvas tinha vermelho a inundar-lhe o olho direito, e pestanejou para ver através dele. Inútil. O sacana filho de cadela talhara-o. O General dobrou o lenço em quatro e passou-o sobre a sua sobrancelha, antes de recuar e o colocar a cabeça de lado para o examinar. - Distorceste o C.

- Peço perdão por ter frustrado as tuas explorações artísticas. – Ele viu o punho aproximar-se da sua cara, mas evitá-lo não era uma acção ao seu alcance. O meio centímetro de pele artificial que o cobria tinha sensibilidade limitada, mas havia um limite para quanto castigo ela era capaz de suportar.

- Tens sorte em eu ter sentido de humor. - Apenas um dos seus olhos encontrava-se à altura da tarefa de sustentar o olhar fixo que sabia estar a ser-lhe dirigido. Os óculos que escondiam os do desperdício de oxigénio e lata davam-lhe uma vantagem imerecida, mas ele recusou-se a dar parte de fraco.

- Bom. Isso é bom. Ouve-me esta: um Relojoeiro, um dos Criadores e uma dançarina de ventre entram num bar. A dançarina dirige-se ao balcão e hnnnggg! - Visto pela positiva, pensou o homem das luvas quando parou de estremecer, ele acertara em relação ao estado de electrificação da corrente.

- …e essa foi a última insolência que estou disposto a tolerar. Quero saber o que um dos lacaios da Coroa faz aqui. Quero saber quantos vocês são e que informação reuniram. Quero saber como sabias onde um dos nossos agentes iria estar. Quero saber tudo o que sabes.

- Só isso? Com todo o gosto que te digo. O céu é azul, o mar idem. Tu és um filho da puta sarnento e infecto, e a organização que serves um tumor na de outra forma agradável face da Terra. Laranjas não devem ser comidas de manhã. Aves voam e peixes nadam e répteis rastejam, e eu odeio esta cidade.

- Certo - murmurou o outro. O que o ferimento no seu olho tinha para largar em sangue acabava de se esgotar. O homem das luvas pestanejou morosa e tortuosamente para se livrar dele e poder ver com dois olhos a arma que lhe estava a ser apontada. - A verdade, agora. Como nos encontraste?

O homem das sugeriu-lhe que fosse fazer algo anatomicamente impossível. Havia qualquer coisa de aterrador no quão laconicamente o outro reagiu. Cólera e gritos teriam sido preferíveis. Com isso ele sabia sempre onde parava, ainda que o sítio em causa raras vezes fosse um paraíso terrestre.

- Tu és um construído, correcto? - inquiriu o General, com a mesma etérea calma. O homem das luvas deitou-lhe um olhar oblíquo. - Pergunto porque sobreviveste a uma voltagem que te devia ter morto.

- E com essa acabas de responder à tua própria pergunta, seu cretino.

- Procurava apenas certificar-me. Seria inconsciente não o fazer. Afinal, é conhecimento geral que vocês os de lata têm uma impressionante resistência; vale a pena informar-me de até onde posso ir.

- Excelente mentalidade para se ter, essa. Todos os da tua admirável organização deviam cultivar uma semelhante. Se estivessem mais conscientes dos limites, talvez…- Ele semicerrou o seu olho bom. O General estava a afastar-se e a trazer para mais perto a maquinaria que anteriormente lhe captara a atenção. Para seu desgosto, o grosso dela encontrava-se coberta de espinhos. -…huh.

- Pensei que isto te fosse convencer a soltar a língua. - O homem das luvas rosnou-lhe, expressando a sua descrença em relação a essa afirmação. O General acenou, como que para si, e debruçou-se para a frente. Ele contraiu-se, tenso, quando as mãos do outro se aproximaram perigosamente do seu peito, e por conseguinte do seu Relógio e do regulador. Esse último foi-lhe arrancado, limpamente. As suas sobrancelhas franziram-se. O acto era um sem nexo, pois o General não devia ignorar que ele se podia aproveitar da ausência do regulador para lhe ler o código. Talvez este tivesse assumido que não tendo ele tentado fazê-lo, era duvidoso que soubesse como. Mas isso não batia certo com a paranóia de que o outro tinha de ser possuidor, para o ter amarrado como amarrara. - Sente-te livre para gritar.

- Obrigado, mas não obrigado. - O homem das luvas inclinou a cabeça numa salva milimétrica. Ver o seu captor endurecer compensou a sensação de estar a ser escalpelado que acompanhou o gesto.

- Como entenderes. - Uma das máquinas foi colocada sobre os seus joelhos cobertos de correntes. Os olhos do homem das luvas aumentaram de tamanho ao identificá-la, e ele redobrou os seus esforços para se libertar. Debater-se apenas fez e o General soltar uma gargalhada baixa. - Julgando pela tua reacção, sabes no que isto consiste. Há mais piadas que queiras fazer? Não? Bem me queria parecer.

- Sabes onde penso que podes enfiar os teus pareceres?

- Tenho uma vaga ideia, sim - retorquiu o General. - Vamos começar?


Última edição por Moggo em Qua Set 12, 2012 1:20 pm, editado 2 vez(es)

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por PandoraTheVampire em Qui Jul 19, 2012 1:25 am

Hello!!

Eu disse que lia, eu li! Okay, ainda só li um dos dois capítulos que comentaste, mas espero ler o próximo amanhã! Deixo-te o comentário deste:

O Charles é fantástico! Adorei a conversa dele com a Dorien. Tanto lhe perguntava pela vida como insultava o "traste". E depois quando ela menos esperava: "ah e tal transferi-te..." Melhor que isso só mesmo a última parte. Eles querem reconquistar a Terra! :o Posso dizer que não estava à espera disto. Pelo menos tão cedo. Mal posso esperar para ver o que vai acontecer! Irão demorar alguns anos? Ou será tudo mais rápido do que eu estou à espera? Curious...

Adoro a interacção da Emma e da Amelie. Uma é tão tontinha e a outra é tão terra à terra. Já para não falar dos chapéus da Amelie que conseguem sempre ser fantásticos! E tinhas razão. Parte da minha pergunta foi respondida. Sempre era a mala que o ladrão queria levar! Que documentos são aqueles é que eu quero saber agora! E elas precisam saber que o pai da Amelie já não se encontra no mundo dos relógios funcionais... :/

Pois, ainda não sei o que aconteceu ao Homem das Luvas. Pelo que disseste saberei neste capítulo, mas se, como suspeito, ele está morto... ai Moggo! Ainda pensei que me desses algum tempo de habituação e preparação antes de começares a limpar o sebo às personagens -.-'

Escusado será dizer que continuo a adorar isto, certo? Ganhaste uma fã no primeiro capítulo e isto só tem vindo a surpreender e melhorar, por isso venha mais! Ah, btw, tenho estado a ler alguns dos teus comentários no teu blog. São óptimos para melhorar a disposição! E é fantástico ver os teus comentários do Game of Thrones antes e depois de leres os livros.
Spoiler:
Principalmente tendo em conta o que acontece de futuro ao Theon e Jaime (sem contar com o resto da limpeza que o GRR Martin faz ao resto das personagens... - Li um frase dele [não tenho a certeza se era mesmo dele] que dizia: "Cada vez que me perguntam quando sai o novo livro, eu mato um Stark" - Creepy...). Já te deixei uns comentários por lá. Mas devo deixar mais entretanto... ah! Eu tenho os livros em PT, por isso se precisares de alguma tradução de Inglês para PT que não tenhas a certeza, podes perguntar-me ;)

Quanto às Crónicas, não me recordo em que parte ficaste, por isso não te sei dizer se ainda leste os caps que lá estão ou não :x

This is it! OnBye

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Qui Jul 19, 2012 12:32 pm

Oh, não faz mal, leva o tempo que entenderes a ler e comentar. Não é como se estivesses a ser paga para isto, right?

E estou a ver que o segundo antagonista principal teve uma boa recepção. (Quando penso que em certo ponto esta história não tinha nem Charles, nem Dorien, nem quaisquer outros humanos...onde é que eu andava com a cabeça?) E isso tem especial piada para mim porque ele é uma cópia carbono de todos os senhores do mal alguma vez escritos ou inventados, com um bocadinho de excentricidade adicionada para não fazer dele um monstro completo. (Na primeira versão disto tive a surpresa de ter muita gente a engraçar com os meus vilões, por isso nesta atirei as mãos ao ar e fui what the hell, já que é assim 'bora lá dar-lhes razões para isso.) Infelizmente, a guerra só terá lugar numa hipotética/provável sequela. (CDR já tem enredo suficiente, embora seja eu a dizê-lo.) Não que isso signifique que tudo o que se está a passar na Lua não vá ter importância mais para a frente.

Aw, Amelie e Emma. Dá para notar que adoro escrevê-las a respingar uma com a outra? (A sério, a melhor parte de ter muitas personagens radicalmente diferentes é poder atirá-las umas contra as outras e deixar as coisas desenvolver-se de forma natural.) Quando às tuas questões re: os papéis e se irei fazê-las descobrir que Harold Hanover morreu...tudo a seu tempo. (Acho que vou acabar por dizer isto muitas vezes. Não que me importe XD)

Por acaso tinha reparado que andas a rondar o meu blog (faltou-me responder a um dos comentários, porque tinha uma resposta toda elaborada e bonitinha já teclada...e o browser comeu-a. Go figure.) As recaps de Game of Thrones estão agora empanadas e algumas da primeira temporada estão desaparecidas porque as quero corrigir.
(Gramática e ortografia e afins, apenas. As minhas reacções deverão ficar intactas.) Mas terei tempo suficiente para tratar disso antes de começar a terceira temporada, espero eu. É um testamento à admiração que tenho pelo sr. Martin que esteja disposta a dar-me ao trabalho.

Btw, penso que essa citação é um meme que se espalhou entre os fãs, não algo que ele de facto disse. Mas sei que ele mencionou que achava que estava a ficar com demasiadas personagens e precisava de matar mais algumas. (That. Effing. Guy! Why, George, why?!)


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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Fox* em Sab Jul 21, 2012 3:40 pm

Moggo! Hello!

Estás muda? Isso só me traz mais teorias esquisitas quanto ao facto de ela se casar ou ser arrastada dali para fora pela super-prima! Não sei qual das duas teorias me divertiria mais!
Acho que este é o preconceito que querias criar, aquele com a mãe controladora! A sua incapacidade para sentir empatia e para lidar com as coisas que não correm exatamente como ela quer é, no mínimo, constrangedora! Se ela se mostrasse a má da fita neste filme todo, eu não ficaria surpreendida!
E acho que fizeste bem em por gente à pancada porque sempre divertiste aqui o pessoal! E compreendo perfeitamente isso de escrever apenas o que gostamos de ler uma vez que é mais ou menos assim que eu funciono.
Bem, pistas... Eu faço filmes! Não, eu faço mesmo muitos filmes, o que significa que irei apanhar centenas de "pistas", metade delas inventadas, sobre eventos que (não) irão ocorrer no futuro!

Capítulo IV

Humanos! Ehehehe!
Antes de mais, gosto muito do mundo que planeaste, tanto na Terra como na Lua! Não ficaste apenas pelo, "Ah, isto apareceu aqui, os humanos moram aqui, entra a história". Criaste datas, momentos de tempo específico, criaste cidades, pessoas influentes, criaste uma historia cronológica que me faz invejar a tua capacidade de organização e coerência! Parabéns :)
Perfeito cavalheiro e perfeita besta na mesma pessoa em questão de segundos... Oh, estou a ver que nem nas situações mais esquisitas, como morarem na lua, os humanos são capazes de mudar de atitude... Longa vida às boas maneiras!
E esta nova personagem... Oh, que hei eu de pensar dela? Um pai adotivo com uma maneira esquisita de agir e uns modos mais ainda... Uma casa armadilhada segundo o humor (se tu dizes que é humor... xD) dele e, agora, uma ideia absolutamente louca de conquistar a Terra... Ou não será assim tão louca? Talvez os planos resultem e talvez seja por isso que a Dorien foi transferida, para encabeçar a criação de armamento ou talvez... Oh, eu não vou sair daqui tão cedo!

Oh, estas duas... Sério, nunca sei bem o que esperar de duas pessoas da mesma família tão diferentes como água e azeite! A Amelie explode, a Emma suspira. Uma não se cala, a outra dá-me sempre a impressão de suspirar e respirar fundo para não perder (mais) nenhuma peça importante do seu Relógio! São partes super divertidas e animadas que me deixam sempre a rir! E aquela do pai procurar um companheiro de quarto foi de génio (como outras que vou escrevendo por aqui xD)
E o momento em que a Amelie perdeu completamente o norte por ver aranhas e outros insetos rastejantes levou-me umas enormes gargalhadas, principalmente porque só a conseguia imaginar com um ovo na cabeça a saltar na ponta de uns sapatos de veludo a tentar fugir de algo que ela imaginava ser uma Aragog! Priceless!
E nãããããããooooo (não me apetece escrever mais)! Eu também quero que ela me diga a teoria! Porque, bolas, eu também não esperava encontrar apenas papeis!
Sério, isto não é nada normal...

Capítulo V

"John é um nome bonito... Tive um gato com esse nome... Acabou atropelado por um comboio... Prazer em conhecer-te!" A sério Moggo, como te lembras de coisas aparentemente tão simples mas que resultam tão bem no seu total? A incapacidade da Amelie em manter uma conversa, vamos por nestes termos, que não demonstre o quão afetada consegue ser é super divertida! E ela nem parece aperceber-se de que fala pelos cotovelos sobre temas que não interessam aos ouvintes! E parece que não é a única... "Os chás dela são conhecidos por aqui, um homem bebeu um e morreu. Ah, mas não há nenhuma relação entre eles!" Really?! xD O senso comum vai ficando raro naquela cidade...
E vim a descobrir que o ego da Amelie é semelhante-ou-quase-igual-ao-do-Kanye-West ("ossos do ofício de ser perfeita" quanta modéstia...)! Pronto, eu aceito. Tal como aceito a educação super polida que não admite asneiras. Mas o que não aceito é todo este suspense em que nos envolves, Moggo! Não sabemos a forma como a dona Lu morreu, aparentemente não era necessário mandar o homem para o lugar dos malucos e cada vez mais nos apercebemos que a Emma é tipo quartzo! Que é isto?! Oh, não me vais conseguir convencer que a filha sossegada não sabe e guarda, juntamente com a Bertha, alguns dos segredos daqui! Como a razão pela qual o pai endoideceu (só pela morte da mãe - espetacular, a semi-explicação - ou houve mais qualquer coisa que o afetou? Qualquer coisa sobre Relógios ou assim...) ou o que possa suscitar o interesse com a mala da Amelie...

E os humanos... Como me divertiu aquele momento de limpeza da cave (acontece-me o mesmo com o sótão e alguns cantos do meu quarto, descubro objetos cuja existência foi sempre um mistério para mim...). Entre a eterna distração da Dorian, esquecendo-se do próprio concerto/banda da filha - EMC2 foi um nome de génio - a arrumação que ia para ali, o diálogo super fluído com aquelas duas, cada um com pontos de vista diferente - gostei especialmente da obstinação da mãe quanto ao futuro da filha como música. Parece que nem na lua as coisas mudam ao ponto de se confiar mais num futuro tão incerto como o das artes - e aquela fotografia comprometedora, dei por mim a descer mais e mais o capítulo à procura da continuação! Moggo, não pares as coisas assim! Parece os trailers dos filmes, só vemos mesmo uma pontinha do véu para espicaçar a atenção! xD

Depois... Oh, Homem das Luvas! Eu acho-te divertido (com exceção da futura sogra, eu acho todas as tuas personagens, cada uma à sua maneira, apetecíveis!) com esse humor de "filho de torradeira" e essa capacidade de entrar dentro dele próprio. A imagem do corredor com milhares de portas e espaços de memórias lembrou-me um pouco o "Queres ser John Malkovich?" (não sei se viste o filme) e saber que ele não é um Relógio sem coração (metaforicamente falando, agora me apercebo o quão fora de contexto se aplicam as nossas expressões à "nova" Terra! :)) e que foi capaz de amar (vou assumir que foi isso que lhe aconteceu, visto ele ser, à falta de melhor, um robô) foram duas das coisas que mais gostei nesta parte! Tornou-o menos frio e cínico. Mas só um bocadinho! Mesmo preso e torturado, ele continua cheio do seu sarcasmo! "O Mar é azul, o séu também, és um filho da puta, não comas laranjas". Simples! Adorei esta frase!
E agora vemos o que é um Regulador! Oh, se a Amelie precisa mesmo disto para se aguentar, muita coisa espero dela agora! Ter uma coisa dessas aberta no nosso peito deve ser digno de uma personalidade... Intensa!
E pára tudo que estou perdida! Eles são humanos? Os terroristas? Ou estão apenas aliados a eles? E porque é que eu acho que o Charles vai estar envolvido nessa missão? E que achas das minhas teorias sem mais bases que a minha imaginação? xD
E reparaste no quão esquisito é acabares um capítulo com as exatas palavras "Vamos começar?" Sério?! Que desapontamento... :D

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por PandoraTheVampire em Seg Jul 23, 2012 2:06 pm

Oh damn! Queres então dizer-me que este primeiro tomo de CDR não tem guerra? Ahum... mas os humanos serão importantes, com certeza! Conhecendo as tuas surpresas, acho que vou assistir a "um bom filme" :p

Pois Moggo, já reparei! Por isso, a partir de agora ignora as minhas questões. Serão retóricas pois sei bem que não me vais contar nada do que se irá passar! Verdade seja dita também não queria que o fizesses! Não sou grande fã de spoilers... e já apanho suficientes na Internet que não quero saber (Naruto fans, I'm talking to you, loudmouths!) - Ignora as minhas questões, sff! xD

Oh nem tinha reparado que já tinhas respondido a um. :p Pois! Estava a ler as recaps de GoT da primeira temporada e deparei-me com uma desaparecida! Creio que foi a do terceiro episódio (ou quarto), não posso precisar. Mas divirto-me imensamente. Btw, Tyrion também é um dos meus faves! E o Jaime também, mas o Jaime foi um gosto adquirido :p

Que o Martin tem imensas personagens, eu concordo. Que ele queira matar algumas, até apoio! Há muitas que merecem uma morte lenta e dolorosa... agora que decida matar alguns que eu não queria que morressem... isso não concordo!! Damn u Martin! Whyyyyyyy??? Nenhum personagem está a salvo nas mãos deste homem... Quem não leu os livros não leia este spoiler!! E Moggo, suponho que já tenhas lido todos, mas se não leste o último também não abras o spoiler lol
Spoiler:
Btw, o que achas do Jon no último livro?? :o fiquei estupefacta e não sei bem o que pensar...

Anyway, back to the chapter! Há três dias que me faltava ler a última parte do Homem das Luvas mas estive ocupada e não o consegui fazer. Hoje consegui! Por isso aqui vai: Adorei a maneira como a Amelie apanhou o vendedor que a queria enganar! Go, go Amelie! Mas a mulher é louca? Ainda agora conheceu o homem e já vai dar voltinhas com ele? Ai se a Emma sabe!!!

Ahaha pobre Dorien. Aturar uma adolescente não é fácil! Mas ela fá-lo lindamente. Btw, o nome da banda está fantástico :p
E quem é a senhora de cabelo loiro que está de braço dado com o Vô Charles?

Hum... o que é que a Dorien quer esconder da filha e porque é que aquela foto não deveria estar naquele álbum?? Mais uma vez, ignora a minha pergunta, já sei que não vais responder! xD Zomg o que é que aconteceu à mãe da Emma??? Não me soou nada bem... :/

Okay, muito bem. O Homem das Luvas não está morto. Tudo certo... Mas aquela tortura não me cheira bem Moggo... Porque é que eu acho que ele não vai sair dali com o relógio a bater? E porque é que o homem tem de ser tão corajoso! Conta tudo e mantém-te vivo! Eu gosto dele! Não sejas como o Martin, Moggo!! Pleaseeeeeeeeeeeeee!!

Gawd, preciso de saber mais.... -.-' dois capítulos não foi, nem de perto, suficiente para saciar a minha curiosidade! Só a aguçou mais, por isso toca a postar mais dois!! Ou um... qualquer coisa... okay?? xD

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por miaDamphyr em Ter Ago 07, 2012 4:31 pm

Ehhhhhh, olha só o HDL a arrecadar fans, vamos abrir um fã club apenas para ele. Sabes, agora que andei a reler isto é qe me apercebi de várias coisas que realmente me tinham escapado. Como o facto da rainha Maraura já ter morrido :@: escapou-me e tanto. E tals... lool, que gafe.

E não vou estar aqui a comentar muito porque não consigo me segurar dos spoilers, mas devo dizer que tem algumas coisas diferentes por ai... lool.

Bisous.
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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Qua Ago 08, 2012 5:38 pm

Okay, vamos a ver se vos consigo responder a todas antes de cair morta de esgotamento em cima do teclado. Ufff!



Fox!
“Muda” não seria bem a palavra. Não tenho nada contra fazerem-me perguntas, ainda que estas sejam referentes coisas por vir. Até agora tenho sido vaga, por pensar que quando comentam com perguntas e teorias (que adoro, a propósito. MOAR!) estão mais a pensar alto que a pedir-me para spoilar. Mas se tu (e quem mais estiver a acompanhar) quiser que o faça, sem problemas, enviem-me uma PM. (Sou daquelas pessoas que não suporta que lhe digam o que acontece, mas entendo que exista quem não se importe.)
O resto...não é capacidade de organização. (A sério, eu devo ser das pessoas mais desorganizadas do planeta, pergunta a quem já viu o meu quarto. A sujidade debaixo da minha cama já desenvolveu seu próprio sistema político.) Se não fosse por estar sempre a anotar datas e acontecimentos e a conferir se elas batem certo de cada vez que tiro um detalhe novo do nada, andaria para aqui às aranhas. E a maioria desses factóides foram adicionados na revisão, para tapar buracos no worldbuilding.
Charles…o que posso dizer? XD Eu pensei dar-lhe algumas cenas no seu próprio ponto de vista, para terem uma melhor ideia do funcionamento da sua mente demente, mas acabei por decidir que ele funciona melhor como uma personagem misteriosa e ambivalente. E também há a questão de ele saber demais. Entrar-lhe na cabeça ia revelar demasiadas coisas demasiado cedo. (Gawd, até parece que estou a escrever um policial.)
Quanto à teoria da Emma, que se relaciona com a identidade do invasor…ela está correcta. A rapariga só acredita que ela está errada porque não se encontra na posse de todos os factos e, bem, eu vou deixar apenas isto aqui:

Mas ocorreu-lhe, e a conjectura era uma que embora baseada em factos, contrariava toda a lógica, que havia alguém em Cráduma que Amelie conhecia e ouvira falar.


Rumina isso por um bocadinho e depois diz-me a que conclusões chegaste :P

A sério Moggo, como te lembras de coisas aparentemente tão simples mas que resultam tão bem no seu total?
É um bocadinho difícil de explicar. Eu não falo como a Amelie na vida real - acho que ninguém fala como a Amelie na vida real, deus nos livre -, mas quando estou a escrever no ponto de vista de uma personagem, e quanto mais tempo escrevo no ponto de vista dessa personagem, coisas dessas começam a aparecer porque elas me soam como algo que essa personagem diria. Se é que isso faz algum sentido. Falando em Amelie, Kanye West (porquê? Porque é que me tinhas de dar essa ideia? Agora vou ter de arranjar maneira de incluir “Yo Emma, estou muito feliz por ti, vou deixar-te acabar…” no texto que falta!) é capaz de não ser a melhor das comparações. Ela é mais uma Luna Lovegood convencida. E drogada. Muito drogada. E agora que o mencionaste, ela e a Yasemin iriam provavelmente dar-se muito bem se passassem mais tempo juntas.
Quanto à Dorien (a foto comprometedora é importante, sim. Bom olho :D), parece-me que as cenas dela estão a cumprir o seu objectivo. Nomeadamente, mostrá-la como uma pessoa normalíssima que por acaso está a planear aniquilar uma espécie inteira, que inclui os outros protagonistas com os quais espero já te ter feito simpatizar. E deixar assente que ela não é lá grande coisa como mãe, por muito que tente.
Nope, nunca vi esse filme, embora o nome não me seja estranho. Toda a sequência de “viajem ao centro do Relógio” foi mais ou menos *inspirada* *cof* em Inception. Trata-se, de resto, de uma capacidade que todos os com Relógio têm, não apenas o HDL, mas que não foi mostrada até agora porque…bem, porque o enredo não o exigiu. Desta vez eu precisava de uma maneira de, lá está, fazer o homem parecer menos um brutamontes. Ou antes, explicar porque é que ele é tão brutamontes. (O amor da sua vida morre, o sujeito fecha-se e começa a cultivar uma personalidade rancorosa e respondona.) Quanto ao Creaturarum, acho que a Pandora me perguntou o mesmo há uns comentários atrás, mas seja como for, posso repetir. Eles não são humanos, ou em todo o caso, todos os que apresentei até agora não o são. Embora não diga que entre eles não existe nenhum escondido.

E reparaste no quão esquisito é acabares um capítulo com as exatas palavras "Vamos começar?"
Ei, não me culpes por isso! Era suposto vir mais uma parte depois dessa, que o fórum não me deixou publicar porque “Excede o limite de texto” (*shakes fist* Goddamn you, fórum!), e nem reparei na ironia até me teres chamado a atenção para ela.


Pandora! Não, guerra não, infelizmente. Não nesta primeira parte. Quando cheguei a certo ponto da escrita vi que o enredo que tinha planeado nunca caberia num volume só. O que sendo isto uma publicação online não deveria ser problema, já que não existe um limite de tamanho que lhe posso dar, mas decidi ser melhor dividi-lo em três. No entanto, os enredos são autocontidos. (Para pegar num exemplo popular, vão ser precisos uns quantos volumes para que Voldemort seja derrotado, mas o mistério da Câmara dos Segredos/Prisioneiro de Azkaban/Pedra Filosofal será resolvido no final de cada um deles.)
Anyway, a Amelie. Penso que já confirmei em texto que ela definitivamente tem uns parafusos a menos, mas neste caso foi menos loucura e mais realmente, realmente não ter noção das coisas.

Hum... o que é que a Dorien quer esconder da filha e porque é que aquela foto não deveria estar naquele álbum?? Mais uma vez, ignora a minha pergunta, já sei que não vais responder! xD Zomg o que é que aconteceu à mãe da Emma??? Não me soou nada bem... :/

*smirks evily* *rubs hands* *cackles* Olha, uma dessas até é respondida, mais ou menos, nos próximos capítulos....

Okay, muito bem. O Homem das Luvas não está morto. Tudo certo... Mas aquela tortura não me cheira bem Moggo... Porque é que eu acho que ele não vai sair dali com o relógio a bater? E porque é que o homem tem de ser tão corajoso! Conta tudo e mantém-te vivo! Eu gosto dele! Não sejas como o Martin, Moggo!! Pleaseeeeeeeeeeeeee!!

Hmm, hmmm, hmmm. Não vou confirmar nem desmentir a tua impressão, mas daqui a umas horas já coloco aqui o capítulo novo e vemos se estás ou não certa. E já que começamos com o Martin...(Estes comentários estão a tornar-se no tópico não-oficial de Game of Thrones do fórum, palavra de honra.) (Não que eu tenha alguma coisa contra!), eu tive precisamente a mesma reacção ao Jaime. Passei dois livros a julgá-lo um %$#@&, e depois cheguei a Storm of Swords e...all my feels! E sim, eu já os li a todos, por isso não precisas de ter medo de me spoilar seja o que for. Aqui está o que eu tenho a dizer em relação a tu-sabes-o-quê:
Spoiler:

Está morto, qual quê! Há demasiadas plotlines em que ele é central que não irão dar a lado nenhum se o tipo estiver morto. A lei de conservação de detalhe, para não falar na pilha de pistas sobre a mãe dele e o seu relacionamento com meia dúzia de profecias importantes, e a minha teoria de estimação de que é a ele que o título da série se refere, não permitem que o Jon dê o badagaio. Não ainda, em todo o caso. Porque isso ia fazer do Martin um mau escritor.

Mia!

Em tua defesa, há uma carrada de detalhes que acrescentei/especifiquei mais nesta revisão, por isso é provável que o problema não seja teu mas do texto, que, tens razão, está completamente diferente em certas partes. Pena que estejas com a língua atada por causa dos spoilers-dos-infernos...eu já tinha saudades de te ver por aqui.

Gawd, não, vamos agora estar a abrir ainda mais outro clube de fãs. Era para entrarmos em guerra aberta com as meninas do Liannus, que...agora que penso no assunto, somos nós também. (Isto está a ficar meio meta para o meu gosto.) Embora tenha curiosidade em saber qual dos dois seria o último a ficar de pé se de facto houvesse para aqui uma guerrazinha... PandaTeehee

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Capítulo VI

Mensagem por Moggo em Sab Ago 11, 2012 4:29 pm

Capítulo VI - Fogo e Frigideira

Emma enfiou a chave na fechadura, abriu a porta, virou-se para a trancar, despiu o seu casaco, virou-se para o pendurar e deu com Amelie enfiada na sua cara. Não precisamente enfiada na sua cara, uma vez que havia um par de centímetros a separá-las, mas em todo o caso demasiado perto para ela se sentir confortável com o facto. Desgraça das desgraças, a sua prima parecia expectante, e Emma não apreciava encontrar-se ignorante do que exactamente esta esperava. Enquanto a outra se balançava com ar de decisão, ela contornou-a e entrou na cozinha. Amelie sucedera em não incendiar a casa, constatou, embora houvesse uma mancha na parede atrás do fogão que não se encontrara lá quando ela saíra. Também havia loiça por lavar na pia, o que a fez torcer o nariz, e o balde do lixo não estivera tão deslocado para a esquerda como o via. Ela abriu-o e deu com cacos de porcelana.

- Eu parti um copo e um prato. Eu ia dizer-te. Desculpa – murmurou Amelie, introduzindo-se na divisão em passinhos cautelosos, ainda exibindo o mesmo semblante de alguém que desejava abordar um certo tema mas não se atrevia a fazê-lo. Olhando-a, era manifesto que se ocupara a reunir a coragem necessária desde muito antes de ela chegar, mas se encontrava pouco mais próxima de o conseguir.

- Toma mais cuidado daqui em diante. E desimpede a mesa das tuas compras, preciso dela para fazer o jantar. Suponho que a Bertha ainda não chegou? - Amelie quebrou a sua nervosa concentração pelo tempo de anuir e parecer confusa. Os olhos dela viajaram para a caixa sobre a mesa e alargaram-se.

- Oh, isso não é meu - apressou-se ela a dizer. - A Yasemin veio trazê-la, da parte da ameixa seca.

- …ameixa?

- A tua talvez futura sogra - elaborou Amelie, com uma paciência calculada. - Ela também disse que o encontro de amanhã está anulado por causa de uma conspiração, e se podes aparecer domingo pelas dez e meia. - Emma processou isso e anuiu. Ela deslocou-se até à mesa, ciente de que a outra se fora plantar atrás dela e lhe espionava por cima do ombro. Esta fungou como se fosse espirrar, o que era nada mais que natural. Embora luvas fossem usadas na escamação de peixe e ela tivesse na mesma lavado as mãos ao sair de serviço, era impossível abandonar a fábrica após horas nela e não levar um pouco do seu odor consigo. Mais que tudo, Emma desejava um duche. Mas isso teria de esperar até o conteúdo da caixa ser analisado, comida ser colocada na mesa, e Amelie ter revelado o que Criadores a estava a morder. - E, Emma? Nós estivemos a conversar sobre outros assuntos que penso que…oh!

- De facto - disse Emma, com menos entusiasmo do que o vestido destramente engomado e dobrado que ocupava a caixa merecia. Ele exalava um perfume de saído da fábrica que ela podia jurar ter sido propositadamente acrescentado, e a fazia querer colocá-lo numa tina com limões e sabonete.

- Ele é fantástico!

- Fantástico, não “maravilhoso”? - Amelie acenou distraidamente e tomou o vestido nas mãos antes que ela pudesse verbalizar um ríspido “Não lhe toques!”, desdobrando-o e segurando-o em frente dela apesar dos seus protestos mudos. Claritia dissera tratar-se do favorito de Zeph. Emma assumia que o que esta pretendera transmitir era que Zeph o seleccionara de entre vários esboços, um processo que provavelmente consistira nele a entortar o olho para um modelo aleatório, e não que se tratava do seu vestido favorito para vestir. Ela própria não opinara sobre o assunto, pois nenhuma opinião lhe havia sido pedida e ela não tivera nenhuma que sentisse ser fundamental dar.

- Todas estas fitas irão ser um martírio para atar e desatar - observou Amelie. - E suponho que haverá uma armação de ferro para ser usada sob a saia, pois não te imagino a andar com ela de outro modo.

- Sim, isso faz sentido. - Emma abanou a cabeça, tentando aclarar uma mente que não devia ter razão para se encontrar toldada. Havia uma quantidade considerável de borboletas no seu estômago. Parte delas ainda nem se transformara em pupa. Ela estreitou os olhos para o vestido, como que medindo-o com o olhar. Havia, isso era um facto, uma grande quantidade de fitas, e rendas, e folhos. O efeito era similar ao de uma escova coberta de natas. - A Yasemin disse o que devo fazer com ele?

- Experimentá-lo, supostamente? - retorquiu Amelie, rolando os olhos como se essa fosse uma óbvia e razoável resposta. - Imagina que te fica comprido ou apertado em algum lugar, e que só o descobres quando o fores a vestir no próprio dia. Essas coisas precisam de ser pensadas, Emma.

- Certo. Sim, obviamente que precisam.

- E há um assunto que depois gostaria de discutir contigo. Sei que não tivemos ainda oportunidade de nos conhecer devidamente, com uma coisa e outra coisa a interpor-se, mas não me sinto lá muito…

- Um momento. - Emma escutou a porta da frente abrir e aproveitou a distracção para se apoderar do vestido e o devolver à caixa. Um ronco de frustração rolou como uma onda da entrada à cozinha, e ela estremeceu. Certas e determinadas pessoas eram como panelas de pressão. Dentro delas, fúrias e frustrações e furores acumulavam-se até a tampa saltar, respingando água fervente em redor quando isso sucedia. Bertha não pertencia a essa categoria. Bertha era uma panela furada que deixava o que esta continha escapar-se numa base diária, assegurando assim que não havia nunca o suficiente para a fazer explodir. Que a caseira nunca se encontrar de bom humor fosse um dos efeitos secundários era lamentável mas preferível à alternativa. Uma alternativa que estava nesse instante a carregar casa adentro como uma manada de mastodontes em debandada, com Luce ao colo e os olhos a chamejar.

Amelie obedeceu a um instinto que Emma não a julgara suficientemente evoluída para ter. Ela deu um passo para o lado de modo a deixar a entrada da cozinha livre, enredou-se nos seus próprios pés, balançou como se embriagada e estatelou-se no chão com um “Eck!” que soava suspeitosamente resignado. Bertha entrou e evitou o seu corpo com destreza, passando sobre ela e dirigindo-se à ainda ligeiramente húmida mesa, em cima da qual colocou Luce. A bebé deitou um olhar desinteressado em redor e devolveu a sua atenção ao polegar. Emma apanhou-a antes que ela caísse da mesa.

- Parto do princípio de que o dia não correu como querias - comentou. Luce estava a começar a fazer ruídos e a esticar a mão para o nó no seu cabelo. Ela passou-a a Amelie, que entretanto sucedera em recolocar-se de pé e fitava a caseira com partes iguais de confusão e temor. - O que aconteceu?

- Excelente questão, moça! - barafustou Bertha, puxando de uma cadeira e pesadamente se deixando cair nela sem que a dimensão da sua ira diminuísse. - Passei pela esquadra para reportar o assalto. E sabes que resposta me deram? “Nós iremos guardar o seu depoimento e investigar, dona Wallace!”

- Bem, e essa não é uma resposta satisfatória? - perguntou Amelie, a medo. Emma fez-lhe um gesto frenético para que se calasse. - Se a lei irá investigar, deverão apanhar o responsável não tarda nada.

- Não sejas inocente, Amelie. Esse é o código deles para “Se algo aparecer nós dir-lhe-emos, mas não espere mais”. Eu conheço essa cambada de mandriões que tomam café com os presos, minhas filhas.

- Uh. Oh. Uh. Café com os presos?!

- A lei de Cráduma é composta por gente de Cráduma. Assim como os fora-da-lei de Cráduma. O que significa que três vezes em dez, capturas consistem em ir bater à casa do primo ou tio ou companheiro de clube e delicadamente pedir-lhe que devolva o que não é seu e passe a noite num lugar fresco, por favor e obrigado. - Amelie deixou de se esganiçar e tornou a mostrar-se confusa. Emma suspirou. - Eu devia ter-te dito para levar contigo o gravador. Sempre seria uma pista a mais que eles teriam.

- Não teria valido de nada. Sabes o que o rapazola que falou comigo me disse quando mencionei que tinham sido terroristas a assaltar-nos? Ele disse que na minha idade era habitual verem-se coisas que não estão realmente lá, e se eu tinha a certeza de que sabia o que lhe estava a contar. - Bertha cerrou os punhos e afundou um deles na mesa, deixando os nós dos dedos impressos na madeira. Emma, a quem estragar mobiliário por nenhum motivo se afigurava como sendo o pior dos pecados, bufou de desaprovação. A outra não fez caso dela e prosseguiu com o seu discurso enfurecido. - E eu disse-lhe então, West Ian Chandler, a tua pobre e velha mãe não te ensinou a respeitar os que te superam em vida vivida e experiência acumulada? Então o pirralho vira-se para mim e manda-me não meter a sua mãe no assunto. Vai daí eu agarrei-o pela orelha e marchei-o até ao escritório do Barba d’Aço, que me vem com intimações para não molestar os seus oficiais e diz que devo sossegar e contar-lhe o que se passa. Depois de o ter feito, o homem larga-me um dos seus “Harums” e diz-me para não estar a estorcegar, pois as minhas apoquentações são dignas de ser levadas em conta e muito consulentes, mas ele se encontra impotente. Eu mandei-o não estar a inventar palavras e disse-lhe que os seus problemas conjugais não são da minha conta, informei-o de que tencionava notificar a Real Sociedade de Veteranos da questão e perguntei-lhe se como nosso presidente, ele concordava que o fizesse. Ele responde-me que não, que não há razão para espalhar o pânico efectuando declarações infundadas. Eu perguntei-lhe se o meu punho faz um argumento, e o tratante ordenou que me dessem um copinho de água e expulsassem do edifício. Inúteis malditos!

- E tu pretendes não notificar a Sociedade? - perguntou Emma, céptica e impressionada por a caseira não estar azul de cara após aquela tirada ininterrupta.

- Endoideceste, moça? Eu irei com toda a certeza notificá-la. O homem deve julgar-se uma grande de uma coisa só por ser popular o suficiente para estar à frente dela, mas ele que não esqueça quem o tirou no caminho de um projéctil e lhe salvou o seu formidável mato de pêlo facial. A próxima reunião é amanhã à noite, e tenho toda a intenção de lhes dizer. Ele que se atreva a tentar calar-me.

- Parece-me um esforço inútil. Se tencionas alertar a população para o perigo, dirige-te a qualquer das lojas do centro e comenta ao balcão que sabes que há terroristas a operar na cidade.

- E de que me servirá alertar só meia dúzia de pessoas, não me dizes?

- Pede-lhes segredo. Amanhã por esta hora, Cráduma inteira encontrar-se-á ao corrente.

- Não deixa de ser uma sugestão útil - concedeu Bertha. - Farei ambas as coisas, por segurança.

- Excelente ideia. - Aliviada por os ânimos se terem sossegado, Emma recolheu a caixa com vestido e levou-a ao peito, pretendendo guardá-la antes que Amelie saísse do seu estado de estupor e tornasse a insistir em fazê-la vesti-lo. Bertha quedara-se, silenciosamente e evidentemente considerando quais as lojistas coscuvilheiras que melhor espalhariam o seu suposto segredo. Observando com satisfação que à partida esta se manteria calma até ela regressar, Emma virou-se para abandonar a divisão.

Ela viu-se forçada a deter-se quando Amelie soltou um grito.

- Terroristas?! - A inflexão que esta colocou no i estilhaçaria cristal, mas não apenas isso. Ela laminá-lo-ia e poli-lo-ia e lapidá-lo-ia até ele ser um multifacetado e afiado diamante de pânico. Suspirando de resignação, Emma virou-se e encarou o rosto transfixado da sua prima. - Nós temos terroristas?

- Um momento, Amelie. - Ela indicou Luce, que rompera num choro assustado. Bertha compreendeu o que era necessário que fizesse numa questão de segundos, pegou na bebé e anunciou que ia deitá-la. Mal a outra desapareceu e os seus passos acabaram de se afastar escadas acima, Emma abeirou-se de Amelie e estudou-a. A expressão da rapariga mudara para uma de feroz convicção. Em tom afável, provavelmente um mais afável do que convinha desperdiçar-se nela, ela perguntou: - Satisfaz-me uma curiosidade. Quando soltas esses guinchos, esperas para o fazer por não quereres interromper quem está a falar, ou as tuas reacções são retardadas por levares todo esse tempo a entender o que ouves?

- Tu não disseste nada sobre terroristas! Nem ontem, nem hoje de manhã.

- Porque não há terroristas nenhuns. São cismas da Bertha, Amelie. Ela acredita ter visto um qualquer símbolo na pessoa que nos assaltou, e isso persuadiu-a de que uma organização terrorista ocupa esta cidade. Não muito impossível até onde teorias da conspiração vão, mas ainda assim, ridículo.

- Tens a certeza absoluta sintética analítica extrema total rigorosa e completa disso? – Amelie calou-se por lhe faltarem advérbios, mordiscou o lábio e tornou a insurgir-se: - Mas tu disseste à Bertha que…

- Eu disse à Bertha o que ela precisava de ouvir. É como lhe disseram na esquadra. Ela tem uma certa idade, e pessoas de uma certa idade não são muito confiáveis como testemunhas. Mas se ela acredita que deve lançar-se numa cruzada para salvar Cráduma de uma hipotética ameaça, porquê impedi-la? A verdade não tardará a vir ao de cima, e não é como se ela estivesse a magoar alguém no processo.

- Bem, sim. Isso faz sentido - disse a rapariga, oferecendo-lhe um sorriso aliviado. - Podemos deixá-la descobrir sozinha que está errada. É mais calmo, menos humilhante, e não irá destroçá-la tanto.

- Então estamos de acordo. - Emma viu os olhos da sua prima vaguear para a caixa nas suas mãos e apressou-se a acrescentar: - Não tencionavas fazer remodelações no sótão? Eu posso ajudar.

- Oh, quase me esquecia! E não, não vou precisar de ajuda. Quero que o resultado seja uma surpresa.

- Uma surpresa - repetiu Emma, tentando decidir o que pensava a esse respeito. - Está…certo.

- Amanhã já devo tê-lo pronto para te mostrar - assegurou a outra, anuindo com um sorriso que roçava o sinistro. Emma não estremeceu, mas evitou-o só a custo. - Tenho a certeza de que irás adorar.

- Espero que sim. - Amelie acenou e saltitou para fora da cozinha ao mesmo tempo que Bertha vinha a entrar pela porta. A jovem bateu contra ela e, para variar, caiu sobre as mãos em vez de acabar com a cara de encontro ao chão. Emma rangeu os dentes. - Há mercurocromo na gaveta da casa de banho.

- Estou bem, estou bem! Não me esfolei nem nada, vês? - Ela levantou as palmas como prova, dando-lhe a ver que estas se encontravam ilesas. Amelie era então extremamente resistente, uma evidência que Emma supunha explicar o facto de a jovem não se encontrar permanentemente coberta de cortes e equimoses. Esta endireitou-se, boqueou um pedido de desculpas ao passar por Bertha e retirou-se.

A caseira observou-a com uma sobrancelha arqueada até ela desaparecer de vista.

- Notaste que ela faz um barulhão imenso quando cai? - comentou. Emma acenou impacientemente.

- Sim. E é irritante. - Ela certificou-se que Amelie realmente partira antes de sussurrar: - “Destroçá-la”?

- É evidente que a moça ainda não me conhece muito bem. Mas não a posso criticar por se preocupar, o que é mais do que posso dizer de certas outras pessoas. - A caseira colocou as mãos nas ancas e fulminou-a com o olhar. - Eu sou então uma velha com a cabeça cheia de teorias da conspiração?

- No que à Amelie diz respeito, és sim - replicou Emma, de pronto. - A última coisa que desejo é tê-la a entrar em histeria à conta desta situação. Ela já é suficientemente cansativa no seu estado normal.

- Estás nesse caso devidamente convencida de que tenho razão no que digo?

- Devidamente, não. - Ela parou e buscou por algo a acrescentar que não a fosse fazer alvo de uma nova vaga de zanga, e ao mesmo tempo adocicar o pedido que tinha necessariamente de fazer. - Mas a presença de terroristas é o pior dos cenários possíveis. Por conseguinte, devemos precaver-nos. Se tornarem a vir aqui pelos papéis do tio Harold, será melhor contarmos que estamos a lidar com a maior ameaça que se pode imaginar e preparar as nossas defesas de acordo. No entanto, a possibilidade de teres tirado as conclusões erradas não deve ser menosprezada. Assim sendo, será talvez melhor que não notifiques a Sociedade. Limita-te a espalhar o boato. No espaço de uma semana ele encontrar-se-á tão disseminado e compartilhado que ninguém saberá apontar a sua origem, o que te poupará a um embaraço desnecessário se for revelado ter-se tratado de um falso alarme.

- Não sei se essa última parte do teu plano me agrada, moça - fungou Bertha, mas Emma sabia que a contragosto ou não, esta considerava o que lhe acabava de ser dito. - E de que papéis estás a falar?

- Quase me esquecia de que tu já tinhas saído quando demos com eles. - Ela andou até ao suporte de especiarias, desenroscou a base do frasco rotulado como mostarda e sacudiu-o até uma chave cair na sua mão. Fazendo sinal a Bertha para que esta a seguisse, Emma andou até à sala e desviou do sítio o quadro de amores-perfeitos. - A Amelie tinha uma mala problemática. Abrimo-la para ver o que tinha dentro e descobrimos um maço de papéis assinados pelo meu tio. Ela deve tê-lo levado por engano.

- E tu acreditas que o Creaturarum nos visitou por eles? - Emma encolheu os ombros e destrancou o cofre. - É possível, dependendo da importância do seu conteúdo. Tiveste oportunidade de os ler?

- Tentei. Eles encontram-se cheios de jargão técnico que suspeito apenas ser compreensível para um Relojoeiro. Isso sem referir as anotações na margem e os esquemas gatafunhados. Vê por ti mesma.
Bertha recebeu o invólucro de plástico transparente como se este fosse um explosivo e tirou os papéis em questão de dentro dele para lhes deitar uma vista de olhos superficial. Com um gesto seco, a caseira virou a folha. Emma aguardou pacientemente que ela terminasse de as percorrer, mas não deixou de notar que a testa dela se ia progressivamente enrugando à medida que lia. Quando Bertha arrumou a pilha e a devolveu ao cofre, havia uma rigidez nos seus gestos que Emma não tinha como tomar por um bom presságio. A caseira sacudiu a cabeça e virou-se para ela, nitidamente perturbada.

- Que planos tens para essas instruções?

- Ah, elas são instruções? Eu tencionava enviá-las de volta ao tio Harold mal tivesse tempo.

- Não. - Bertha sacudiu a cabeça com uma veemência que a surpreendeu. - É preferível que não os deixes onde outros lhes possam aceder. O que disse a tua prima acerca deles?

- A Amelie afirma ignorar como eles terminaram na sua bagagem. Mas estive a pensar, e ocorreu-me que pode ter sido o meu tio ele próprio a colocá-los lá. Se ela desconhecia a situação do meu pai, o mesmo deve ser verdade para ele. Talvez tenha querido dar-lhas para que as guardasse, embora seja bizarro que não tenha avisado a sua filha de que elas estavam com ela. Desleixo, possivelmente?

Bertha fechou o cofre, rodou a chave e fê-la não tão despercebidamente deslizar para dentro do bolso da sua saia antes de se voltar para a encarar, com os lábios comprimidos numa linha tensa.

- O Mestre Harold não se desleixaria com isto, nem no mais louco dos seus estados. Ele sabe que ter estas instruções a cair nas mãos erradas lhe custará caro. Heróis de guerra ou não, se a verdade vier ao de cima, ele e o teu pai arriscam-se a ser julgados por traição. Um dos envolvidos pode estar morto e os outros dois variados graus de clinicamente insano, mas certas coisas…- A caseira deixou descair os ombros e exalou profunda e resignadamente antes de sacudir a cabeça, como que para aclarar as ideias. - Mas tudo isso aconteceu há anos atrás, moça. Vamos deixá-lo ficar no passado.

- Eu teria todo o prazer em fazê-lo se não acontecesse o passado estar no meu cofre. No que estavam eles envolvidos? Contrabando de Relógios Eternos? - Fosse qual fosse o crime de que o seu pai e tio eram culpados, Emma estava segura de que este se encontraria relacionado com a sua ocupação. O seu pai era um homem honesto, ou assim ela sempre o conhecera, mas tinha tendência a exceder-se e errar em calcular o quão perigosas as suas invenções eram. Uma mais negra possibilidade ocorreu-lhe, no entanto, e a rapariga forçou-se a verbalizá-la. - Ou…construção e uso de modificadores?

- Nada tão sórdido! - exclamou Bertha, e embora fosse manifesto que esta não ansiava por partilhar o que sabia e tencionava adiar a obrigação de o fazer pelo máximo de tempo possível, Emma acreditou nela. - Eles cometeram um erro e confiaram na pessoa errada, nada mais, e essas instruções provam-no para aqueles capazes de as entender e ler nas entrelinhas. Enviá-las para aqui não foi sensato.

- Sensato ou não, elas acabaram debaixo do meu tecto. E eu tenho direito a saber o que elas contêm, especialmente se esse conteúdo é ilegal e potencialmente causador de problemas. Poderias portanto explicar, visto que não os sei decifrar e não faço ideia do que as entrelinhas dizem?

- Não. - Emma demorou alguns instantes a registar o que ouvira e processá-lo devidamente.

- Não? Como assim, “não”? Que parte de “tenho direito a saber” falhaste em perceber?

- Tu tens esse direito, verdade, tal como tens direito a atirar-te do paredão e partir o pescoço. - Bertha fez uma carranca, como se desejasse acrescentar algo que considerava ser preferível guardar para si. Não seria necessário um génio para deduzir que a palavra “casamento” lhe estava na ponta da língua. Ela atirou as mãos ao ar em sinal de exasperação. - Uma pergunta para ti, moça. Tu confias em mim?

- Claro - respondeu Emma, automaticamente. Bertha era provavelmente a única pessoa quem poderia dizer algo semelhante com sinceridade e sem acrescentar duas dúzias de condições. - Porquê?

- Porque se é esse o caso, irás dar-me ouvidos quando te digo que certos assuntos foram enterrados por um motivo, e que desenterrá-los não beneficiará ninguém. Deixa-me lidar com isto. Eu escreverei ao teu tio a perguntar-lhe o que se passa. Esperemos que não esteja demasiado gagá para responder.

- Não irá beneficiar ninguém? Querendo dizer que existe a possibilidade de prejudicar?

- Não se o assunto for abordado delicadamente. Algo que não te creio capaz de fazer. - Emma abriu a boca para contrariar a risível noção, mas ela adiantou-se. - Não nesta situação. É…pessoal demais.
- Pessoal - repetiu a rapariga. Ela não apreciava essa palavra, “pessoal”. Pessoal tendia a envolver os sempre interferentes sentimentos e a complicar circunstâncias em teoria simples. - Está bem, então.

Ela também não precisava de ser um génio para saber que por uma vez sem exemplo, Bertha estava a dar graças a entidades divinas em que apenas esta acreditava pelo desprendimento dela.

- Tenho uma condição, no entanto. Duas, melhor dizendo. Que sigas a minha sugestão em relação ao não informar a Sociedade, e que me expliques se estas…instruções, seriam valiosas para alguém.

- Chantagem, Emma Hortense? - Emma acreditava genuinamente que a caseira se preparava para lhe fazer o mesmo que fizera ao infeliz com quem discutira na esquadra. Tratamento por nome completo, ou mesmo apenas por nome, tendia a prenunciar desgraça quando saído da boca dela. Excepto para Amelie, aparentemente. Todavia, em vez de a desancar, Bertha apenas esboçou um sorriso carregado de fadiga. - Eu não os avisarei se é tão importante para ti. E elas são valiosas, não duvides, ainda que me espante que o Creaturarum tenha interesse nelas. Estou honestamente perplexa por as quererem, quase tanto como estou com saberem da sua existência. Ninguém além de nós os quatro conhecia…

- Bertha? - Emma resistiu à tentação de sacudir uma mão em frente à cara dela, embora fosse quase certo que a outra não lhe fosse ligar ou sequer aperceber-se de que estava a fazê-lo. Ela reconhecia a expressão que se entranhara nas suas feições, ainda que fosse raro Bertha ter razões para fazer uso dela, e esta era uma de realização. - Por favor, concentra-te. Com “os quatro”, referes-te a ti, ao meu pai, tio e mãe, presumo? - A última opção foi acrescentada tentativamente, mas um aceno confirmou a sua suposição. - Duvido que qualquer um deles tenha tido contacto com terroristas, mas mencionaste que eles haviam confiado na pessoa errada. Poderia essa pessoa tê-lo, ou ser o nosso invasor?

- Ser o invasor, nunca. Comunicar com o Creaturarum, possivelmente. - Bertha passou uma mão pelo cabelo e olhou dela para o cofre. - Talvez seja conveniente guardá-los num lugar menos óbvio.

- Há suficiente papel e apontamentos na cave para que possam passar despercebidos entre eles.

- Encarrega-te então disso, moça. Eu vou precisar de sair durante algumas horas.

- Posso atrever-me a perguntar onde vais? - A caseira parou de andar para a porta e fez uma careta.

- Conferir algumas coisas. Comporta-te, não te preocupes e sê simpática para com a tua prima.

Emma suspirou. Uma dessas recomendações seria extremamente difícil de colocar em prática.


O homem das luvas abre os olhos, cerra-os quando a claridade diurna os morde e vira-se para o lado com um ronco. Que se encontra mais confortável do que estivera antes é um facto que ele não falha em interiorizar. Entre as pistas mais flagrantes encontra-se a conspícua ausência das correntes, maquinaria destinada a infligir agonia e sacana sádico disposto a utilizá-la nele. Atrever-se a abrir os olhos novamente revela-lhe que em vez de na cave ou tanque no qual anteriormente se encontrara, ele foi misteriosamente transportado para um quarto sobriamente mobilado, cuja peça central é a cama de dossel na qual acaba de acordar. A parte dele que suspeita de coisas que fazem “bump” no escuro e tem faro de perdigueiro para situações questionáveis incentiva-o a tentar escapar daquela segurança enganadora o mais rapidamente possível. A parte dele que ainda está a recuperar da sessão de tortura persuade-o a embrulhar-se melhor nos cobertores.

- Ainda deitado? - O homem das luvas estivera prestes a adormecer novamente, mas senta-se direito como uma trave ao escutar aquela voz. Com uma incredulidade e ânsia quase tresloucadas, ele olha em redor e detém-se na figura que ocupa o umbral de uma porta que não existia segundos antes.

- … - faz ele, pontapeando as cobertas para o lado e saindo da cama aos tropeções. - Mar…

- Shhhh. - Maraura, a sua memória ou o seu fantasma, dá um passo para dentro do quarto e abeira-se dele, tomando-lhe a mão e levando-a aos lábios com um sorriso matreiro. - Não fales. Apenas vem.

Ele segue-a, esforçando-se para se sentir menos desnorteado mas sem muito sucesso.

Do outro lado da porta o ar é quente e sufocante. Não muito surpreendente, visto que o espaço se encontra iluminado por o que lhe parece ser uma centena de tochas acesas. Ele desaperta os botões do colarinho e despe o casaco, pondo-o sobre o ombro enquanto observa o que tem à frente. Maraura adianta-se-lhe e apoia-se na parede para descalçar os sapatos, indo de seguida até à água e testando a sua temperatura com a ponta do pé. Ele tira as botas também e junta-se a ela na borda da piscina.

- Não me recordo de alguma vez ter cá estado - comenta ele. Maraura ri-se. Mesmo sabendo que há riscos em interagir com os fantasmas presos dentro dele, o homem das luvas sorri-lhe de volta. - Mas sendo a alternativa descobrir a função de todas aquelas máquinas e eléctrodos…

- Tu estás seguro, aqui. Comigo. - Maraura vira-se e puxa a túnica que veste por cima da cabeça. Não há nada por baixo, e o homem das luvas decide que precisa de ter algumas palavras firmes com o seu subconsciente. Ela atira o cabelo para trás das costas, junta as mãos acima da cabeça e desaparece nas águas azul-turquesa. Ele vê-a tornar a emergir metros à frente, acenar-lhe e deitar-se de costas, ficando a boiar preguiçosamente. Um hesitante momento mais tarde, ele está a deslocar-se pela borda de seixos até ao lado da piscina mais próximo dela.

- Tu és um produto da minha imaginação.

- Sim. E? - Pelo menos a sua memória guardou uma cópia relativamente fiel do carácter dela, algo de que as suas anteriores atitudes sugestivas o haviam feito duvidar. Aquele é o género de réplica que a verdadeira Maraura daria. Curta, com um toque de provocação e sem rodeios. É agradável saber que a nostalgia não lhe deturpou as recordações e a saudade não as abrilhantou, mas isso torna aquela situação ainda mais complicada do que ele contara. - Não preferes ter a minha companhia?

- Sinceramente, preferia estar desperto. O sacana pode decidir desmontar-me enquanto conversámos.

- Ele não irá desmontar-te. - Maraura nada até ele e apoia as mãos na borda da piscina, e o queixo entre elas. - Tens informação que ele quer. Informação que te manterá vivo enquanto não a obtiver.

- O tanas, que tenho. Eu dir-lhe-ia a que vim, mas receio que o ridículo da questão vá desapontá-lo.
- Explica - pede ela. O homem das luvas semicerra os olhos. Suspeitas invadem a sua mente, para serem esmagadas quando o seu olhar se cruza com o dela e ela baixa a voz. - Por favor?

- Se és uma criação do meu subconsciente, não devias já saber o que se passa?

- Sim. Mas se não fingir o contrário ficaremos sem tema de conversa, não é assim?

- Faz sentido - admite ele. - Eu estava a passear e tropecei num terrorista. Por pura coincidência, quer acredites quer não, e não posso dizer ter ficado muito feliz da vida por me ter deparado com ele.

- Então porque estás aqui? - pergunta ela, enrugando a testa. O homem das luvas solta um dramático suspiro. Cem anos e a morte a separá-los, e a prioridade dela continua a ser saber no que ele anda metido, ao invés de…bem, ele. Se não a conhecesse, tê-lo-ia julgado motivo para desanimar.

- Harold - diz ele, e espera por reconhecimento, choque. Ténue curiosidade é o que recebe. - Ele…o homem foi assassinado. Encontrei-o apodrecido até ao aço quando o visitei para o consultar sobre um caso no qual estava a trabalhar. Antes disso tinha-o contactado por carta, mas a resposta que recebi foi…suspeita. - Por ter sido a mão do assassino e não a do seu criador a escrevê-la, sabe ele agora. Um ano passara, dezenas de pessoas haviam-se correspondido com um corpo, e ninguém além dele dera pela diferença. - Eu estou aqui para investigar o caso. O Creaturarum foi uma surpresa.

- O assassino encontra-se em Cráduma?

- Não. - O homem das luvas pousa os cotovelos sobre a borda e sacode a cabeça. - Outros estão a tentar localizá-la. Os meios de que disponho não se comparam aos deles, e não me iludo quanto a ser capaz de a encontrar sozinho. Não deverá demorar até que o façam, em todo o caso. E enquanto isso, eu procurarei a verdade. As cartas, as últimas cartas que estamos seguros de terem sido escritas por Harold, falavam de um projecto. Algo grande. Depois do Êxodo e das proibições, o homem manteve-se quieto, ou tão quieto quanto seria de esperar que se fosse manter. Tirando alguns Relógios Eternos ilegais e construídos com alterações não exactamente destinadas ao cultivo de algodão, ele nunca tentou voar demasiado perto do sol. Não na medida em que fazê-lo era criminoso. Mas a possibilidade disso se ter alterado, e o seu misterioso projecto ter relação com a sua morte, não é de se desprezar.

- Então…- Ela morde o lábio inferior e afasta do rosto a sua cortina de cabelo vermelho. - É verdade que tu não estás aqui pelo Creaturarum. Que ignoravas a presença deles antes de tudo isto.

- Não foi isso o que acabei de te dizer? - O homem das luvas fita-a, demoradamente. Então, com um súbito entendimento a atingi-lo com a força de uma parede de tijolo na cara, ele afasta-se dela.

- Vês como é tão mais fácil colaborar? - cantarola a mulher que não é Maraura, ou a sua memória dela, ou uma mulher de todo. Transido de horror e incapaz de lhe dar uma réplica coerente, o homem das luvas vê o rosto dela desfocar-se e tornar a focar-se, e as suas feições mudar enquanto isso.

- Então - disse o General, quando a realidade se reestabeleceu e ele conseguiu ver claramente onde estava e com quem interagia. O sujeito sentara-se sobre uma das traves de aço, defronte dele e da máquina à qual ele fora ligado. Luzes vermelhas brilhavam agressivamente de ambos os lados dela, e curvas assimétricas enchiam o seu ecrã. O homem das luvas tentou concentrar-se, furiosamente e em desespero, nas fundações sobre os quais a sua identidade assentava. Foi com um alívio inadequado às circunstâncias que ele verificou que não se encontrava nem mais nem menos predisposto para dar a vida pelos Criadores que o normal, que continuava a julgar o seu captor um gigantesco escroto, e a sua tendência para gracejar face ao perigo se mantinha intacta. - Houve aqui um mal-entendido.

- Sabes - cuspiu ele, lançando à máquina um olhar sujo e visgolho - se tinhas um modificador à mão, existiam maneiras menos elaboradas de me arrancares do que querias, e que não envolviam fazer de mulher. A não ser que haja qualquer coisa que não me estejas a dizer…- A bofetada que recebeu fê-lo ver estrelas, mas não foi de todo inesperada. - Outch. Mas nós estamos sensíveis, não estamos?

- Uma mulher? - perguntou o outro distraidamente. O homem das luvas seguiu os seus movimentos, e teria empalidecido ao ver o revólver que este retirou de dentro do casaco se fosse capaz disso. - Bem, é um facto que o objectivo é apresentar-te o que mais facilmente te faz falar. Suponho que não deveria estar demasiado surpreso por ter sido essa a tua fraqueza. Uma genérica, ou alguém que conheces?

- Estou a falhar em ver como é que isso é da tua conta.

- Não é. Estou apenas a tentar ser civilizado. Mas visto que não te sentes inclinado a corresponder…

A voltagem da corrente que passou através dele fez com que o homem das luvas rangesse os dentes até sentir que estes se iriam partir. Ele sabia que o General sorria, e amaldiçoou-o entre gritos. Não fora sua intenção fazer tanto barulho, mas ele desafiava qualquer outro a mostrar-se estóico em idêntica situação. Todos no Creaturarum sofriam de várias estirpes de loucura, e todos eram tão fanaticamente dedicados à sua missão como convinha que fanáticos fossem, mas o agente mediano não encarava a provocação de dor como mais que uma tarefa. O mesmo não podia ser dito do outro. Quando este pressionou o interruptor para desligar a corrente, os seus gestos foram demasiadamente relutantes para não darem a impressão de que desejava continuar até o deixar estaladiço.

- Acena quando te encontrares mais recomposto. - O homem das luvas rezingou algo cujo significado nem ele próprio entendia, levando o General a sacudir a cabeça e rir-se roucamente. - Estou a tentar decidir o que fazer contigo. Contrariamente às tuas crenças, a nossa organização não é inteiramente desprovida de escrúpulos. E visto que foi um acaso que te trouxe até nós…considerarias alistar-te?

Durante um longo minuto, o homem das luvas só o conseguiu fitar incredulamente.

- Sim - acabou ele por dizer. - Porque isso seria credível, não seria? Eu. A aceitar juntar-me a vocês.

- Por mais espantoso que soe, já me deparei com candidatos mais obstinados. Na minha experiência, qualquer vontade pode ser dobrada com a tecnologia certa. - O homem das luvas seguiu o olhar dele, ou o movimento da cabeça dele, não que lhe custasse compreender onde o outro pretendia chegar. A sua carreira de eleição assegurara que ele possuía um conhecimento aprofundado das consequências de ter o seu código modificado. Ele perdera a conta de quantas máquinas como aquela que via tinha confiscado nos cinquenta anos desde a sua invenção. Posse e fabrico de modificadores era algo que havia sido declarado proibido quase imediatamente após a sua existência se tornar pública, e por bons motivos. Modificadores alteravam como Relógios funcionavam. Mesmo ignorando o facto de ninguém ter direito a ter esse tipo de poder sobre outra pessoa, o potencial para abuso era demasiado grande.

- Sem ofensa, - disse ele, no tom mais ofensivo que conseguiu - mas eu prefiro morrer.

- Como entenderes – respondeu o General, e levantou o revólver, e despejou-lhe o tambor no peito.


Quando Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco tinha cinco anos, o seu pai caíra do seu cavalo favorito e quebrara o pescoço. A sua mãe vestira-se de luto e levara-a ao funeral, que em abono da verdade mais se havia assemelhado a uma procissão, e enfiara-lhe nas mãos um ramalhete de papoilas, com instruções para as pousar sobre o caixão quando fossem a descê-lo à terra. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco assim fizera, e observara a grande arca de madeira ser engolida pelo chão sem entender muito do que se passava, nem por que motivo todos à sua volta tinham os olhos marejados de lágrimas. Ela tentara puxar a sua mãe pela manga e questionar quanto mais tempo seria preciso ficar à chuva, mas esta ignorara-a categoricamente. Uma das suas tias dera-lhe um doce e dissera-lhe para ter respeito.

No ano seguinte, ela havia sido mandada para um colégio interno, como era norma para filhas de boas famílias. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco recordava-se de encarar a fachada da muito ilustre Academia Abaroncy com um misto de excitação e temor, e da confusão que sentira quando depois de se ter lacrimosamente despedido da sua mãe ao portão, ela havia sido encaminhada para um dirigível e largada em frente de outro edifício, um com muralhas a toda a volta e nenhuma identificação no seu exterior. A verdadeira Abaroncy, havia-lhe chamado o seu primeiro instrutor de curso. Onde verdades eram ensinadas e os soldados da guerra-que-viria eram preparados para lutar pelo lado certo.

Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco começava a duvidar que viveria para ver esse dia.

- Penso que irei gostar de o fazer, sabes? - disse o agente junto à borda do tanque de fundição, cujo número era Sessenta-e-Três Noventa-e-Um. O outro, o que vigiava a escada de acesso à plataforma, era Trinta-e-Um Setenta. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco esforçava-se para os ignorar, e concentrava os seus esforços em raspar o chão com o calcanhar do sapato, mas o duo parecia determinado a frustrar-lhe os intentos. - Vocês, os com identidades públicas, recebem vantagens demais. Erros que fariam outro qualquer ser executado de pronto são ignorados porque eliminar-vos é uma complicação. Pensa nisso e dá graças à tua sorte, querida. Porque quando o General der o comando, o tempo extra que te foi dado será cobrado com força. Mas é claro, podes suplicar para seres tratada gentilmente. É possível que convenças o bastante para sermos generosos, se colocares alma na actuação.

- Ele irá querer lidar com ela sozinho, parece-me - disse Trinta-e-Um Setenta. - Viste como ele estava furioso? Não acredito que vás conseguir uma saída fácil nem pedindo de joelhos, estás a ouvir-me?

Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco estreitou os olhos e absteve-se de replicar. Eles tinham alguma razão. Executá-la pelo seu falhanço seria problemático. Por esse motivo ela pedira autorização para regressar a casa e reunir os seus pertences, desarmar o seu quarto e deixar sobre a cama um bilhete escrito em caligrafia tremelicante, onde informava quem quer que investigasse o seu desaparecimento de que fugira para as Américas com a finalidade de encontrar um amante fictício. Tratava-se de uma das primeiras lições que lhe haviam sido ensinadas em Abaroncy: como limpar o seu rasto de maneira a não ser uma complicação e um fardo para o Creaturarum, fossem quais fossem as circunstâncias.

- Tu és simples, rapariga? Retardada, ou algo assim? - atirou-lhe Sessenta-e-Três Noventa-e-Um, ao perceber que ela não pretendia dispensar-lhes um segundo do seu tempo. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco continuou calada e deixou-os pensar o que entendessem. Implorar não fazia parte do plano.

Enquanto os seus colegas trocavam olhares, tendo aparentemente decidido que ela realmente não tinha a capacidade intelectual necessária para responder a perguntas elementares, ela examinou-os. Eles não agiam como se fossem demasiado próximos, apenas como gente a quem ter um alvo em comum aproximava. Bom. Conferindo que não era observada com demasiada atenção, ela pressionou o calcanhar contra o cimento. Sem ruído, quatro centímetros de lâmina de aço saltaram para fora da sola e foram engolidos pela borracha quando pressão tornou a ser exercida. Razoavelmente satisfeita, Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco retomou a espera. Ela não considerou fugir. Correr com o intento de se manter em vida era cobardia, e a sua inutilidade podia ser um facto, mas a sua lealdade era total.

O General apareceu minutos mais tarde. A corda pela qual este trepou para sair do tanque de fundição foi recolhida e enrolada. Não havia como ler-lhe a expressão e não havia como adivinhar que pensamentos lhe preenchiam o espírito. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco decidiu não assumir que eles a favoreceriam. Enquanto os dois agentes recuavam, ela avançou. Tiquetaquetiquetaque, fez o seu Relógio, recordando-a do porquê de ser certo e justo que ele fosse ser parado caso ela falhasse.

- Nós o Creaturarum temos pouca história da qual nos gabar, é certo - começou o General - mas julgo, não, estou convicto de que ainda que a nossa organização sobreviva durante décadas e séculos mais, dificilmente recrutaremos um agente mais incompetente que tu, Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco.

Ela anuiu modestamente. Os outros dois agentes riram como hienas embriagadas.

- Não fosse por eu ter interferido, não fosse eu por coincidência me encontrar na área quando emitiste o pedido de socorro, a Coroa ter-se-ia posto a par da nossa presença. Não só conseguiste falhar em recuperar as instruções, como colocaste em causa a nossa segurança. Estou tentado a ordenar a tua execução imediata, mas depois de exposição prolongada àquele empecilho de lei e ao seu deplorável sentido de humor, preciso de algum entretenimento. Portanto, agente…explica-te.

Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco explicou-se, cuidadosamente mas sem suceder em impedir-se de gaguejar. Dificuldades de fala com causas físicas não eram corrigíveis através de modificações no Relógio, ou já se teria livrado do maçador impedimento há anos. Um dos seus colegas recrutas tivera a falta de discernimento de treinar nela com uma faca que não havia sido devidamente embotada. Ela fizera mais que cortar de raspão quando ajustara contas com o cretino, mas o estrago já estivera feito.

- Para abreviar, então - disse o General, quando ela enfim se calou. - Tu és sem sombra de dúvida um falhanço total. Anos de preparação, e civis com urnas e frigideiras sucederam em derrubar-te.

- T…alhões - gaguejou ela, suando por todos os poros. - Foram talhões, meu senhor General.

Este puxou os óculos de protecção um pouco para baixo e massajou a testa.

- Abatam-na e mandem-na fazer companhia ao lei. - Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco deixou os ombros descair e inalou. Os seus ouvidos estavam cheios do tiquetaque vindo de trás, a sua mente de tumulto e aflição. Quando o General voltou a falar ela quase gritou de alívio. - Apenas uma coisa mais, agente. Julgo que não chegaste a referir os nomes dos inconvenientes que estão na posse dos planos.

- Eu…oh. - Ela deu-lhos com relutância, sentindo a esperança esvair-se dela como ar de um balão.

- Estou a ver - disse ele. Ela soube, imediatamente e com uma clareza tão glacial quanto a da sua voz, que falar fora um erro. O General avançou sobre ela. Embora todos os seus instintos de sobrevivência lhe gritassem que recuar e baixar a cabeça eram as últimas iniciativas que era sensato tomar, Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco deu por si a dar um passo para trás e a cruzar os braços em frente ao peito, protectoramente. Ele deteve-se a escassos centímetros dela. Um subtil movimento de queixo da sua parte deu-lhe a saber que ele a analisava de cima a baixo. - Isso explica como uma agente treinada foi facilmente incapacitada. A mulher Wallace foi quem te apresentou maiores problemas, correcto?

- Co…correcto - gaguejou ela, por uma vez alegrando-se por a constância das suas hesitações ocultar que aquela se devia ao facto de estar a mentir. Encobrir informação. Essa seria uma melhor palavra, e Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco deu graças silenciosas por ter sido vaga a respeito de quem a atacara com o quê. Revelar que enfrentara resistência tão ou mais feroz da parte de quem não era veterano ou nada que se associasse não a pintaria de respeitáveis cores. Para mais, ela sentia dificuldade em discutir gente tão intrinsecamente ligada à sua outra vida. Acenar e manter silêncio era preferível.

Inesperadamente, chocantemente, um punho chocou com o rosto dela e colocou-lhe os óculos de banda. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco levou a mão à bochecha direita, muda de surpresa e medo.

- Há cerca de cinco mil pessoas nesta cidade, agente. - O rancor na voz do General era cru, corrosivo. Ela recuou aos tropeções, completamente esquecida de códigos de conduta e senso comum. - Cinco mil. E tu deixaste as instruções com as únicas de entre elas capazes de entender a sua importância.

- L…lamento.

- Começo a fartar-me de ouvir essa palavra sair da tua boca. - Ele afastou-se, fez um gesto indolente na direcção dos outros dois agentes e virou-lhe as costas. - Despachem-se.

Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco retesou-se, tensa, ao mesmo tempo que os seus pés rodavam até as suas botas se tocarem, calcanhar com calcanhar, e um bafo quente lhe acariciava o pescoço. O agente atrás dela, qual deles era irrelevante, soltou uma gargalhada baixa e substituiu o ar cálido pelo frio do cano de uma arma. Ela sentiu a pressão de molas a saltar sob as suas botas e separou-as na segunda posição que aprendera nas longínquas e semiesquecidas lições de ballet, que a sua mãe a forçara a frequentar num Verão de há anos atrás, por julgar que danças clássicas seriam um exercício apropriado à dama na qual esta a estava a tentar converter. Os lábios dela curvaram-se num sorriso à ideia de como a sua estimada mamã reagiria se a visse naquele momento.

- Alguma razão para esse sorriso? - inquiriu o General. Ela pensou, fugazmente, como ele o vira com o tecido a cobrir-lhe o rosto e não estando sequer virado para ela. Porém, existiam assuntos mais fatais a requisitar a sua atenção. Ela pressionou o calcanhar para baixo. - E eu disse para se despacharem.

- Sempre às ordens, meu senhor General. - Trinta-e-Um Setenta, pensou ela, sentindo um aumento de pressão na base do seu pescoço e lamentando. Sessenta-e-Três Noventa-e-Um teria sido muito mais satisfatório. Silenciosamente, uma lâmina deslizou para fora da sua sola. - Últimas palavras, falhada?

- Tu és lento - disse ela, rolando os olhos interiormente e mal acreditando que ele realmente colocara aquela questão. Tratava-se de uma das coisas que era apontada a novos recrutas ser suicídio dizer. A respiração do outro acelerou um pouco. Ela terminou num jorro asfixiado. - Tuésestúpidotuestásmorto!

Bam! - soou o tiro, falhando a sua orelha por centímetros quando ela desviou a cabeça. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco constatou com horror que esta havia ido direita ao General. Decidindo que conferir se este se encontrava ferido ou, ainda mais horrendo pensamento, morto, podia esperar uns segundos mais, ela atirou a perna para trás num arabesco. Trinta-e-Um Setenta começou a dizer qualquer coisa, mas calou-se de repente. Ter as cordas vocais abertas para o mundo ver tendia a ter esse efeito.

A voz do General flutuou até ela, soando, de entre todas as coisas, indiferente.

- E o objectivo disso foi? - Ela desviou o olhar do monte de músculo e carne ossos tombado no chão com a jugular e laringe cortados transversalmente. Engolindo em seco e obrigando-se a encará-lo, ou aos seus óculos, como era o caso, a agente recolheu a lâmina e pontapeou o morto.

- Eu…- Não. Ela não podia hesitar, não agora. - Eu não sou uma falhada. Ele é.

- E? - Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco cerrou os punhos com tanta força que quase os sentiu amolgar. Trinta-e-Um Setenta devia ter andado na casa dos trinta. Se ele se juntara ao Creaturarum no seu ano de fundação, isso significava que tivera uma década de treinos como vantagem sobre ela. Todavia, ele estava morto e ela viva. Era indispensável agir como se isso não se devesse a um golpe de sorte.

- Eu sou…melhor do que ele, também. - Ela gesticulou para o agente atrás dela, que emitiu um ruído de escárnio, e fechou os olhos momentaneamente. Gira, gira, roda da fortuna. - Eu...posso prová-lo.

- Isso não será necessário - murmurou o General, fazendo um sinal a Sessenta-e-Três Noventa-e-Um. Ela conseguia sentir o olhar deste queimá-la mesmo através dos óculos. - Atira-o para a fornalha e liga o fogo. Quanto a ti…- A agente esforçou-se por se manter imóvel quando ele a interpelou, mas o seu Relógio estava a soar desregulado. Era impossível que ele não tivesse ainda dado por isso. -…estou a ter dificuldade em decidir o que fazer contigo. Por um lado, este é o teu segundo fracasso da semana. Por outro, não há suficientes agentes estacionados aqui para me poder dar ao luxo de os desperdiçar contigo. É claro que se te desse ordens para não resistir…mas não. Se nada mais, tu entreténs-me.

Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco sabia o que aquela expressão significava, mas ela não sabia o que aquela expressão significava. Presa na sua incerteza, ela demorou a reagir quando ele se abeirou dela e lhe tomou o rosto nas mãos, forçando-a a fitá-lo. Embora duas camadas de tecido separassem a sua pele da dele, ela sentiu uma corrente eléctrica passar-lhe pescoço abaixo e tornar hirtos os seus ombros. Impossivelmente, ela julgou ver um clarão de expressão nas lentes que lhe cobriam os olhos.

- Desaparece. - Ele largou-a, bruscamente. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco foi também bruscamente recordada da sua bochecha tornada vermelha pela pancada, das nódoas e equimoses na sua testa e ombros. Ela tropeçou para trás e aterrou sobre as mãos. Não fossem elas de metal, ter-se-iam aberto até correr sangue. Ainda assim, ela levou-as ao peito e embalou-as enquanto ele observava.

- A…a missão. Eu nunca cheguei a comple…completá-la. - gaguejou ela, ciente de que se fosse mais inteligente, faria uso da aparente bipolaridade do General se encontrar em seu favor para se retirar da presença dele. No entanto, ela era do Creaturarum. Cumprir o seu dever sobrepunha-se a sobreviver.

- De facto - replicou ele. - Mas agora que os deixaste de sobreaviso, receio que esta missão se tenha tornado acima do teu nível. Suspeito que é chegada a hora de a deixar em…mãos mais capazes.


Técnica e teoricamente, os trabalhos começariam só segunda-feira de manhã.

O primeiro andar do Ómicron encontrava-se deserto e quieto como um túmulo. Era possível escutar-se um leve rumorejar de motores e condensadores, e outros ores que tais, a operar no piso subterrâneo, mas onde Dorien andava, os seus passos eram o único ruído a quebrar o silêncio. Há três horas atrás, ela enfiara Clariane, as cerca de trezentas malas de Clariane e a rebeldia e o mau humor de Clariane num jacto para Mare Frigoris. Dorien tinha sentimentos ambivalentes em relação a isso. Por um lado, uma temporada na quinta podia ser exactamente o que Clariane carecia, e sarar a sua desagradável atitude. Por outro, Franklin e Vivian tinham a casa cheia de guitarras.

Dorien passou um dedo pelas pálpebras. Ela estava predisposta a passar o fim-de-semana na sua totalidade a trabalhar dados, mas suspeitava que falharia redondamente a não ser que primeiro se abastecesse de café. A cantina onde podia adquiri-lo ficava do outro lado do complexo, e encontrava-se vazia, como seria de se prever. Ela dirigiu-se à máquina de café do canto, que nunca produzia uma chávena tão forte como precisava, colocou numa travessa tantas chávenas e pacotes de adoçante quanto esta podia carregar, e regressou ao corredor. Por detrás das portas fechadas pelas quais passou havia gabinetes ensanduichados entre gabinetes iluminados com lâmpadas fluorescentes, de uma brancura integral e imaculado asseio, onde a única cor presente era o prateado dos instrumentos.

Dorien entrou no elevador, apoiou o tabuleiro no joelho para carregar no botão sem que o seu conteúdo se derramasse, e observou o chão afastar-se através do vidro transparente. Para o projecto que cabia a ela fazer sair do chão, o Ómicron dispensara um departamento inteiro, situado no último andar. Charles enviara-lhe o código de acesso, junto com uma observação de ser excelente que ela se estivesse a empenhar desde antes do início. Ela introduziu-o e observou as portas deslizar para o lado. Em vez de um corredor com portas, encontrou um espaço amplo, em que mesas e cadeiras se encontravam dispostas em espiral em redor de um ecrã gigante. Dorien ligou-o, seleccionou a sua foto de entre as dez que o preenchiam, e aguardou que a informação que lhe dizia respeito terminasse de carregar. A travessa, que ela pousara na mesa mais próxima antes de começar, foi sendo privada de chávenas cheias à medida que os olhos dela passavam sobre grelhas e documentos.

- Maiken, se tiveres um momento…- Dorien não guinchou, mas por pouco. Ela julgara-se sozinha. Ela também não tinha ideia de como era possível Mikail ter entrado, mas quando se virou, com um sorriso plastificado nos lábios, ele encontrava-se reclinado contra a porta do elevador. À pressa, ela fechou os ficheiros em que estivera a trabalhar e desligou o ecrã. - Isso. Esconde…seja lá o que for.

- Como é que conseguiste entrar, sequer? Este andar tem segurança de nível 3.

- Estás a brincar? Todo o Ómicron sabe que o código de acesso é gW5liz77.

- Por algum motivo, custa-me a crer que isso seja verdade.

- Um pequeno exagero, talvez. O Jack da Administração de Rede partilhou-a com os tipos do piso C, que lha pediram para terem onde realizar a festa de despedida do Dan Logan. - Ele riu-se, ignorando o ar chocado dela. - Bom velho Danny, sempre uma figura. Seja como for, a palavra foi passada e…

- Vocês são uns…oh não importa. - Dorien resolveu que a primeira coisa que faria assim que ele a deixasse a sós seria enviar ao Jack da Administração de Rede uma intimação de que ou o código seria alterado e mantido confidencial, para variar, ou o quadro directivo seria informado da sua falta de profissionalismo. - Não estás autorizado a estar aqui. Como soubeste que eu estava aqui, aliás?

- O teu nome estava no painel de entradas. Pensei em vir trazer-te combustível, mas vejo que já estás mais do que adequadamente servida. - Pela primeira vez, ela notou que ele também trazia consigo um tabuleiro, embora só duas chávenas o ocupassem. - Isso, e…desculpar-me por ontem. Novamente.

- Desculpas aceites. - Ela hesitou. - Embora não tencione libertar-te da tua promessa de um jantar.

- Mais café com o qual te envenenares não é uma oferenda à altura? - Dorien fuzilou-o com o olhar, deixando claro que detectara e registara a hipocrisia de ele condenar os seus hábitos de ingestão de líquidos. A sua mão começou a mover-se para uma das saquetas de açúcar sobre o tabuleiro. Ele deu pelo facto e apressou-se a levantar os braços. - Ei, tréguas! Eu sei qual de nós tem melhor pontaria, e nem todos têm o privilégio de uma educação supervisionada por um tirano megalomaníaco. O que me lembra…só tenho um quarto de hora até me chamarem à câmara de pressão, por isso vou manter as coisas breves. É sobre a tua transferência. Explicas-me que planeta acertou na cabeça do Charles?

- Tu sabes? Como descobriste que ele se encontra por detrás disso?

- O nosso longo historial de mútua detestação ensinou-me a reconhecer os sinais. - Ele interrompeu-se, coçou o queixo e adicionou: - Isso, e o Atilla contou ao meu pai, que por sua vez me contou a mim.

- Mais outro para quem “confidencialidade” nada significa - resmungou ela. O eminente Doutor Atilla era um dos dez cujas fotografias tinham antes preenchido o ecrã. Um génio na sua área, sem dúvida, mas a sua capacidade de manter os lábios selados deixava muito a desejar. - Não fazia ideia de que ele e o teu pai se conheciam. Quando é que falaste com ele?

- Há uma hora atrás, quando a Clar me ligou a contar daquilo que ela chama de exílio.

Ah. Clariane não perdera tempo, então.

- Espero que não tenha reclamado demasiado. Eu não poderei ficar com ela durante uns meses, e presumo que agora que estás sozinho à frente do nosso velho projecto e tens a preparação para a tua viagem a ocupar-te o resto do tempo, deixá-la contigo não é uma alternativa muito melhor. - Dorien fez um esforço para não deixar que o seu azedume lhe corroesse as palavras. Se dependesse dela, Mikail não teria essa outra obrigação, mas dissuadi-lo de embarcar na expedição à Terra era um trabalho em progresso. Depois de pausar e cimentar no seu espírito que ainda ia tempo de controlar essa crise, ela prosseguiu: - Sei que tínhamos combinado que quando as coisas acalmassem, iríamos esforçar-nos para passar mais tempo com a Clar, mas isto é importante, Lindsay. Embora já devas ter adivinhado isso pelo facto de eu não estar a arrancar cabelos e a gritar como uma possessa.

- Suponho que não adianta perguntar a razão de ele estar a interferir na tua carreira?

- Lamento, mas não. - Embora fosse agradável imaginar a reacção que receberia caso o informasse, no mais descontraído dos tons, de que se preparava para reconquistar o mundo, ela sabia manter um segredo. - Deverás saber quando regressares, seja como for. Então já deverá ser do domínio público.

- “Quando” eu regressar? Desististe de magicar formas para me reter aqui, ou estás apenas a tentar dar-me uma falsa sensação de segurança? - Dorien alcançou a chávena mais próxima e deu um gole, tranquila e inocentemente, para quase imediatamente contorcer o rosto numa careta. Ela esquecera-se de adicionar o açúcar. - Não é como se fosse ser a primeira vez. Sua víbora ardilosa, tu.

- Mais benefícios de ter tido, como foi que disseste? O privilégio de uma educação supervisionada por um tirano megalomaníaco. - Dorien interrompeu-se e pousou a chávena. - Estás livre amanhã à noite? Não me recordo de teres mencionado a que horas é o teu voo, e se nos pudermos encontrar antes…

- Irei passar o dia em Frigoris para me despedir da Clar, mas tenho de estar em Procellarum antes das dez da noite. Se não puderes tirar o dia para me acompanhar à quinta, podemos encontrar-nos lá.

- Centro espacial? - adivinhou ela. Ele anuiu. - Eu não posso tirar o dia. Trabalho, e tudo o mais.

- Sim, sim, o teu projecto mistério tem precedência. Evidentemente. Mas temos então encontro?

- Apesar de esse azedume não te ficar bem, sim, temos. - Dorien fez uma pausa passou em revista o que dissera. - Lindsay, alguma vez paraste para pensar que somos os piores divorciados de sempre?

- Blasfémias! - foi a dramática e exagerada resposta. - Depois de dois casamentos fracassados por os nossos temperamentos chocarem, seria de esperar que não nos falássemos de todo. E no entanto…

-…e no entanto, aqui estamos. A agir como se ainda fossemos casados. Foi isso o que eu quis dizer.

- Tens toda a razão! - Mikail levantou a mão e fechou-a numa bola, numa pose que seria ridícula ainda que o seu rosto não estivesse a contorcer-se de riso a custo contido. - Maiken, eu cometi um erro em separar-me de ti! Já não me importa que a tua obsessão por trabalho seja incompatível com a minha visão relaxada da vida! O registo civil é a cinco ruas daqui. Se corrermos, podemos apanhá-lo aberto!

- Está quieto, Lindsay - bufou ela. - Eu ainda não superei o facto de seres um irresponsável crónico…

- Oh, meu coração! Frias palavras que o cortam e fazem sangrar! A minha alma esvai-se em agonia!

-…e para que conste, fui eu quem se divorciou de ti da última vez. Melodrama não irá demover-me.

- Desenvolveste imunidade a melodrama de qualidade? Mas tu costumavas adorar isso!

- Quando tinha vinte anos, sim. Pode ter-te escapado que algum tempo passou desde então.

- Não escapou, acredita. Mas…quase trinta anos, e ainda nos suportámos. Isso é algo.

- Porque tu tens uma sorte imensa em eu não ter demasiados problemas com seres irritante. - Mikail assentiu, nada excepto sério, e inclinou-se para ela. Dorien desviou a cara, mas não suficientemente rápido para evitar que os seus lábios lhe roçassem o canto da boca. - Piores. Divorciados. De sempre.

- Tens é uma sorte ainda maior em eu não ter problemas com estares sempre irritada. ‘noite, Maiken.

Ele retirou-se. Dorien sacudiu a cabeça, reacendeu o ecrã e continuou a planear genocídio.


Última edição por Moggo em Qua Set 12, 2012 1:20 pm, editado 2 vez(es)
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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Marfire em Sab Ago 11, 2012 11:12 pm

Hey! Há quanto tempo! Anyways (tenho de me despachar) é só para dizer que continuo a acompanhar a história e que talvez amanhã (ou talvez depois) passe cá para deixar uma review completa, porque o teu trabalho merece! Keep going :D
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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Dom Ago 12, 2012 1:32 am

Hey, Marfire! Bom que tenhas vindo cá marcar presença! (E obrigada!)

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Fox* em Sex Set 07, 2012 11:09 pm

Olá Moggo!

Hahahaha, eu mando teorias ao ar como quem manda moedas a um poço dos desejos: sem fundo de verdade e apenas porque leu uma ou outra palavra inteligente! Portanto, não precisas de spoilar porque eu prefiro mil vezes as expressões que vou fazendo enquanto leio coisas que não estava à espera!
Mesmo com toda essa desorganização e sistemas políticos independentes, consegues criar um Mundo bastante correto e coerente, com história e acontecimentos e etc! Eu tenho de usar o que já temos ou perder-me-ia muito facilmente! Por isso gosto de ler as tuas fics :D
Oh, eu gostava de ver, com informação ou não! Ele lembra-me o Hannibal Lecter porque é genialmente demente e as suas ações fazem sentido num cenário maior! Ele lá acha que precisa da filha naquele projeto e arranja maneira de a por lá!
Sim, eu gosto dele! Louco ou não :D
Oh, eu não sei tirar conclusões! Neste capítulo, tenho umas quantas opiniões sobre a Amelie e fazem ainda mais sentido se me disseres que há alguém que já esteve envolvido com ela... Uma experiência? OMG, estou perdida! Ongawdno
Eu continuo a achar fenomenal a forma, não só como ela fala, mas age! Também não conheço ninguém igual a esta personagem (no sentido total da palavra), apesar de também eu andar por aí aos trambolhões, mas as coisas tão descabidas que ela faz realmente fazem sentido nela. Se eu vir alguém a fazer algo sem qualquer nexo, vou lembrar-me dela porque é normal!
E bom saber que ela vai aderir ao blingue e à aglutinação de palavras (seria interessante entre tantos trambolhões e chapéus de culinária :D)!
Hahahah, fizeste simpatizar, sim! E acho que a Dorien é o exemplo máximo do que o ser humano pode ser (com excepção da maternidade): Focada num objetivo, letal mas estranhamente adorável!
E, agora que falas nisso, tem sentido o Inception aqui! Faltou-me só uma luta num elevador ou o Tom Hardy a mudar de forma, mas ficou parecido!
E agora vejo que tu não deves gostar muito do HDL ou ele não andava aí nessa montanha-russa emocional entre torturas, perdas de grandes amores e terroristas como anda! No entanto, o bónus do humor sarcástico consegue cobrir grande parte da personalidade rancorosa dele (eu percebi que o sentido de humor é uma consequência desta mesma personalidade mas acho que me expliquei bem... o.O?).
Hahahah, eu nunca cheguei ao limite de texto, nem sabia que existia! Bom saber que o fórum quer limitar a imaginação mas teve um bom timming com a frase final!

Capítulo:
Oh… A Emma nem sequer quis opinar quanto ao seu vestido de noiva? A sério? Isso é tão esquisito e fora do contexto! Ok, eu devia habituar-me ao facto de ela não gostar de preparativos e festas e de que o casamento para si é tão ou mais importante como uma ida à mercearia ou ao mercado mas still… É preciso ser-se muito fria e controlada para fazer isso. Eu gosto da Emma mas aquela rigidez toda é esquisita. Se ela fosse um humano qualquer, diria que tinha cometido um qualquer erro irracional no passado e agora tentava dominar-se assim mas, tendo em conta as circunstâncias, não sei mesmo o que dizer… Isto não é normal!

Mas a Bertha eu gosto! Aquela personalidade superativa e espevitada diverte-me! A forma como ela entrou em casa, completamente possessa, a falar ininterruptamente (Deus, eu quero aquele fôlego) sobre a inércia da polícia e os pobres dos primos-e-cunhados-que-têm-de-devolver-uma-coisa-que-não-lhes-pertence divertiu-me imenso! Podia ouvir uma voz a falar exatamente como ela falou, exasperada e exaltada, pronta a destruir a casa!
E parece que estás a descrever a minha aldeia quando a Emma disse para guardar segredo e tudo se saberia ao fim da tarde... Muito bem :D!

Não tenho unhas. E isto é pertinente porque? Roí-as enquanto tentava perceber o que nos estavas a esconder! E como é que a Emma aceita assim que a Bertha trata-se desses papéis mantendo-a na penumbra?! E manter-nos a nós nesse mesmo estado!
Oh, nem consigo imaginar o que possa estar aí a vir, ao ponto de conseguir assustar assim a Bertha... Será que tem a ver com a Amelie e com aquele problema que tem no peito com o Relógio?
Até a Caseira se apercebeu do quão estranhas são as atitudes dela, tal como as quedas...
Como a miúda tem tendência a mostrar-se violenta, aposto (não ao ponto de queimar as mãos, mas as pontas dos dedos - não muito, preciso de teclar!) que os terroristas a querem para... Armarem confusão? :D
Não sei porque seria, mas é a minha teoria! Dá-me mais tempo e apareço com uma mais elaborada xD
E pergunto-me qual das recomendações seria difícil de cumprir pela Emma... Qualquer delas me parece demais neste momento para a pobre da moça!

Sabes, eu preferia que o HDL não tivesse morrido... Se bem que ainda não tenho a certeza que esteja morto, o bicho é bem duro de morrer e não iria para a cova (ou o semelhante na Terra dos Relógios) apenas com umas balas no peito, so...
Mas a técnica usada para lhe extrair informação... Bastante inteligente! Não estava à espera que se infiltrassem no seu subconsciente e que soubessem tanto sobre ele mas nada como umas boas voltas num compartimento de tortura para a informação sair...
E cada vez me convenço mais que a Amelie tem a ver com isto! O pai poderia ter andado a fazer experiências no mecanismo da rapariga ou ela própria pode ser uma experiência!
Estou perdida! Quase tanto como o pobre Homem de peito aberto!

Para terrorista sangrenta e pronta a abrir cabeças, 2655 (não me apetece escrever :D) tem uma personalidade interessante! O momento em que ela se decide revoltar e provar que não é assim tão fraca e que realmente é fiel ao bando de desmiolados a que pertence foi bastante interessante de ler! E o General...
Bom descobrir que a bipolaridade e esquizofrenia não são exclusivos do sangue a bombear! Aquele homem é tão imprevisível como mortífero e algo me diz que vai ser ele em carne e óleo (eles usam óleo?) a ir buscar os papéis...
Me is curious! Onevilsmile

E o meu ataque de "OHHHHH" em ver os humanos aqui! A sério, mesmo na lua, coma a cabeça apenas localizada em mortes e dor e cafés sem açúcar, eu gosto da nossa raça!
E dos piores divorciados de sempre! Divertidos e tão diferentes que só me conseguem lembrar aquele ditado do "opostos atraem-se"!
E cada vez gosto mais das opiniões do Mikail sobre o pai da Dorien porque são semelhantes às minhas! E eu não o conheço tão bem como ele (já comecei a falar com, das e pelas personagens, maravilha :D) mas também não é preciso anos para perceber que o significado de paranóia foi levado a um novo patamar naquele homem! No entanto, e ao contrário do ex-ainda-genro, eu acho o Charles fantástico! Louco mas eu dou-me bem com loucura (por enquanto...)
E também eu estou pronta para o genocídio... Se bem que gosto de ambas as raças :D!

Bem, Moggo, I'm done for today!

PS: Eu escrevo comentários maiores que capítulos para as minhas fics...
Not creepy at all!

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Seg Set 10, 2012 4:42 pm

De onde é que tiraste essa ideia? Não é nada creepy, mulher. (Embora isso não queira dizer muito vindo de mim, já que também sou uma testamenteira confessa e orgulhosa.) E o teu comentário veio mesmo a propósito para me lembrar de que ainda preciso de actualizar isto, já que nem sequer tenho metido os pés no fórum há uma semana e tal (*cofcof*) (sou uma péssima, péssima mod *shames*) e pronto, o alerta na caixa de entrada arrastou-me de volta. Deixa-me ver se consigo responder a todos os pontos do teu comentário gigante sem quebrar o recém-descoberto limite de palavras :P Nem vou tocar nas coisas que são fontes de spoilers, porque desconfio que já deves estar farta de ler "Olha, isso é algo que vais entender mais tarde." (Significando que não posso tocar em metade desse testamento. Meh.) Mas continua a mandar teorias, e eu vou apontando. No final logo vemos em quantas coisas falhaste e em quantas acertaste.

Não gostar muito do HDL, o quê? Eu adoro-o, daí o tipo ter um papel muito maior do que inicialmente estava planeado. Ele só está a passar pelo inferno que está a passar porque eu precisava de uma maneira de o manter fora do caminho até ao clímax (a história seria muito, muito mais curta se não o tivesse feito) e porque...bem, chama-me doida, mas eu gosto de torturar as minhas personagens favoritas. *he's so cute when he suffers, omg*

Hmpf. A Dorien é a razão de esta história ter tanto plot como tem, porque...sabes como é, quando inventas uma personagem com intenção de fazer dela uma figurante? E depois a meio caminho descobres que ela é material de protagonista e tem a sua própria história, e depois precisas de criar mais personagens para completar essa história, e depois acabas com uma coisa com um tamanho enorme, que de alguma maneira tem de ser ligada ao enredo principal? Ela é um desses casos. Metade da razão para a revisão disto estar a demorar tanto como está é que eu tenho de colocar as peças certas nos sítios certos

Código:
E pergunto-me qual das recomendações seria difícil de cumprir pela Emma... Qualquer delas me parece demais neste momento para a pobre da moça!

Uhhh, pergunta difícil :P

Ainda bem que gostaste da 2655. (Honestamente, quando é necessário incluir o número dela eu também faço copy-paste. Porque, preguiça de estar a escrever.) Já estava mais que na altura de dar um ponto de vista de alguém do Creaturarum (descontando aquele pequenininho dela logo no primeiro capítulo).Embora ela não tenha muita escolha no que toca à fidelidade, verdade seja dita. Quer dizer, eles têm máquinas de fazer lavagem "cerebral". A versão original tinha pontos de vista do General, mas tive de retirar esses porque o homem é um spoiler andante ainda pior que o Charles. O que é uma pena, porque eu até que gosto de escrever vilões.

(Nope, eles não usam óleo XD)

O Mikail é realmente a voz da razão (e da audiência) no que diz respeito ao Charles. Daí que eles se detestem. (O pobrezinho teve de aturar um sogro dos infernos durante todo o tempo que esteve casado com a Dorien...ainda admira que se tenha divorciado?) Também não sei se já disse isto, mas não consigo ler "Eu gosto/simpatizo/acho engraçado personagem X" sem ficar a sorrir durante minutos a fio. Mesmo que a minha intenção não tenha sido fazer dele/a uma personagem de quem se deve gostar.

(Ainda devo publicar um capítulo novo hoje...e não sei se deverei apagar o meu compêndio aqui do fórum, visto que ele anda um bocado desactualizado e criei um DeviantArt para publicar desenhos de personagens/descrições. Logo vejo.)

Agora, avante para responder ao teu comentário de Passagem! :P

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Qua Set 12, 2012 1:26 pm

Capítulo VII - Esqueletos a Descoberto

Entre destroços e ferro-velho, um braço moveu-se.

O seu proprietário flectiu os dedos experimentalmente e produziu um som que começou como resmungo, se tornou ronco, passou a gemido e por fim lhe saiu dos lábios a soar mais animalesco que outra coisa qualquer. Ele tentou mover o resto do corpo, mas o facto de haver mais metal nele do que era habitual, e de esse metal ter a forma de três esferas presentemente alojadas no seu Relógio, tornava o que à partida deveria ser um acto simples numa cruzada impossível. Pestanejando para abrir o olho direito, sobre o qual entretanto se formara uma crosta, o homem das luvas executou um dorido movimento de cabeça e entortar de pescoço, ficando com o rosto virado para o alto. Anoitecera, não que isso fosse algo que o seu Relógio não lhe pudesse dizer. Mais vital, tempo suficiente passara para que fosse quase certo o General já se ter afastado. Desgraçadamente, ele ainda se encontrava acorrentado. Seria de esperar que tendo-lhe enchido o Relógio de chumbo, o outro o tivesse soltado da cadeira e levado as correntes consigo, para as utilizar no próximo desditoso sacana que lhe caísse nas mãos, mas lamentavelmente, o Creaturarum não parecia acreditar em economia de recursos.

Ele subestimara a paciência do sujeito. Este demorara uma quantidade indecente de tempo a decidir-se a abatê-lo e apenas o fizera quando o acto fora requisitado. E era humilhante admiti-lo, mas ele também calculara erradamente quantos problemas o General tinha capacidade para causar. Havia sido pura sorte que este tivesse sido demasiado niquento para lhe arrancar o Relógio do peito. Por um aterrador momento, enquanto estivera sentado com o outro a encarar de cima os seus olhos imóveis, o homem das luvas acreditara que ele o faria, e que esse seria o seu fim. Porém, o General dera-se por satisfeito ao terminar de o crivar de balas e determinar, pelo silêncio que imperara mal os tiros se silenciaram, que ele deixara de ser um estorvo. O homem das luvas não fizera questão de o emendar.

Ele estivera demasiado ocupado tanto a fingir-se morto como a remoer o que escutara antes de ter o seu externo convertido em peneira. Ou antes, o que falhara em escutar. Tratava-se mais de uma curiosidade que uma causa de horror, mas havia algo de profundamente desconfortável em o primeiro outro de Relógio anónimo com quem se deparava pertencer a uma organização terrorista. No entanto, essa preocupação não tardara a ser substituída por uma mais premente. Suspender o funcionamento do seu Relógio fora meramente a primeira etapa do seu arrojado plano de fuga. Por motivos que lhe escapavam, ele havia sido enterrado num monte de entulho, do qual se encontrava presentemente a tentar libertar-se. Não se tratava de uma posição favorável, ainda que esta fosse uma considerável melhoria quando ser torturado era o termo de comparação. Manobras de contorcionismo arrojadas ou grandes esforços encontravam-se fora de questão graças aos seus ferimentos e correntes, restando-lhe debater-se como única alternativa. Ele resolveu fazer disso a sua prioridade.

Movendo-se para trás e para diante, para trás e para diante, a cadeira balançou e a montanha de lata que o rodeava vacilou. Pontapear os obstáculos era impossível, tendo em conta as suas pernas estarem tão firmemente acorrentadas à cadeira como tudo o resto, mas debater-se fez uma tina ferrugenta e vários desperdícios mais pequenos rolar para longe. Ele agitou-se um pouco mais na esperança de provocar um desabamento, mas a tralha havia sido meticulosamente empilhada por níveis de peso. Resignado mas não vencido, o homem das luvas tentou abocanhar e cabecear contra aquilo que estava no caminho. À direita da sua orelha havia uma torradeira antiga, o que considerando a distorcida noção de antigo vigente, equivalia a dizer que esta era dúzias de vezes mais moderna do que uma encontrada num lar comum. Ele deu-lhe um toque com o lado da cabeça, e ela rolou monte abaixo. Até onde avanços iam, aquele não fora grande, mas ele supunha tratar-se de um começo.

Até onde era capaz de averiguar, era contra um forno que a sua cadeira estava reclinada. Ele balançou a cadeira para trás e para diante, fazendo as correntes que a abraçavam quase inteiramente bater contra a sua porta com uma série de clangs rítmicos. Cinco calorentos e agonizantes minutos mais tarde, ele viu-se forçado a concluir que não seria desse modo que se libertaria e baixou os olhos para a sua cintura. Tragando ar, o homem das luvas endireitou as costas e tentou dobrar-se para a frente. As correntes impediram-no, mas ele não fez caso delas. Ele era metal, elas eram metal, e metal vencia madeira. Era nada mais que lógico. As costas da cadeira vergaram e continuaram a vergar-se, fracção de milímetro por fracção de milímetro, enquanto ele rangia os dentes e procurava ignorar que o habitual “tique-taque-tique-taque” vindo de dentro dele começava a soar mais como “toc-toc-toc”.

Depois daquilo que lhe teria parecido uma eternidade se não estivesse a contar os segundos de maneira quase obsessiva, as costas da cadeira quebraram-se com um sonoro crack. O impulso catapultou-o para a frente e deixou-o de rosto enterrado nos joelhos. Ele sacudiu-se e levantou-se, e as correntes e a parte de cima das costas da cadeira acompanharam-no. Flectindo antebraços e omoplatas, o homem das luvas contraiu-se e sacudiu-se para trás e para a frente, consciente mas não se importando de estar a executar a mais patética dança a existir em memória humana ou mecânica. Segundos mais tarde, ele viu-se recompensado com o estrondo de madeira a bater em chapa. As correntes em torno do seu tórax, tornadas frouxas, não lhe constituíram grande obstáculo quando se contorceu para se livrar delas. Das que lhe prendiam as pernas, escapou ainda mais rapidamente mal libertou os braços. Pontapeando os pedaços de cadeira para o lado e enrolando as correntes à volta do ombro, ele inventariou o que tinha à sua disposição. Atrás dele, um barulho foi produzido.

- …que? - Ele deteve-se, aguçou a audição para confirmar que estava certo em considerar que o ruído soara como um choro, e emendou esse pensamento quando este se repetiu. Não se tratava tanto de um choro como de gemidos animalescos. A sua testa franziu-se até onde podia. Com toda a cautela, ele caminhou até ao forno, varreu com a mão a camada de latas velhas e parafusos que o cobria e puxou pela porta. Inicialmente, esta recusou-se a colaborar. Algum energúmeno soldara-a. Dando um segundo e mais forte esticão, o homem das luvas quebrou a linha soldada e fê-la abrir-se de uma vez, estreitando o seu olho bom para ver o que havia dentro dele. Encolhido no seu fundo estava um gato.

O homem das luvas precisou de olhar duas vezes para entender que se tratava de um gato e se assegurar de que se tratava de um gato. Em parte por este não ser constituído por aquilo de que gatos eram tradicionalmente feitos, em parte por se assemelhar mais a um cão ligeiramente maior que a média. Pregas de pele descarnada coberta de tufos laranja nadavam-lhe em redor do corpo, excepto onde esta fora arrancada para exibir o metal por baixo dela, e uma das orelhas estava-lhe em falta. Um dos olhos dele encontrava-se aberto e espeitava-o com injustificado ódio, brilhando de um tom de amarelo doentio. O outro era uma cova cheia de fios descarnados que ocasionalmente faiscavam.

- Aqui, bichano - murmurou o homem das luvas, alcançando o animal com o braço. No seu conjunto, o gato era a mais repugnante criatura na qual já colocara os olhos, mas ninguém era responsável por como fora feito. Quando os seus dedos lhe tocaram, este produziu um guincho nada felino, atirou-se a ele tentou arrancar-lhe a cara, obrigando-o a recolher a mão a toda a pressa. - Hurk. Sacana!

Decidindo não perder mais tempo com o seu ingrato companheiro de infortúnio, ele foi até uma das paredes. Como verificou ao aproximar-se delas, estas eram lisas demais para que trepá-las fosse viável, mas apoiou na mesma a palma na à sua frente e tacteou-a. Uma ruga de preocupação nasceu na sua testa quando constatou que estas se encontravam levemente mais quentes que a temperatura ambiente. Semicerrando o olho bom com desconfiança, ele fez uma nova vistoria ao que o rodeava. Havia, e censurar-se por não ter sido mais rápido a dar pelo facto era tentador mas escusado, algo de peculiar nas paredes recurvadas da sua prisão. O metal escuro que as cobria ia apenas até metade da sua altura, aderindo a elas de um modo reminiscente da sujidade que ficava a cobrir o interior de uma banheira após esta ter sido esvaziada. O calor, encontrar-se dentro de uma espécie de reservatório e que tivesse sido o General a deixá-lo lá, fizeram uma irritante mas firme suspeita nascer na sua mente.

- Argh, matem-me de uma vez! - exclamou ele, alto. O gato, que desde que fora libertado do forno se agachara para lamber as patas, inclinou a cabeça para o lado de modo inquisitivo. O homem das luvas respirou fundo e passou uma mão pela testa. Construir animais com Relógio provavelmente parecera uma excelente e irrepreensível ideia para a mente brilhante que a tivera, mas por um feliz acaso, não haviam sido muitos a partilhar semelhantes delírios. Porém, sendo aquilo Cráduma, ele supunha que a presença de um deles não devia constituir surpresa. Menos surpreendente ainda era que os donos do animal o tivessem atirado para ali, se o mau-génio deste era exemplo do seu comportamento habitual.

Quando a temperatura escalou ao ponto de o deixar a suar dentro do casaco, as suas últimas dúvidas quanto ai que estava a acontecer dissiparam-se. Receio e incerteza substituíram-nas. Ele não era uma frágil flor de carne, mas ser fundido, aí estava algo do qual não tinha ilusões de ser capaz de recuperar. O seu Relógio fora concebido com o intuito de durar eternamente, e era por conseguinte robusto que bastasse para sobreviver em condições extremas. Contudo, derretê-lo não era impossível. A súbita sensação de que as rodas e retortas no seu interior se encontrassem a amolecer devia dever-se mais à sua hiperactiva imaginação que ser facto, mas isso não invalidava que subitamente se tinha tornado muito urgente abandonar aquele lugar.

A única via de fuga digna de ser levada em consideração era o buraco que ele agora sabia ser uma chaminé. Havia um outro orifício na parede, um que ele supunha ser o escoadouro para o metal derretido, mas este não era uma opção viável por razões de tamanho. O homem das luvas deitou um olhar dúbio à corrente que ainda tinha ao ombro e mediu a distância entre si e o topo do tanque. Oito, não mais de dez metros. Ele desenredou a corrente e suspirou de frustração ao verificar que ela tinha no máximo dos máximos seis metros de comprimento, mas não se deixou perturbar. Em vez disso ele virou-se para a montanha de ferro-velho da qual tão arduamente tentara livrar-se, contemplou-a por uns momentos e começou a escalá-la. Material de construção era o que o tanque continha em maior quantidade, e depois havia os electrodomésticos velhos. O homem das luvas regressou ao forno, fez por não prestar atenção ao gato e deu início à morosa tarefa de arrastar os electrodomésticos e vigas para uma pilha no cimo no monte. O forno foi o primeiro, seguindo-se-lhe uma caixa de transporte, um castelo feito de latas, uma grade para bicicletas e um microondas. Usando as mãos como pás, ele empurrou os detritos maiores para a base da sua construção, de modo a conferir-lhe estabilidade.

Quando terminou, a temperatura subira em graus. O homem das luvas despiu o casaco, pegou na corrente e passou uma das mangas pelo anel da ponta, dando-lhe de seguida um nó. Ele observou o seu trabalho com alguma ansiedade. Os dois metros de altura em lixo tinham todo o aspecto de irem desabar se soprassem na sua direcção com uma força razoável. Encolhendo os ombros, ele procurou por algo que pudesse ser usado como gancho. Uma barra de ferro caída junto do gato chamou-lhe a atenção. Correndo, galgando vigas e acautelando-se para não derrapar nas chapas lisas que estavam semeadas pelo caminho, ele abeirou-se dela e retorceu-a numa imitação aceitável de um gancho de abordagem, que amarrou à outra manga do casaco. O homem das luvas endireitou-se, de corrente na mão, e olhou para cima. Recuando o braço para trás das costas e respirando fundo, ele lançou-a.
O gancho bateu numa das paredes laterais com um estrépito. Ele repetiu a tentativa, desta feita fazendo mira a um diferente sítio. A corrente caiu novamente, mas não sem raspar a borda de fugida. Fazendo mira ao mesmo ponto mas usando um diferente ângulo, obteve o mesmo resultado. Porém, o gancho demorou a cair. As más notícias eram que as solas das suas botas começavam a fervilhar e deitar fumo. Engolindo em seco, estreitando o olho e tentando ignorar a sua possivelmente eminente cessação de existência, ele atirou a corrente uma vez e outra, e mais outra depois disso. Quando esta finalmente lhe deu a impressão de se ter prendido com relativa firmeza na borda do tanque, deu-lhe um puxão experimental. Satisfeito com esse moderado sucesso, ele trepou para cima de uma trave.

O homem das luvas estava a meio do processo de enrolar a ponta da corrente em redor da sua perna esquerda quando um miado lhe chamou a atenção. Ele soltou um grunhido de desalento ao dar-se conta que esquecera o gato. Sentindo vontade de se bater por se estar sequer a dar ao trabalho, correu até onde este se encontrava enroscado, a fitá-lo com ar de estudado desinteresse. Recordando como correra a sua primeira abordagem ao animal, ele estendeu-lhe a mão com a luva menos desfeita e manteve o resto de si a uma distância segura. O gato fitou o seu único olho com o único olho dele, cabeceou contra a sua palma e de seguida, partiu como um míssil na direcção da sua cara.

- E já que é assim, podes ir-te lixar! - rosnou o homem das luvas, rastejando para trás a toda a pressa. Dando as costas àquele exemplo de porco desdenhoso de pérolas, ele retornou à corrente. Pensando que esta se aguentaria a não ser que derretesse, ele enrolou-a na sua perna. E a subida foi iniciada. A pilha desabou debaixo dos seus pés, mas com a corrente como suporte, isso não era uma catástrofe.

Que esta não fora feita para ser trepada era manifesto. As luvas não impediam os aros que a compunham de se enterrar nas suas palmas, e de cada vez que colocava a mão mais acima para se poder içar, a outra escorregava um pouco. Mão após mão, movimento torturado após movimento torturado, ele subiu, berrando e contorcendo-se quando os balanços da corrente o faziam bater contra um dos lados sobreaquecidos do tanque. A mórbida pergunta de quanto do seu metal era vítimas do General correu-lhe pela mente e foi firmemente calada. Resolvendo que levar o seu corpo ao limite era preferível a passar o resto dos seus dias como cobertura para telhados, ele continuou, o olho cortado reabrindo-se no processo e a fricção da corrente removendo camadas da sua pele. A dada altura, as suas mãos resvalaram. Ele travou com os joelhos, raspou o interior das coxas no processo e deixou escapar um palavrão genérico, mas continuou a continuar. As estrelas que eram as únicas fontes de luz no céu nocturno encontravam-se perto, cada vez tão mais perto. À distância de um esforço final.

- Gnarrrf! – fez, mal as suas mãos alcançaram o cimo do tanque e ele se puxou para cima da estreita fatia de pedra que lhe servia de borda. Do outro lado do cone de ponta cortada que era o tanque havia uma plataforma rodeada por uma vedação, sobre a qual maquinaria resmungava e rangia, trabalhando a todo o gás. Nessa direcção havia também uma construção que ele supôs ser o corpo da central de fundição, e vários tanques de idêntico formato e menores dimensões. Ninguém se encontrava à vista.

Imediatamente atrás dele havia uma vertente que ia até o mar.

- Viva a liberdade, eh? - gritou ele para o buraco escuro. Surpreendentemente, a escuridão respondeu.

Vrrrrr…- veio o som. Como vespas ou abelhas, se vespas e abelhas incluíssem um motor, era assim que soava. Perplexo, o homem das luvas inclinou-se para a frente e estreitou o seu olho bom. O ruído subia. Ele começou a recuar em direcção à plataforma, só se detendo quando no escuro um ponto luminoso o fixou com ódio, malevolência e um claro desejo de lhe arrancar a cara. Se a boca dele se pudesse abrir mais sem que a sua mandíbula saísse irreversivelmente do lugar, ele tê-lo-ia feito. Asas entraram em vista, asas que transportavam quilos e quilos de felino frenético e furioso. O olho amarelo do animal recusou-se a abandoná-lo quando este se deteve no ar em frente à cara dele, onde ficou a pairar como um grotesco colibri. Eles diziam “Eu odeio-te!”, sem nuances e com absoluta sinceridade.

De seguida o gato tentou arrancar-lhe a cara, colidindo com ele no processo. O homem das luvas esbracejou, tentando usar as mãos para se equilibrar e ao mesmo tempo arrancar de cima de si a criatura que arranhava e mordia e estava a activamente tentar retalhar o seu nariz. Em livrar-se dela ele sucedeu, mas o seu falhanço em recuperar a estabilidade foi titânico. O seu pé esquerdo falhou o cimento, a passo que o seu pé direito executou uma estranha dança para evitar que o seu corpo fosse arquear-se para trás. Contudo, no ponto em que as coisas se encontravam, ele podia apenas escolher entre regressar ao tanque do qual tanto se esforçara para escapar ou deixar que o mar o recebesse.

Contas feitas, tratava-se de uma escolha simples.


Emma não sonhava, quer em sentido figurado, quer em sentido literal. As suas noites eram vazias de imagem e de pensamento e de sensação, e por isso significar que eram também vazias de pesadelos, ela nunca procurara deslindar o porquê disso. Qualquer que fosse o fio solto no seu interior que lhe dava a capacidade de dormir sossegada independentemente da quantidade de caos na sua vida, ela estava-lhe grata por isso, senão por nada mais. Mas embora fosse incapaz de ter pesadelos, Emma precisava de admitir que se estava a sentir suspeitosamente como que presa num. Havia algo a andar pela sua cama, algo que se movia para a frente com as mãos e estava a respirar sobre ela, a respirar no seu rosto enquanto a escuridão se pressionava na orla da sua visão e ameaçava engoli-la. Dedos deslizaram para os seus ombros, tactearam, desviaram cabelos do caminho, seguraram-na e sacudiram-na com vigor. Ela encontrava-se demasiado ensonada para entrar em pânico.

- Amelie - resmungou, ao acordar devidamente e verificar que nunca houvera motivo para o fazer.

- Toca a acordar, dorminhona! - Se vozes viessem com tonalidades distintas, a que presentemente lhe estava a romper os tímpanos seria uma explosão de cor e brilhantes. O cobertor foi desviado para o lado. Emma resmungou ainda mais e tacteou para o recuperar e puxar para cima da sua cabeça. Ela era uma alma madrugadora, habituada a levantar-se às seis e meia da manhã, sete dias por semana, mas era um facto que a sua prima viera despertá-la a uma hora escabrosa. - É fim-de-semana!

- Eu espero sinceramente que não me tenhas vindo acordar apenas para dizer isso. - Amelie tentou mais uma vez surripiar-lhe o cobertor. Quando isso falhou, ela inclinou-se e respirou-lhe sobre o rosto. Emma nem adivinhava qual a intenção dela. Atordoá-la com o seu bafo de citrinos, talvez?

- Oh, não. Eu vim perguntar se queres ver o que fiz com o sótão. Passei a noite inteira a redecorar.

- Redecorar? – Muito a contragosto e muito custosamente, Emma ergueu a cabeça e abriu os olhos, deparando-se com a sua prima a fitá-la. Amelie estava a sorrir o seu sorriso patenteado. Tratava-se da mais assustadora visão que alguma vez a recebera ao acordar. - Ah, certo. Eu autorizei-te, não foi?

- Uh, uh. Mas não te preocupes, a sério. Não mudei assim tanto quanto isso, e adorarás como ficou.

- Eu não estava preocupada antes de me dizeres para não o estar.

- Que piadinha, Emma. Tu és tão engraçada!

- Sim, eu sou muito engraçada. Absolutamente hilariante - grunhiu Emma, esfregando os olhos e decidindo que se a outra desse um passo que fosse na sua direcção com intenções de lhe beliscar as bochechas, podia não a atirar janela fora mas sem dúvida a faria sair pela porta mais depressa do que esta era capaz de dizer “Maravilhoso!”. - Quarto. Redecorar. Vamos então ver o resultado?

Amelie fez um ar tão deliciado que dir-se-ia que as feições se iam descolar da cara e dançar.

- Isso quer dizer que vens ver? Sabia que acabarias por aceitar. Se continuares assim, acabarás por acumular tantos pontos de Boa Prima que compensarás a tua tendência para atirar pessoas através…

- Sim – murmurou Emma, um tanto ou quanto distraída. A sua mão encontrava-se na sua testa, um efeito secundário de exposição prolongada a Amelie. - Podes agora retirar-te? Preciso de me vestir. E como é que conseguiste entrar, afinal de contas? Porque eu podia jurar que tinha a porta aferrolhada.

- Oh, eu sou uma mulher de muitos talentos! - exclamou Amelie animadamente, chocando com a porta ao sair. Emma pontapeou os lençóis para o lado e saiu da cama, fazendo questão de primeiro colocar o pé direito no chão. Não que acreditasse que isso lhe fosse trazer grande benefício, mas tratava-se de uma das poucas superstições que ela fazia esforços no sentido de cumprir. As roupas do dia, que escolhera antes de se deitar, pendiam sobre a porta do roupeiro. Pegando nelas, Emma marchou para a casa de banho, onde resolveu que teria de dar uma palavrinha à sua prima a respeito das toalhas.

Amelie estava do lado de fora da porta quando ela emergiu, vestida e lavada.

- Fecha os olhos! - ordenou esta. Emma rolou-os em vez disso. Os da outra aumentaram de tamanho e a boca desta entreabriu-se, como se não soubesse o que devia fazer com não ter sido obedecida. A sua mão foi levada ao peito tão depressa e abruptamente que Emma duvidava que se tivesse tratado de um acto consciente. Depois esta pestanejou, saltitou e regressou à atitude movida a cogumelos à qual ela se estava, impossivelmente, a habituar. - Ou não os feches, como entenderes. Eu guio.

- Se fazes questão - disse Emma. Amelie tinha uma muito deturpada noção de qual delas era a visita.

A rapariga subiu as escadas e passou pelo alçapão. Amelie tentou tapar-lhe a vista até as duas se encontrarem de pé dentro do quarto. Emma pisou as tábuas como se calcasse um campo minado, desviou a outra para o lado e encheu os olhos com o que a rodeava. A sua expressão tornou-se na de um pelicano que acabava de chocar com um dirigível. A sua postura ganhou uma rigidez de trave. Os seus lábios entreabriram-se e nenhum som saiu deles. O seu olho esquerdo tremelicou loucamente.

- Ta-dah! - exclamou Amelie, esboçando um amplo gesto para abarcar o horror do sótão. - Bem-vinda ao maravilhosamente maravilhoso quarto de Mel Hanover-Finn, onde o psicadélico reina supremo!

- Eu…estou a ver isso – disse Emma, na sua melhor voz de mesmo-nada-à-beira-de-um-colapso. Ela não acreditava ser possível descrever o produto das aventuranças de Amelie em design de interiores. Não sem recorrer a sons guturais e gritos de gelar o sangue. A outra tinha de ter passado um terço da noite a mover mobília. Não existia outra explicação para a divisão ter sofrido tão grandes mudanças, ou antes, nenhuma que não envolvesse Amelie transportar consigo uma dimensão alternativa. Que esta muito provavelmente guardava no chapéu. Mas a sua prima estava a fitá-la, ansiosa para que ela acrescentasse algo mais. O que ela fez. - Amelie. Posso fazer-te uma pergunta?

- Sim, claro.

- Porque é que o meu sótão parece um cabaret?

- Oh, não sejas tonta. Ficou muito impressionista, eu sei, eu sei. Sou desastrada com tintas.

- Bem, pelo menos isso é óbvio. Onde…- Emma fez um gesto largo, abarcando almofadas e lustres e cortinados e arcas e traquitanas variadas, pintadas em variadas cores. -…foste desencantar tudo isto?

- Na cave. Desculpa, provavelmente devia ter pedido primeiro, mas assumi que se o tinham guardado lá não era provável que fossem dar-lhe uso muito em breve. Vem ver o que fiz aos vidros! - gesticulou ela, trambolhando em direcção à janela e desviando os cortinados da frente dela. Emma resolveu ser preferível adquirir uma ideia da dimensão total do desastre o mais cedo possível, e seguiu-a. Toda a sujidade que antes cobrira o vidro desaparecera, algo que não falhou em impressioná-la. Todavia, ela sentir-se-ia mais impressionada se no lugar da sujidade, Amelie não tivesse espalhado tinta de vidral multicolorida. Ou que acabara multicolorida após várias camadas de diferentes tons serem aplicadas. Os vidros eram um travesti de verdes e azuis e púrpura e rosa, com raios de amarelo, e ela teve uma oportunidade dourada para os examinar de perto quando a sua prima a empurrou para cima deles.

- Eu estou a ver o que fizeste aos vidros.

- Eu sei. Lindo, não é? Consegui este efeito com uma esponja que usei para limpar onde saí da linha.

- Sim, Amelie. Que não restem quaisquer dúvidas de que saíste da linha. Definitivamente.

- É maravilhoso que tenha acabado assim. Não parece mesmo que há bolhinhas presas no vidro?

- Sem dúvida! Talvez elas possam fazer companhia às que tens presas dentro da tua cabeça.

- Mas os vidros são o menos! Olha para aquilo que fiz com a clarabóia! - Emma olhou para aquilo que Amelie fizera com a clarabóia e apressou-se a fixar-se nas miraculosamente ainda castanhas tábuas do chão. Alguém deveria ter tido a previdência de lhe contar que decoração de interiores envolvia mais que largar tinta de todas as cores do arco-íris sobre mobília, pendurar tecidos esvoaçantes em cada viga e orifício, e afogar as ferroas da cabeceira da cama em laços laranja. - Que me dizes?

- “Ó meus Criadores, façam-me cega antes que este sótão o faça em vosso lugar”, talvez?

- Tu és uma comediante nata, priminha, a sério que és - disse Amelie, sorrindo largamente e dirigindo-se ao roupeiro transformado em mostro verde veneno. - Mudando de assunto. Tens planos para hoje?

- O marceneiro deverá vir hoje arranjar a janela da cozinha - ruminou Emma, deixando-se desabar na cama, sobre um edredão que queimaria retinas menos sensíveis. A escolha era entre isso e entrar em curto-circuito. - E a Luce tem de ir ao centro médico para um exame de rotina, mas a Bertha pode…

- Uhm, eu estava mais a referir-me a planos de lazer. Que costumas fazer para te divertires?

Emma deitou-lhe um olhar de total incompreensão.

- Como assim? – A outra suspirou e elaborou, falando como que dirigindo-se a uma criança:

- Divertir. Entreter, ocupar, passar o tempo?

- Eu conheço a definição de divertimento.

- Ah, bom. O que é que te diverte, então?

- Ocupar-me utilmente - respondeu Emma, contando pelos dedos e perguntando-se qual o propósito daquela questão inana. - Cumprir a minha quota diária de caixas de peixe escamadas, o que crê-me, soa mais fácil do que na realidade é. Ajudar a Bertha. Assegurar que a Luce não cresce para se tornar uma rude caricatura de pessoa. Gerir e pagar as contas da casa. Agir como a jovem respeitável que os meus pais acidentalmente me criaram para ser.

- Está bem. E o que fazes para te divertir? - Emma deitou à outra um olhar de viés, perguntando-se se esta tentava deliberadamente ser engraçadinha. - Quando não estás a fazer tudo isso e tens tempo para perder, e não me venhas a contar que esse nunca é o caso…como é que te entreténs?

- Crochet - respondeu Emma. Ela precisou de parar e pensar antes de o fazer.

- Crochet - repetiu Amelie, soando incrédula. - Porquê crochet, de entre todas as coisas?

- Relaxa-me. E a Luce pode vestir o que faço. O que é que tudo isto tem com o que quer que seja?

- Imenso, visto que divertirmo-nos é a tarefa do dia. Juntas. Como primas devem fazer.

- Amelie, eu não quero ser indelicada. – E ela teria de o ser, se queria ter esperança de se livrar da peste saltitante. – Mas a tua ideia de tempo de qualidade não corresponde à minha.

- Emma, eu acabei de chegar. - Amelie enrolou e desenrolou uma madeixa em torno do indicador, brincando com ela enquanto os seus olhos, enormes de decepção e mágoa, se concentravam em Emma. Ela estava a retirar do armário a artilharia pesada, notou esta. - É suposto que me mostres que lugares evitar, que lugares são os melhores para frequentar, como me orientar sozinha…

- Não saíste ontem por conta própria e sem quaisquer problemas?

- Isso não vem ao caso. Eu quero sair contigo. Eu vim a Cráduma para conhecer a minha família e não encontrei metade das pessoas que esperava encontrar, não que isso seja culpa tua, evidentemente, e como és a única da minha idade com quem posso falar, pensei…eu pensei…

- Oh, Criadores. - Emma dar-lhe-ia crédito pela eficácia da manipulação emocional. Rejeitar o pedido não a pintaria numa boa luz, algo de que tomando em atenção o incidente com o assaltante, não era algo de que carecia. - O marceneiro chegará à uma. Temos até lá para fazer o que quiseres.

- Maravilhoso! Não te vais arrepender, juro. - A rapariga fungou à noção. Era evidente que não se arrependeria. Ela estava a entrar no assunto previamente arrependida. - Vamos passear, e vamos beber algo numa esplanada e talvez, se estiveres disposta a isso, poderíamos experimentar com a tua aparência. Prometo que não farei nada estranho, nem com o teu cabelo nem com aquilo que vestes.

- Sim, Amelie. Como quiseres, Amelie. - Emma deitou um novo olhar em redor e pensou melhor. - Ou antes, por cima do meu cadáver frio e empedernido. Podemos agora descer para o pequeno-almoço?

- Se podemos! - Emma acenou para si. Não se encontrava propriamente esfomeada, mas com sorte, ter a boca ocupada calaria a ave chilreante que era a sua prima. - Deixa-me só arranjar um chapéu.

- Está à…- Ela segurou um estremecimento quando Amelie foi de cara contra o roupeiro. -…vontade.

- Eu estou bem. Não há crise. Eu estou bem. - De algum modo, a jovem conseguiu abrir a porta e dar um puxão na caixa empoleirada na prateleira superior sem fazer o móvel tombar-lhe em cima. - Este é o conjunto daqueles que não usei ainda – anunciou, depositando-a aos pés dela.

- Ahn…- disse Emma. Amelie não fez caso dela e começou a pescar chapéus.

- Deixa ver, deixa ver…oh, que te parece este?

- Um cacho de uvas? - respondeu ela, honestamente. Amelie deitou-lhe um olhar ultrajado. - É idêntico a um cacho de uvas, razão pela qual me parece um cacho de uvas. Sobre um prato cor de salmão.

- Exagerada - censurou a outra, mas ela pousou o cacho e pegou no próximo chapéu da fila. - E este?

- Isso é uma couve-flor – ripostou Emma, com toda a convicção de alguém que já vira uma couve-flor antes, e a reconhecia naquilo que via. – O que acabas de espalhar na tua cama não é uma colecção de chapéus. É o conteúdo de uma despensa. Não tens um só que não se assemelhe a um alimento?

- Que queres dizer? – Amelie piscou os olhos, sem entender, e levantou o chapéu mais perto dela com os seus delicados dedos. – Isto é avant garde. Estão muito na moda em Perant e Lutetia, sabias?

- Eu acredito em ti. Mas isto é Cráduma. Portanto e por favor, usa um chapéu com forma de chapéu.

Um muito silencioso minuto depois, tornou-se dolorosamente claro que não só Amelie não tinha um adereço do género, como não fazia a mais pequena ideia de a que ela se referia. Emma esperou uns segundos mais, antes de se resignar ao facto de a luzinha não estar para acender e se levantar.

- Vem comigo - disse. Puxá-la pela mão encontrava-se fora de questão, mas isso não devia ser problema, se levasse em conta a tendência irritante de Amelie para lhe andar colada aos calcanhares. Ela desceu as escadas, desceu as outras escadas e passou pelo corredor que conduzia à cozinha.

- Bertha, eu e a Amelie vamos sair dentro de um quarto de hora. Amelie, não toques em nada!

- Está bem - aquiesceu esta. Emma empurrou a porta. Esta não rangeu quando a empurrou, apesar de muito tempo se ter passado desde a última vez que alguém entrara na divisão. Gesticulando à sua prima que entrasse, Emma fechou-a atrás de si. Ela ouviu Amelie inalar antes de desatar a tossir.
- Cofcofcof…pó – explicou esta, olhando em redor e observando a divisão para a qual ela a arrastara. O quarto era idêntico ao seu em configuração, mas diferentemente dele, que era pobre em mobiliário e decorativos ao ponto de não parecer que alguém o habitava, era evidente que em dado ponto aquele tivera vida a desenrolar-se no seu interior. Emma viu a sua prima interiorizar detalhes à velocidade da luz. Os lençóis revolvidos na cama que ela se recusara a fazer e deixar Bertha fazer. A caneca de café gelado pousada sobre a mesinha de cabeceira, o casaco pendurado nas costas do cadeirão do canto, e o omnipresente pó. Atrás dela, Amelie engoliu em seco. - Este..uhm…era o quarto dos teus pais?

- Sim - disse Emma, dividida entre ressentir a questão e surpreender-se por a outra ter conseguido deduzir aquilo. Que a cama fosse de casal e sinais de uma presença masculina estivessem por todo o quarto seria uma pista para alguém comum, mas ela vira o suficiente de Amelie para ter a impressão de haver pouco que esta não compreendia sem que lhe fosse directamente explicado. - Não toques…

-…em nada. - Inicialmente ela julgou que Amelie estava a fazer uma careta, mas análises mais fundas revelaram que a rapariga parecia mais perturbada que insurgente. - Emma? Eu lamento imenso.

- Porque haverias? É só um quarto. - Emma andou até à janela e desviou para o lado os cortinados de renda. A luz do sol nascente irrompeu pelo quarto, banindo as sombras e fazendo a camada de poeira que o cobria resplandecer. Entretanto, Amelie dirigira-se à parede defronte da cama e detivera-se para observar a colectânea de fotografias que a cobria. - A propósito, continuas a não poder tocar em nada.

- Sim, estou a começar a perceber que não queres que o faça. - Se Emma não a suspeitasse incapaz disso, ela diria que a outra tentava ser irónica. - Quem são estas pessoas? Só reconheço o meu pai.

- Amigos, conhecidos. - Emma desviou os olhos do mar debaixo da janela para a fotografia mais perto dela. Havia caixas e caixas delas guardadas na cave, a maioria delas datando dos tempos da guerra e dos primeiros anos depois do seu fim. Aquelas que haviam ganho a honra de ser penduradas eram as de depois do casamento dos seus pais, de depois da mudança para Fron. - E o meu pai e mãe, claro.

- Estes eram eles? - O dedo da sua prima foi deter-se acima mas felizmente não sobre o vidro de uma das fotos junto à porta. Emma estreitou os olhos para ela, tentando recordar-se de quando e onde esta havia sido tirada. A linha de areia em plano de fundo fê-la supor tratar-se de uma das praias de Hakon. Quando ela era pequena havia sido costume a sua família passar algumas semanas na cidade vizinha durante as estações quentes. - Julguei que o teu pai tivesse mudado de corpo, mas ele é idêntico ao…

- O meu pai e o teu pai não eram génios somente da relojoaria. Eles fizeram o novo igual ao antigo.

- Oh - disse Amelie, fechando de seguida a boca e prosseguindo o seu exame em silêncio.

- Há alguns chapéus dentro do armário. Escolhe um deles e vamos.

- Uhm. - A outra afastou-se das fotografias com óbvia relutância, andou até ao armário no outro canto do quarto e abriu-o com uma bizarra espécie de reverência. Emma viu-a, vigiou-a, quando ela afastou os cabides com vestidos para um dos seus lados e pegou num dos chapéus pendurados no seu fundo com dedos trémulos. Provavelmente considerava-o totalmente desprovido de graça, querendo dizer que como adereço, aquele não podia ser mais adequado. - Mas isto…eles não eram da tua mãe?

- Evidentemente. O meu pai levou o único que tinha consigo para Skagard, e eu não tendo a usá-los.

- O que estou a querer dizer é, tens a certeza de que eu posso usá-lo? Ele não tem valor sentimental?

- É apenas um chapéu, Amelie - replicou ela, rispidamente. - Leva-o ou não levas nenhum.

- Está…certo. Maravilhoso. Obrigada. - Amelie retirou o chapéu do gancho com exagerada solenidade e colocou-o na cabeça. Pela primeira vez desde que havia sido não tão cerimoniosamente acordada, Emma notou o que esta trazia vestido. Amelie acompanhou a direcção do seu olhar e sorriu com um certo nervosismo. - Oh, o vestido. Comprei-o ontem, para me tentar enquadrar melhor. Gostas?

- Ele é adequado - disse Emma, calando-se de imediato, chocada com o que lhe acabava de sair da boca. Porém, o que dissera era verdade. Ignorando o facto de o cabelo dela se encontrar espalhado pelos ombros como um ninho de cobras vivas, Amelie encontrava-se surpreendentemente decente em comparação com o dia anterior e o da sua chegada. - E é agradável que estejas a fazer um esforço.

- Sim. Bem. Erm. - Amelie transferiu a atenção para as pontas dos seus sapatos, que espreitavam sob as saias dela em toda a sua glória dourada e rosa. Podia ser verdade que esta se tentava enquadrar, mas era visível que lhe restava um longo caminho a percorrer. - Emma, posso fazer-te uma pergunta?

- Porque não? - A sua mente foi rápida a fornecer-lhe razões, mas a outra rapariga sorriu, grata.

- Quando a Yasemin veio aqui, ontem. Nós falámos. Sobre o teu casamento e…outras coisas.

- Tens uma muito estranha definição de pergunta, não haja dúvida. Como queres que responda?

- Essa não era a pergunta. A pergunta é…vais ofender-te, sei que te vais ofender e não quero mesmo ofender-te, mas eu estive a ouvir histórias muito suspeitas sobre a tua mãe e…o que lhe aconteceu?

- É tudo? - Amelie anuiu, nitidamente serenada por a extensão da sua reacção se resumir a uma frase.

- Mais um grande e vago monte de selecções do tudo, mas sim. Por favor não te ofendas, está bem?

- Não estou ofendida. - Ela suspirou, ciente de que incentivando-a convidava desentendimentos mas sem energia para se opor àquilo que na prática era uma questão razoável. - Porque haveria de estar?

- Oh, porque a maioria das pessoas levaria a mal se lhes perguntassem se por acaso atiraram as suas mães por janelas e arrancaram os seus Relógios, etecetera etecetera, idem, idem. - Amelie estampou uma mão sobre a boca e fitou-a, subitamente horrorizada. - Embora me esteja a ocorrer que nunca cheguei a dizer essa parte em voz alta, por isso esquece que falei e continua a não estar furiosa.

- Amelie, tu acabaste de insinuar que eu assassinei a minha própria mãe?!

- Nãonãonãonãonão, estás a entender tudo ao contrário, eu não disse nada disso!

- E agora estás a acusar-me de surdez? - Emma passou a mão pela testa, sentindo-se estranhamente esgotada para alguém que há minutos abandonara o calor dos lençóis. Se antes ela estivera renitente quanto a conversar com a sua prima, acabava de se tornar claro que não havia como evitá-lo. Se esta falara do assunto com outras pessoas, pessoas que a haviam conduzido a conclusões tão descabidas como aquelas que estava presentemente a cuspir, era imperativo esclarecer as coisas antes que ela decidisse escavar e encontrar esqueletos. - Não importa. Queres a história? Então senta-te e escuta.


A primeira porta que o homem das luvas encontra é vermelha e azul. Ele evita-a e muda de direcção. A segunda porta que encontra é azul e vermelha. Ele corre na direcção contrária como se fugisse do cadafalso. A terceira porta a aparecer é meramente vermelha. Ele agarra na maçaneta com ambas as mãos, mal registando a sua humidade, e roda-a para dar consigo cara a cara com uma muralha de água que por breves segundos permanece a ocupar a entrada como se fosse sólida, para de seguida lhe cair em cima como um só. Ele abre os olhos e descobriu que apenas um o faz.

Realidade, sussurraram os seus pensamentos dispersos. Uma realidade que se encontrava tão inundada como a dentro do seu Relógio. A corrente apanhara-o, tal como apanhara outro algo que embateu nele, rijo e metálico e laranja, antes de ser arrastado para longe pelas águas. As suas roupas ensopadas flutuaram em seu redor, ascendendo enquanto o seu corpo pesando mais que lastro descia direito ao fundo oceânico. Tornar a regredir para dentro do seu Relógio pareceu-lhe uma decisão natural. O homem das luvas fechou o olho esquerdo. Quando o abriu o seu olho direito abre-se também, inteiro e intacto e incólume, e eles absorvem o que o rodeia. Um carreiro, jardim e lago, e a ponte que une uma margem à outra. Ele reconhece o lugar, embora não a ocasião.

Duas figuras encontram-se paradas a meio da ponte, mão e mão entrelaçadas sobre o vão que os impede de cair à água. Um deles é o seu duplo, em cujas mãos há luvas de seda em vez de couro, verde-escuras em vez de negras como piche. A outra é Maraura, pois mesmo correndo até aos confins do seu ser, tudo o que ele é e quem ele é regressa à sua rainha perdida. Ele anda até eles, silencioso como uma sombra apesar de saber ser impossível interrompê-los a não ser que o tente. Uma ruga ténue aninha-se entre as sobrancelhas do outro ele, e há uma firmeza e propósito sinistro no modo como este segura a mão da mulher na sua. Esta sorri um sorriso falso.

- Por vezes - diz ela, quando lhe parece que horas passaram sem que nenhum dos dois interrompesse aquela distorção de um momento romântico - pergunto-me qual foi o sentido disto.

- Disto? - ecoa o outro ele, a sua mão fechando-se sobre a dela, apertando-a como se fosse intenção sua prendê-la no lugar para a impedir de fugir. O homem das luvas sabe, ou antes, recorda, agora que consegue situar a memória, que Maraura não falha em notar a sua aflição. - Que queres dizer?

- A guerra. A revolta. Tantos mortos, e para quê? De que nos serviu usurpar os antigos governantes deste mundo, se a razão de nos termos sublevado sobrevive em mim? - Ela leva a mão ao peito, crispando as unhas na caricatura de uma garra.- O Relógio Mestre. O meu Relógio. Um para todos controlar e assegurar que embora os nossos criadores e opressores se tenham ido, somos ainda servos em essência. - Ela arranca a sua mão da dele, bruscamente. Toda a sua anterior placidez e indolência desapareceram, e o homem das luvas prefere-a assim. O seu duplo, para quem aquela memória é o presente, partilha essa opinião. Ele prefere qualquer coisa à apatia em que Maraura mergulhou desde Cahil, desde que a verdade sobre o Relógio Mestre foi revelada. Ele receberia o seu fogo com alegria, mesmo que este o queimasse, pois enquanto ela arde e se revolta e combate, há nela algo além do engenho de destruição cujas batidas enchem e envenenam o ar entre eles. - Parti para a guerra em nome da liberdade e livre-arbítrio. Não disto.

- Tu deste-nos ambos - murmura o homem das luvas, no presente e no passado.

- Não. - O sorriso dela é frágil e pálido, pouco mais que um espectro de um sorriso real. - Eu quebrei as correntes que os humanos em nós colocaram e substituí-as pelas minhas. De todos nós, quantos podem dizer-se livres de escolher o rumo das suas acções? Eu tenho o mundo na mão, meu amor, e a qualquer momento existe o risco de a fechar com demasiada força. Nós não fomos criados para sofrer tiranos, e quem é mais digno do título que eu? A rainha suprema. Morte com uma cara e uma coroa.

- Isto é devido àquilo que aconteceu em Cahil, não é? - pergunta o outro ele, quando ela pára de gargalhar roucamente e se endireita para o ouvir, tensa, tão tensa, como se as suas palavras fossem colocar mais pressão sobre o feixe de nervos que ela é. Era Tinha sido. Algo. - Cahil foi um acidente.

- Cahil foi um aviso - corrige ela, gentilmente. - Estás errado, tão completamente errado, em acreditar que o que aconteceu não se repetirá. Harold construiu o Relógio Mestre para reinar sobre nós todos. Eu não sou excepção. Metade das decisões que tomo são tomadas por ele. Metade das palavras que me saem da boca são dele. Ou talvez não sejam. Talvez eu apenas não seja a salvadora que pensam.

- Todos os males que a humanidade instilou em nós e dos quais inadvertidamente nos apropriámos foram extintos pela intervenção desse mesmo Relógio que amaldiçoas. Pela tua, vossa intervenção!

- E fazendo isso eu criei uma utopia, e todos sabemos como essas usualmente acabam.
- Cahil foi um acidente, uma anomalia, um acontecimento isolado.

- Cahil foi a prova daquilo que eu há muito suspeitava. - Ela vira-se para ele e coloca-se em bicos de pés para lhe sussurrar ao ouvido as palavras que ele passou os últimos cem anos a revirar dentro da sua cabeça. - Tu és o único sem um nome nas batidas do Relógio. O único que o Relógio Mestre não tem como chamar e fazer obedecer. O único imune à minha vontade. Portanto eu sei que quando afirmas amar-me, o que dizes vem de ti e é verdadeiro, e real, e não uma projecção de mim própria.

- Sim - respondem ele e o outro ele num sopro, num murmúrio, em perfeito uníssono.

- Por esse motivo, preciso que me prometas…- O homem das luvas quer correr, mas os seus pés estão presos ao chão como se o cimento se tivesse infiltrado nas suas solas e secado. A mão dela está novamente na sua, e o seu duplo aperta-a como se disso dependesse tudo. - Que prometas que…se me amas, se realmente me amas, irás ouvir o que te digo e obedecer-me quando chegar a hora. O dia virá em que não conseguirei controlá-lo. Em que me tornarei perigosa demais para viver.

Água a encher-lhe a visão, escuro, fundo, frio e negrume. Ele sente-se abanar a cabeça.

- Eu não posso. - O fundo do mar e as estrelas nele. - Maraura, eu não posso. Eu não posso matar-te.

- Eu não quero morrer. - O lábio dela treme, mesmo enquanto as suas feições se diluem. - Eu quero explorar o mundo que roubei. Eu quero ver em que espécie de mulher a El se transformará. Eu quero paz, e sossego, e descansar sobre os louros da vitória contigo a meu lado. Mas eu conheço as minhas responsabilidades. Eu sei que não posso ter isso, não quando esta é uma situação em que posso dizer, com total honestidade e rigor, que o mundo será um melhor lugar sem mim nele.

- Não para mim. Nunca para mim. - Maraura está a sacudir a cabeça. Ela não devia, não pode estar a sacudir a cabeça. - Harold cometeu um lapso que irá descobrir como arranjar, apenas isso. Nós…ele irá consertá-lo e tu ficarás bem. Um fio solto soldado, é tudo, e quando estiver consertado nós iremos para longe de tudo isto durante algum tempo, eu sei como detestas este lugar, Maraura, escuta-me!

- Eu penso - diz ela, olhando o lago debaixo dela enquanto fora do seu Relógio, uma mão rodeia o braço do homem das luvas e o aperta como uma tenaz - que quererei ser enterrada no mar.

Alguém estava a bater-lhe.

O homem das luvas abriu um olho. Uma criatura…um aparelho…uma criatura…algo…invadiu o seu campo de visão, ficando a flutuar acima dele. A sua cabeça era um globo de metal cor de cobre, o seu rosto um vidro redondo. Havia outro rosto por detrás do vidro, mas a água não lhe permitia distinguir feições. Um escandafro…esf…ecaf…escafandro. O homem das luvas acenou interiormente, satisfeito por o termo ter vindo ao de cima. A pessoa dentro do escafandro, essa podia ir se foci…forfo…algo. O foco da sua atenção era a corda ia até cima, onde as águas eram azuis e raios dourados tremeluziam ao percorrê-la. Superfície, foi ele entendendo, devagar. Estavam a puxá-lo para a superfície.

- Ele conseguiu! – gritou alguém, quando a sua cabeça quebrou as ondas. Mais mãos, tantas que o homem das luvas não se incomodou em contar os pares, agarraram-no e puxaram-no para bordo do bote, onde ele ficou, a ofegar. Alguém à sua direita soltou uma exclamação sufocada, tendo sem dúvida tomado nota da extensão dos seus ferimentos. – Doces mãos dos Criadores! Ele…

Nada de doce nelas, companheiro – pensou ele, procurando virar-se numa posição mais confortável. Estranho, como se sentia mais gelado nas roupas molhadas uma vez fora de água do que dentro dela. Outra voz gritava ordens, e outra pessoa que não a pessoa que gritava estava a endireitá-lo. Ele ouviu “Construído” ser murmurado em tom triunfante, provavelmente por quem o examinava. As suas pálpebras flutuaram, indolentes, e cerraram-se, deixando-o apenas vagamente consciente daquilo que se passava em seu redor. Palavras apanhadas ali e acolá revelaram-lhe que os seus salvadores pretendiam levá-lo para um barco, uma moção que ele não podia fazer nada senão apoiar. O seco de um convés era infinitamente preferível à água choca no fundo do bote.

- Eh. Eh, amigo. Tenta manter os olhos abertos. – Alguém bateu-lhe no rosto com as costas da mão ao mesmo tempo que o virava ao contrário. Tudo o que o homem das luvas queria era chamar-lhe algo inqualificável e de seguida desmaiar de exaustão, mas nenhum dos tripulantes da minúscula embarcação parecia disposto a conceder-lhe o seu desejo. – Isso, fica acordado. Consegues falar?

- Cansado…tão cansado…

- O que aconteceu? - quis alguém saber. O mesmo sujeito que gritara segurou-o quando ele vacilou e se debruçou para a frente, vomitando no fundo do bote o que diria ser um oceano inteiro em água. Ele limpou a sua boca e cuspiu e gargarejou em seco, de forma a livrar-se do sabor a sal.

- Esqueci que não sei nadar - replicou, olhando em redor. Mar estendia-se até onde a vista alcançava. Perto deles havia uma embarcação de pequeno porte, provavelmente um pesqueiro, e era para lá que dois dos ocupantes do bote remavam. De entre os outros três, um encontrava-se debruçado sobre ele, o outro a seu lado e o outro sentado na borda, a receber algo das mãos do que estava fora do barco e dentro do escafandro. O seu olho bom arregalou-se ao ver o quê. - Estão a brincar comigo!

- Calma, o teu gato está salvo. Em melhor estado que tu, até – disse um dos homens dos remos, com aquilo que este sem dúvida considerava ser uma entoação apaziguadora. O homem das luvas não se sentia apaziguado. Na verdade, suspeitava que seria capaz de sentir pouco para lá de raiva cega enquanto alguém não atirassem a besta para fora de bordo. Mas ninguém tinha intenções disso, ou não estivessem a depositar a criatura a seu lado, onde ficou, a ffrrrssstar com mal disfarçado ódio, até dar um salto na sua direcção e tentar arrancar-lhe a cara com maníaco fervor.

Por sorte, nessa altura ele já estava em vias de desmaiar.


- Começou alguns anos antes do meu nascimento - disse Emma, após Amelie se sentar. Esta agarrara numa das almofadas espalhadas sobre a cama e espreitava sobre ela, inspirando o seu odor a mofo e humidade e escondendo as dentadinhas nervosas que dava no seu lábio inferior. No tom da sua prima havia não mais emoção que no seu rosto, e o seu rosto era uma máscara de porcelana pintada. Pesar e melancolia, sentimentos que ele possuía todas as razões para conter, encontravam-se tão ausentes dele que cada palavra que se soltava dos lábios da outra ressoava dentro dela como uma nota aguda e dissonante. - Depois de os meus pais se casarem, logo após o meu pai transferir o seu Relógio do outro corpo para um mais perene. Eles queriam filhos, como é natural ser desejo de um casal. E filhos eles tiveram. O primeiro deles viveu vinte e duas horas após a instalação do seu Relógio, para depois ter o seu corpo a rejeitá-lo e falecer durante o sono. O segundo, ou melhor dizendo, a segunda, seguiu pelo mesmo caminho. O terceiro saiu-se melhor. O seu Relógio aparentava funcionar normalmente, e os meus pais exultaram. Dois meses depois, sem aviso ou sintomas prévios, ele parou.

Emma interrompeu-se. Os olhos dela vaguearam sobre as fotografias nas paredes, como se as procurassem beber. Por um instante tão breve quanto frágil, Amelie acreditou que a fachada pétrea da sua prima se racharia, e preparou um par de palavras solidárias para a eventualidade. Porém, elas não chegaram a ser necessárias. Emma ergueu o queixo e endireitou os ombros, pondo-os tão rígidos em relação ao resto do corpo que a admirou não ter escutado as suas articulações estalar.

- Eu fui a quarta tentativa. O meu Relógio não reagiu tão bem ao meu corpo como os dos meus irmãos que teriam sido. Ele soava errado e ele batia errado, e assim sendo, eles não ousaram esperar demais de mim. Ironicamente, superei em longevidade os três aparentemente normais. Suponho que te estás a questionar o que tem isso a ver com o nosso tema inicial. - Amelie sacudiu a cabeça, ainda de rosto enterrado na almofada. Ela não pensava isso. Ela pensava que Emma precisava de se estar a reprimir emocionalmente, pois a alternativa era demasiado transtornante. Ela sabia que a sua prima era um cubo de gelo controlador e obcecado com surreais noções de ordem. Que esta nada sentisse ao referir irmãos mortos encaixava com a sua personalidade, mas isso não deixava mais satisfeita com o facto. - O que isso é, é contexto. Para que entendas as emoções subadjacentes às acções.

- Oh - murmurou Amelie. A sua voz soou inapropriadamente alta e estridente, mas Emma não fez caso disso. Esta franziu a testa, parecendo esforçar-se por recordar, o que apenas tornou mais manifesto e desconcertante que o que ela de seguida disse fosse relatado como se tivesse acontecido a outrem.

- O meu pai amou-me desde o primeiro momento, como tinha feito com os três antes de mim. A minha mãe reservou as suas emoções para quando se tornou claro que não as desperdiçava num cadáver à espera de declaração de óbito oficial. - A expressão da jovem alterou-se milimetricamente, somente o suficiente para reflectir aprovação. Como se encarar afecto como um investimento fosse algo digno de elogio. Amelie interrogou-se que género de mulher a sua tia tinha sido. Cada nova peça de informação que recebia tornava mais legítimas as reticências que o seu pai tivera em relação a ela. - A perda dos meus irmãos afectou-os profundamente, embora de diferentes modos. Enquanto o meu pai lidou com a angústia embrenhando-se no seu trabalho e tratando-me como se fosse feita de vidro, a minha mãe deu-me as bases para subsistir. Ambos eles encontravam-se…agudamente conscientes de eu ir ser a única descendência que deixariam. A criança depois de mim morreu como as primeiras, obrigando-os a resignar-se ao facto de eu ter sido um acidente feliz. Até a Luce. Quando a minha mãe se descobriu grávida dela, nós sabíamos há muito qual a causa do problema. Havia algo no sangue dela, algo que entrava em conflito com um Relógio em funcionamento. O seu funcionava por sorte, tal como o meu. E ela estava determinada, ignoro se por se ter fartado de perder crianças ou por as sementes da mesma loucura que vitimou o meu pai terem já germinado nela, a não deixar esta outra morrer.

- Isso…não me soa como loucura - disse Amelie, baixinho. Tão baixinho que ela duvidava que Emma a tivesse escutado, embora fosse tão ou mais provável esta tê-lo feito e decidido ignorá-la.

- E a Luce nasceu, e ela era minúscula e perfeita, mas nós mantivemo-la na oficina do meu pai por precaução. A minha mãe deixou de dormir para a poder observar, sempre alerta a mudanças ou sinais de o seu corpo estar a rejeitar a implantação do Relógio. Dois dias mais tarde, o inevitável aconteceu. E a minha mãe pegou no escalpelo do meu pai, e abriu a minha irmã, e abriu-se a si de seguida, e deu à sua filha um Relógio que sabia com segurança não ir ser rejeitado, e a Luce viveu. Ela não.

Amelie virou-se para Emma e decidiu que a sua prima era a mais pavorosa pessoa que existia.

Não por esta dar a impressão de lhe ir fazer algo pavoroso. O incidente do dia da sua chegada sugeria que essa não era uma possibilidade a desdenhar, mas Emma era pavorosa por outras razões. Porque ela cada vez mais tinha a certeza de que se algo lhe acontecesse, se o seu corpo surgisse morto numa vala, a sua prima encolheria os ombros e declará-lo-ia lamentável, e depois prosseguiria com a sua vida e nunca mais lhe dedicaria um pensamento. E quando lhe perguntassem sobre a sua pobre prima Amelie, Emma contaria que isto e aquilo e aquilo acontecera, desejaria um bom dia ao autor da questão, e esqueceria. Ela recordou o que Bertha dissera sobre Emma ser como um dos que não tinham Relógio, e julgou conseguir ver de onde a caseira estava a vir. Onde alguém normal colocava bagagem emocional e medos e quereres, a sua prima tinha um vácuo que tudo sugava e nada cuspia.

- O meu pai era muito devoto à minha mãe - continuou Emma, sem notar que Amelie procurava afastar o máximo do seu corpo o máximo que podia da sua pessoa. - Princípio de Sincronia, portanto não era como se ele tivesse escolha na matéria. Após levarem o corpo dela embora, ele trancou-se no seu quarto durante dias. A Bertha conseguiu enfim convencê-lo a sair, mas de pouco ou nada adiantou. Ele mal falava. O choro da Luce deixava-o fora de si, e tê-lo a partir tudo em seu redor num acesso de fúria tornou-se ocorrência frequente. Semanas depois, ele só olhava para as paredes. Era como se já estivesse morto, apesar de o seu Relógio funcionar. Eventualmente, vi-me obrigada a interná-lo.


- A…a Yasemin disse que ele não estava tão mal assim, não realmente.

- A Yasemin é uma alcoviteira que fala demais sobre assuntos dos quais não percebe rigorosamente nada - retorquiu Emma. Amelie só percebeu que a história chegara ao fim quando esta se levantou, alisou a área de cama em que estivera sentada e lhe deitou um olhar impaciente. - Questões?

Amelie encarou-a. Um silvo que não era bem um silvo escapou dos seus lábios, soando como se ela tivesse estado a engolir lã e o ruído tivesse sido filtrado através dela antes de sair. Emma esboçou um trejeito irritado. Irritação era pelo menos preferível a inexpressividade, pensou ela. Porém, o tom em que a pergunta havia sido colocada deixava muito a desejar. Ela reconhecia-o de casa, das palestras sobre relojoaria das quais ela era a única audiência, de quando o seu pai terminava de expor acerca disto e daquilo e terminava, ofegante, perguntando se restavam dúvidas por esclarecer. Para isso o tom era ajustado. Para ser empregue após uma história como a que acabava de escutar, não.

- Tu sentes a falta deles? - As palavras saíram-lhe num jorro, abruptas e espontâneas e abafadas, interrompendo a tirada clínica da outra rapariga, que a fitou com algo que era quase alvoroço.

- É claro. Essa é uma pergunta estúpida, com uma resposta óbvia. - Amelie atrevia-se a discordar. Era impossível, ou perto disso, uma resposta ser óbvia quando ela sentia dificuldade em dizer se esta era verdadeira. - Mais do que eles sentem a minha, isso te garanto. Mais alguma coisa, ou é tudo?

- A Luce! - Ela exclamou-o e arrependeu-se de o ter feito tão alto, tapando a boca de imediato e vendo se fantasmas não haviam despertado e saltado da mobília ao som da sua voz. Emma certamente agia como se acabasse de ver um. Amelie continuou a falar, mais baixo e atropelando-se. Correntes na sua mente, correntes e memórias e conhecimentos semiesquecidos, todos eles incentivavam-na a inquirir o que de outro modo não lhe teria ocorrido. O rosto do seu mestre inundou-lhe os pensamentos e caiu de novo para o fundo deles, e uma sensação de errado perpassou por tudo o que era ela. - O Relógio que ela tem é o da tua mãe, e os Relógios são quem nós somos. Quer isso dizer que…

- O meu pai desaprovava dessa teoria - replicou Emma, gelidamente. Como se a questão constituísse uma ofensa. Como se ela não a tivesse autorizado a colocá-la, pedido que a colocasse. - Ele defendia que o Relógio não é o começo e o fim da identidade. Que ele apenas funciona como processador das ordens pelo cérebro emitidas, e que neste residem memória e pensamento e tudo o resto. Que apesar de tudo o que somos se encontrar armazenado nele, nada impede que essa informação seja reescrita quando a ele for ligado um cérebro que pensa diferentemente. E a Bertha…ela viveu lado a lado com os Criadores, e eles acreditavam em todo o género de bizarrias. Que o corpo é somente um veículo de algo maior. Alma, espírito, força vital, não importa o que lhe chamavam. A Bertha acredita não importar de que somos compostos, ou se somos compostos de algo de todo. Ela acredita que parte daquilo que somos sobrevive independentemente da nossa integridade física. Foi-me dado a entender que luzes e túneis figuram algures. Luzes, e um sujeito de robe e barba indecentemente comprida.

- E no que é que tu acreditas?

- Eu acredito que saberei quem está certo quando a Luce pronunciar a sua primeira palavra inteligível. Aí, decidirei se posso considerá-la minha irmã ou se devo perguntar-lhe para onde foi o seu juízo. Se isso é tudo, vem comigo para que possa trancar o quarto. Cheira-me que a Bertha fez panquecas.

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por PandoraTheVampire em Seg Set 17, 2012 3:10 pm

Hey Moggo! Já lá vai o tempo! Confesso que estava a sofrer de uma boa dose de saudades desta história ;) E agora tive tempo de (finalmente!) me actualizar por isso prepara-te para um comentário DAQUELES! Já sabes com quem estás a lidar, certo? ;) Ora primeiro a resposta à tua resposta:

Ahum! Me comprende! O exemplo do HP foi suficientemente explícito. Agrada-me saber que veremos alguns mistérios descortinados no fim deste livro mas tenho a certeza que nos deixarás com o dobro dos mistérios por descortinar para termos algo com que ansiar nos livros que por aí vêm, estou correcta? :p

Inserimos aqui a continuação do tópico não-oficial do Game of Thrones, lol:
Spoiler:
Exacto! Foi com essa ideia que fiquei! O Jon não pode morrer. Pelo menos ainda... de futuro nunca se sabe... Será que ele se safa à rasca ou irá o Martin magicar alguma coisa para ele ressuscitar? Assim do género Lady Cat Coração de Pedra? Com o Martin já estou à espera de tudo. Pena que tenha de esperar tanto tempo... -.-'
Randomness terminada, passemos ao comentário do dito capítulo que é o que se quer:

Cap VI:
O vestido de casamento foi escolhido por ser o favorito de Zeph? Oh, não quero imaginar como terá corrido essa selecção de vestidos! E por favor, Emma, não tiveste qualquer opinião nessa escolha? Sabes que isso podia ter corrido mil vezes pior do que realmente correu, certo? Bertha, Bertha... o que é que tu sabes ao certo sobre essas instruções que não nos queres contar? É que se a Emma está curiosa, eu estou duplamente curiosa!!

*Grito esganiçado capaz de fazer tremer os mortos e enterrados* O que é que tu fizeste ao Homem das Luvas?!?!?! Diz-me já que ele está vivinho da silva! E btw, aquilo foi um truque bem sujo do torturador! Fazer passar-se por Maraura e ainda por cima nua?? Bad boy...

Vinte-e-seis cinquenta-e-cinco, parece-me que safaste-te de boa. Entretens o senhor General e parece que ele gosta disso. Mas fizeste um mau trabalho na missão e ele já não gosta disso. Veremos o que se vai passar contigo daqui para a frente!

Ahh adorei esta interacção dos piores divorciados de sempre. Será que ainda nos vais presentear com um milésimo de romance entre este dois? Porque confesso que gostaria imenso dessa surpresa! Adoro as picardias deles e pode ser que eles ainda façam uma visita ao registo civil antes do livro terminar... okay, antes do ÚLTIMO livro, está melhor assim?

Bem terminei o comentário xD até nem foi enorme. Só um pouco. Bem, sei que me falta o capítulo sete e vou tentar lê-lo ainda hoje! Vamos lá ver se dará para escrever um comentário também! ;) Cya Moggo!! OnBye

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Seg Set 17, 2012 4:07 pm

Yep, eu por este andar já sei mais ou menos com o que devo contar :P Mas já sabes que feedback é sempre bem-vindo, qualquer que seja o tamanho dele. E de volta ao Martin (com a conversa que para aqui vai e o número de fãs que ele tem aqui - só do meu conhecimento já há pelo menos quatro - às tantas já se criava um tópico oficial para discutir coisas destas. Pergunto-me se ficaria melhor na categoria de críticas ou de off-topic...), não, ele não pode, porque...
Spoiler:
senão eu nunca saberei se a minha teoria favorita está certa e Lyanna/Rhaegar é canon! *snif, snif, nif*
E eu ainda vou acabar de ler as crónicas! Juro! (Suspeito que por esta altura elas já devem estar novamente onde as paraste de publicar no outro fórum, certo?) Quando tiver um momento e estiver com a disposição certa XD

Okay, certo. Avante para a comentação dos teus comentários.

A Emma não quer saber de vestidos. Acho que essa parte já ficou clara. Se lhe tivessem aparecido com um pavoroso (i.e, qualquer vestido que ela poderia imaginar a Amelie a vestir), ela provavelmente teria dito qualquer coisa a respeito. Mas como não foi o caso...

O General não se "fez passar" por Maraura, não exactamente. Ele basicamente inseriu uma série de questões na máquina à qual o ligou, e esta obrigou-o a ver aquilo que ele queria ver e que seria mais capaz de o fazer responder a elas. Also, para responder à questão da morte, direcciono-te para o capítulo seguinte. *wink*

Okay, um milésimo de romance eu posso prometer-te, embora eles já tenham passado da fase de se romancearem um ao outro há uma data de anos. Casamento...não, não mesmo. Algumas pessoas simplesmente não foram feitas para estarem casadas, e esse é o caso deles. Por muito que se amem, eles já têm experiência suficiente no assunto para saber que não funcionará, e não tenciono fazê-los tentá-lo novamente. Além disso, casar não é necessariamente o patamar máximo de uma relação. (Exemplo flagrante: Emma/Zeph.)

Bien, estou interessada em saber o que acharás do próximo. 'té mais tarde! PandaMiau



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Re: Coração de Relógio

Mensagem por PandoraTheVampire em Qua Set 19, 2012 12:15 am

Hello Moggo! Como calculei, não consegui comentar ontem, mas aqui está o tão esperado comentário! xD

Oh hey, talvez não fosse má ideia. Teríamos era de ter cuidado com o que falávamos pois não sei quanta gente já leu os cinco (dez em PT) volumes da saga... mas gostei da ideia!!
Spoiler:
Lyanna/Rhaegar... presumo que estejas a falar da mui possível teoria de Jon ser filho dos dois e do Ned ter mantido a boca fechada? E de assim Jon ter o legítimo direito ao trono? Será isso a que te referes e zomg isso seria so totally awesome!

Ahaha don't worry gurl! Lês quando e conforme quiseres! xD Já me vou preparando para um comentário enorme! :D E sim, já chegou a esse ponto, aliás, já tem até uma crónica a mais do que tinha no Falecido ;)

Exacto! Era aí que eu queria chegar! Olha se lhe aparecem com um véu em forma de lampreia de ovos? Não me parece que ela ficasse muito contente com essa situação :x É por isso senhora dona Emma, que deveria, pelo menos, espreitar o desenho da criação que irá usar! Mas bem, supondo que a senhora dona futura sogra é uma senhora de alta sociedade, as probabilidades de aparecer parecida com um artigo de pastelaria como a sua "adorada" prima, seriam poucas senão nenhumas! Correcto? xD

Ãn, Ãn... compreendo e aceito! Não preciso que a instituição casamento interfira na relação doida dos dois! Aceito o milésimo de romance que me mandes de braços abertos e fico à espera de mais qualquer coisinha! Sabes que vou querer sempre mais, okay? xD

Quanto ao HDL, vou começar já o meu comentário no cap propriamente dito: ZOMG HE LIVES!!!!!!! YESH!! Bem me parecia que era uma personagem demasiado cool para lhe pores fim de uma maneira tão terrível! O homem é resistente! E ainda bem para nós, pobres fãs! :p Awwwwwww um gatinho vira-lata de lata! Amei! E tem uma personalidade fantástica para quem estava preso dentro de um forno. Espero que se tornem grandes amigos. xD

Oh Amelie... why... oh why... se estivesse na situação da Emma acho que ficava com uma tremenda enxaqueca no segundo que pusesse os pés naquele sótão. A Amelie é louca, não é? A sério que começo a suspeitar disso. xD E os chapéus da moça... a moda em Perant e Lutetia não deve ser uma coisa muito bonita de se ver, parece-me... Mas awww... que momento entre primas agradável! Emma quer que Amelia use os chapéus que pertenceram à sua mãe... awww... e... não... Amelie... why? Ela disse mesmo aquilo? Ela acusou mesmo a prima de ser a assassina da mãe??? Bad, bad girl! MAS ZOMG! É uma nice girl after all porque assim vou ouvir a história!! ^^

Mas o pobre HDL não merece um descanso Moggo? Sai da tortura para o forno e do forno para o Oceano e do Oceano para memórias dolorosas. Moggo! Que coisa! Estará agora mesmo a salvo? Bem, a salvo não porque o adorável gato não o deixa nem desmaiar em paz! xD Ainda me cheira que vão ser amigos relutantes! ;)

Oh... Emma... a sério, concordo com a Amelie, ela está a reprimir demasiado os seus sentimentos. Suponho que quando explodir será mesmo a sério e vai tudo à frente! :x Ela não pode ser assim tão fria. Recuso-me a acreditar nisso. Por isso afirmo que quando explodir vai fazê-lo com uma temível miríade de emoções que fará tremer Cráduma... E agora fiquei extremamente ansiosa para que a pequena Luce articule uma palavra que faça sentido. Fiquei curiosa sobre qual teoria acreditar e fiquei comovida com o sacrifício da mãe de Emma. A morte dela não foi nem de perto tão escabrosa como eu julgaria. Foi triste, isso sim. Mas aposto que ela morreu feliz.

Bem Moggo actualizei-me, finalmente. Agora que venha mais um cap enorme para me saciares algumas duvidas e questões existenciais que causaste na minha cabecinha. Nem que seja só para ver como vai correr a saída entre as primas e o desastre nacional que isso irá causar...

Cya soon (I hope!)

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por miaDamphyr em Sab Set 22, 2012 10:16 pm

Pandy, a Moggo é máaaaaaa. Ela tortura o HDL até ao limite, pobre homem. E já agora Moggo, esqueci de dizer, mas gostei muito dos teus desenhos lá no compêndio, especialmente o chapéu da Amelie. Rsrsrsrsrs.
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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Dom Set 23, 2012 6:59 am

Obrigada, Mia. Mas tu ainda não viste nada. Nada, estou a dizer-te.
Quanto aos desenhos, eu eliminei o compêndio, porque aquilo de "acrescentar novas personagens à medida que aparecem" não estava a funcionar e entretanto arranjei um programa de edição de imagem melhorzinho. Portanto, a maioria dos desenhos foi alterada, e achei mais simples enfiá-los na minha conta de DA. Estou a fazer upload das imagens individualmente, mas quando tiver suficientes de uma determinada família/grupo, irei juntá-los como fiz com esta aqui.

Pandora, sim, é qualquer coisa desse género. Não há possibilidade nenhuma de a Claritia lhe ter aparecido com algo de mau gosto, benza-te deus. Romance, romance...eu avisei no início, e se não avisei já se deve ter tornado óbvio entretanto, que isso não é muito o meu forte. Irei esforçar-me para o incluir, mas não posso prometer que vá sair grande coisa.

Yep, o HDL vive. E oooh, ele tem fãs! (Haja alguém que o ame e trate bem, porque sabe alguém que eu pareço só ser capaz de fazer uma dessas coisas de cada vez.) O gatinho...essa é uma história engraçada. Não sei se referi que isto começou como a minha participação num desafio de escrita. Ora no grupo dedicado a ele havia mini-desafios, um dos quais era uma coisa chamada "O cão chama-se Jack Bauer". Que era nada mais que enfiar no nosso WIP um animal com o nome de uma personagem fictícia popular. O gato saiu daí, e ele era uma daquelas coisas que considerei tirar na revisão...mas decidi que o bicho é demasiado awesome para ser deixado na pilha de ideias por usar.

A Amelie...tem problemas, sim. Mas numa história minha, não há praticamente ninguém que não os tenha. E, bem...a Emma de facto atirou já alguém pela janela XD E a Amelie está parcialmente errada a respeito dela. Não é que não tenha sentimentos, apenas que é muito boa a disfarçá-los/escondê-los. O que...bem, há uma razão para isso, assim como há uma razão para a cena em que ela conta a história não ser do seu ponto de vista.

E agora que te dei mais essa migalha conspiratória...

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Re: Coração de Relógio

Mensagem por Moggo em Qui Nov 29, 2012 10:46 am




Capítulo VIII

Dorien acordou com um sabor amargo no interior da boca, e uma sensação desagradável no pescoço a servir-lhe de indicativo de que a superfície na qual adormecera não havia sido um colchão. Ainda de olhos fechados, ela tacteou. Os seus dedos encontraram um tabuleiro e roçaram em louça. Recordando-se de onde estava, ela pestanejou para se livrar das remelas. Havia um resto de café esfriado na chávena, que bebeu e com o qual bochechou. Dorien estava a ponderar colocar-se de pé quando um som de garganta a ser aclarada atrás dela a informou de que não estava sozinha.

- Bom dia, Dorien. - Ela girou sobre si, dando o seu melhor para parecer acordada. Sem um pente e corrector de olheiras, supôs que teria de se ficar pela tentativa. - Espero que não seja problema que tenhamos começado sem a tua presença consciente. Estamos quase a terminar, de qualquer modo.

- Charles? O que estás tu aqui a fazer? - Tornar a esfregar os olhos e focá-los revelou-lhe que o seu pai se encontrava à sua frente e Cletus parado atrás dele, vergado como um abutre sobre uma carcaça. Depois ela olhou em redor, e a sua boca entreabriu-se com silencioso horror. A ocupar a fila de mesas à sua esquerda estavam nove pessoas, cujo foco incidia no seu rosto como um conjunto de lasers apontados. Dorien focou-se em todos antes de regressar a Charles. -…o que na Lua…

- Há um lugar livre à direita da Doutora Nikko - interrompeu ele, praticamente a enxotando na direcção indicada. Monumentalmente confusa, abismalmente mortificada e obstinadamente a fingir-se funcional apesar de se encontrar a duas moléculas de cafeína de adormecer em pé, Dorien cambaleou até a cadeira e enterrou-se no assento. O seu rosto encontrava-se indeciso entre escaldar de embaraço e gelar de choque. Charles dirigiu-se ao ecrã gigante, ainda com Cletus a segui-lo como se este fosse a sua sombra pessoal, e iluminou uma série de pontos num planisfério lunar ao tocar-lhes com o dedo indicador. Palavras saíam-lhe da boca, mas Dorien estava a concentrar a energia que de outro modo despenderia a ouvi-lo em fulminá-lo com um olhar assassino. Que ele absolutamente merecia.

[O teu pai é uma figura.] - As letras brilharam no ecrã em miniatura embutido na sua mesa. Outras juntaram-se-lhes. - [Nós quisemos acordar-te, mas ele pediu para te deixarmos dormir.]

Dorien diminuiu a intensidade do olhar assassino e deitou um relance à cadeira a seu lado.

Um sorriso complacente foi-lhe devolvido, e ela sentiu-se tomada por uma onda de boa vontade para com Patrice Nikko. Lançando um olhar dissimulado por cima do tampo da mesa e evitando contacto visual com o resto da sala, ela escreveu “O que estão todos a fazer aqui, e o que é que é que perdi?”, enviou a questão para a mesa vizinha e aguardou que a sua colega acabasse de teclar a resposta. Ocorreu-lhe de súbito que o nome de Patrice não se encontrara na listagem de cabeças de projecto, mas essa era uma questão que não era prioritário esclarecer. Mais linhas de texto estavam a surgir no seu ecrã.

[Houve uma fuga de informação relativa ao projecto.] - Dorien susteve a respiração e cruzou os dedos sobre o colo. Com toda a certeza que Mikail não seria imbecil ao ponto de…- [O teu pai está aqui para nos elucidar acerca da importância de manter a boca fechada. Ele é muito…convincente.]

De repente, Dorien sentia-se aliviada por ter dormido durante grande parte da reunião.
[Quão mau foi?] - Patrice fez “Eh” e encolheu os ombros. Nada promissor. - [Ele já ameaçou alguém?]

[O pior até agora foi um pedido para pensarmos no que aconteceu ao Atilla.] - Uma nova mensagem apareceu antes de ela poder perguntar à outra a que se referia. - [Ele foi o autor da fuga. Prenderam-no ontem à noite numa manifestação em Frigoris.] - Os pensamentos de Dorien voaram para Clariane, e a sua mão voou para o comunicador no seu bolso. Às cegas, ela digitou uma mensagem para a sua filha e tornou a guardá-lo. - [Nu, amarrado a um poste e pintado de vermelho. Fiquei com o lugar dele.]

[Bem-vinda a bordo da nave.] - Era discutível se Patrice era uma substituta razoável em termos de competência, mas em talvez cinco ou seis anos de convívio mútuo, nunca um rumor fora começado pela mulher, embora esta não fosse avessa a disseminá-los enquanto se encontravam mornos. Dorien notou que a divisão se aquietara. Cautelosamente, ela espreitou de debaixo das pálpebras, para saltar quando o silêncio foi quebrado por uma ronda de aplausos pouco convictos.

- E…terminou. - Patrice deu-lhe uma cotovelada e retirou a sua pasta de debaixo da cadeira na qual estivera sentada. Ela acenou, ainda atordoada. - Vens comigo à cantina tomar o pequeno-almoço?

- Mais tarde - murmurou Dorien. O seu comunicador acabava de emitir um bip, e Charles estava a dar-lhe a entender através de gestos que não se encontrava dispensada. Enquanto a sala vazava, ela leu a resposta que Clariane lhe enviara e constatou com alívio que a sua filha chegara à quinta sem problemas. Depois, ela levantou-se e caminhou até ao ecrã. - Muito engraçadinho, Charles.

- Tu estás irritada – disse este. Como não se voltara ou despregara os olhos do ecrã, Dorien assumiu que a sua fúria se estava a propagar como radioactividade, para poder ser por ele detectada sem que lhe visse o rosto. - Cletus, ela está irritada. Traz-lhe um copo de água.
- Seria possível seres mais embaraçoso? - rosnou ela, assim que Cletus se retirou. Nem lhe fora dada hipótese de replicar que não desejava um copo de água, obrigada.

- Ser embaraçoso é a minha função enquanto tua figura paterna. - Charles lançou ao ecrã apagado um olhar carregado de fadiga e vacilou, precisando de se apoiar na borda da mesa para se manter em equilíbrio. Pela aparência, ela não havia sido a única a permanecer acordada até uma hora tardia.

- És inacreditável. Devo começar a preparar-me para mais destas visitas surpresa, ou tratou-se de um incidente isolado? - Charles pousou uma mão sobre o coração, fingindo mágoa, e por a saber fingida, Dorien não se deixou comover. - Podias ter simplesmente mandado um memorando.

- E perder esta oportunidade única de te observar no teu habitat natural? Isso seria criminoso.

- Isso não justifica que apareças e convoques uma reunião sem primeiro me alertar!

-…embora em abono da verdade, eu contasse ir observar-te acordada e atenta, em vez de a trocar bilhetinhos como uma adolescente numa sala de aula. Encantadoramente juvenil, mas não o tipo de comportamento que esperaria de uma adulta e uma profissional, se me perguntarem.

- Sim, porque isso está obviamente a vir de um especialista em ambas essas coisas. Honestamente!

- Modos, Dorien. Para reiterar, visto duvidar que tenhas escutado uma palavra do que aqui vim dizer, é agora mais urgente que nunca vigiar a informação que sai deste andar. Porque o Atilla não soube calar-se, a população está agora ao corrente de que algo está a ser feito para virar a mesa. - As feições de Charles contorceram-se brevemente antes de se reajustarem na sua costumada máscara de calculada despreocupação. - Quebras de energia e manifestações nas ruas têm sido uma constante em Tycho, e em Humorum em menor medida. Mas depois do noticiário da meia-noite ser colocado na Rede, junto com dados confidenciais relativos a este projecto, as coisas têm estado inquietantemente calmas. Nenhuma quebra de energia foi reportada entre então e agora em qualquer uma das bases, e os nossos revoltosos aparentam ter pegado nos seus gritos e cartazes e marchado para casa. A cratera do meteorito de Tycho, onde têm estado acampadas pessoas desde que a pedra arrefeceu, encontrava-se vazia pela manhã. E isso…preocupa-me.

- Porquê? Não seria de se esperar que fossem reagir assim? Eles receberam o que tão ardentemente desejavam: um sinal de que as suas vozes foram ouvidas. Porque haveriam de insistir quando sabem que o objectivo foi atingido? - Um sorriso instalou-se nos lábios dele, e deixou-se ficar neles durante tanto tempo que ela soube que qualquer satisfação que ele tentava convencê-la de sentir era ficção.

- Tu realmente estiveste a dormir durante a minha explicação, não estiveste? - Dorien não confirmou ou desmentiu. - Dar-lhes demasiadas esperanças é o pior que podemos fazer, tendo o projecto ainda mal saído do chão. Ter milhares de insatisfeitos a aguardar que seja anunciado que a Terra é nossa é um enorme risco. Imagina que falhas. Imagina que descobres não haver meio de desempenhar a tua tarefa satisfatoriamente, e que este projecto fracassa de modo colossal. Imagina o efeito que isso terá em quem esperou, de respiração suspensa, por resultados. O meteorito ter caído trouxe à superfície o ressentimento que a humanidade como um todo alimenta desde o Êxodo. O que imaginas que irá acontecer se for declarado haver um modo de regressarmos, e depois se disser “Oh, afinal enganámo-nos. Retornem às vossas vidas e desculpem pela inconveniência.”?

Dorien olhou-o. A possibilidade de ir falhar nem lhe ocorrera.

- A Lua rebentará - murmurou ela. - Mas não nos encaminhámos já para este ponto?

- Daí ser fundamental abordar a situação com delicadeza. - Um bip bip bip saiu do bolso dele. Charles interrompeu-se para tirar o seu comunicador do bolso.

Dorien ouviu a sua respiração prender-se.

- Problemas? - Ele sacudiu a cabeça. Ela soube que ele mentia, e que conseguisse sabê-lo era prova de que o conteúdo do comunicado era de máxima gravidade. Charles não abdicaria do seu formidável controlo emocional por menos. - Houve mais fugas de informação, ou rebeliões?
- Não - replicou ele, curtamente. Os seus olhos achavam-se fora de foco, como os de Mikail tendiam a ficar quando havia mais álcool que sangue a circular no seu corpo. - Estás disponível hoje à noite, entre as oito e as dez? Porque há assuntos que precisámos de discutir.

- Lamento, já tenho um compromisso. - Ela não referiu com quem, por saber qual a reacção dele seria.

- Desmarca. - Dorien abriu a boca para contestar, e fechou-a com força quando Charles apoiou a mão no seu ombro. Ela abriu a boca novamente, não em protesto mas de espanto, e deu-lhe um toque para o levar a endireitar-se. Os seus dedos descobriram ossos salientes, que o volume do casaco dele não lhe deixara adivinhar existirem. Charles ergueu a cabeça. Embora os seus olhos estivessem nela, era nítido que não a conseguiam ver. Ela encarou-o, com um começo de pânico que escalou quando as pálpebras dele desceram e a sua cabeça se vergou. - Dorien…não…cedo demais.

- Cletus! - Dorien passou um braço em redor dos ombros do seu pai desmaiado, enquanto com a mão livre afastava cadeiras da mesa e abria espaço para sobre ela o deitar. Cansaço, era cansaço a causa daquilo, era provável que ele não tivesse fechado os olhos desde que se despedira dele em Nubium, e Charles já não era propriamente novo. Carência de repouso era obviamente a explicação. - CLETUS!

- O que aconteceu? - O secretário entrou pela sala adentro com um copo de água na mão, a tempo de a ver soltar o seu segundo grito. No espaço de instantes ele encontrava-se junto dela, a desviá-la para o lado e a tomar o pulso de Charles, que continuava sem reacção. - Ele caiu?
- Eu segurei-o. - A voz que lhe saiu dos lábios não era uma que Dorien reconhecia como sua. - Estava perfeitamente bem até ler algo no comunicador, e depois…- Ela alcançou o comunicador para o exibir, à laia de explicação, para o ter arrancado da sua mão antes de poder dar uma vista de olhos ao ecrã.

- Confidencial - grunhiu Cletus. Ele retirou do bolso o seu próprio comunicador, introduziu um número e falou para dentro dele. - Cletus Smith, aqui. Tinham razão em preocupar-se; tenho-o à minha frente, deitado como morto. Testemunhas? A filha, por isso nenhum problema nessa frente. Último andar da divisão do Ómicron de Mare Nectaris. Organizem a transferência. - A chamada foi terminada. Dorien viu-se novamente puxada para longe de Charles, apesar da sua enérgica oposição. - Devia sair daqui, Doutora. Algum dos seus colegas pode notar a sua demora e meter na cabeça vir procurá-la. Nós pretendemos abafar o que aqui se passou enquanto for possível. Quanto menos gente envolvermos…

- Quem é “nós”? - exigiu ela saber, soando tão isenta de autoridade ou persistência como era possível soar-se. Charles tinha sido leve como uma criança quando o colocara sobre a mesa. E ele vacilara, minutos antes de cair inconsciente, e Cletus, quem mais tempo na companhia dele passava, parecia ansioso mas não exactamente surpreso com o que se passara e ele mostrara-se tão preocupado com a sua mortalidade nos últimos tempos…- Cletus, o que é que se está a passar? O que é que ele tem?

Cletus hesitou, deixando-a certa de que a resposta seria “confidencial”.

- Eu, o médico dele e mais umas quantas pessoas de pouca consequência. Não posso dizer mais.

- Não podes dizer mais? Se há algo de errado, tenho direito a sabê-lo, e a confidencialidade que se…

- O patrão deu-me ordens expressas para não revelar nada, especialmente a si. - Cletus desistiu de se tentar livrar dela manualmente e parou na sua frente, sério como sempre se encontrava mas inquieto como Dorien nunca o vira estar, também. - Se ele acordar, pode pedir-lhe explicações directamente.

Ela levou alguns momentos a entender que “se” e não “quando” fora o termo empregado.
- Mmkay. Eu quero uma tosta, um daqueles bolinhos de chocolate ali no expositor com chantili extra por cima, uma sandes de ovo e pepino sem mostarda, um copo de sumo de laranja natural, um copo de água…- Amelie deteve-se, tocando o seu queixo enquanto Emma enfiava a cara na palma, sem ter intenção de a retirar de lá nos tempos mais próximos. Tendo acabado de varrer o menu com os olhos, a sua prima produziu um estalinho com a língua e dirigiu-se ao caixa com toda a confiança de alguém convicto do que quer e consciente de como deve pedi-lo. – E eu vou querer também um pratinho de grão-de-bico, e uma palhinha em espiral dentro do copo de sumo. E uma salada de frutos-do-mar.

- Sim, senhorita. É para já, senhorita. - Um longo momento depois, o caixa despegou um par de olhos arregalados do rosto sorridente da jovem e transferiu a sua atenção para Emma, que continuava com a mão em frente à cara e estava a fazer caretas doridas por trás dela. - E…posso ajudá-la, também?

- Uma chávena de café. Forte - replicou ela, como se mastigasse cascalho. - E pastilhas de cianeto.

- Uhm, provavelmente só irás conseguir arranjar essa última coisa numa farmácia, Emma. Conseguiu apontar tudo? - O caixa acenou entusiasticamente. O sorriso que lhe iluminava as feições era apenas uns quantos pontos de QI mais idiota que o de Amelie. Emma rangeu os dentes. Ao sair de casa, ela estivera segura de que a outra não tardaria a fartar-se de andar e imploraria para regressar. Com isso em mente, Emma conduzira-a rua abaixo e rua acima até ela própria ter a gola alagada em suor, mas para seu espanto, Amelie não parecera mais cansada do que estivera antes de começarem. Decidida a não se deixar vencer pela surpreendente resistência física da jovem, ela arrastara-a até a barragem.

Lamentavelmente, Amelie não caíra do miradouro abaixo, embora não por falta de tentativas. A vedação à volta da plataforma capturara-a quando esta se desequilibrara e quase aterrara numa das turbinas que controlavam a entrada de água, e Emma vira-se obrigada a ser uma prima decente e ir chamar quem a tirasse de lá. Ainda mais lamentavelmente, Amelie havia-se provado imune a vertigens e rira com gosto quando regressara a terra firme, brindando de seguida o seu salvador com um beijo na bochecha e a ela com um abraço esmagador de ossos. Por um breve instante, Emma quisera atirá-la por cima do muro com as suas próprias mãos. Por sorte, o impulso desvaneceu-se tão rapidamente quanto surgira. Depois disso ela sugerira que fossem lanchar, julgando serem poucas as hipóteses de Amelie conseguir fazer algo estúpido ou desastrado enquanto estava sentada a uma mesa.

- Adoro o ambiente. É tão pitoresco. - Estava esta a dizer, gesticulando em redor e quase derrubando um cinzeiro de quartzo com o cotovelo. O “ambiente” em questão consistia em quatro mesas dispostas caoticamente sobre uma esplanada, um bar, um balcão e uma dezena de bancos altos. As prateleiras atrás do bar exibiam um sortido de beberagens que faria a mais bem-abastecida adega do mundo empalidecer e contrair complexo de inferioridade. A decoração, que Amelie caritativamente qualificara como rústica quando haviam entrado, era composta por quadros retractando embarcações, peixes empalhados e restos de navios quase certamente encontrados na praia. - As pessoas, também. Não é maravilhoso quando lugares têm uma clientela diversificada? Criadores, olha para aquela tatuagem!

- Não seria maravilhoso se diversificasses o teu vocabulário com alternativas a “maravilhoso”? Ou se aprendesses de uma vez qual o significado dessa palavra e o porquê de ela não ser aplicável em mais de metade das situações em que a utilizas? - O homem da tatuagem acabava de dar pelo interesse da sua prima e de lhe piscar o olho. A ferver por dentro, Emma começou a dispor num tabuleiro a comida que o caixa estava a apressadamente colocar em cima do balcão e empurrou Amelie na direcção das mesas no terraço. De lá era possível ver-se o lado da barragem no qual o restaurante estava inserido.

- Sabes, Emma, precisas de começar a ser um bocadinho menos resmungona - resmungou Amelie, ao ser muito pouco cerimoniosamente obrigada a sentar-se. - Ter um passado traumático não é desculpa para agir como uma anti-social. E antes que comeces a reclamar, lembro-te de que não podes ter o bolo e comê-lo. Foste muito insistente quanto a eu dever fingir que a conversa de hoje de manhã não existiu, e se queres que finja não saber de nada, não deves esperar que te trate diferentemente devido àquilo que finjo não saber. Lógico, certo?

- Isso…essa lógica não tem lógica alguma!

- Oh? - Amelie esboçou um sorriso presunçoso, sem fazer caso dos movimentos frenéticos dela para que calasse a boca, e bebericou o seu sumo de laranja. - Está bem, se tu o dizes. Mas o que eu quero discutir contigo, agora e neste momento, é um outro e muito importante assunto. O casamento!

- Não - disse Emma, que fazia uma sólida ideia de para onde aquela conversa se encaminhava.

- Sim! Dizer não seria indelicado da tua parte. E tu não queres ofender a tua priminha, queres? Ainda por cima estando nós aqui! - Amelie esboçou um gesto que abrangeu o terraço na totalidade e ainda deixou espaço para as rochas ornamentais nos seus limites e as gaivotas empoleiradas nelas. - Num sítio tão panorâmico e relaxante e maravilhoso para falar de coisas como, oh, eu não sei, o horrível e detestável e completamente antinatural rumo que me dizem que pretendes dar à tua vida?

- Ah - disse Emma. Aquele era território familiar, se nada mais. - A Bertha encomendou-te o sermão?

- Intervenção, não sermão. Vamos começar pelo essencial! Fala-me dele, do teu Jeff.

- Zeph. E não há nada para contar. - Amelie enfiou a palhinha na boca e esvaziou o resto de sumo no fundo do copo com um “sluuurrp” que fez várias cabeças virar. Emma cobriu a cara com as mãos. - Tu estás a fazer isto de propósito para me embaraçar, não estás?

- Claro que não, de onde foste tirar essa ideia? Agora, fala-me do Jeff. Zeph! E olha, toma meia tosta!

- O Zeph não é um tema de conversa aceitável. Por favor, arranja outrmmmphg…

- Isso, mastiga. E vai falando enquanto o fazes. Tudo o que sei dele é que tem problemas mentais.

- Ele não tem problemas mentais. - Uma imagem de Zeph e os tiques de Zeph formou-se na mente da jovem. Ela desviou o olhar para o tampo da mesa. - Está bem. Ele tem problemas mentais. E então?

- Estamos a falar de problemas-problemas, ou “Oh, ele é só um pouquinho excêntrico”?

- Suponho que isso dependerá de com quem estiveres a falar.

- Hm. E gostas dele? - Emma quase se engasgou na metade de tosta que Amelie lhe enfiara na boca.

- Que espécie de pergunta é essa, e porque haveria a resposta de ser relevante? - Amelie brindou-a com um olhar incrédulo. Ela apressou-se a acrescentar: - Eu não gosto dele. Eu também não desgosto dele. Ele é como água. Ninguém a bebe pelo sabor, mas porque é precisa para prevenir desidratação.

Amelie tentou disfarçar que a declaração a horrorizara, e falhou redondamente.

- Mas…os teus pais. O que é que eles haveriam de pensar disso? Eles casaram por amor.

- Provando assim que a irracionalidade que levou a minha mãe a matar-se vinha de trás e a loucura que se apoderou do meu pai depois disso acontecer também tinha antecedentes. Eles deixaram-me com um dilema para o qual casar-me com o Zeph é a melhor solução. Isso priva-os do direito a opinar.

- Emma…- Amelie parecia estar a atravessar sérias dificuldades em manter um semblante neutro. - A sério que acabas de…isso é errado em tantos níveis que nem sei por onde começar. Não, risca isso, eu sei por onde começar. Onde é que a paixão e o romance entram nessa imagem? As borboletas no estômago, e ansiedade, e flores, e jantares à luz das velas, o fogo que arde e não se vê e não dói?

- Amelie, a tua boca está aberta e asneiras estão a sair dela. Por favor, emenda isso. E como é que…

- Tu acabas de comparar a pessoa com quem irás passar o resto da tua vida a um copo de água!

- …consegues comer isso e não rebentar, afinal? Nem a Bertha come tanto, e ela é um construído.

- Sou uma jovem em fase de crescimento e preciso da energia. Seja como for, eu não creio que casar seja a melhor das opções disponíveis em qualquer cenário e oh, a salada chegou! Mas nós ainda não terminámos! Nem de longe - ameaçou a rapariga, agitando um dedo ameaçador na direcção de Emma enquanto com a outra mão tentava retirar um prato de cima da bandeja que lhe era estendida por um garçon. Por alguma misteriosa razão, os cantos da boca deste estavam a tentar não se curvar. Amelie virou-se, possivelmente com um agradecimento na ponta da língua. Os olhos dela arregalaram-se, e a sua mão abriu-se em sincronia com eles. Emma massajou a testa com os polegares, rezingando para consigo que não seria certamente ela a pagar o prato partido, mas nenhum tinido de loiça de fez ouvir. Ela baixou as mãos, confundida. O garçon estava a graciosamente endireitar-se da posição de joelhos em que se deixara cair, o prato intacto nas suas mãos e a salada ainda impecavelmente arranjada em cima dele. A tentativa dele de não sorrir desfizera-se numa expressão de satisfação presunçosa.

- Aqui tem, senhorita Mel. Mais cuidado para a próxima, que não somos feitos de pratos, está bem?

- John! - exclamou Amelie, obviamente deliciada. Emma repetiu o nome como se isso fosse esclarecê-la em relação ao que se passava, e minimizar a sensação de desgraça eminente que se acabava de apoderar dela. A sua prima não perdeu tempo a demolir os seus esforços com uma efusiva tentativa de efectuar apresentações. - Que bom rever-te! Emma, este é o John. John, a minha prima Emma.

- Nós já nos conhecemos - disse o outro, ao mesmo tempo que Emma resmungava o mais insincero “Encantada!” da história do mundo. Ao aperceber-se do que ele dissera, ela substituiu-o por um olhar interrogativo e arquear de sobrancelhas. - John Francis da Rua Rotor. Estivemos juntos no obrigatório.

- Francis - repetiu Emma, abrindo o seu registo mental de gente de Cráduma e procurando informação associada ao sobrenome, que encontrou com surpreendente facilidade. - O tal que pilota o dirigível?

- Er, não, mas perto. Esse seria o meu irmão James.

- Ah. - Num repente, ela entendeu porque o nome lhe soara familiar. - És então o…ahem. Yasemin.

- Também não, lamento. O que ahem Yasemin é novamente o James. Actualmente. Antes era o Matt, mas depois da baleia mecânica de há cinco anos, esse não está em condições de ahem ninguém. Eu, em contrapartida, estou tanto disponível como funcional. - O olhar significativo que ele deitou a Amelie não passou despercebido nem a ela nem a Emma, que fumegou por dentro. - Mais alguma coisa?

- Oh, não, estamos totalmente bem. Maravilhosas! - apressou-se Amelie a garantir. Emma discordava.

- Como é possível que vocês já se conheçam, se chegaste aqui na quinta-feira passada?

- Nós saímos juntos - retorquiu a sua prima, despreocupadamente. - Foi muito divertido, não foi, John?

- Foi, sim - concordou este, dirigindo-lhe um sorriso que quase eclipsava o dela antes de se virar para o lado e fazer uma careta. - Porque é que a tua prima está a tentar enfiar o garfo da salada no olho?

Emma afastou o garfo do dito cujo e apontou-o na direcção de Amelie.

- Tu saíste. Com ele - sufocou ela, decidida a manter-se calma mas ciente de que se tratava de uma tarefa frustrada à partida. - Tu…ele…tu…onde é que arranjaste o tempo para isso?

- Não precisas de agir como se fosse uma coisa imensamente dramática, priminha. Nós fomos dar uma volta, nada mais que isso. Ele mostrou-me o cais e o centro, e impediu-me de cair de uma falésia, e levou-me ver a fábrica de chapas e aquele monumento esquisitinho na rua principal, e o Instituto das Colónias Nortenhas, o museu, e uma padaria onde comemos uma quiche. Era uma muito boa quiche.

- Melhores deste lado do Estreito - disse John, meneando a cabeça. Emma fulminou-o com o olhar.

- Oh, e ele pagou. Muito cavalheiresco da parte dele, não concordas?

- Bem, eu tinha de compensar a Mel de algum modo, depois da minha imperdoável, reles, tentativa de me servir da inocência dela para alcançar os meus gananciosos e nefastos fins…- Emma agarrou no garfo com renovada força e desejou uma janela. - Precisámos de recombinar, um destes dias.

- Adoraria! Quer dizer, há tanto que ainda não tive oportunidade de ver. E a Emma pode vir também!

- Não. Muito enfaticamente, não. - Então ela pensou na quantidade de horrores que a sua prima podia praticar se fosse deixada só na companhia de uma presença masculina. Alguma coisa contraiu-se no seu interior, alarmada. - Mas recomendo que levem a Bertha. Definitivamente recomendo que a levem.

- Uhm, Emma, tenho a certeza de que a Bertha terá melhores coisas para fazer com o seu tempo.

- E eu estou certa de que ela conseguirá colocar algum de parte para se encarregar de ti. - Ideias de como Bertha reagiria à sugestão cruzaram a sua mente, e deviam estar a ocorrer também à sua prima, pois esta estremeceu quase imperceptivelmente. Mais satisfeita, Emma virou-se para John. - Mas isso é algo que deveriam discutir noutra ocasião. Não tens um trabalho ao qual regressar?

- Claro. Tenho. Claro que tenho um trabalho. E de regressar a ele.

- E poderias fazer isso agora, como em, agora neste momento? - Emma deitou um relance ao copo de água que Amelie acabava de nada subtilmente empurrar na sua direcção e forçou um sorriso. - Eu e a minha prima temos assuntos privados que gostaríamos de discutir. Privadamente. Em privado. A sós.

- Oh, mas Emma, é maravilhoso que ele esteja aqui! Afinal, tu precisas de uma opinião imparcial.

- Eu preciso de uma quê de quê?

- O casamento! - impacientou-se a sua prima. O que quer que existisse nela que Amelie utilizava para pensar tinha nitidamente tirado a manhã de folga, pois a sua iniciativa seguinte foi voltar-se para John, puxá-lo pela mão para uma das cadeiras vazias e encará-lo até este compreender que lhe estavam a exigir que se sentasse. A rapariga acenou para consigo, irradiando uma espécie de determinação que Emma não apreciou nem um pouco. - Lembras-te de termos conversado acerca disso, não lembras?

- Tu conversaste com ele acerca do meu casamento?!

- Não sejas convencida, priminha. Nós conversámos sobre imensas coisas, não apenas sobre ti.

- Excelente. Fantástico. Maravilhoso! Isso faz-me sentir muito melhor!

- Er - disse John, que estava a olhar de uma para outra com uma expressão que revelava que ele era pelo menos mais perceptivo que a prima dela e não perdera tempo a notar a mudança na atmosfera.

- Sim?

- Er. Eu penso que me estão a chamar lá atrás, prazer em rever-te, Mel, e…JÁ VOU ANDANDO, TOM!

- Estranho - comentou Amelie, apoiando o queixo na mão com ar pensativo enquanto John se retirava às arrecuas, feito caranguejo. - Parece haver um Tom em todos os lugares onde ele trabalha.

- Mas que inacreditavelmente fascinante, Amelie. Realmente. No que é que tu estavas a pensar?

- Como assim? - Emma olhou em redor, verificou que havia demasiadas pessoas sentadas nas mesas da esplanada e dentro do restaurante para que fazer uma cena fosse seguro e controlou-se. Dadas as circunstâncias, fingir calma não era simples. Ou não seria simples, se fazê-lo não fosse algo a que se encontrava tão habituada que chegava a ser uma segunda natureza para ela.

- Eu julguei que a intenção fosse passarmos um dia juntas. Em nenhum ponto mencionaste rapazes.

- Oh - disse Amelie, e depois adicionou, com mais ênfase e um súbito entendimento. - Oh. Desculpa, é que nem me passou pela cabeça…é claro que quererias que isto fosse para nós e nós apenas, no que estava eu a pensar para julgar que seria boa ideia…queres ir-te embora? Podemos deixar a salada.

- Não. Come a salada, não é de bom-tom desperdiçar comida. Depois nós iremos embora.
- Sim, tens razão, toda a razão, isto faz mais sentido. Todo o sentido. E quando acabar podemos ir…

- Amelie, cala-te e mastiga!
As únicas estradas no interior de Fron precediam o Aquecimento. Elas não eram usadas desde então, e a passagem do tempo deteriorara-as de tal forma que era impossível uma carruagem passar por elas sem acabar privada de rodas ou tombada sobre uma das suas laterais. A cavalo era possível avançar-se mais, mas seria difícil fazer-se uma montada avançar para lá do terreno desigual que era o vale do velho glaciar. O degelo escavara no solo estéril sulcos que engoliriam inteiro o infeliz a quem o azar de cair dentro de um deles acertasse. Por isso, e por se tratar de uma área que embora vasta, tinha pouco que interessasse a turistas e ainda menos para oferecer aos habitantes do litoral, era raro que alguém, colono ou não, se aventurasse nela. A sua extensão árida, torrada pelo calor de vulcões que nunca se haviam extinguido, era povoada por pouco além de raposas peladas e lagartos. Nenhum deles havia existido ali antes do Aquecimento, mas a subida da temperatura, evolução e um acidente num jardim zoológico, haviam propiciado a sua reprodução e feito de ambas as espécies uma praga.

Uma raposa curiosa aproximou-se do par que trotava pelo fantasma de uma estrada, parando a pouca distância deles e colocando a cabeça de lado como se os examinasse. O primeiro cavaleiro não fez caso dela, mas o segundo puxou pelas rédeas e murmurou uma ordem, detendo o seu cavalo. Ou antes, imobilizando-o por completo. Era como se o animal tivesse morrido debaixo dele e o rigor mortis se houvesse instalado de imediato, estando ele ainda erecto apenas por essa razão. A raposa vadiou mais na direcção deles, intrigada com a sensação de errado que emanava dos cavaleiros e das suas montadas. O segundo deles arqueou uma sobrancelha mal ela se encontrou suficientemente perto dos dois para que ambos pudessem ouvir o rápido tac-tac-tac proveniente do seu corpo. Ele esboçou uma careta e enfiou uma mão dentro do casaco. Quando a retirou, esta empunhava uma semiautomática.

- Os supersticiosos dizem ser má sorte matar um desses - comentou Quatro, que também fizera o seu cavalo imobilizar-se. - Os mais radicais defendem que eles têm direito a ser tratados como pessoas.

- Eles tendem a ser inteligentes - disse o General. - Inteligentes, e a recordar-se daquilo que viram.

- Esta colónia pulula deles. - Quatro não tencionara fazê-lo soar como uma reclamação. Ela bateu com o calcanhar no flanco da sua montada e exalou ruidosamente. - Os cavalos, esses admito serem úteis, mas o resto…houve a peste laranja de há semanas atrás, e tenho a certaza de que no outro dia havia uma garça em cima do telhado que estava a olhar para mim. E a baleia. Já lhe falei na baleia, meu senhor General? Uma das damas do meu clube de costura contou-me que ela virou um barco.

- Quatro? - Houve um clic quase inaudível. Depois eles estavam novamente em movimento, e o corpo da raposa estava a secar sob o sol abrasador. - Eu não estou interessado em baleias ou no teu clube.

- Sim. Claro. É óbvio que não está. Peço desculpa. - Quatro suspirou. Ela era Elite, o que em termos de hierarquia do Creaturarum significava que a probabilidade de um agente de escalão inferior a tentar aniquilar para conseguir o seu posto era elevada, e a probabilidade de este ter sucesso inferior a nula. Quando aquela tarefa lhe havia sido dada, ela encarara-o como uma oportunidade. Uma oportunidade de servir a organização e os Criadores de um modo que importava, em vez de se limitar a ordenar que prédios fossem feitos explodir e execuções efectuadas. Muitos matariam para estar tão envolvidos nos presentes acontecimentos presentes como ela estava. Quatro sabia, reconhecia, isso.

Mas havia algo no seu superior imediato que simplesmente não…batia certo.

- Os Pavel devem chegar hoje à noite - disse ele. Algo estava a perturbá-lo. Ela aprendera a identificar os sinais. - Eles mostraram-se bastante entusiasmados quando os informei do que se pretende que façam. Entusiasmados demais, na minha opinião, mas são profissionais. Deverão saber moderar-se.

- Entusiasmados por lhes ter sido pedido que recuperassem papéis? - Quatro também não pretendera soar descrente, mas a dúvida estava lá. Ela conhecia os irmãos Pavel, que eram irmãos apenas na medida em que afirmavam sê-lo. Só de reputação, mas isso bastava. Eles procuravam por trabalhos excitantes, em que assassinato fazia parte do programa. - Isso é…curioso.

- Eu não diria isso. Eles recusaram, de início. Até ter adocicado a proposta com alguma morte e rapto.

- Morte? - ecoou Quatro, soando novamente dúbia. - Julguei que, tendo em conta de quem se trata…

- Bertha Wallace foi sempre um obstáculo a eliminar. Mais vale que se dê conta dela cedo que tarde. E quanto à outra, a prima…- O General interrompeu-se e olhou em frente, calculando. - Estamos perto o suficiente, creio. Trouxeste a máscara e o casaco?

Tratava-se de uma pergunta retórica. Quatro livrou-se do chapéu e despiu a camisa branca que tinha estado a usar sobre o seu uniforme para não torrar no calor. O General fez o mesmo, e ambos tiraram as máscaras do seu respectivo alforge, passaram-nas sobre a cabeça e ajustaram-nas. Quando ela se endireitou, já de rosto coberto, uma sensação de alívio que não lhe era estranha invadiu-a. No ano desde que colocara pé em Fron pela primeira vez, ela começara a pensar demais. A máscara e o uniforme eram símbolos do seu dever. Lembretes de que havia certos assuntos nos quais ela não tinha direito a pensar. Lembretes de que ela era Quatro, um número e não uma pessoa, e que dar ouvidos às linhas de código inscritas em cada batida do seu Relógio era trair a sua missão.

- Como eu ia dizendo - prosseguiu o General, e ela sabia que ele não se lhe estava a dirigir, apesar de estar a falar na sua direcção - esta prima intriga-me. Especialmente tendo em conta as notícias que recebi há dias.

- Que notícias? - perguntou Quatro, sabendo também que ele contara que ela fosse colocar a questão. Nos últimos tempos, as viagens do General ao interior de Fron haviam-se tornado mais frequentes. Ela não duvidava que algo de grande se preparava, mas estava consciente de que apenas lhe contariam o que fosse necessário saber. Pelo silêncio pensativo que se seguiu, ela supôs que havia chegado a hora de mais lhe ser confiado. Porém, o General permaneceu calado por uns minutos antes de falar.

- Finalmente descobriram o corpo do Relojoeiro - terminou por dizer. - Muito me espanta que tenham levado só um ano a dar com ele, mas a sorte esteve do nosso lado. Alguém, provavelmente ela, parece ter-se dedicado a manter a ilusão de que ele continuava vivo durante meses a fio. Eu gostaria de saber porquê. Ela tinha o Relógio dele na mala que a Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco trocou com a sua, e eu gostaria também de saber o porquê disso. Esta situação levanta demasiadas questões que quero ter respondidas. Esta rapariga, esta…Amelie, pode dar-nos esclarecimentos. Ou é com isso que estou a contar.

Silêncio caiu e eles continuaram a avançar, saindo na estrada penetrando o vale. O cavalo dela não hesitava em transpor as feridas na terra que o cobriam, saltando sobre elas como cavalos normais nunca seriam capazes de fazer. Construídos, fossem eles animais ou paródias de gente, eram manchas na terra que era dos Criadores. Mas assim como ela, assim como os seus irmãos de crença, eles podiam tolerar-se enquanto tivessem uma utilidade. A irregularidade de terreno e quantidade dele a percorrer eram empecilhos que se desvaneciam quando quem o percorria tinha acesso a cavalos mecânicos, e que esse não fosse o caso da maioria das pessoas tornava o vale ideal como base de operações.

Quatro tinha-a visitado uma vez apenas. Agentes de escalão inferior ignoravam sequer que tais bases não eram de todo raras. Eles acreditavam que o Creaturarum assentava unicamente sobre os seus comunicadores e as academias de treino constituíam as únicas infra-estruturas pela organização administradas. A base de Fron era inteiramente invisível quer de cima, quer para o eventual estranho que se aventurasse no vale. A sua entrada encontrava-se oculta sob uma ponta de rocha, ela mesma situada debaixo de terra. Quatro fez o seu cavalo deter-se e saltou para o chão. Era impossível guiá-lo para dentro da fenda, e ele não iria a lado nenhum sem que lhe fosse ordenado. O General estava já também no chão e a adiantar-se-lhe, caminhando até à fenda e retirando do bolso um cartão-chave.

- Meu senhor General - disse ela, devagar. Algo ocorrera-lhe enquanto cavalgavam, e apesar de saber que não estava no seu direito no que respeitava a colocar questões, aquele era um ponto sobre o qual sentia precisar de se manifestar. - Os Pavel não são conhecidos por deixarem testemunhas vivas.

- Eu deixei-lhes claro que não receberiam pagamento de qualquer espécie caso tocassem num cabelo das outras duas. Se isso significar que se deixam ver e identificar, será pelo melhor. O assassinato irá ser-lhes atribuído, o que trará vantagens a longo prazo. Ainda mais se quarta correr como o planeado.

- Nunca entendi - murmurou Quatro, perfeitamente consciente de que pisava o risco - o porquê disso. De tudo isto. Tanto trabalho, apenas para convencer uma mísera rapariga a entender a nossa missão?

Houve um momento de silêncio, durante o qual o mundo pareceu congelar, e depois:

- Sugiro que te cales quanto a assuntos que não entendes, Quatro. Já quase executei alguém hoje.

- Entendo, meu senhor. Perdoe-me por ter duvidado da sua sensatez. - Ela respirou fundo. A questão, a que estava prestes a colocar-lhe, era uma que ardia para vocalizar desde antes da madrugada. Não se tratava de uma a ser feita de ânimo leve, e ela sabia que atrever-se provavelmente lhe custaria. - E perdoe-me também por ter de o fazer novamente. Vinte-e-Seis Cinquenta-e-Cinco. Porque vive ela?

A porta de aço temperado deslizou para baixo e foi engolida pelo chão. O General passou o pé para dentro do corredor que se estendia diante deles, fracamente iluminado e sinuoso como um fio de óleo. Quatro, a quem o largo período de convivência com ele ensinara a identificar os seus diferentes tipos de silêncios quando estes se instalavam, soube que ele ponderava feri-la mais do que ponderava a resposta. Tratara-se, porém, de uma questão legítima. Ele deveria conseguir reconhecer isso.

- Como eu disse, ela entretém-me - acabou ele por dizer, quando entraram no elevador.

- Ela é um desastre de agente, uma incapaz que colocou a integridade da nossa missão em perigo.

- Agradeço que me tenhas chamado a atenção para esses pontos como se eles não fossem óbvios.

- Mas então por que razão não foi ela executada? - insistiu Quatro, sentindo alívio por os solavancos do elevador em descida mascararem a hesitação na sua voz. - O protocolo exige que quem…

- E agora estás a insinuar que eu não conheço o protocolo?

- Não. Não, não, de modo nenhum. - Ela calou-se, ciente de que já o pressionara demais. O elevador imobilizou-se andares abaixo e eles abandonaram-no sem trocarem mais uma palavra que fosse.

Um novo corredor esperava-os à saída, e no fim dele havia uma porta. O General adiantou-se uma vez mais e inseriu um código na consola junto dela, deixando-a deslizar para o lado e revelar um espaço com as dimensões de um anfiteatro. Quatro pestanejou quando luz vermelha inundou os seus olhos, deixando-a temporariamente desorientada. Um odor pungente de armário de medicamentos e uma ainda mais agressiva quantidade de electricidade estática pairavam no ar, centrando-se em redor das mesas que ocupavam o centro da divisão. Estas eram massivas, como de resto tudo nela o era. A primeira das três encontrava-se ocupada por frascos e medidores e maquinaria diversa, a segunda por um engenho acoplado a um ecrã, no qual linhas de dados corriam mais depressa do que ela ou quem quer que fosse seria capaz de os ler. A ocupar a terceira das mesas havia os restos de um homem, à volta dos quais outro homem se afadigava. Foi até ele que o General andou, e Quatro seguiu-o.

- Professor Moreau. - O homem ergueu a cabeça do seu trabalho e encarou-os, algo surpreso. Quatro inferiu que ele estivera demasiado imerso no que fazia para dar pela entrada deles. - Novidades?

- Não, meu senhor General. - O outro tirou os óculos de protecção e varreu uma gota de suor da testa. Ele parecia, notou Quatro, ter sido inteiramente fabricado de fósforos e palitos que tremiam quando ele falava. Havia uma auréola de cabelo eriçado em torno do seu cocuruto, que ela estava quase certa de ter visto faiscar quando o sujeito sacudiu a cabeça. - Fiz avanços com o Relógio que me ordenou que reactivasse, mas o corpo para o hospedar não está ainda terminado. A senhora…encontra-se estável.

- Bom. Faça de terminar o corpo a sua prioridade. Mais alguma coisa que eu deva saber?

- Bem…- Os olhos claros do professor Moreau foram dele para Quatro, que colocou a cabeça de lado e o examinou. Ela teria sabido que ele era um Relojoeiro mesmo antes de ele o mencionar. Tendo-se visto alguns deles, era possível reconhecer a espécie com um olhar apenas. - Pediu-me…quando me deixou aqui…que o alertasse se ouvisse algo vir da sala dos fundos. E há qualquer coisa lá, a tocar.

- A tocar? - A nota de urgência na voz do General não lhe passou despercebida. - Desde quando?

- Começou há algumas horas, mas depois parou, e recomeçou há minutos. - Quatro foi desviada para o lado com brusquidão. Ela refez-se e preparou-se para o seguir, mas o General indicou-lhe que a sua presença não era requerida e desapareceu pela porta que dava para o corredor. Ela permaneceu junto da mesa, incerta de como interpretar aquela reacção. O Relojoeiro deitou um olhar de viés à porta que se fechara, tão pasmado quanto ela, antes de se lhe dirigir. - Uma personalidade complicada, aquele.

Quatro não se engasgou em seco por muito pouco e olhou em redor, irracionalmente, para se certificar de que o General de facto partira. Se semelhante comentário tivesse sido feito na presença dele, o seu autor tornar-se-ia um cadáver ambulante. Porém, ocorreu-lhe de repente, aquele ali quase já o devia ser. Ele era muito obviamente um civil, e civis não tendiam a ter uma elevada esperança de vida quando se envolviam com o Creaturarum. Um olhar atento revelou-lhe que ele o sabia, também.

- Ele é o líder máximo dos servos dos Criadores. As suas ordens são a nossa vontade.

- Ahn…sim, correcto. Receio não ter apanhado o seu nome, minha senhora…?

- Quatro. - E ela era Quatro. Qualquer nome que tivesse tido antes fora-se, perdido no vórtice de tudo aquilo que deixara de importar quando a justiça e a honra dos Criadores se haviam tornado a sua vida.

- Alcide Moreau. Alcide, se preferir. - Ela anuiu educadamente. Tratava-se de um reflexo que adquirira no passado ano e que inadvertidamente incorporara no seu comportamento enquanto Quatro.

Caso se tratasse do único traço da sua outra personalidade a infiltrar-se na verdadeira, ela não se preocuparia demasiado. Contudo, estava a acontecer-lhe com cada vez mais frequência apanhar-se a dizer coisas que Quatro não teria dito e a expressar-se de um modo do qual Quatro não se teria expressado, antes. Ela vigiara o General, numa vã tentativa de se convencer de que não era a única para quem a barreira entre ficção e realidade se desbotava. Mas no caso dele, era como se houvesse um fosso entre quem ele era e quem fingia ser, um que deixava ambas as suas personalidades coexistir sem nunca se tocarem. Era impossível que a sua máscara se tornasse o seu rosto, por se encontrar dissociado dela de um modo que ela…

- Poderia acompanhar-me, senhora Quatro? - Quatro sacudiu a cabeça e encarou o Relojoeiro como se acabasse de despertar de um longo sono. Longe do General, ele parecia capaz de falar sem tremer com cada sílaba. - A não ser que prefira tratar do assunto depois de ele regressar?

- Assunto? - O seu tom rígido não devia ter passado ao lado do outro, mas este limitou-se a anuir.

- A sua modificação. Disse-me ele que estava a ter dificuldades em manter-se focada?

- Eu não…- O súbito regresso do General foi tudo o que a impediu de dar àquilo uma resposta menos que correcta. Porém, o seu sangue ainda fervilhava quando este passou por ela e lhe gesticulou para que o seguisse, sem lhe dedicar um olhar ou abrandar o passo. Como se atrevia ele? Acusá-la de não se encontrar focada quando não era ela quem andava a tomar decisões que pouco deviam à lógica ou razão? Ordenar aquilo como se ela fosse uma reles agente em treino? - …preciso de ser modificada.

- Isso quer dizer que estás a negar-te a obedecer? - Algo na voz dele fê-la deter-se e considerar a sua resposta. Eles estavam a dirigir-se para a porta na outra extremidade da divisão, facto do qual Quatro só se encontrava superficialmente consciente. - A qualidade da tua representação tem melhorado, nos últimos tempos. Tanto, que começo a duvidar que ainda estejas a representar. E eu não posso duvidar do teu comprometimento com a nossa organização. Não quando estou prestes a promover-te.

Qualquer fúria que ela estivesse a sentir desvaneceu-se com essas palavras. Pela primeira vez Quatro registou, realmente registou, para onde se encaminhavam. Eram várias as áreas da base cujo acesso se lhe encontrava interdito, mas se a fizessem nomear aquela em que nunca esperara entrar, a sua escolha recairia sobre a que se escondia atrás da porta que o General estava a abrir.

- Não toques em nada - avisou ele, e lá estava novamente: algo na voz dele que não estivera lá antes de ter abandonado a divisão, que Quatro não era capaz de identificar ou qualificar. Ela perguntou-se, e a pergunta era uma que sabia nunca ir ter respondida, o que acontecera para o deixar tão alterado. - E sobretudo, não faças barulho. Não gostarias de saber as consequências que perturbá-la acarretará.

- Sim, meu senhor General. - A luz vermelha era ainda mais intensa do outro lado daquela porta. Com o mínimo de ruído possível, Quatro deslizou pelo corredor atrás do General. Este desembocava numa sala que superava a anterior em dimensão pelo menos duas vezes. Talvez mais, visto que estava tão atafulhada de máquinas que à primeira vista parecia mais diminuta do que era. Ao contrário da que ela encontrara na outra divisão, esta trabalhava silenciosamente. A parede oposta estava coberta de uma elaborada tapeçaria de tubagens que partiam dos vários aparelhos e se iam ligar àquilo que ocupava o centro do espaço. Quatro demorou um par de momentos a entender do que se tratava.

- Uma incubadora? - sussurrou, encarando com incredulidade o tubo de vidro cheio de líquido. Ela era capaz de a reconhecer apenas por ter visto imagens em livros. Que os com Relógio tivessem passado a conseguir reproduzir-se eliminara a sua necessidade, e eram poucos os modelos que sobreviviam.

- Não. Mas perto - retorquiu o General, andando até ao tubo e parando a pouca distância dele. Quatro estivera tão focada nele que inicialmente não registara a mulher o seu interior. Esta encontrava-se de pé e invertida, com cada um dos seus braços inseridos num dos tubos que partiam da base, as suas pernas amarradas a um suporte e algo similar a uma máscara de oxigénio a cobrir-lhe a face. À sua volta, bolas de ar subiam para irem rebentar no estreito espaço entre a superfície do líquido e a tampa.

- Quem é ela? - disse Quatro, sabendo que a pergunta era esperada dela. Ela aproximou-se também e deu a volta ao tubo para observar a mulher por detrás. Havia outros tubos inseridos na base da coluna dela, e ainda mais a entrar-lhe no peito. O General hesitou antes de responder. Depois ele pressionou um botão na consola junto do tubo e a luz foi-se lentamente branqueando, deixando-a vê-la com mais clareza. Que o seu cabelo era claro fora algo que soubera de imediato, mas sem a luz vermelha que o havia coberto, ela conseguia distinguir melhor o tom. Depois os seus olhos viajaram para os dela, que se encontravam fixos no espaço e lhe eram familiares, tão familiares, e depois ela notou o silêncio que dela vinha, silêncio onde insistentes percussões deviam residir. Os seus lábios entreabriram-se.

- Eu suspeito que sabes quem ela é - replicou o General. Quatro acenou, muda e em choque. Corriam rumores, rumores dos quais ela não pudera evitar ser posta a par e aos quais raramente dera atenção. Agora que a prova da sua veracidade se encontrava à sua frente, o único pensamento na sua mente era que aquilo era bizarro. Ela sabia, evidentemente que sabia, que os Criadores os haviam feito à sua imagem e semelhança. Mas ainda assim, uma parte dela esperara que quando lhe fosse dada a honra de os ver, eles fossem ter algo mais. A mulher dentro do tubo era indistinguível das massas dos com Relógio que cobriam o mundo. - E que posto isso, tens uma questão a arder na tua mente. A resposta é não. Eu perdi na roleta da genética. O que é lamentável, mas nada pode ser feito a respeito.

Quatro fechou a boca, fitou o General por uns instantes e devolveu o olhar à humana.

- Porque…é que ma está a mostrar?

- Porque acabo de receber notícias inquietantes. Notícias vindas de cima. - Ela arquejou. Ele ignorou-a. - Surgiu um problema, e com ele diminuiu o tempo de que dispomos para recuperar as instruções. É agora mais vital que nunca que as tenhamos. Se os Pavel falharem, eu terei de intervir. Pessoalmente.

- Mas esse é um risco enorme! Se o virem, se o expuserem, a missão será comprometida!

- A partir deste momento, recuperá-las é a nossa missão. Proteger a minha identidade pública deixou de importar, tendo em conta o que aconteceu. - Quatro teve de morder a língua para o conseguir, mas resistiu à tentação de perguntar o que acontecera. - Mas existe um tão grande perigo de eu ser morto ou capturado como de ser apenas exposto. Se isso acontecer, será tua a tarefa de assegurar que as coisas correm como devem até alguém de maior autoridade vir assumir o comando das operações. O nosso bom professor está encarregado das partes práticas, tu de garantir que ele as executa.

Quatro relanceou o tubo. Olhos cinzentos como ferro ou aço devolveram-lhe o olhar.

- Sim, meu senhor General. Pode confiar que caso a necessidade surja, eu não o desapontarei.

- Ela não irá surgir - disse ele. - Mas seria sensato começarmos a preparar-nos para o contrário.
Amelie insistira em pagar a conta. Uma vez que fora esta quem consumira tudo excepto a meia tosta, Emma nem esboçara um protesto simbólico. Afastar-se do estabelecimento era de resto aquilo que ela mais desejava naquele momento. Passava do meio-dia, e embora aparecer com um mínimo de meia hora de atraso fosse uma sólida e respeitada tradição craduense, ela pretendia estar em casa para receber o marceneiro não mais tarde que a um quarto para a uma. Contudo, Amelie não tardou a deixá-la saber que esta tinha outras ideias. Foi desse modo que acabaram no centro, diante da melhor e única livraria de Cráduma, com a sua prima a tagarelar sobre como estava necessitada de material de leitura e Emma a recuperar do choque de descobrir que a dona do mais denso Relógio alguma vez fabricado era ao menos vagamente letrada. Um facto que ela não teve muito tempo para remoer, pois a sua prima também não perdeu tempo a agarrá-la pela mão e arrastá-la para dentro.

- Tu nunca entraste aqui? Eu não acredito que nunca entraste aqui, tu vives nesta cidade! - suspirou a rapariga, largando-a. Emma suspirou também, por uma diferente razão. Não era como se ela tivesse algo de pessoal contra livros. Ela apenas não gostava de perder tempo com inutilidades e futilidades. Enquanto não se deparasse com uma obra intitulada “Como Evitar Primas Intrometidas”, literatura e o seu consumo caíam com firmeza em ambas essas categorias. Caso sentisse falta de uma leitura de cabeceira, o espólio de manuais técnicos do seu pai era suficientemente satisfatório para ela.

- Não comeces a distorcer as minhas palavras. Eu não disse que nunca tinha entrado aqui.

- Tu disseste que não entravas aqui há anos! - declarou Amelie, em tom de quem se estava a provar correcta em vez do contrário. - O que é inacreditável, porque, quero dizer…tu pareces ser inteligente.

- Obrigada - retorquiu Emma, para quase de imediato se recordar de que falava com Amelie, e que por conseguinte eram elevadas as hipóteses de ela dizer o mesmo de um abacate. Ou de um chapéu com forma de abacate. - Porque é que não vais pegar no que queres, depressa, enquanto eu espero aqui?

- Oh, não, nem pensar. Tu vens comigo. Qual é o teu género de leitura preferido? Vá lá, eu pago!

- Criadores…- Ela inalou, dando graças pelo facto de o cheiro a mofo no interior da livraria não ser tão pungente como temera que fosse ser, ainda que isso se devesse mais à impossibilidade de distinguir aromas subadjacentes à nuvem de canela e laranja que pairava no ar. - Eu não tenho um “género”.

- Um livro favorito já seria uma ponta por onde pegar. Tens um? Porque não acredito que não tens um!

- Eu…- Emma hesitou, até descobrir que para aquilo tinha resposta. - Mentiras e Ardis, Volume I.

- Ah, bom. Nunca ouvi falar, mas é um começo. De que se trata, um romance, uma aventura?

- Um manual. A minha mãe tinha-o na estante e aconselhou-mo. Muito educativo.

- Emma - disse Amelie, com aquela peculiar expressão facial que ela por vezes fazia. - Tu és estranha.

- Amelie - disse Emma, com uma passável imitação da expressão dela. - Tu estás a demorar-te.

- Está bem. Como quiseres. Eu estarei ali. - A outra afastou-se na direcção da mesa das pechinchas, a olhar por cima do ombro com um trejeito de boca amuado cuja função Emma deduziu ser fazê-la sentir remorsos pelo seu comportamento. A rapariga cruzou os braços, resoluta. Se a sua prima julgava que os seus ares tristes e manipulação emocional funcionariam nela, ela não tardaria a desabusá-la dessa ridícula noção. Além disso, estando Amelie distraída a olhá-la, era provável que esta fosse…- Ack!

Emma sacudiu a cabeça para consigo e foi encostar-se ao balcão.

- Lembra-te do que te disse quando chegaste, sobre partir coisas e as consequências! - exclamou ela, suspeitando que ainda que esta não estivesse ocupada a colocar-se de pé, o aviso passaria entre os ouvidos de Amelie sem que o que quer que existia entre eles registasse o seu significado. Emma deu de ombros e revirou os olhos para o tecto. Eles arregalaram-se um pouco. - Croco…mas que?!

- Sim, o crocodilo é verdadeiro - disse uma voz nas suas costas. Emma desviou a atenção do museu de taxidermia que pendia do tecto e girou sobre si, apanhada de surpresa. Até ali ela estivera sob a impressão de ser a única no estabelecimento para além de Amelie. Porém, olhar em redor não revelou outra presença. Não até a voz se tornar a manifestar. - E o pangolim e os pássaros. O resto é réplicas.

- Não teria dado pela diferença - disse Emma, franzindo o cenho e inclinando-se sobre o balcão. Atrás dele encontrava-se um caixote, e quem lhe falara encontrava-se inclinado para dentro dele. As únicas partes visíveis do seu corpo eram as pernas e uma parte do tronco. Ela pensou em inquirir se a sua ajuda era necessária, pois era evidente que o que quer que este pretendesse fazer lhe estava a custar mais do que contara que fosse, mas um grito travou-a. Amelie terminava de desencantar algo do seu agrado, a julgar pelos guinchos que estava a soltar. - Da última vez que aqui vim, havia um…

-…fresco. Ele ainda existe, debaixo de todo esse bambu. - O seu interlocutor emergiu das profundezas do caixote, suado e vitorioso, com uma tesoura na mão e um molho de cordéis enrolados na outra.

Emma fitou-o, estarrecida. O outro sorriu-lhe, mas quando um longo momento passou sem que ela alterasse a sua expressão, o sorriso dele tornou-se mais fixo e menos entusiástico.

- Por acaso estás a seguir-me? - conseguiu ela fazer sair. - Como chegaste aqui antes de nós?

- Como cheg…- começou ele, para de imediato se deter e passar uma mão pela testa. - Ah. Qual foi?

- Eu não entendo essa questão.

- Qual dos meus irmãos palermas é a causa do ressentimento que estás a apontar para mim?

- Ir…- foi a vez dela de se interromper, à medida que a compreensão se instalava e os seus olhos principiavam a interiorizar que para além de vestir diferentes roupas, o rapaz à sua frente era mais baixo que John e tinha o cabelo cortado de diferente modo. Observando mais atentamente, diferenças mais subtis saltavam à vista, como tamanho do nariz, tez e saliência das feições. - Estou a ver. Tu não és o John. Peço desculpa, não fazia ideia de que ele tinha um irmão gémeo.

- Irmão mais velho. Ele tem um irmão gémeo, mas duvido que seja possível confundir os dois.

- Tentarei manter isso em mente - assegurou ela, interiormente apavorada. Eram três?! - E tu és?

- Andrew. Andy para os…- Ele deteve-se de repente. - Ahn, tua amiga parece estar com problemas.

- Amelie! - Emma girou sobre si com uma expressão que a sua cara estava em vias de converter em reacção instintiva. A sua prima recuou para longe da pilha de volumes que acabava de derrubar, com um ar culpado que teria feito alguém de mais suave trato assegurá-la de que tudo estava bem. - É pedir demais que não andes entre bens alheios como uma manada de mastodontes a carregar?

- Desculpa, Emma. - Amelie já estava de joelhos no chão, a tentar reunir e recolocar no lugar os livros que fizera cair. Emma soltou um suspiro de mártir e ajeitou as saias para a imitar. Quando se baixou, a sua cabeça deixou de estar a tapar a de Andrew. A sua prima viu-o e virou-se para ela. - Uhm…

- Irmão mais velho - explicou, sem perder tempo. Os lábios de Amelie formaram um “O”.

- Eu não fazia ideia de que ele tinha…- Emma fez um gesto a indicar-lhe que devia calar-se. Elas iam ter uma séria conversa da qual John e o dúbio relacionamento dela com John seriam tema, mas não num sítio público e na presença de familiares do dito. - Uh. Acho que consigo terminar isto sozinha.

- Certo. - Ela passou-lhe o livro em que pegara. Para seu desgosto, Amelie soltou um “Oh!” estridente.

- Como é que este me escapou? - chilreou ela, acerca de algo cuja ilustração de capa representava um casal enlaçado numa pose que Emma suspeitava ser anatomicamente incorrecta para além de ser inadequada. Recordando as asneiras que haviam saído da boca da outra quando esta tentara discutir o seu casamento, e partindo do princípio de ser aquela a sua preferência de leitura habitual, era fácil ver de onde Amelie tirara tais inanidades. - “Nicolette D’Anjou, uma jovem herdeira emocionalmente fria, vê a sua vida mudar quando o galã Greg Madison entra nela e…” Emma, isto foi escrito para ti!

Emma esboçou um esgar desdenhoso que nem o crocodilo no tecto sucederia em imitar.

- Julgando por o que ela está a fazer na capa, duvido que a menina D’Anjou seja emocionalmente fria pelos padrões de quem quer que seja. Apenas…acaba de endireitar isso. E depressa. Por favor.

Andrew tornara a enfiar-se no caixote quando ela voltou ao canto de balcão que antes estivera a ocupar. De dentro dele, o rapaz retirou uma resma de papel de embrulho que era a provável causa da sua anterior dificuldade, e começou a alinhar livros soltos sobre o tampo do balcão. Emma deitou um olhar distraído às lombadas e deu início à mais importante tarefa de catalogar os argumentos que usaria quando ela e Amelie fossem a ter a inevitável conversa sobre o que fazer acerca de John. Pois era claro que ela se arriscava a ver-se a braços com uma Situação, caso não colocasse um travão no nebuloso e talvez inexistente relacionamento dos dois. Amelie podia não se importar com que tipo de reputação adquiria, mas Amelie não precisava de viver em Cráduma. Havia uma gigantesca diferença entre ser aparentada com o doido local, que era uma ocupação digna e respeitada, e a…

E ela não precisava de ainda outro escândalo, simplesmente. Não com o casamento tão perto.

- Estás a pensar em comprar? - perguntou Andrew. Emma regressou ao presente e apercebeu-se que à sua frente havia sido colocado um livro, no qual os seus olhos haviam estado fixos sem realmente o ver durante pelo menos um minuto completo. Ela começou a sacudir a cabeça, até notar o título.

- O Problema das Irmãs Finn - leu, fazendo um esforço consciente para não se voltar para trás. Amelie devia estar a tomar outra das suas estranhas iniciativas, pois Andrew estava a olhar para além dela, a sua boca entreaberta e uma das suas sobrancelhas levantada inquisitivamente. - Nem me digas.

- Er, menina? - chamou ele, alto. - Isso, uh…não é assim que se faz. Pode só deixá-los numa pilha?

- Oh, claro! - Foi a resposta chilreante. Emma segurou a cabeça com as mãos e suspirou.

- Peço desculpa por ela. Veio anteontem do continente, e está a ter…dificuldade em adaptar-se.

- Sem problemas. Mas se não vais levá-lo, podes devolver-me o que tens aí, para o poder arrumar?

Emma estendeu-lhe o livro, ainda decidida a não se virar. Os seus olhos passaram de relance pela contracapa, e quase instantaneamente, o seu braço estava a recolher-se. Andrew atirou-lhe uma olhadela intrigada, mas não comentou. Ela abriu na primeira página e leu na diagonal, desatando de seguida a folhear, com uma ruga a nascer na sua testa e acentuar-se cada vez mais. Andrew, a quem a sua repentina mudança de atitude devia parecer sintoma de um diferente algo, sorriu abertamente.

- Esse aí tem sido popular de há anos para cá. A minha mãe e todas as minhas primas adoram-no.

- Sim. Hmm. - Emma fechou-o com um gesto brusco e virou-se enfim. Amelie estava a regressar, com uma expressão triunfante e os braços cheios de obras de gosto duvidoso. - Sabes que mais? Penso que vou levá-lo.


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